Filha do Oceano - Sangue do meu sangue
2 Ouse ouvir, ouse viver, ouse sentir.
Notas iniciais
"A FRIA CHUVA QUE ACERTA MINHAS COSTAS ENQUANTO CORRO, DÓI BEM MENOS DO QUE A SAUDADE QUE FICOU QUANDO VOCÊ NOS DEIXOU. EU NÃO POSSO SIMPLESMENTE TE DEIXAR NO PASSADO, VOCÊ AINDA FAZ PARTE DO MEU PRESENTE, E AINDA ME DÁ UM ABRAÇO QUANDO ESTOU PRA BAIXO, VOCÊ COSTUMAVA CURAR MINHAS FERIDAS DA ALMA COM SEUS BRAÇOS QUENTES E ERA O QUE HÁ DE MELHOR NO MUNDO. HOJE A SOLIDÃO ANDA AO NOSSO LADO, MESMO COM TODOS OS AMIGOS QUE CONQUISTAMOS".
…
Levo um beliscão no braço enquanto volto a mim, eu fiquei bastante tempo paralisada, sem sentir nada, sem pensar em nada, em transe, com olhos esbugalhados, fitando o além. Amanda me observa inexpressiva, como que se estivesse tentando descobrir o que aconteceu comigo de fato. Nem eu sabia, eu havia escutado uma voz e ficado em um estado depressivo, e logo após, não consegui levantar um dedo. Chacoalho minha roupa e sorrio para ela, que continua me olhando sem esboçar nenhuma expressão.
Entramos na pizzaria e nos sentamos em uma mesa de canto, porém com a janela com vista para o mar, o garçom nos atendeu super bem; aquele era o nosso ponto preferido da cidade, perdendo apenas para a pista de skate. Escolhemos duas pizzas: Uma Três queijos com borda recheada de catupiri, e uma de escarola com queijo e bacon, que eram as nossas prediletas, também pedimos uma Coca-Cola de 2 litros. Amanda pediu um suco de limão com a desculpa de dor de estomago, mas a verdade é que ela mistura o suco e o refrigerante, diz que é melhor assim.
O restante da noite foi incrível, faziam alguns meses que não saiamos em grupo desse jeito, para falar mal dos outros, fazer palhaçada, comer e beber. Cheguei bem tarde em casa, olhei meu celular uma última vez antes de ir tomar um banho. Seis mensagens do Juh. Coisas do tipo “Você está bem?”. “Quer nossa companhia ai?”, “Você estava estranha no dia do Show e ontem também, tem alguém te perseguindo?”, “você estava linda”, “Se precisar de algo é só me ligar, não consigo dormir” e “boa noite”. Tomei uma ducha rápida e corri para a minha cama sem nem ao menos responder as últimas mensagens, pois o cansaço estava ganhando espaço com muita velocidade.
...
“Ouço o quebrar das ondas, meu irmão está feliz olhando para mim com um grande sorriso em seu rosto, mostrando o que sabe fazer dentro do mar; foi tão de repente, uma onda o pegou desprevenido, mas achei que ele estava fazendo graça, foi quando vi seus braços se agitarem, ele cuspindo água, me chamando. Gritei pelo salva-vidas, mas ele não me escutava. Quando corro até o homem, porque eu estava com medo de entrar na água. Eu o tiro de seu posto, e mostro o local, que não tem mais irmão, só tem espuma feito pelas ondas, eu choro e grito, a respiração falhada, o grito que não sai, o choro que não tem lágrimas e que me sufoca, uma dor tão aguda no meu peito, tudo se repetindo”
Acordei em sobressalto, meu coração batendo rapidamente, sem conseguir respirar direito, tive que falar e cantar para ter realmente certeza de que fora um sonho ruim, ou simplesmente uma recordação de um dia que eu tentava, miseravelmente, esquecer. Eu sentia frio, como naquele dia em que meu irmão sumiu no mar, eu estava lá e não pude fazer nada.
Arthur sempre foi um menino talentoso, eu e ele éramos gêmeos com diferença de minutos de nascimento, tinha olhos verdes e um belo sorriso, o mais caloroso e gentil que eu conhecia. Ele sempre conseguia animar meu dia. Nós aprontávamos todas, e antes de morar na casa de frente pro mar, nós morávamos no centro. Nem sempre tive os mesmos amigos, mas meu irmão sempre esteve comigo. Me fez superar meus traumas, esquecer pessoas que eu não conseguia desapegar e que me faziam muito mal.
