Filha de um Estranho - Duas Temporadas
31 A carta
Notas iniciais

Quando Coulson falou aquilo, meu corpo gelou por completo, fiquei estática por alguns segundos. Sentei na cadeira com as mãos entrelaçadas em meus cabelos com os cotovelos apoiados na mesa e repito para mim mesma:
— Não, não, não... Isso não pode ser verdade! Não...
— Victória! – sinto a mão de Coulson tocar meu braço.
— NÃOOOOOO!!! – grito batendo com as duas mãos na mesa.
— Se acha que isso não é verdade, pergunte ao Doutor Estranho que está quieto desde o começo da reunião! – uma voz masculina surge por trás de mim, viro a cabeça e vejo Nick Fury com um envelope rosa claro nas mãos. – Esta carta, sua mãe escreveu quando descobriu estar grávida de você! – ele me entrega o envelope. – Por favor, senhor Strange, conte a ela sobre sua relação com a mãe dela...
Stephen encarava fixamente as fotos de minha mãe projetadas na tela gigante. Ele se vira vagarosamente para mim, me olha no fundo dos olhos e percebo algumas lágrimas rolarem por seu rosto:
— Foi numa noite, em que resolvi ir ao bar beber depois de um longo dia de trabalho. – começa. – Eu ainda não era o Mago Supremo, era apenas o renomado neurocirurgião Doutor Estranho. Avistei de longe uma linda mulher loira, da pele pálida, olhos azuis... – suspira. – Ela também me encarou e sorriu para mim. Um sorriso tão lindo que eu senti meu mundo todo paralisar! – exclama e sorri abertamente. – Caminhei até ela e lhe ofereci uma bebida. Começamos a conversar, ela se apresentou: Bianca Bérgamo. Logo perguntei se era italiana. Disse-me que sim e que estava passando uma temporada em Londres, pois era promotora de eventos... Logo me reconheceu e perguntou “você é o renomado neurocirurgião Doutor Estranho?” e eu pedi para que me chamasse apenas de Stephen. – abaixou a cabeça. – Trocamos o número de telefone, combinamos de nos vermos mais vezes. No dia seguinte, logo que acordei mandei uma mensagem de “Bom dia!”. A conversa fluiu e a noite a convidei para irmos visitar a Big Eye (N/A: Roda Gigante gigantesca de Londres). Estávamos sozinhos na cabine e quando finalmente chegamos ao topo, a abracei por trás para apreciarmos a vista. Bianca se virou para mim e nos beijamos. Um beijo calmo e sereno, assim como sua personalidade. Eu a levei para casa e no dia seguinte saímos novamente. Fomos a um bar, bebemos muito... Como era perto do meu hotel e não podia dirigir, pedi que ela ficasse comigo. Só que o inesperado aconteceu, começamos a nos beijar e tudo se intensificou, quando fui ver já havíamos transado. E assim foram minhas noites ao lado de Bianca por quase uma semana! – concluiu.
— E depois? – perguntei chorando muito.
— Depois, teve uma noite em que estávamos num karaokê nos divertindo. Aí ela recebeu uma ligação, disse que era muito urgente e que precisava ir embora. Eu a guiei até a porta do táxi lhe dei um último beijo e ela se foi. Eu já não tinha mais motivos para ficar naquele lugar, então resolvi pegar meu carro e ir embora... Só que como estava bêbado, minha visão ficou confusa e sofri um acidente. Acordei alguns dias depois, recebi a notícia de que havia perdido o controle de minhas mãos, que ficaram trêmulas e nunca mais poderia voltar a operar. Meu mundo desabou! Perguntei aos médicos e enfermeiros se alguém havia ido me visitar. Para minha tristeza obtive uma resposta negativa. Tive alta, fui para casa e antes de buscar qualquer cura para os meus problemas, decidi ligar para Bianca. Só que o celular dela dava como inexistente. Eu nunca soube onde era o endereço do seu hotel, ou onde ficava sua casa na Itália. E naquele dia eu perdi as duas coisas que mais me faziam feliz! Foi aí que conheci o Ancião, que me apresentou as artes místicas. Assim, consegui uma cura para as minhas mãos, — mostrou as mãos, sorrindo em meio às lágrimas. – todavia, eu nunca descobri a cura para esse amor passageiro e eu nunca mais quis amar ninguém.
— Victória... – Fury chamou e o olhei com o rosto inchado de tanto chorar. – Leia a carta, por favor.
