Filha do Oceano - Sangue do meu sangue
3 Quando a gente cresce
Notas iniciais
“O CUIDADO MUITAS VEZES SE TORNA LUXURIA, DESEJO E TENTAÇÃO. A PERSEGUIÇÃO DIÁRIA E A BALANÇA QUE PESA O BEM E O MAL AS VEZES SE SOBRECARREGA. E EM BUSCA DE UMA LIBERTAÇÃO ACABA ATINGINDO QUEM NÃO TEM CONTAS A ACERTAR”.
...
Chorei muito depois que meus amigos se foram, e as lágrimas ainda continuavam caindo quando a madrugada chegou. Muitas lembranças com meu irmão vieram em minha cabeça. E também recordações de Sarah, minha prima que sumiu do mesmo modo, dois anos após o acontecido com meu irmão.
Lembro que éramos crianças esquisitas, inteligentes, cobiçados pelos mais velhos, e sendo sempre acusados de travessos. A saudade dói muito, causa um rombo no peito principalmente porque a gente não sabe realmente o que aconteceu.
Eu evito de ficar olhando o álbum de fotos da família; às vezes sinto raiva dos meus parentes, que quando vinham nos visitar, nos encurralavam com infinitas perguntas e acusações maldosas. E muitas das vezes nos tratam como se tudo o que tivesse acontecido era culpa nossa. Como se nós não tivéssemos sentido o peso da culpa o bastante durante todos esses anos.
Entre pensamentos, soluços e muita angustia acumulada, o choro cessa quando a manhã de segunda-feira chega, sem que eu tivesse pregado meus olhos um mísero segundo. Foi somente depois da dor me consumir por completo, que consegui sentir a canseira da noite sem dormir, uma madrugada muito longa e pesarosa.
Os fantasmas do meu passado me perseguindo sem descanso.
Logo sinto o cheiro do café da minha mãe, que consegue levantar meu astral. Levanto da cama e acendo a luz, estou de frente pro espelho. Vejo uma menina de quase quinze anos com profundas olheiras, olhos vermelhos e inchados, com a ponta do nariz avermelhado e bochechas de tamanho anormal.
Meu celular vibra, eu olho. Mensagens solidárias dos meus amigos; Amanda me pedia para ficar bem, que tudo melhoraria; Juh me pediu pra contar com ele em qualquer situação; Yudi falou pra eu não chorar e mais algumas outras coisas que nada tinham a ver com isso, de outras pessoas.
Fui tomar um banho e deixei a água levar tudo embora, tudo o que era ruim, tudo que me fazia mal, relaxei de verdade enquanto a verdadeira beleza me tocava e a luz tenra do sol através da janela me tocava.
Sentada no piso do banheiro prometi, mais uma vez, que jamais nadaria ou pisaria no mar por diversão. Só entraria por uma razão totalmente emergencial.
...
São olhos vidrados na Tv. Um som alto que faz a casa inteira estremecer, estou na beira da escada, pronta para descer. Estou num look de praia. Minha mãe faz comida e meu pai lava seu carro enquanto meu irmãozinho de quatro anos corre pela casa, jogando tudo pelo chão. Sim, quatro anos se passaram desde o incidente, e ainda houve várias noites que eu não consegui dormir, que fiquei pensando no que aconteceu no mar, num domingo igual a esse. Desde o acontecido (que eu não havia contado para meus pais, que meus amigos me ajudaram a esquecer e esconder) não entrei mais no mar. Fico só na areia, muitas vezes observando o pôr do sol, ou o nascer do mesmo.
Amanda me chamou para sair hoje e eu recusei o convite, pois vou ao hospital visitar o Juh. Não entendi muito bem o que aconteceu, mas como já faz um tempo que ele está lá, já deveria ter sido liberado para ir para casa, ter alta.
Dou um beijo em minha mãe, aviso-a que não irei almoçar em casa, meu pai termina de lavar o carro e automaticamente me joga a chave. Sim, eu já tenho carta. Faz apenas duas semanas que a habilitação provisória chegou. Mas mesmo assim, ainda não cometi nenhuma infração (Por enquanto, vai saber). Ingressei no começo do ano em uma faculdade de letras, estava indo bem, me esforçava muito para me manter. Agora estamos quase entrando de férias. Não tenho mais visitado a praia regularmente, pois provas e trabalhos me consomem dia após dia e a correria faz com que eu não tenha muito tempo para curtir a vida. Foi até um milagre eu ter conseguido a bolsa integral, só Deus sabe como. Porque quando prestei vestibular não estava com cabeça para nada. Então foi no chute, na sorte, enfim chamem como quiser.
Sai com o carro da garagem e dirigi pelas ruas até chegar a um pequeno hospital de esquina. Sim, um hospital de esquina.
Estacionei, fechei a porta e apertei o alarme. Beleza. Enquanto caminhava pelos corredores, ouvi meu celular tocando a música do Ac/Dc — Highway to Hell. Pronto, olhares me fuzilando e eu me sentindo pequenininha diante de tantos rostos. Era Amanda que me ligou já dando risadas de deboche da minha cara:
—Eu sabia que você ia ver o Juh, sua vaca – sua voz era de total afirmação – Eu já desconfiava que quando você falou pra ele, depois que ele saiu com a Suzy, que nunca mais queria vê-lo, você estava blefando. Que horas podemos ir à praia? Estou com uma vontade de dar um mergulho, mas não quero ir sozinha.
