Filha de Apolo - Lights
22 Só Amigos
Estiquei meu braço, meus dedos roçando a capa vermelha do livro até que consegui puxa-lo pela lombada grossa.
Desci devagar a escada bamba e voltei rápido para a mesa perto das estantes, onde Isaac corria os olhos por um livro em latim. A luz passava pelos vitrais da biblioteca, tingindo o rosto dele em tons muito claros de vermelho, azul e verde, o cabelo dourado parecia se misturar às cores.
Ele tinha o rosto apoiado em uma mão, a testa franzida enquanto lia a língua morta. Ele ergueu os olhos azuis do livro, parecendo ligeiramente animado assim que me sentei à sua frente na mesa redonda.
Isaac havia terminado de me ajudar com a lição de casa e, quando começou a explicar tudo o que eu não entendia, fiquei impressionada com o quanto ele sabia da matéria. Era raro encontrar, na minha escola, um garoto que fosse inteligente e bonito o bastante para que fosse popular. Isaac com certeza estaria na lista de rapazes com quem Annie Genkies iria querer dormir. Claro que esta era uma lista privada que eu e Sierra inventamos.
Ao pensar em Sierra senti um forte aperto em meu estômago, como se espremessem minhas entranhas. Não conseguia esquecer que ela estava escondendo um relacionamento de mim. “Um relacionamento com o melhor amigo dele!” pensei olhando subitamente para Isaac, absorto no livro. Ele poderia saber alguma coisa, e talvez, só talvez, fosse me contar tudo.
—Então... – comecei tentando puxar conversa. Ele ergueu os olhos para mim, preguiçoso, e arqueou as sobrancelhas – O dia está bonito, né?
—O que você quer? – a pergunta foi direta. Isaac fechou o livro e cruzou os braços sobre a mesa.
—Você por acaso não saberia de alguém daqui que estivesse se envolvendo com alguém de lá, e tipo assim...
—Sierra e Dakota? Sei, por quê?
—E-ele te contou? – exclamei aturdida.
—Contou. E Sierra até me pediu para ajudar ela – ele franziu o cenho, confuso. Escorreguei até a beirada da cadeira, meus olhos ardendo. Sierra contara a ele e não a mim? Ela pediu ajuda para ele? – Daya, que foi?
—Ela... Ela não me falou nada... – então era por isso que havia uma ligação para Isaac em seu registro de chamadas.
—Então como é que você está sabendo? – Isaac semicerrou os olhos, me encarando intensamente. Senti meu rosto esquentar enquanto eu percebia o que eu havia feito. Eu tinha xeretado nas coisas pessoais de Sierra e nem cheguei a comentar com ela. Eu poderia ter esclarecido tudo isso antes.
—Eu... Ahn... Olhei.
—Olhou?
—O celular dela – afundei mais no móvel, minhas coxas doendo enquanto eram exprimidas na madeira – Tinha ligações demais dele ali, e fiquei desconfiada.
—E porque você não perguntou para ela?
—Eu não sabia se ela iria me responder.
—O que você fez foi errado, sabia?
Ergui-me na cadeira, encarando Isaac de volta. Ele não recuou, apenas olhou de esguelha para as portas duplas da biblioteca quando passos abafados ecoaram no carpete do corredor.
—Está defendendo Dakota? – sussurrei com um pouco de raiva.
—É claro – ele respondeu no mesmo tom de voz – E Sierra também.
Me inclinei sobre a mesa, franzindo a testa e balançando a cabeça devagar.
—Você mal a conhece!
—Bem, eu não gostaria que mexessem nas minhas coisas e depois fossem fofocar tudo com outra pessoa!
—Mas ela nem sabe!
—E isso te torna uma péssima amiga.
—O que, eu...! Ela é uma péssima amiga, por ficar escondendo isso de mim!
—Acho que ela nunca fuçou nas suas coisas.
—Foi sem querer!
—Mas você fez, não é?
Eu não tinha mais argumentos. Cruzei os braços e enfiei minha cabeça ali, meu nariz contra a mesa.
—Você tem razão – murmurei com pesar, minha voz abafada – Eu sou uma péssima amiga.
Isaac suspirou e estendeu o braço, pousando a mão sobre a minha. Fechei os olhos ao toque dele, o toque de que eu sentia falta todos os dias, que ferroava meus sentimentos. “Vocês são apenas amigos” me repreendi pela sétima vez naquele dia.
—Ela deve ter tido algum motivo para não contar.