Tirei o papel de dentro do envelope rosa e comecei a recitá-lo em voz alta:
Caro senhor Stephen Strange,
Peço que me desculpe por ter te abandonado. Têm segredos meus que você não pode saber... O que aconteceu entre nós, não foi um passatempo! Ainda que o que tivemos possa ser como um amor de verão para você, para mim, será eterno! A verdade é que existem pessoas que não nasceram para se relacionarem. Esse é meu caso! Ofereço riscos a todos em minha volta. Portanto, esta carta é uma despedida, a qual eu não pude realizar pessoalmente. Apesar de ser cedo para dizer isso, saiba que eu te amo e para sempre vou te amar. Esse papel grampeado é um teste de gravidez com resultado positivo. É a confirmação do fruto do nosso amor. Só estou de um mês e meio, não sei se é menino ou se é menina. Se for um menino, terei orgulho de colocar nele o nome de seu pai. Se for menina, carregará o nome de Victória, pois é a vitória do amor em minha vida, pois pensei que nunca amaria alguém... Não quero que assuma a paternidade e nem contarei ao bebê sobre seu pai. Irei poupá-lo ao máximo de saber que foi a consequência de um amor passageiro.
Com amor,
Bianca Bérgamo.
Ao final da carta, tanto Stephen quanto eu chorávamos e soluçávamos muito.
— A verdade Doutor Estranho, — Fury começou a explicar. – É que Paola tinha que usar identidade falsa, pois estava em perseguição à H.Y.D.R.A. em Londres. Como qualquer um podia ser um agente da organização, ela era obrigada a mentir. Naquela noite em que te “abandonou” – fez aspas com as mãos para dar ênfase. – fui eu quem liguei para ela e ordenei que fosse ao aeroporto atrás de Zemo. Eu tinha uma equipe de agentes na Inglaterra, todos foram atrás dele e seus capangas. Mas Zemo parecia já estar nos esperando, tanto que cravou uma longa luta com Paola. Por pouco ela não foi morta, teve que apelar para usar um spray que a S.H.I.E.L.D. fornecia como arma, jogou em seu rosto, deformando-o completamente. Ela correu, chamou alguns agentes que ainda estavam vivos e veio para Nova York nos passar o relatório da missão.
— Minha mãe literalmente viveu a vida pela S.H.I.E.L.D.! – afirmei com certa revolta. – Além de não ter sido presente durante toda minha vida, abandonou o único homem por quem se apaixonou...
— Agente Gelardino, você precisa entender... – Coulson tentava aliviar as coisas.
— O QUE EU TENHO QUE ENTENDER? – levantei e comecei a gritar, ainda chorando. – QUE A S.H.I.E.L.D. EXPLORA E SUGA SEUS FUNCIONÁRIOS PARA QUE NÃO TENHAM UMA VIDA NORMAL?
— Victória, foi ela quem escolheu isso! – Fury colocou a mão em meu ombro. – Infelizmente, se você quer viver para uma organização ultrassecreta deve abrir mão de família, filhos, casamento... Tudo isso pode ser usado contra você, é por isso que deve se abdicar!
— Fury, só me responde uma coisa... – falei cruzando os braços. – Como minha mãe morreu?
— Ela estava cumprindo uma missão de infiltração numa base da H.Y.D.R.A. na Alemanha. Nós não sabíamos que era uma emboscada! Caveira Vermelha fingiu estar recrutando pessoas com habilidades em lutas, armas, bombas... – começou a explicar. — Sua mãe era a candidata perfeita e uma das melhores espiãs! Pedi que fosse até lá, só que o Caveira sabia que a S.H.I.E.L.D. enviaria seus agentes. Então, através de um programa de reconhecimento facial, ele descobriu quem eram os infiltrados. Pediu que os seguissem até um local, semelhante a uma câmara. Disse que aquilo era um teste... Todos adentraram para não causarem suspeitas e foram eletrocutados. Somente uma de nossas agentes sobreviveu, deu um jeito de não entrar na câmara. Foi ela quem contou como tudo ocorreu. Percebeu que era uma armadilha, lutou sozinha contra trinta agentes da H.Y.D.R.A., entretanto deixou Caveira Vermelha escapar. Quando ela voltou, estava arrasada tanto por fora, quanto por dentro. Uma de suas melhores amigas, Paola, estava morta. Ela ia te ligar para dar a notícia, contudo, levaria para o lado pessoal. Eu aprendi com a vida a ser frio, então eu mesmo te liguei para noticiar a morte de sua mãe.
— E quem era essa agente que sobreviveu? – pergunto curiosa, secando minhas lágrimas.
— Melinda May!
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