Filho da Magia
2 2. Púrpuro
Acordei com um pulo. Virei pro lado, meu celular vibrava no criado mudo com o barulho irritante do despertador.
Saco.
Levantei e fiquei tonto na hora, grogue de sono ainda. Fui na janela e... Deus, tava escuro demais. Será que eu coloquei muito cedo? Mas a lua tava baixa pra ser madrugada. Esfreguei o rosto. Era melhor ir logo, se não ia levar pra bronca. Me arrumar foi rápido, já que não tinha uniforme ainda, vesti a primeira calça e moletom limpos que vi e peguei a mochila com alguns cadernos que já tinha arrumado há alguns dias.
Fui de fininho até o quarto da Clarisse e como eu já imaginava, ela ainda tava dormindo. Dei um beijo na testa enrugada e Clarisse abriu os olhos na mesma hora, como se tivesse levado um choque.
Levei um susto e comecei a rir.
— Oh, meu Deus! — ela bateu a mão na testa. — Me desculpa, Tyler. Espera cinco minutos que eu faço alguma coisa pra você comer.
Ela já tava pra se levantar quando eu segurei seu braço, fazendo-a parar. Sorri, adorava o jeito cuidadoso dela.
— Não, tudo bem. Eu já to saindo, dorme mais um pouco.
Ela me encarou com aquelas bilocas pretas e pelo o que eu pude ver, não ia insistir mais.
— Te compenso no almoço. — ela deixou a cabeça cair no travesseiro e se enrolou no lençol de novo. — Boa sorte, querido.
O caminho pra parada era tranquilo. A música parecia deixar tudo menos cansativo, e dava espaço para refletir. Não tava ansioso pra estudar numa escola de verdade, mas só curioso pra saber como as coisas funcionavam na prática, eu só sabia da teoria. Era o bonitinho que estudava em casa desde sempre, diferente de Zetti, que decidiu ir ao colégio quando Sophia e Samwell morreram. Devia ser uma imagem engraçada de se ver, muito provavelmente eu fosse zoado mas quem se importava? É o que eu sou e ninguém não tem nada a ver com isso.
Tava tirando o papel do bolso do moletom cinza com o endereço da escola, que Clarisse tinha escrito pra mim quando finalmente vi a parada de ônibus, e tinha uma garota lá também.
Que sorte, já tinha alguém pra pedir informação.
Tirei o capuz e guardei os fones de ouvido na mochila antes de chamá-la. Ela tava olhando pro outro lado e com certeza não tinha me visto ainda, estava com os braços cruzados e blusa de frio quando cutuquei seu ombro.
— Com licença.
A garota se virou na mesma hora me olhou no fundo dos olhos.
Meu Deus do céu.
Maxilar quadrado, bochechas levantadas, nariz meio grosso, expressão forte e a cabeleira castanha lisa partida ao meio, acima da clavícula. Mas nada, absolutamente nada, me deixou sem o que falar do que aqueles olhos pequenos com as íris púrpuras brilhantes.
Ela não usava maquiagem até onde eu vi mas era a garota mais linda do mundo, mesmo com os traços duros.
Se alguém me descrevesse alguém assim, eu falaria que era uma pessoa de cara estranha, mas no conjunto... Era lindo.
Eu nunca fui necessariamente bobão em relação a garotas, muito menos tímido mas dessa vez... O que ia dizer?
— Er... — esfreguei a nuca, sem saber o que fazer agora. — Bem, é que...
— Sim? — a garota arregalou os olhos, impaciente.
Eu ainda estava olhando aqueles olhos... Será que eu tava ficando doido? Abaixei a cabeça.
Tudo bem, Tyler Sold. Não seja um idiota, é só uma garota.
Peguei ar e cuspi, estendendo o papel com o endereço:
— Sabe de alguma linha de ônibus que passa nesse endereço ou perto?
Ela descruzou os braços e pegou o papel.
— Primeiro dia? — perguntou, monótona, como se fosse comum acontecer com ela.
Assenti.
— Eu estudo lá. — ela disse, ainda sem responder minha pergunta.
Estranhamente, fiquei muito feliz com isso.
— Bem, — a garota emendou, olhando pra cima. — tem um ônibus da escola que leva uns alunos direto pra lá... Ele chega daqui uns dez minutos. — olhou o celular, depois de dar ré e sentar no banco debaixo do teto abobadado da parada. — Então, acho melhor você sentar.
E foi só aí que eu percebi que ainda estava no mesmo lugar, paradão que nem estátua. Obedeci como o bom menino que sou e voltamos a ficar em silêncio. Fiquei um bom tempo olhando de rabo de olho, mas depois de um tempo... Eu já encarava aqueles olhos sem acreditar diretamente. Mas só até ela se irritar e me encarar.
— Perdeu alguma coisa aqui? — a garota perguntou, bem curta e grossa.
Mas meu cérebro acabou ignorando porque eu já tava prestes a falar mesmo.
— É lente de contato? — me aguentei.
Era óbvio que eu já tinha ouvido falar da gênese de Alexandria mas achei que fosse mito. Ou eu tava ficando biruta ou era lente.
A garota começou a gargalhar, ácida.
— Por que diabos todo mundo pergunta isso? — exclamou aos céus, com os braços e os olhos pra cima. Ela colou o olhar mal humorado em mim logo depois. — Não, Tyler. Eles são meus!
A garota voltou para o horizonte, longe... E eu continuei olhando aquele roxo, e ela parecia não se incomodar com isso, parecia até... Confortável.
— Bem, — dei de ombros, sem nem perceber. — é lindo. — falei instantaneamente, sorrindo.
E me arrependi meio segundo depois. O que diabos eu tava fazendo? Devia estar parecendo aqueles galanteadores de quinta que sempre falavam a mesma coisa.