—Ela não confia em mim – falei com amargura, meus braços tremendo – E pensar que eu falei tudo de... – minha voz morreu à medida que eu ia percebendo que estava prestes a falar do meu recém-compromisso com Callum.
Ouvi a cadeira de Isaac ser arrastada. Ele segurou meu queixo e ergueu minha cabeça com delicadeza. Uma lágrima escorreu lentamente pelo meu rosto.
—Acho que ela estava com medo de que você não aceitasse, ou que a rejeitasse por causa disso.
—Mas porque ela achou que eu faria isso?
—Por causa... – a voz de Isaac falhou e ele encolheu os ombros – Da gente.
Arregalei os olhos. Minha pele ficou fria onde Isaac tocava e me afastei. Senti uma onda de pavor me arrebatar quando pensei em Nova Roma. Isaac tinha razão. Ele fora o primeiro garoto com quem fiquei de verdade, quem me deu meu primeiro beijo, e Sierra sabia disso. Talvez ela achasse que eu fosse me sentir traída se eu soubesse que ela estava com o melhor amigo de Isaac.
—Você está certo – resmunguei respirando fundo, procurando me acalmar. Sequei os olhos com as costas das mãos e respirei fundo mais uma vez.
—Não fique brava com ela, está bem? Ela teve um bom motivo.
Assenti, esfregando os olhos com força. Quando os abri estava tudo borrado e eu me sentia tonta, minha cabeça doendo.
—Você também tem bons motivos para não me contar as coisas?
O rosto dele ficou rígido. Ele parecia não saber o que dizer.
—Do que você está falando?
—Tenho um monte de perguntas para te fazer, e você vai ter que ter bons motivos para não me dar as respostas.
Ele ergueu uma sobrancelha, assim como um canto de seus lábios.
—Tudo bem. Manda.
Arregalei os olhos.
—Está falando sério?
—Você não quer respostas?
—É muita coisa. Mesmo.
—A partir de agora você pode me perguntar qualquer coisa.
Semicerrei os olhos, desconfiada.
—Se ficasse preso em uma ilha deserta, o que levaria com você?
Ele riu e me olhou com indignação.
—É isso que você quer me perguntar? Achei que fosse algo mais interessante.
Revirei os olhos, resistindo ao impulso de rir. A pergunta foi idiota, mas eu precisava saber se ele me responderia tudo com sinceridade.
—É só um aquecimento.
—Meus livros favoritos, minha faca, um pacote de balas de menta, um spray d’água e alguns dracmas.
Eu ri. Ele tinha a resposta na ponta da língua, falou tudo muito rápido.
—Balas de menta?
—Por favor, não posso viver só de cocos. E além do mais, meu pai é Netuno caso tenha esquecido. Eu sairia de lá a hora que quisesse.
—Ah. Verdade.
Ele sorriu suavemente. Parecia ter esquecido que tivemos uma discussão agora há pouco.
—Mais alguma coisa?
“Nossa” pensei. Olhei para o lustre, tentando decidir o que viria em seguida. Era tanta coisa que eu queria dizer, tanta coisa me corroendo por dentro. O que era o Reformatório, exatamente? O que ele quis dizer com “Vai depender de você”? Elijah estava certo sobre ele?
—Se arrepende de alguma coisa?
Ele me deu um sorriso torto, descontraído. Dessa vez, novamente, soube exatamente o que responder.
—Je ne regrette rien— falou baixo, olhando diretamente em meus olhos – Não me arrependo de nada.
Não sei o que foi: o francês, o jeito como ele me olhava, ou a referência que notei em sua resposta sobre termos nos conhecidos, mas senti vontade de beijá-lo. Meu peito estava frio quando abri a boca, sem saber o que dizer, e o celular em cima da mesa tocou. Isaac resmungou alguma coisa e atendeu o aparelho.
-Que foi?
—Ai, como você é chato!— ouvi a voz de Sierra gritando do outro lado da linha. Ela parecia ao mesmo tempo indignada e amedrontada – A Daya está aí?
Isaac me olhou pelo canto do olho. Assenti e peguei o celular que ele estendia para mim.
-Oi.
-Daya? Graças aos deuses— me sobressaltei na cadeira e levantei automaticamente ao ouvir a voz de Callum. Fui ao outro lado da biblioteca com passos largos e sentei-me em uma mesa atrás de uma prateleira. Empurrei um livro e espiei pela brecha: Isaac havia voltado a ler seu livro, emburrado – Você está bem? Se machucou?
—Eu... Não, estou bem – mordi meu dedão, ainda observando Isaac. Mesmo de longe pude vê-lo resmungando consigo mesmo enquanto virava seu anel de prata.
