Notas iniciais
Eu estou há muitos anos produzindo essa história, desde bem nova mesmo. Esperam que se divirtam como eu me divirto escrevendo e reescrevendo ela, que se angustiam junto com os personagens e sintam tudo o que eles sentem. (esse sempre foi o meu sonho, que eu conseguisse passar os seus sentimentos pelas palavras). O amor, o luto, a amizade e a união acima de tudo. Espero que ela faça algo de bom pela vida de quem lê-la,que até a mude pra melhor, mesmo que pouco, como mudou a minha, quando comecei a escrevê-la, lá numa cidadezinha do Ceará, com caneta preta e um caderno de brochura vermelho todo desgastado.

1. Repetição

Seria engraçado se me perguntassem se sou feliz mesmo sendo órfão, porque eu diria sim!

Tenho quase certeza que quase nenhum órfão diria isso, mas apesar de tudo, eu dei sorte. Eu tinha a Clarisse pra cuidar de mim e uma irmã mais velha pra me contar tudo o que devia saber sobre os nossos pais. Mas também não é como se eu ignorasse o fato deles terem existido, eu só não me lembrava o suficiente pra sentir saudade. O oco da ausência de memórias existe, eu sinto ele. Como os meus pais, que só existem pra mim pela Clarisse e Zetti, que de fato conviveram com os dois e se lembravam. Talvez por causa das histórias e descrições eu tenha criado alguma afeição e aprendido a amar os dois do meu jeito, como os meus semideuses, Sophia e Samwell.

Quase sempre penso na Sophia como a Mulher Maravilha e o Sam como um Steve Trevor. Foi sempre assim que os vi, dois semideuses perfeitos e majestosos e isso era claramente culpa da minha vó e da minha irmã. Eu nunca contei pra Clarisse que não me lembrava de absolutamente nada dos dois, mas na Zetti eu confiava o bastante pra contar um segredo desses.

— É normal não se lembrar deles. — Zetti falou. — Era muito novo — e com a minha cara de choro de alguém de 11 anos e triste, ela bagunçou meu cabelo e sorriu, querendo me tranquilizar. — Não se preocupa. Tem eu e a vó pra te lembrar deles, Sold.

Nossa brincadeira... Nos chamar pelo sobrenome. Era o nosso jeito de aliviar o clima tenso quando as coisas estavam ruins.

Queria que ela tivesse do meu lado pra me chamar assim no enterro dos nosso pais, mas Zetti estava ocupada demais chorando sob a blusa verde de uma tia-avó qualquer. Era a única coisa que eu me lembrava daquele dia, ver a minha irmã naquele estado.

Queria não lembrar de nada daquele dia.

E Clarisse... Bem, sempre fez questão de responder minhas perguntas, principalmente quando elas se tratavam da Sophia. Lembro de um dia que pedi pra ela me contar como a minha Diana Prince era, e pra minha surpresa, ela era mesmo uma Mulher Maravilha da vida.

— Muito ousada. — Clarisse explicou. — Feminista ferverosa mas também gentil, acolhedora e muito ligada a família. A família era a alma dela. O mundo podia se explodir mas que não tocasse na sua família. Se isso acabasse... Destruiria ela.

Minha vó chorou muito naquele dia, coisa que eu nunca tinha visto e eu tentei ajudar ela, mas quanto mais eu a abraçava, mais ela chorava. Essa foi uma coisa que eu nunca entendi. Talvez porque eu lembrasse eles? Descartei isso com o tempo. Meu cabelo preto e os olhos castanhos não tinham nada a ver com nenhum dos dois. Continuei com as mesma dúvidas até virar adolescente e de repente, não importava mais.

Eu era grato àquelas duas, a única família que eu conhecia.

William, marido da Clarisse já tava morto bem antes até de Zetti nascer. Meus pais mortos também. E tinha uma tia, irmã mais velha da minha mãe.

A tia praticamente inexistente que mora na Argentina, que nem o nome eu lembro e que não vejo desde o enterro, que de acordo com Zetti, ela causou um belo de um tumulto. Talvez por isso meio que esse assunto seja proibido aqui em casa, a tia-sem-nome. Não era explícito mas era um tabu com certeza falar dela, o que era bizarro. Clarisse não é de guardar rancor, então porque não fazer questão da outra filha depois de tanto tempo? Ela deve ter feito mesmo algo muito ruim mesmo mas pouco importa também. Ela está longe demais pra trazer isso de volta.

Me concentrei de novo no meu teto branco sem graça, meu companheiro desde que Zetti saiu de casa e Clarisse voltou a dar aula pra crianças, decidindo me colocar numa escola de verdade pra não ficar tão sozinho.

Minha casa sempre tinha sido minha "escola". Estudando em casa desde que me entendo por gente, eu já até conseguia ouvir os outros me chamando de alien na escola nova. Clarisse me ensinou sempre e depois foi a vez dela de me contratar um professor particular até concluir o conteúdo do fundamental, o que não faz muito tempo pelo o que eu lembro.

Coloquei o celular pra despertar amanhã cedo pensando em como ia ser aquele primeiro dia. Sem ansiedade, sem euforia. Só curiosidade.

Por que a Zetti não estava aqui? A bonita só queria saber de dançar agora.

Bom pra ela, ruim pra mim, que agora só tenho uma idosa pra conversar.

Ela vai se ver comigo quando vier aqui em casa.