Filha de Apolo - Lights
7 Problema
Sentei-me na cadeira de frente para a mesa e esperei, enquanto Sarah anotava alguma coisa em um caderninho de couro branco.
–Então – ela fechou o caderno com força, e me assustei com o movimento repentino -, como você tem seus poderes?
–Hã... – eu não queria responder a pergunta dela. Nos conhecíamos há pouquíssimo tempo, ela não tinha o direito de saber – Eu... Eu não sei.
–Não sabe? – Ela ergueu uma sobrancelha, me questionando – Pelo que me disseram, Héstia te mostrou alguma coisa. E não acho que tenha feito isso a toa.
Senti o sangue subir para o meu rosto. Até aquele momento, pensei que pudesse confiar em Isaac.
–Talvez tenha – dei de ombros, me esforçando ao máximo para não sair dali e ir dar um soco em Isaac, por ele ter contado isso a ela. Ele era o único que sabia o que acontecera – Nunca saberemos o porquê dos deuses fazerem o que fazem.
Sarah suspirou e levantou-se, pegando um livro numa prateleira. Quando voltou, ela abriu o livro e começou a procurar alguma coisa.
–Não adianta – resmunguei – Não tem nada sobre o amuleto nos... – mordi a língua quando percebi que havia falado demais.
Ela fechou o livro e pude ver o título: Romeu e Julieta. Ela me enganara.
–Então tem um amuleto? Que tipo?
Dei de ombros novamente. Ela não parecia ser uma má pessoa, pude ver isso nos olhos dela. Mas quanto menos soubesse, melhor.
–Dayannya, por favor! – Ela estava suplicante agora – Preciso que me ajude quanto a isso, é perigoso que fique em sua casa sem supervisão. Se soubermos o que acontece, vamos poder proteger você.
Olhei a minha volta por alguns instantes. Havia sentido falta da biblioteca, do seu clima aconchegante e da beleza que ela continha, com o lustre enorme e as pinturas no teto. Parecia que as constelações ali se moviam, como as no palácio do Monte Olimpo.
Depois de pensar um pouco, contei a ela tudo o que acontecera, desde quando descobri o fogo, até as visões que Héstia me mostrara. Também inclui o fato de que o fogo não aparecera mais.
–Então não usou seus poderes durante duas semanas? – Ela perguntou e assenti. Sarah passou a mão pela testa e discou um dos números anotados em um papel amarelo colado ao telefone fixo.
–O que você vai fazer? – Perguntei assustada, enquanto ela abria o caderninho com uma mão e segurava o telefone com a outra.
–Informar os outros Reformatórios. Vamos precisar de ajuda para encontrar Licáon.
–Eu não sabia que existiam outros Reformatórios – murmurei. Na minha cabeça, aquele em Long Island era o único, como algum tipo de casa temporária para rebeldes.
Sarah sorriu e anotou algo no caderno.
–Somos uma superpotência militar, assim por dizer. Temos Reformatórios pelo país todo, e alguns fora dos Estados Unidos – ela ergueu a cabeça e sorriu mais – Somos tão fortes quanto o Acampamento Júpiter.
–Então... quantos semideuses foram exilados do acampamento?
–Nem todos são exilados – ela fechou o caderno, dessa vez com mais delicadeza, e suspirou quase que aliviada – Mas se quiser saber mais, pergunte para os garotos. E Isaac vai ter tempo de sobra para te responder qualquer coisa.
“Duvido que algumas coisas ele queira me responder” pensei comigo mesma, aquela sensação de aborrecimento me invadindo novamente.
–Ah, e falando nele, Isaac é responsável por você agora. Então você não pode sair daqui sem o consentimento dele.
Se eu estivesse bebendo água, teria cuspido tudo nela.
–O que? – Exclamei apavorada, o aborrecimento dando lugar ao assombro. Isaac não tinha o direito de decidir o que eu podia fazer ou não.
–Sei o que está pensando – Sarah tirou o telefone da orelha e pousou-o sobre a mesa -, mas ele está encarregado de te proteger a todo custo e se você estiver longe daqui ele não vai poder fazer isso.
Senti meus braços e pernas ficando moles, e com certeza minha expressão era de alguém que estava caindo de um penhasco. Quer dizer, eu não queria ter que simplesmente obedecer à Isaac, eu não teria liberdade alguma com isso.
–Você está liberada agora – Sarah pegou o telefone de volta e fez um gesto para que eu saísse.