—Tá bom AM, já, já chego aí, só vou dar uma passadinha, ver ele, dar um soco na cara dele e vou com você na praia, só me prometa que não vai me obrigar a entrar na água com você hein, tenho que desligar, já estou dentro do hospital e as pessoas nos corredores estão me olhando feio, tchau.
Cheguei rapidamente no quarto e quando abro a porta, Suzy está lá. E eu na maior cara de pau:
—Ei sua fedô? — ela olha pra mim com um olhar mortificante – Vaza que eu quero falar a sós com meu menino.
Ela ia falar, mas como me conhecia bem do tempo de escola, sabia que eu estava falando bem sério.
Assim que ela saiu, cheguei perto dele e dei um soco no seu braço.
—Isso é por você ter saído com ela – dei outro – Isso é por ter se acidentado de moto e me fazer mentir pra todo mundo falando que você está com virose contagiosa, seu burro.
Ele sorriu, um sorriso torto e eu o abracei.
—Sua perna melhorou? — troquei de tom de voz, afinal, eu não podia me fazer de fria e insensível pra sempre – Sabia que sua mãe e seu pai ficam me ligando querendo saber se sua virose já passou? – eu ri, eu estava ajudando-o do mesmo modo que ele e meus outros amigos me ajudaram quando quase me afoguei na praia. — Eu espero que você esteja de alta já, porque mesmo se não estiver, vou te tirar daí, chutar esse seu traseiro gordo e feio, colocar você dentro do meu carro, te sequestrar até onde AM nos espera e te jogar dentro do mar como se joga um saco de lixo dentro de um tambor.
—Você está se achando o Hulk né Aline? Com esse seu tamanho, o máximo que consegue me chutar é na Canela — Filho da mãe esse menino. — E por falar em alta, eu te liguei quinze vezes essa semana e você não atendeu, qual o problema Aline? Você está tendo pesadelos de novo ou só são as provas que estão te deixando desligada desse jeito?
—Eu realmente estou sem tempo ultimamente, e tem noites que não consigo dormir, acordo de madrugada no meio de um pesadelo, você sabe — Sinto uma tontura, sento-me no banco ao lado da cama dele, apoio minha cabeça em sua barriga, deixando meu olhar pousado em seu rosto, e então passa — E sonho também. Algumas vezes é com a Praia, mas na maioria é com meu irmão. Estou cansada de sentir dor, de me permitir ter saudades. Porém, não posso esquece-lo.
— Eu sei Aline — ele me olha dentro dos olhos, e acaricia meus cabelos — Você é especial. Mas tem que dormir direito se quiser ir bem na faculdade, se quiser arrumar um emprego. Quantas entrevistas você tinha marcadas e não foi?
—Acredito que umas cinco entrevistas, só essa semana — Levanto minha cabeça e encaro o quarto — Eu tenho uma marcada para amanhã, mas dessa vez é na parte da tarde. Graças a Deus.
— Que bom Aline, hei — ele faz um gesto dizendo que ia se levantar — Sabe tenho uma coisa pra te falar, só que eu estou com medo da sua reação, sei do seu sentimento, e dos seus ciúmes.
A enfermeira entra no quarto e dá sinal positivo de que ele já podia sair. Então pegou a bolsa que estava guardada e nós saímos do hospital. Antes fizemos o que tinha de ser feito, depois eu dirigia enquanto ele estava de carona. Já na estrada, ele continua quieto, como se pensasse em algo.
— Quer me contar o que estava prestes a dizer no hospital? — Olho de soslaio para ele, aguardando uma resposta, enquanto presto atenção na rua, quando chego perto do calçadão da praia, avisto Amanda, é evidente sua presença em um biquíni rosa — Ou quer deixar para quando estivermos a sós?
— Eu vou me mudar semana que vem, e como já sabe perto da sua casa. Eu decidi algo quando estava saindo com a Suzy, e bem pretendo tornar o algo entre nós, sério — Ele abaixou a cabeça enquanto eu parava o carro — eu sei que...
— Shiu — tampei sua com o dedo indicador — Relaxa. Eu não estou brava, na verdade, desejei alguém bom pra você. E eu já desconfiava mesmo que você fosse namorar com ela.
—Oi? não estou falando dela, estou falando de nós... Eu e você! — Eu me surpreendi e coloquei a mão na porta — Quando disse estava saindo com ela, é passado. Ela serve apenas para amiga. Assim como você claro, serve também. Na verdade, você é ótima. Mas não te enxergo apenas como uma. Nossa amizade cresceu, tenho certeza.
—Pare de falar besteira Julio, nós não combinamos — Olho com raiva para ele, nem sabia porque estava com aquele sentimento dentro de mim, abri a porta e sai com uma bolsa, pronta pra por meu biquíni — E lembre-se, você merece alguém que não tenha tantas paranoias na cabeça, e eu sou a pessoa errada no momento.
Eu tranquei o carro e vi que Juh saiu de cabeça baixa, sem falar mais nada. Em seguida, como que possuído por uma alegria contagiante, saiu correndo pela areia em direção ao mar, arrancando os shorts e ficando de sunga, enquanto eu continuava parada no mesmo lugar, apenas o observando. Bem que eu gostaria desse algo a mais, mas não quero estragar nossa amizade. E tenho certeza que estragaríamos. Eu vi que pisei em cima de seu orgulho quando não correspondi seus sentimentos. Isso me deixou mal, muito mal.
O sentimento de que as coisas não voltariam a ser como antes tomou conta de mim e senti remorso do que disse.
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