A garota girou de uma vez, meio desconfiada e continuei olhando ela. Gradativamente, a pose durona se desfez e um sorriso pequeno se estampou no seu rosto severo.
Puxa, ela com certeza ficava mais ainda bonita quando sorria. Mas logo voltou ao normal quando eu pensei em voz alta:
— Mas espera um minuto, como você sabe o meu nome?
Ela desenrolou o meu pedaço de papel e começou a falar como se tivesse recitando um poema.
— Tyler, — a garota pronunciou o nome com mais ênfase. — esse é o endereço da nova escola porque eu te conheço há 16 anos e sei que existe uma probabilidade grande de você se perder. Me prove que estou errada, mas de toda maneira... Melhor não arriscar, Clarisse.
Senti o sangue subir pra minha cara, e a garota deixou escapar um risinho malvado.
— Além de seu nome, já sei sua idade e o nome do seu responsável. — ela soltou, espremendo a boca.
— E o seu, qual é? — aproveitei pra perguntar.
Ela já tinha levantado e olhava pro norte quando me respondeu.
Levantei também.
— Iara. Iara Lílian Hank.
Antes que me aparecesse qualquer coisa pra dizer, senti cheiro de fumaça e ouvi barulho de motor. Virei e dei de cara com um ônibus longo verde-musgo.
A lataria descascando e amaçada em alguns lugares, as janelas escuras de tanta poeira, os bancos estofados aos pedaços. Eu mesmo não ia me surpreender se aquele teto caísse sob nossas cabeças, aquele monstro que chamavam de ônibus era verdadeiramente da Idade da Pedra.
Mesmo que eu não quisesse sentar com a Iara, teria sentado porque só restava um banco de dois vazio.
Fiquei assustado quando ônibus parou na frente da escola em menos de seis minutos. Perguntei pra Iara como uma linha de ônibus com tantas pessoas podia ser tão curta, ela riu de mim antes de responder.
— A linha é enorme — ela disse. — Mas nós somos os últimos a serem pegos. Sinta-se muito sortudo.
O dia acabou passando muito rápido, pra minha surpresa. Achava de verdade que estudar de manhã seria pior porque o tempo ia passar mais devagar, porém era justamente o contrário.
Aula dupla de biologia, uma aula de história, intervalo, que eu passei praticamente inteiro rodando aquela escola enorme com a mochila nas costas, mais uma aula de história, uma de matemática e uma de artes e depois ônibus.
Só vi Iara de novo no ônibus, mexendo no celular e dando dedo de vez em quando pra uns caras que riam de não sei o quê. Fomos os primeiros a descer, e ela não falou comigo, nem eu com ela. Apesar de ter querido dar pelo menos um "tchau" ou um "até logo", ela seguiu pra um lado e ela pra outro.
Quem sabe amanhã...
Entrei dentro de casa todo suado pelo solzão de meio-dia e me deparei com o paraíso na mesa da cozinha. Duas caixas abertas com uma pizza de quatro queijos e a outra com uma pizza de calabresa com catupiry fumegando, com um litrão de Coca Cola ao lado das duas.
Eu estava pra voar encima da mesa quando ouvi alguém descendo as escadas.
Clarisse me olhou sorrindo e veio andando até mim de braços abertos.
— E aí, — ela disse, me apertando num abraço bom. — como foi na escola? Me conta tudo, isso é uma ordem.
— Quando você disse que ia me compensar não tava brincando, hein.
Tive que contar literalmente tudo entre uma mastigada e outra, Clarisse era ansiosa demais pra me esperar comer pra depois contar.
Ela apoiou a cabeça na mão e me olhou toda maliciosa.
— Hmmmmmm. Iara, é? Ela parece especial.
Deixei a pizza no prato pra gesticular com as mãos.
— SIM, vó! — concordei, lembrando. — Bem, eu mal conheço ela... — agarrei seu braço e a olhei no fundo dos olhos, animado demais pra me conter. — Mas vó, a senhora tinha que ver! Lembra daquilo que me contou, da Gênese de Alexandria?
Clarisse balançou a cabeça, meio confusa.
— Pois é, vó, ela tem! Bem, pelo menos os olhos são roxos. — puxei ar e olhei o chão. — Eu achei que fosse só um mito, nunca achei que veria. — olhei pra ela de novo. — E é tão lindo, Clarisse, parece que são ametistas, do tanto que brilha.
Clarisse resmungou e vi ela sorrindo, com uma malícia que eu conheci sempre quando a palavra "garota" estava no meio.
— É meio duvidoso, mas acredito em você. — ela se levantou e pegou meu prato e copo. — Traga ela aqui qualquer dia pra eu ver.
Rum, muito espertinha. Fui até ela, beijei sua cabeça e subi pro meu quarto.
Só me dei ao trabalho de chegar nele, tirar meus tênis, colocar Counting Stars na caixinha de som que Zetti tinha deixado pra mim e aumentar o volume no máximo.
Aquela música... Minha irmã amava aquela música. Nós três costumávamos dançá-la juntos quando estávamos animados.
Quando ela começou, aquele mesmo sentimento tomou conta de mim e eu comecei a bater o pé e bater palma no ritmo até me cansar de dançar.
Fiz meus deveres de casa até dormir com um livro na cara de sono pela manhã que eu não tinha dormido. De acordo com Clarisse, era normal, só questão de costume.
Quando acordei, já tava escuro e eu, todo babado. Fui grogue pro banheiro, tomei banho, coloquei um roupa confortável e desabei na cama. Afundei, satisfeito com aquele dia na inconsciência gostosa que o sono trazia mais uma vez.
Fale com o autor