O vento castigava minhas pernas e meu rosto, a única coisa ali que me aquecia um pouco era o corpo dele.

O ronco suave do motor me trazia de volta à realidade quando eu pensava que aquilo não estava acontecendo. O mundo passava como um borrão sempre que eu abria os olhos. Dei graças aos deuses quando Isaac parou em um sinal vermelho.

–Eu quero descer.

Senti ele rindo. O coração dele batia acelerado sob a minha mão pousada em seu peito. Meus braços tremiam quando escondi o rosto entre suas omoplatas, sentindo o perfume discreto que ele usava.

–Você acaba se acostumando.

–Não tenho o mesmo espírito sedento por aventura que o seu.

Isso fez ele rir um pouco mais. Era bom ouvir aquilo, tentar esquecer a cara de desprezo dele quando descobriu que eu e Callum estávamos juntos. Éramos só amigos, e, ultimamente, eu também tinha que me lembrar disso a toda hora.

–Estamos quase chegando — ele disse quando o semáforo ficou amarelo — Na volta você pode ir de carro.

Assenti, mesmo que ele não pudesse ver e o apertei. A moto disparou pela rua, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem. Fechei os olhos, respirando fundo. Ouvi um carro passar do nosso lado e estremeci ao pensar que poderíamos bater, ou então tombar...

Então, com uma guinada de parar o coração, ele estacionou. As batidas de uma casa noturna retumbavam em meus ouvidos, como um coração gigante. Abri os olhos; estávamos no estacionamento de um grande prédio, pintado de preto. Na entrada ampla com cortinas vermelhas a palavra “Oblitus” iluminava toda a rua.

Isaac desceu da moto e desci também, um pouco tonta. Acabei tropeçando na sarjeta e ele segurou meu braço, rindo. Sirena tinha me dado um par de saltos pretos que não estavam colaborando em nada, a não ser deixar meus pés doloridos. Com eles, minha cabeça batia uns poucos centímetros abaixo do ombro de Isaac.

–Você está bem?

–Acho que eu vou vomitar...

–E ainda nem bebeu! — Dakota vinha em nossa direção, com Sirena ao lado. Gael correu até mim, parecendo sentir meu mal estar — Chegaram agora?

–Acabei de parar — Isaac me ajudou a endireitar e minhas pernas torceram um pouco, tentando se manter firmes sobre os saltos.

–Quer uma pílula para enjôo? — Sirena se acabava de rir. Eu me sentia um daqueles brinquedos que quando apertavam o botão o boneco em cima desmontava.

–Eu já te digo onde enfiar a pílula — depois me virei para Isaac — Nunca mais me coloque nessa porcaria.

–Você quem sabe — ele me pegou pelo pulso e me arrastou até a entrada da boate. Um bando de bêbados na calçada assobiou quando viram a mim e Sirena. Isaac cerrou os punhos — Fique perto de mim, ok? Não saia de onde eu possa te ver.

–Tá — torci o nariz quando o cheiro de cerveja e álcool veio até mim. Me senti ainda mais nauseada — Eu não pretendo me afastar mesmo.

–Não se esqueçam! — murmurou Dakota vindo atrás de nós — Se algo acontecer, gritem! Mas tem que ser um grito diferente, tipo:... — ele limpou a garganta e deu um grito agudo, como uma mulher à beira da morte sendo torturada em um porão com péssima acústica.

Isaac sorriu um pouco e parou em uma fila que andava rapidamente.

–Isso pareceu uma Gayvota.

–Faz melhor...

–Isaac! — gritou uma ruiva na entrada da boate. Ela usava um vestido rodado verde musgo, da mesma cor dos olhos. As veias em seu braço tinham um tom anormal de verde. Isaac me puxou até lá.

–Oi, Rose — Isaac me soltou e abraçou a ruiva, que beijou-o no rosto. Alguma coisa faiscou em meu peito.

Pagarreei quando eles se soltaram e a tal Rose sorriu encantadoramente para mim.

–Dayannya, não é? — ela estendeu a mão para mim, as unhas perfeitas e redondas brilhando em vermelho — Isaac me falou muito de você.

Estendi a mão, relutante. Isaac havia falado de mim? Quando? Eles estavam namorando?

–Olha, docinho — Rose se virou para Isaac ao dizer isso. Imaginei minha mão estalando em sua cara -, eu esperaria um pouco para falar com o Erik. Com o Lieng aqui, ele está tendo alguns problemas. Oi, Dake! — ela acenou para Dakota e Sirena que entraram na boate dizendo que conversaram mais tarde. Gael se postou do lado. Os homens que até então gritavam coisas insultantes para mim calaram a boca.

–O que ele está fazendo aqui?

