Notas iniciais
Os personagens principais são: Aline, Amanda, Yudi, Julio e Gabriel. Espero que gostem. Bom, primeiro aviso, revisei a história e a pedido de um leitor, dei uma modificada em algumas partes, nada muito gigantesco. Ele me avisou que estava dificil compreender e que estava ficando repetitivo. Bom eu li e reli, e agora está um pouco mais explicado. Ah, e o segundo capítulo está junto com o primeiro, então não pensem só que eu deletei.

"DIZEM QUE QUANDO ALGUÉM MORRE PERTURBADO, ESSE ALGUÉM FICA VAGANDO PELA TERRA ATÉ ALGUMA PESSOA LHE REIVINDICAR PAZ; E DIZEM TAMBÉM QUE QUANDO ALGUÉM MORRE AFOGADO, SUA ALMA É PURIFICADA ATRAVÉS DA RAINHA DOS MARES, É ELA QUE O TRANSPORTA PELAS FENDAS DO TÁRTARO, PARA SEU JULGAMENTO JUSTO E SOLENE, E DEPOIS É ENTREGUE ÀS MORADAS DO PARAÍSO"

...

Quando eu era criança, meus pais costumavam dizer que criança nenhuma deve entrar no mar sozinho, pois o oceano é traiçoeiro, suas areias nos pegam pelas pernas e nos arrastam até as fendas abissais onde morremos afogados e nunca mais nos encontramos com nossos conhecidos. Se é verdade, não sei. Mas eu entro em colapso ao pensar nessa possibilidade.

Foi com esse pensamento que nunca tive coragem de assumir riscos e me aventurar em suas ondas, se bem que eu gostaria muito de aprender a surfar e a nadar nessa imensidão de água. Então quando estou muito tentada, vou até a praia, levo um de meus livros preferidos, guarda-sol, um bronzeador fator cinquenta e uma cadeira e então fico só de longe admirando-o, como se isso só bastasse para meu contentamento. Mas a verdade é que isso nunca bastou.


Sexta – feira, dia cheio para todos da cidade, principalmente os alunos da mesma escola que eu. Pois hoje há um show de rock em frente à praia, ninguém poderia faltar, iria servir de festa de formatura da oitava série, a escola havia pago nossa entrada dois meses antes para que nenhum de nós ficasse de fora.

Era uma coisa boa e bem esperada. Eu estava ansiosa, muito alias. Sabe o que é jogar suas roupas todas em cima da cama, revirar tudo cinco vezes, experimentar dezenas de peças e dizer: Eu não tenho roupa pra vestir? Então, isso aconteceu comigo. Até claro, ver aquela roupa velha e surrada, que você usa todo santo dia, que está jogada num canto do guarda-roupa, que é a única que quando veste fica bom até se estiver descabelada. Então essa vai ter que servir hoje, novamente. Uma calça jeans clara, tênis All-star vermelho e uma camiseta preta de banda do Ramones. Perfeito.

Passei um bom tempo me olhando no espelho, o reflexo mostrava alguém que andava dormindo demais, com cabelo todo embaraçado, pele oleosa, olhos cheios de ramela, dentes sujos de bolacha, com um rosto redondo e bochechas inchadas.

Pra piorar tudo, meu cabelo é enorme e cacheado nas pontas, que é horrível de pentear, mas quando consigo essa façanha, ele é incrível. Comecei pelo rosto, lavei, hidratei, depois escovei os dentes, tratei as olheiras, passei um tonificante, um lápis bem forte, uma sombra clara, um batom vermelho sangue. E então tratei de arrumar meu pesadelo: o cabelo. Tive que passar vários cremes, e várias vezes a escova, eu achei que nunca mais ia sair do meio dos fios, se saísse, sairia quebrada. Enfim arrumei a juba, e como estava linda. Bom, pelo menos no espelho estava, mas deixa os amigos virem tirar foto pra ver como fico.

Já estava atrasada, coloquei uma bolsa com alguns documentos importantes e um pouco de dinheiro, tipo vinte reais pra alguma emergência.