Levantei-me um pouco zonza e saí da biblioteca, parando no corredor para respirar. A porta do quarto de Isaac estava aberta, e ele não estava lá dentro. Desci devagar as escadas e me encontrei no segundo andar da casa. O corredor era tão longo quanto o de cima, porém havia menos portas alí. De uma delas vinha uma música melosa, e várias placas de “Não perturbe” e “Garotos são proibidos, dependendo do tipo” estavam coladas a porta. Com certeza era o quarto de Sirena.
Me aproximei e bati na porta. O volume da música abaixou e ouvi Sirena dizendo, com uma voz abafada, que eu podia entrar.
Entrei e a primeira coisa que fiz foi tirar a mão da maçaneta da porta do lado de dentro. Por pouco eu não encostei no sutiã pendurado ali.
O quarto era pintado de um roxo escuro, com várias lâmpadas redondas embutidas no teto, junto às paredes. A cama do outro lado do quarto estava arrumada, porém com um monte de roupas em cima dela, incluindo sapatos. Encontrei pelo menos mais dois sutiãs pendurados por alí.
–Vai ficar aí de pé? – Perguntou Sirena, e levei um susto quando lembrei que ela estava no quarto. Ela estava retocando o batom rosa em frente a penteadeira lotada de maquiagem. Entrei no quarto e fechei a porta. Reconheci a música como uma da Paramore, uma banda que eu escutava pouco.
–E então? – Sirena virou a cadeira rosa shocking e ficou de frente para mim de pernas cruzadas – Quanto tempo, hein? Andou fazendo o que?
–Nada de especial – murmurei me sentando em um espaço vazio da cama.
–Você é especial – ela voltou a atenção em tirar a sobrancelha – Lembre-se disso.
–Uhum... então... o que aconteceu?
–O que aconteceu o que?
–Você queria falar comigo por algum motivo.
Ela fez um gesto dispensando o assunto.
–Nada de mais. Só colocar a conversa em dia.
–Ah – olhei a minha volta. O quarto era do mesmo tamanho que o meu, porém mais iluminado e lotado de roupa. Na janela, havia pesadas cortinas de um lilás claro, e o guarda roupa transbordava vestidos muito curtos e mais lingeries – Seu quarto é bonito.
–Não precisa ser legal, sei que tenho que arrumar – ela sorriu – E além do mais, quero mudar a cor. Enjoei de roxo.
–Porque é tudo roxo? Alguma coisa a ver com o acampamento?
–Na época que pintei tinha. Sou uma daquelas garotas que quer tudo a ver com o que gosta – ela fez um biquinho e arqueou as sobrancelhas, se examinando no espelho – Mas agora não gosto do acampamento. Eles não gostam de mim. Então não gosto de roxo.
Sorri e um pôster me chamou a atenção. Era de um ator que eu e Sierra gostávamos. Lembrar de Sierra fez eu me sentir um pouco mal, já que ela queria sair comigo e arrumei uma desculpa para não ir. E agora, eu tinha deixado tanto ela quanto Jordan no vácuo.
–O que foi? – Perguntou Sirena me tirando de meu devaneio.
–Nada – murmurei querendo mudar de assunto. Dei mais uma olhada no quarto e vi a foto de um rapaz bonito presa na moldura do espelho – Quem é ele?
–Meu namorado – ela disse passando rímel – É só passageiro.
–Como você faz isso?
–Isso o que?
–Arrumar um namorado e dispensar ele um tempo depois.
–Ah, não é nada de mais – ela terminou de passar o rímel e retocou o batom de novo – Na verdade, é legal. Você conhece novas pessoas.
Eu achava aquilo horrível, mas resolvi não comentar.
–Você devia tentar – disse ela depois de uns segundos.
–Eu não consigo – franzi a testa.
–Porque não? – Ela exclamou parecendo espantada.
–Porque precisa ser pelo menos bonita pra conseguir um namorado.
–Mas você é bonita.
–Não, Sirena, você é bonita e eu... – suspirei melancólica – eu sou uma batata.
–Uma batata que chama muita atenção – ela se levantou e ergueu meu queixo, analisando meu rosto.
–É, só que eu não chamo atenção.
–Mais do que pensa, minha pequena – ela sorriu e soltou meu queixo – Pelo menos, conheço alguém que só tem os olhos voltados para você.
Meus pensamentos voaram por duas possibilidades, mas apaguei-as tão rápido quanto vieram.
Sirena pegou o celular em cima da penteadeira e estendeu para mim.
–Liga para aquela sua amiga.
–Sierra? Porque?
Ela revirou os olhos, como se a resposta fosse a mais óbvia possível.
–Noite das garotas – ela me olhou de cima a baixo e torceu o nariz – Você precisa de uma repaginada.