–Ah, sabe como é. Gosta de trazer os seus brinquedinhos aqui e importuna as outras garotas. Ele levou cinco garrafas de whisky lá para cima, sem pagar.

–Você sabe se ele ainda está com Licáon? — Isaac se aproximou mais de mim quando um garoto de olhos amarelo encarou-me em um lugar particularmente íntimo.

–Acho que sim — Rose apoiou-se na parede, distraída, e ramos de roseira brotaram nas rachaduras em volta — Você sabe que ele criou um bando para si próprio, não sabe? Licáon ficou com raiva por isso, mas já deve ter aceitado ele de volta.

–Vou ter que estragar a festa dele — Isaac sorriu e pegou minha mão novamente.

–Argh, espero que ele nunca mais volte — Rose revirou os olhos, se voltando para mim — Boa sorte com tudo o que está acontecendo.

–Ah... Valeu — murmurei e passei pelas cortinas vermelhas com Isaac. As batidas ali dentro eram ensurdecedoras, o cheiro de flores misturado ao suor dos muitos corpos juntos, enjoativo. Quando olhei para cima vi meu rosto refletido no teto espelhado, perdido em meio a muitos outros. Nos esprememos entre as pessoas que se afastavam ao ver o tridente negro no antebraço de Isaac. Notei que muitos tinham chifres, presas, e cores estranhas. Outros eram completamente normais — Então... — gritei para Isaac por cima do barulho — Você e Rose...

–Ela é uma amiga — respondeu Isaac em meu ouvido. Finalmente saímos da concentração de corpos e fomos em direção ao bar quase vazio. Inspirei com força o ar quase puro, meu pescoço suava deixando meu cabelo grudado — Só isso. Está com ciúme?

–Você está com ciúme de de mim e Callum? — perguntei sentando em uma cadeira alta do bar. Ele torceu o nariz e franziu a testa — Pois é.

–Isaac? — me sobressaltei ao ouvir a voz grossa e retumbante atrás de mim. Quando me virei quase tive um enfarte e meu pescoço estalou ao erguer a cabeça para olhar nos olhos do homem que sorria atrás do balcão. Ele devia ser, no mínimo, um metro maior que Isaac. Os bíceps negros e musculosos eram cobertos por tatuagens tribais de diferentes cores. Um piercing de ouro brilhava em seu nariz, assim como a careca negra e reluzente — Não esperava te ver aqui de novo — O homem cruzou os braços sobre o balcão e os músculos do peito saltaram sob a regata impecavelmente branca.

–E eu não esperava que você continuasse como barman — Isaac arqueou as sobrancelhas e o homem riu muito alto. Eu não sabia o que era pior; ele ou a música ensurdecedora — Pensei que fosse virar segurança.

–Ah, sabe como o Erik é. Prefere aqueles franguinhos na segurança porque eu poderia causar prejuízo — o homem virou os olhos de contas para mim e afundei no banco — Quem é a moça?

–Uma amiga minha. Aquela que está causando problema com os lobisomens.

–Nossa, Isaac, cala essa...

–Ah, Dayannya! — o homem bateu na própria testa. Um copo ali perto pareceu tremer — Agora me lembrei. Bem, é um prazer te conhecer, querida. Meu nome é Ajax.

Tentei sorrir, mas estava hipnotizada pelos braços enormes dele.

–Vão querer a dose agora? — perguntou Ajax pegando uma lata de cerveja e entregando para um rapaz sentado a dois bancos de distância.

–Dose? Que dose? — murmurei quando Isaac disse que sim e, em seguida, guardava dois fraquinhos de cristal entregues por Ajax.

–Depois de explico — ele respondeu — O Erik está livre?

–Agora está, mas não sei se vai querer ver alguém.

–Com certeza ele vai querer me ver — Isaac colocou a mão em meu ombro e desci do banco, arrumando o vestido. Ajax não pareceu muito convencido — Obrigado pela dose grátis, Ajax.

–Você é o meu pupilo favorito, sabe que pode pedir qualquer coisa.

Isaac sorriu e me puxou de volta para a multidão. Percebi que Gael havia sumido.

–Isaac, espera — apertei a mão dele e paramos. Olhei a minha volta, mas o lobo não se encontrava em lugar algum — Cadê o Gael?

–Deve estar com o Dakota — Isaac franziu o cenho, visivelmente preocupado — Vamos, depois procuramos eles.

Deixei que eles me arrastasse e voltamos a caminhar em meio às pessoas. Duas vezes meu pé foi pisado e recebi vários olhares de aprovação. Eu não estava gostando daquilo. Nem um pouco.

–Isaac, eu quero ir embora.

–Eu prometo que você nunca mais vai voltar aqui, ok? Só vamos falar com Erik, talvez com Lieng, e então vamos embora.