O show ia ser em frente à praia que meu irmão gêmeo morreu afogado, sete anos atrás. Meus pais me perguntaram várias vezes se eu queria mesmo ir. A resposta ia ser sempre sim, porque de alguma forma fazia com que eu me sentisse mais perto dele, mais longe da saudade que ele deixou. E além de tudo, Amanda e meus outros amigos esperavam por mim, não podia faltar. Mesmo que quando o jornal da cidade disse que ia ter o show em frente a essa praia, e a escola informou que teria verba para pagar as nossas entradas, meu coração pulsou forte, eu não poderia deixar de ir. Era minha banda favorita. E a do meu pai também.

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Ao pensar muito e me sentir nervosa dentro do carro enquanto meu pai me falava como foi sua juventude com minha mãe, dizendo que se divertiu muito ao som dessa banda, eu já fiquei mais aliviada, a tensão diminuiu e eu até pude cantar certas músicas com ele, relaxando e me divertindo. Quando cheguei ao local indicado, em frente à Praia das Rochas, meus amigos me esperavam na entrada com rostos de piedade. Dava para ouvir, mesmo com o som da guitarra, do baixo e outros aparelhos musicais, as ondas se quebrando bem alto. Um arrepio percorreu por todo meu corpo antes de se dissipar com a risada histérica de Amanda:

— Hei, Aline. Você está super atrasada, o que aconteceu? Desistiu e depois resolveu vir de última hora? — a pergunta veio, mas a resposta não saiu, o que era estranho, já que sempre tenho uma boa resposta na ponta da língua — Tudo bem, não precisa se explicar. Vamos ver se conseguimos um lugar lá perto dos bonitões. Quero tirar foto com eles, ou só deles.


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Quando o show acabou, já era bem tarde. Amanda estava com Yudi, o menino que andava com a gente. Os outros meninos estavam falando, alegremente, sobre a Guitarra, as músicas tocadas e o show. Eu estava distante deles, estava sentada num murinho de pedra que ficava separando a calçada da faixa de areia, olhando para rua e para o celular, esperando que minha mãe me respondesse. Sinto algo em minhas costas que me faz arrepiar dos pés à cabeça.

— Aline... Aline, venha me ajudar – Na hora congelei, percebendo que a voz vinha do mar, atrás de mim. Depois a sensação que me tomou foi angustiante e tive medo de perder meus sentidos. Eu caminhei por entre a praia, alcançando logo o começo da água sem que ninguém percebesse meu sumiço da calçada. Tive um calafrio novamente e a sensação de frio quando a água começou a molhar meu tênis, deixando-o pesado. Quando as ondas estavam quase alcançando meus seios sinto uma mão nos meus ombros.

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Meus olhos ardiam com a claridade vinda da janela, cobri meu rosto com a coberta, não querendo sair debaixo dela. Eu mal me lembrava do que aconteceu depois do show, de como fui parar na minha cama. Quando decidi levantar, o sol havia sido coberto por nuvens, graças a Deus. Olhei para mim, e percebi que minha mãe havia cuidado para que eu tivesse um bom sono, pois estava vestida com um pijama muito confortável. Assim que coloquei meus pés no chão senti uma dor terrível e aguda no lado esquerdo, como se tivesse sido esmagado por um trator em alta velocidade. Pois é, eu exagero. Eu só me lembrava de estar sentada no murinho de pedras perto da calçada esperando minha mãe me responder. Tentei pisar novamente, achando que havia pisado de mal jeito, mas a dor veio novamente. Então olhei meu pé e notei algo no centro dele: Uma enorme marca circular, avermelhada por fora, roxa por dentro com pontos pretos, semelhante a carne estragada.

—Mãeeeee — Gritei com aquela voz de taquara rachada, de quatorze anos que tinha — Mãeeeee! Ela entrou correndo no quarto com algumas gazes, soro e uma xícara de café fumegante e algumas torradas passadas em geleia de morango, minhas favoritas. Espiar o prato que minha mãe fazia a cada dia era uma árdua tarefa. Mamãe nunca teve de cozinhar até perdermos meu irmão nas ondas do mar. Porque antes, nós tínhamos uma cozinheira particular chamada Amélie. Na época, antes do acontecido, meu pai era empresário e ela advogada. Depois do acontecido eles conseguiram perder tudo, menos a nossa casa com vista pro mar. Amélie conhecendo a comida da minha mãe até quis ficar cozinhando para nós "sem salário", mas meus pais não acharam justo. Pois é, quando dizem que quando alguém está com depressão fica muito pra baixo, não quer saber de ninguém, não duvide, não ria. As vezes a situação está três vezes pior que o relatado. E então, só depois de muito tempo é que ela conseguiu se livrar, entre aspas, da culpa.