–Ei! – Exclamei indignada enquanto tomava o celular da mão dela. Encarei a tela preta por uns momentos, pensando no que dizer à Sierra.
–O que foi? – Sirena perguntou um pouco preocupada – Esqueceu o número?
–Não, eu só... – balancei a cabeça em negativa e disquei o número.
Só então que eu me lembrei que, se eu quisesse sair daquela casa, teria que pedir para Isaac.
–Vocês não vão a lugar nenhum! – Isaac parecia estar dando o seu máximo para não gritar.
Depois que expliquei a Sirena a minha situação, fomos falar com Isaac. Ele estava na sala de treinamento com Dakota, Chris e Gael praticando luta corporal. Quando ele apareceu na porta, fiquei surpresa ao perceber um hematoma escuro em seu pescoço e braço. Os bíceps brilhavam levemente de suor, mas tentei ignorar esse fato, assim como os olhos azuis me observando atentamente desde que dissemos que íamos sair.
–Por favoooor! – implorou Sirena, com as mãos juntas em uma suplica.
–Não – os olhos dele se voltaram para mim novamente – Porque você quer sair?
–Porque eu não posso passar o resto da minha vida aqui, diferente do que você pensa – exclamei, liberando parte da irritação que sentia. Ouvi um assovio de aprovação, vindo da sala de treinamento.
Isaac entreabriu os lábios, mas parecia que não tinha ideia do que dizer. Ele franziu a testa e encarou Sirena. Pelo jeito não era sempre que alguém o deixava sem palavras, e quando isso acontecia, ele não sabia o que fazer.
–Você ouviu o que ela disse – Sirena colocou as mãos na cintura e arqueou as sobrancelhas.
–Daya, eu sei que você não pode passar a vida toda aqui – ele se apoiou no batente da porta e passou a mão na testa, contendo um suspiro -, mas preciso que continue aqui para que eu possa ficar de olho em você! Você é como um... Imã para problemas!
–Muito obrigada pelo elogio – resmunguei cruzando os braços.
–Dayannya...
–Só deixa a gente ir – Sirena bateu na própria perna, irritada.
Isaac olhou dentro dos meus olhos e fez uma pergunta silenciosa: “Promete que vai ficar bem? ”. Assenti em um movimento singelo, porém ele notou. Ele puxou Sirena pelo braço e a segurou firme.
–Se ela se machucar, juro que degolo você. – murmurou, os olhos azuis intensos. Sirena assentiu freneticamente e ele a soltou.
–Você é sempre tão dramático – ela pegou meu pulso e me puxou em direção as escadas.
No meio do caminho, olhei por sobre o ombro e, sem emitir som, movimentei meus lábios em um “prometo”.
Virei o copo de suco nas minhas mãos, observando as gotículas que deslizavam pelo plástico frio e úmido.
–Ei, você está prestando atenção? – Sierra estalou os dedos em frente ao meu rosto e ergui minha cabeça.
Depois de ligar para ela, eu e Sirena a encontramos em frente a Macy’s. Ela estava usando um vestido branco com estampa de rosas vermelhas, e assim que me viu literalmente me arrastou para a loja que vendia a bota que ela mencionara mais cedo.
Ela e Sirena se deram super bem, e me deixaram pensando comigo mesma a maior parte do tempo. Agora, estávamos almoçando em uma lanchonete enquanto as duas falavam de roupas.
–Hã... – comecei tentando pensar em uma desculpa, mas não consegui – Não...
Sierra suspirou e mexeu no canudo do refrigerante.
–O que você acha de a gente ir no Lincoln Plaza?
Lincoln Plaza era um cinema perto do Central Park. Dei de ombros e concordei com a ideia. Estava sendo bom sair com as amigas.
Pagamos a conta e saímos da lanchonete – elas ainda falavam de roupas. O lugar não estava tão lotado de gente como era em um dia comum, mas mesmo assim estava meio complicado de se locomover direito.
Em frente à escada rolante – onde a concentração de consumidores era menor – havia uma mesa pequena, onde duas estudantes distribuíam folhetos de uma escola particular cara. Quando passamos perto da mesa, ouvi um barulho de metal. Olhei para a mesa, mas não havia nada metálico nela.
Sierra e Sirena pararam e olharam para mim confusas. Esperei mais um pouco e, quando uma das garotas mudou de posição, ouvi o tilintar novamente.
–Tem alguma coisa errada – disse quando minhas amigas chegaram mais perto e perguntaram o que estava acontecendo – Elas não são estudantes.
Então uma voz feminina e arrogante veio detrás de mim, me causando arrepios.
–Você demorou para perceber.
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