Eu me divertia com ele e achava o mesmo dele. Nunca nos separávamos. Adorávamos o mar, mas eu nunca entrei. Nós tínhamos sete anos, quando um dia por descuido, Arthur acabou indo longe demais, fazia graça, me mostrando o que havia aprendido em vídeos, e ainda na praia indicada como proibida. O guarda-vidas estava distraído; distraído por tempo o bastante para que a tragédia acontecesse. Desde esse dia sempre me culpei pelo o que aconteceu. E a culpa e o remorso eram maiores ainda, pois nunca encontraram o corpo de meu irmão, não fizemos nem um velório adequado.
Olhei no relógio, faltavam dez minutos pra seis. Troquei de roupa, calça bem soltinha preta, uma regata preta e por baixo um biquíni. Eu teria de enfrentar meu trauma, ou o trauma me enfrentaria, estava decidida naquilo. Logo cedo já estava um calor infernal.
Desci para a praia, e de novo outra voz...
— Cuidado Sarah... — Olhei para traz e não vi ninguém, era apenas eu e o mar. E eu não estava na frente da praia das rochas, e sim em uma mais afastada com uns coqueiros que era um local que as ondas vinham baixas e que tinha quiosques. — Você não pode enfrentar a ira, você não pode soltar a mão dele, ele precisará de você.
…
Inexplicavelmente a voz não chamou mais. Mas dessa vez, tive certeza que a voz não era de Arthur, a voz era desconhecida. E aquela sensação ruim permaneceu por um bom tempo, depois se dissipou e tudo o que eu sentia era culpa e saudades.
Tirei da bolsa um livro chamado "O segredo" e comecei a lê-lo. O tempo passou depressa. Quando já era oito horas e o sol começava a arder, deixei minha roupa dar lugar apenas ao biquíni. Guardei as coisas na bolsa, fiz um buraco na areia e enterrei tudo.
Pensei um pouco, hesitei muito. Olhei as ondas. Eu não estava na Praia das Rochas e sim, na praia das Flores. Bom, de flores não tinha nada, exceto um cheiro maravilhoso, como se fosse cheiro de roupa limpa. Mas ainda assim, pra mim era muito tenso, cheio de sentimentos ruins, o bom era que aqui era bem raso.
Andei um pouco entre a praia, enquanto a areia entrava no meio dos meus dedos. O lugar ia enchendo aos poucos. Parei perto de onde a onda chegava (os últimos grãos de areia que ela molhava), andei mais um pouco, e senti ela molhar meus pés e a sensação foi deliciosa. Andei mais um pouco e a água estava nos meus joelhos, e a cada passo que eu dava, a sensação de vazio no meu peito ia sumindo, dando lugar a uma grande euforia.
Eu já estava longe da areia e minha felicidade era evidente. A água salgada banhando o meu corpo inteiro. Uma sensação de limpeza, de pureza encheu meu ser, banhou minha alma.
Como eu nunca havia experimentado algo tão maravilhoso antes? Talvez o medo. Quando o sol se fez quente demais olhei para trás. Meus amigos também estavam entrando. Só então percebi o quão longe eu estava e onde a água já estava. Assim que me dei conta de onde estava, o pânico tomou conta de mim e tentei voltar às pressas, mas a água passava do meu ombro.
Ouvi uma voz me chamar "Aline... Sarah... Volte, Volte por nós. Volte por mim, mana" e a areia puxava meus pés para trás, não conseguia sentir firmeza e as vezes acabava engolindo água ou a mesma acabava no meu nariz.
Então meus pés alcançaram terra firme e eu tratei de me empurrar para frente. Amanda grudou no meu braço e me tirou para a areia me jogando e se jogando contra ela.
A saudade nunca pareceu tão cruel como naquele momento. Uma dor me atingiu no peito, no lugar onde antes eu só sentia felicidade. E foi como uma ponta de faca na palma da mão. Você não sente na hora, só depois que a merda toda está feita e o sangue não para de jorrar é que você se toca do que aconteceu, do que está por vir.
E então sinto um abraço vindo de Juh, ele se ajoelhou e colocou a cabeça em meu ombro enquanto passava suas mãos em minhas costas, eu retribuo e deixo toda a dor vir, as lagrimas caiam como chumbo em meu rosto e a garganta sufocando, sem conseguir respirar direito. Ele não me larga, me põe de pé. E deposita palavras boas no meu ouvido.
Consegue me levar pra casa; depois de um banho quente, meus amigos ficam lá comigo. Todos eles são anjos, ninguém comenta nada do que houve com meus pais e ficamos lá assistindo filme. Todo mundo junto no mesmo colchão e depois do dia de hoje prometo a mim mesma que jamais voltarei a pôr os pés no mar. Afinal, não vale a pena sentir tanta felicidade para depois se afundar na pior e mais escura dor...
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