-Olha, eu estive pensando... acho que eu deveria ficar aí com você.
-Você... espera, o que?
—Eu não confio nele— notei que Callum se referiu a “ele”, e não “eles” – Não quero que fique aí com ele por perto.
—Call, você está exagerando...
—Se eu não gostava dele antes, imagine agora! Fique sabendo que eu não esqueci de Nova Roma!
Fechei os olhos, liberando minha respiração devagar.
—Ele não é um estuprador... É só meu amigo.
-Por favor, Daya.
Suspirei, exasperada.
-Ok.
-Tudo bem, te vejo daqui a pouco — e desligou.
Pousei o celular em meu colo, meu rosto ardendo. Eu sentia o olhar de Isaac queimando minha nuca.
—Então é isso?
Sem olhar para ele estendi o celular atrás de mim.
-Somos só amigos, Isaac. Você devia se lembrar disso agora.
Ele não disse nada. Pegou o celular de minha mão e saiu com calma. Não bateu a porta da biblioteca, não gritou, não ficou bravo.
E por isso, encolhi minhas pernas contra o peito e chorei.
Eu sentia uma pressão leve em minhas costas, se movendo delicadamente.
Me remexi sob os cobertores, a voz masculina sussurrando meu nome. Afundei na superfície macia, o sussurro em meu ouvido. Então a voz finalmente gritou meu nome e me ergui, acertando a cabeça em algo duro.
—Ai!
—Call? — exclamei abrindo os olhos e esfregando a testa. Callum passava a mão pelo queixo, abrindo e fechando a boca — Ai meus deuses, desculpe!
—Tudo bem — ele disse, os olhos lacrimejando — Tenho quase certeza de que não foi por querer. Ou foi?
—Não — puxei-o para um abraço, deitando o rosto em seu pescoço. A pele estava fria, assim como os cabelos dele. Ele devia ter chegado há pouco tempo — Você demorou.
—Eu precisei fazer umas coisas antes.
Callum colocou a mão em meu rosto, e eu estava prestava a perguntar o que ele estava fazendo quando ouvi Isaac atrás de mim:
—Tem quartos lá em cima, sabiam?
—Não estamos fazendo nada — exclamei com raiva, olhando por cima do ombro. Isaac ergueu uma sobrancelha e foi para a cozinha.
—Não gosto dele — sussurrou Callum torcendo o nariz para outro garoto.
—Seria estranho se gostasse.
—Isaac!
—Só estou comentando — ele voltou com uma mão no bolso da calça e a outra segurando um copo cheio de água.
—Não começa.
—Mas eu não falei nada!
Revirei os olhos e Isaac sorriu, tomando um gole d'água. Call sentou do meu lado no sofá. Estávamos na sala de estar, alguns fios de luz passavam pela janela, mas eu podia ver através da cortina que já estava quase escuro lá fora. Eu havia ficado ali, horas atrás, esperando por Callum até que cedi ao sono.
—Querem ficar a sós? — perguntou Isaac, sério, a expressão enrijecendo. Ouvi ressentimento e amargura na voz dele.
—Não, tudo bem — segurei o pulso de Callum, antes que ele protestasse — Olha, eu acho que vocês deviam conversar...
—Não, obrigado, vou tomar um banho — Isaac deu as costas e subiu a escada. Fechei a boca e voltei-me para a mesinha de centro.
—Se eu pudesse, dava a mesma desculpa — resmungou Callum cruzando os braços.
—Ele é legal quando você o conhece.
—Pena que nunca vou saber se é verdade.
Suspirei me cobri com o edredom que estava no sofá. Porque eles tinham que se odiar? Pelo menos, se eu conseguisse fazê-los ficar juntos nem que por um minuto...
—Você devia fazer um esforço — murmurei olhando para ele com as sobrancelhas juntas. Tentei fazer minha melhor cada de dar pena — Vocês dois são importantes pra mim.
—Hm — Callum cruzou os braços e olhou para outro lado. Me ergui e beijei-o na bochecha.
—Faz isso por mim, ok?
Levantei-me, sem esperar uma resposta, e subi as escadas. Quando passei pelo corredor do segundo andar Sirena me chamou. Ela estava gesticulando para mim da porta do quarto. Desconfiada, me dirigi até lá.
—Que foi?
—A gente podia convencer Isaac a te levar junto.
—Não — falei automaticamente. A smples idéia de ir para uma boate me parecia repugnante. E, se minha mãe soubesse, eu estava morta.