–Quem é Lieng, exatamente? — perguntei depois de um minuto. Tínhamos chegado ao pé de uma escada estreita e escondida nas sombras.

–Lembra daquela noite no beco, quando você me viu matando um lobisomem?

–Como eu poderia esquecer...

–Então, se lembra de que estávamos perguntando sobre o chefe daquele cara?

–Ah... Lembro.

–Pois é, Lieng era o chefe dele. E ele roubou um vaso do Reformatório.

Minha risada ecoou na escada.

–Um vaso?

–Era muito importante para a Sarah — Isaac colocou a mão sobre o peito e balançou a cabeça devagar. Ri de novo, meu peito doendo por causa da quantidade de degraus. Quando finalmente chegamos ao topo, eu tive vontade de voltar.

Vários casais se encontravam encolhidos nos cantos, rindo e se agarrando.

–Vem — Isaac colocou uma mão em minhas costas e me empurrou pelo corredor, batendo em uma porta no final.

–Quem é? — gritou uma voz rouca e com sotaque de lá de dentro.

–O coelhinho da Páscoa.

A porta se abriu e um senhor colocou a cabeça para fora.

–Ah. É você.

–Quem você esperava? — Isaac entrou me levando junto, sem esperar permissão do homem. Estávamos em uma grande estufa cheia de prateleiras, muito maior que o porão do senhor Martinez. O lugar era tão verde e tão cheio de plantas que parecia uma floresta. Havia até uma pequena árvore frutífera.

–O coelhinho — o homem fechou a porta. Olhei direito para ele. O cabelo branco era curto e espetado, com alguns fios cinzas e pretos. Ele usava um tapa-olho preto e gasto. Por baixo do tapa-olho havia uma grande cicatriz rosada, começando na bochecha e terminando na sobrancelha. Ele usava um bonito terno cinza, uma rosa branca na lapela. O olho descoberto era azul gelo e parecia alegre.

–Que pena, né Erik? — Isaac começou a examinar as prateleiras. Havia frascos, vasos de barro e torrões grandes de terra sem suporte, de onde saiam trepadeiras grossas e escuras.

–O que quer, Belcourt? — Erik riu, cruzando os braços. Supus que o sotaque dele fosse russo.

–Ainda tem erva de lobo?

–Erva de lobo? — exclamei antes que pudesse me refrear. Isaac me olhou de esguelha e deu um sorrisinho, voltando a atenção em abrir prateleiras. Erik ergueu as sobrancelhas, parecendo só agora me dar a devida atenção.

–E quem seria a senhorita?

–Ah... — olhei rapidamente para Isaac. Ele me observava distraído — Dayannya... — engoli em seco — Garcia.

–É um prazer, conhecer uma jovem tão bela — Erik pegou minha mão e a beijou. Meu rosto ferveu — Finalmente Isaac teve o bom senso de reconhecer uma boa moça.

–Erik, seu velho galanteador!

–Bem, garoto, não posso perder uma chance! Já estou velho.

–Acho que você não faz o tipo dela — Isaac se ergueu e bufou — Não quando ela passa o dia inteiro comigo.

–Isaac!

–Perdão — ele sorriu com as mãos na cintura. Havia um risco de terra em seu queixo — Então, Erik, a erva.

–Você sabe que sou um homem de favores.

–Ouvi dizer que Lieng anda atrapalhando os negócios.
Erik cruzou os braços, inspecionando o filho de Netuno com seu olho claro.

–Não sei que quarto ele pegou — ele disse por fim, erguendo os braços em sinal de rendição — Lieng nunca me conta.

–Se me der a erva eu posso encontrar ele, e fazer com que nunca mais volte. Vamos nos ajudar mutuamente.

Erik suspirou, vencido.

–Tudo bem. Segunda prateleira à direita. A minha direita. Tem um frasco na terceira porta.

Isaac foi até lá, revirando a terceira porta de uma pequena estante, atulhada de raízes.

–Como se conheceram? — perguntou Erik para mim, com suspeito interesse. Notei que eu olhava para Isaac, totalmente perdida em pensamentos.

–O que? Ah... Atrás de uma lanchonete.

–Hum — o russo ergueu uma sobrancelha, impressionado — E estão apaixonados desde então?

–Apaix... Não, você se enganou, nós não estamos... — engasguei ao dizer a última palavra. Eu sussurrava tudo para Isaac não ouvir — Namorando.

–Ah, claro — Erik tinha um sorriso rasgado nos lábios — Tolice a minha.

–Achei! — Isaac se levantou, desarrolhando um potinho de vidro que continha um monte de folinhas parecidas com orégano — Vamos, Daya. Ah, e Erik, dê uma promoção ao Ajax.

Antes de sairmos da sala, Erik murmurou em meu ouvido:

–Boa sorte com ele.