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Depois de cuidar de mim, limpar a ferida, passar a pomada e me dar um beijo na testa, a mancha desapareceu misteriosamente, sem deixar vestígios aparentes na pele, mas ainda doía. Comi com calma as seis torradas na minha frente, e o café fumegante que demoraria mil anos para esfriar. Depois disso, minha mãe apareceu novamente, coloquei a louça no criado mudo e ela se sentou ao meu lado.

— Amor, o que você fazia na Praia das Rochas? — Sua voz era de preocupação, mas seu rosto estava num semblante muito calmo — Seu pai disse que ele te achou dentro da água, de jeans e tudo. Nós já conversamos sobre isso, não queremos te perder também Aline.

Tudo o que fiz foi olhar em seus olhos. Tentei puxar na memória sobre estar dentro da água, mas não me lembrava. — Eu não entrei na água, mãe. Isso eu juro — Prendi e soltei o ar de uma vez, fazendo um enorme ruido no quarto banhado pelos raios de sol — Só me lembro de estar sentada no muro de pedras esperando o pai chegar e uma voz me chamando vinda do mar. — Ela saiu do quarto meio afobada... Eu também estava me sentindo perdida.

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A tarde de sábado passou sem que eu e minha mãe trocássemos uma palavra. Eu cuidei do meu irmão de apenas três semanas enquanto ela fazia as coisas de casa, passeei com meu cachorro, fui no mercado, dei uma volta com Amanda e os meninos. Depois tínhamos marcado de ir a uma pizzaria perto da Praia das rochas. Já eram seis da tarde quando eles chegaram. Júlio e Gabriel estavam de skate e Amanda de Patinete. E pra completar o batalhão, faltava Yudi, o cabeça dura da turma.

Em falar deles, o Juh é alto, magro, cabelos escuros até metade do ombro e olhos lindamente castanhos claros. Ele é lindo, com toda a certeza. E o Bi é alto também, um pouco magro, um pouco musculoso, tem cabelos loiros curtos e olhos azuis. O típico surfista, só que skatista. Yudi é o mais bonito, vaca da Amanda, não que eu esteja numa fase de relacionamentos, não é isso, mas que o garoto é um deus grego desconfigurado, não aceito pela escola por falar coisas absurdas, isso é. Ele é alto, musculoso, meio moreno, tem olhos verdes e cabelos negros curtos e encaracolados. Amanda é bem bonita, também. Bom, soa estranho vindo de mim. Ela é alta também (sou a unica baixinha da turma) tem belos olhos castanhos escuros, cabelos negros gigantescos e totalmente lisos. Seus olhos são puxadinhos e a boca é carnuda. Mesmo assim, por ter um estilo diferente, assim como o resto da turma, é ignorada pelo resto da escola. Bom, não nesse sentido. Os nossos colegas conversam com a gente, nos cumprimentam e tal, mas não aquela aproximação que dure, sei lá, pelo menos uns vinte minutos.

Eles estavam bem vestido e eu também, e por falar de mim, eu tenho olhos verde água, cabelos compridos e encaracolados nas pontas. Tenho uma boca fica e nariz fino também. E eu era unica que não tinha nenhum patinete, Skate, vassoura, ou outro na mão, estava totalmente a pé.

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Chegamos na pizzaria em menos de vinte minutos, ela ainda estava abrindo. Já havia alguns carros estacionados e algumas pessoas faziam caminhada na nossa frente. Estávamos sentados perto das barraquinhas, resolvi comprar uma pulseirinha de concha, eu já tenho um monte, mas essa me chamou atenção. Não era qualquer uma. Ela tinha, no meio das duas conchas, uma enorme pedra verde, que quando você vira ela pro lado ela brilha azul. Incrível. Ouvi de novo uma voz. "Aline, Aline, me ajude irmã, eu estou sozinho, me ajude", só que dessa vez essa voz veio dentro da minha mente e tive certeza que era a voz de Arthur, meu irmão...

Notas finais
Eu me senti no lugar da Aline escrevendo esse capítulo, eu senti o sol na minha pele, eu senti o vento batendo na minha pele, só podendo olhar o mar com receio e trauma de entrar e senti o gosto salgado dele. Eu espero que gostem e comentem, Please. :) Arigatou :)