—Porque? — Sirena colocou as mãos na cintura e ergueu uma sobrancelha — E o que você vai fazer aqui? Jogar Freecell com o Chris?
—Ouvi isso!
—Olha, é o seguinte — Sirena baixou a voz para que Christopher, do quarto ao lado, não ouvisse -, nós vamos para lá, fazemos o que temos que fazer e, se sobrar tempo, te pago uma bebida.
—Eu não bebo.
—Então aproveitamos a festa.
Fiz que não com a cabeça. Sirena revirou os olhos e agarrou meu braço, me puxando para a escada.
—O que você está fazendo?!
—Se você não quer se divertir, pelo menos me ajude com uma coisa.
Ela me arrastou até a biblioteca e me colocou sentada em um sofá. Depois saiu e voltou trazendo nos braços três pergaminhos grandes e seminovos.
—O que é isso?
—Um mapa — ela resmungou enquanto colocava um pergaminho em cada sofá, me obrigando a ficar de pé. Depois, com um movimento displicente da mão, os pergaminhos se abriram verticalmente, como paredes. Pontos nomeados se moviam pela réplica desenhada de Longo Island.
—Isso parece o mapa do maroto — murmurei impressionada enquanto girava nos calcanhares. No centro de um dos três mapas havia uma casa, legendada como “Reformatório” -, de Harry Potter e...
—Tudo bem, vou fingir que entendi — me interrompeu Sirena. Com outro movimento da mão os três mapas ampliaram, e todos formaram um único prédio quadrado e amplo onde muitos pontos se moviam freneticamente — Erik Gustav — ao dizer isso, um único ponto, isolado dos demais, piscou em vermelho.
—Ele está aí? — a pergunta veio de trás de mim. Assim que me virei, meu rosto esquentou. Isaac se aproximava, a camisa preta desabotoada exibindo o abdômen delineado.
—Está — Sirena apontou para o ponto piscando — Na estufa, como sempre.
—Mais alguém importante? — Isaac começou a fechar a camisa e, inexplicavelmente, senti um pouco de desapontamento.
—Lieng também está aqui — Sirena respirou fundo e juntou as mãos, sorrindo de um jeito encantador para Isaac — Sabe, eu e Daya estávamos conversando...
—Não estávamos nada! — exclamei, fuzilando Sirena com o olhar. Ela fingiu não ver.
—... E achamos que ela deve ir. É que deve ser um saco ficar aqui sem fazer nada, e...
—Ela não vai.
—Obrigada...
—Mas Isaac, precisamos de mais ajuda!
—Ótimo, chame Júpiter, talvez ele colabore...
—Você não pode proteger ela pra sempre.
Sirena cruzou os braços, atingindo Isaac em um ponto sensível. Ele se virou para mim, com o olhar culpado.
—Você quer ir?
—Eu... — ia dizer que não, mas olhei por cima do ombro e vi Sirena assentindo, os olhos arregalados — quero...
Isaac suspirou, frustrado, e passou a mão no cabelo, encarando o ponto vermelho no mapa.
—Tá, mas você não vai sair da minha vista — então ele se virou e saiu da biblioteca.
Sirena soltou um gritinho entusiasmado e pegou meu pulso.
—Vamos logo, eu tenho o vestido perfeito pra você!
Puxei a barra do vestido, totalmente desconfortável. As mangas de renda penicavam meus braços e clavícula, e o comprimento era simplesmente desrespeitoso.
—Você já se vestiu ou não!?
—Já! — Gritei com raiva. Me olhei no espelho grande mais uma vez. Sirena me dera um vestido preto curtíssimo no estilo tomara que caia, mas, depois do decote do vestido, havia uma continuação em renda que cobria meus braços e clavícula. Fechei o zíper nas costas com esforço e saí do banheiro.
Sirena ergueu uma sobrancelha, olhando meu reflexo no espelho da penteadeira.
—Você é menos tábua quando não está com roupas largas, sabia?
—Puxa, muito obrigada.
Sirena se levantou da cadeira rosa. Ela estava com um vestido branco, mais curto que o meu, que aparentava ser de couro. A maquiagem dela já estava pronta, com um batom tão vermelho que parecia sangue.
—Senta aqui — ela disse me empurrando pelos ombros e me virando de costas para o espelho. Quando ela foi passar o delineador afastei a cabeça.
—Dayannya!
—Desculpe — fechei os olhos, relutante, para ela começar a maquiagem — Eu não me dou muito bem com isso.
—Aposto que já fez isso antes — senti o rímel gelado em meus cílios — Sabe, se produzir.
—Na minha formatura — abri os olhos e pisquei com força. Nunca gostei daquilo. Meus cílios ficavam pegajosos e pesados demais. Torci o nariz ao lembrar da minha noite de formatura, quando fui enganada por Anabel Genkies de novo.
Eu estava guardando minhas coisas no armário, nem pretendia ir à festa, quando Logan Sanders foi falar comigo. Eu gostava dele desde o sétimo ano e, quando pediu para ir ao baile comigo, nem pensei duas vezes ao dizer sim. E quando cheguei lá, encontrei ele e Annie se agarrando à um canto.
—Daya, está me ouvindo?! — gritou Sirena me livrando daquelas lembranças — Terminei!
Então eu percebi que já estava de frente para o espelho. Perdi o fôlego ao me ver competente diferente. Sirena havia dado um jeito de deixar o meu cabelo menos armado, os cachos quase negros estavam perfeitos. A maquiagem não era tão pesada, o batom claro deixava meus lábios mais vermelhos que o normal.
—Nossa.
—Pois é, né — Sirena colocou as mãos em meus ombros e deitou o queixo ali — Nossa borboletinha finalmente saiu do casulo.
—É tão estranho — murmurei franzindo a testa — Não parece eu.
—Isaac vai ter trabalho hoje.
Me permiti um riso nervoso e sai do quarto com Sirena. Elias estava ali no corredor e pregou os olhos em mim assim que coloquei uma perna para fora do quarto.
—Santo Pã...
—Tenha mais respeito, garoto — repreendeu Dakota ao lado do sátiro. Ele afivelava o cinto, prendendo sem querer um pedaço da camiseta cinza.
—Porque? — Elias apontou para mim — Ela é gata!
—E já tem dono — Dakota piscou para mim e revirei os olhos — Lembre-se disso.
Descemos as escadas e fiquei ligeiramente surpresa. Callum estava sentado no sofá e Isaac se encontrava apoiado na porta que levava a garagem, os dois de cara fechada. Bem, ficarem juntos no mesmo cômodo sem discutir já era um progresso.
—Isso não é bom — disse Callum se levantando e vindo ao meu encontro — Quero dizer, é bom, mas...
—Call, já entendi — falei rindo. Callum exitou por um segundo, então me beijou rapidamente.
—Já se despediram? — perguntou Isaac, os braços cruzados. Gael estava sentado aos seus pés, olhando Callum daquele jeito ameaçador.
—Cala a boca — resmungou Callum. Isaac apenas sorriu de lado — E é melhor você tomava cuidado, é só pra tomar conta dela. Lembre que ela está comigo.
Isaac deu de ombros, se virando para entrar na garagem.
—Beijei ela primeiro — murmurou em meio a uma tosse fingida.
—Já vi ela de biquíni — Callum me beijou mais uma vez, querendo deixar bem claro que estávamos juntos e subiu a escada. Isaac ergueu uma sobrancelha, me olhando de cima a baixo, parecendo notar pela primeira vez o que eu estava usando. Pensei ter visto um sorrisinho estampado em seu rosto antes de sair.
—Testosterona — murmurou Sirena para mim quando fomos para a garagem. O portão já estava aberto. Isaac inspecionava uma moto preta e Dakota abria a porta de trás da picape para Gael, que pulou lá para dentro. Sirena sentou-se no banco do passageiro, me deixando sem lugar.
—E eu? — perguntei quando vi que não havia mais espaços vazios no carro, já que Gael ocupava toda a parte de trás.
—Você vai de moto — disse Sirena antes que Dakota acelerasse o carro e eles saíssem noite adentro.
—Ah, só pode estar brincando — resmunguei. Isaac parecia conter um sorriso enquanto montava na moto, que roncava suavemente.
—Não precisa vir se não quiser.
Meu rosto esquentou. Resmungando o quanto todos eram uns idiotas, me sentei atrás dele. Não era a minha primeira vez em uma moto, já andei em uma com Jordan, mas aquilo era totalmente diferente. Ali eu estava muito desconfortável, o vestido curto subiu alguns centímetros em minhas pernas. Fazia um frio imenso ali fora, meu corpo começou a ficar dormente.
—Vai devagar — pedi.
—Vou pensar no seu caso.
—E não conte para a minha mãe.
Ele olhou por cima do ombro, sorrindo de um jeito preocupante.
—É melhor se segurar.
Só tive tempo de me agarrar a ele antes que acelerasse.
Fale com o autor