*Isaac*

Esperei a porta da frente se fechar e voltei à sala de treinamento.

–Você não está pensando em ir atrás delas – Chris arrumou os óculos sobre o nariz sardento – Está?

–Acha mesmo que vou deixar a Sirena tomar conta da Daya? – peguei uma blusa pendurada ao lado do suporte de armas e a vesti, sem colocar o capuz.

–Você poderia colocar um pouco de confiança nela – disse Dakota. Nos encaramos por um momento antes de começarmos a rir – Ok, eu entendo sua preocupação, mas elas são garotas. Precisam de um tempo só para elas.

–Eu sei, não vou interferir – fechei o zíper da blusa depois de guardar minha faca de caça dentro dela – Só quero me certificar de que elas vão estar seguras.

Chris abriu a boca para dizer algo, mas pareceu mudar de ideia. Gael, que estivera dormindo perto dos pesos, se espreguiçou abanando o rabo e veio saltitar em volta das minhas pernas.

De repente senti aquele frio na barriga de quando você sabe que está fazendo alguma coisa errada, porém não liga para as consequências. É quase como uma ansiedade angustiada.

–Vou com você – Dakota colocou o cabelo comprido atrás da orelha e também pegou uma blusa – Para garantir que não vai se meter em encrenca.

Sorri e arqueei uma sobrancelha.

–Você só vai por causa da sua amiga – falei com suavidade. Aquilo era um assunto delicado para ele, já que a amiga era a Sierra. Os dois estavam saindo há uma semana e eu era o único que sabia. Pelo que entendi, a Sierra terminou com o namorado porque ele era pegajoso demais.

–Não, eu vou porque você é um tonto – ele ia dar um tapa na minha cabeça, mas coloquei o braço na frente antes que ele acertasse – e vai acabar com o plano.

–Pra começar, o plano é meu.

–Exatamente.

–Vocês podem parar com isso? – Chris interferiu. Ele cruzou as pernas sobre o banco longo de madeira onde estava sentado e limpou os óculos na camiseta – Se vão sair tem que ser rápidos, ou a Sarah vai perceber.

–Se ela der por nossa falta, diz que fomos ao mercadinho da esquina – Dakota chamou Gael e os dois saíram da sala. Ouvi os passos pesados deles na escada.

Estava quase saindo quando segurei no batente da porta e voltei um passo.

–Chris?

–Hm? – ele ergueu o olhar para mim, um pouco vermelho.

–Valeu, cara – acenei com a cabeça e fui para o corredor. Antes de sair, notei que o rubor no rosto dele aumentara.

Desci as escadas de dois em dois degraus, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Quando cheguei lá embaixo, encontrei a porta que levava à garagem aberta. Dakota estava ligando o carro, e o portão cinza esverdeado subia silenciosamente, revelando a rua molhada e gélida, com seu tapete em bronze e dourado que eram as folhas caídas. No outono, aquela rua era uma das mais bonitas por causa das árvores e da quantidade de folhas que cobriam o asfalto. Em pouco tempo, a rua já estaria sendo decorada com abóboras do dia das bruxas e muitos cartazes de festas à fantasia.

Abri a porta de trás da picape e a fechei assim que Gael estava acomodado no banco. Sentei-me no banco do passageiro, ao lado de Dakota. O motor da picape roncou suave enquanto Dakota dava a ré e saia para a rua, o som das folhas secas sendo esmagadas sob as rodas do carro cobrindo o ronco do motor.

–Para onde elas foram? – Dakota perguntou com uma mão no volante e a outra procurando uma caixinha de balas que ele guardava debaixo do banco.

Suspirei e cruzei os braços, deitando minha cabeça no vidro embaçado.

–Manhattan.

–Sério? – ele colocou uma bala na boca e segurou o volante com as duas mãos – Eu já estou cansado de viajar de lá pra cá.

–Não pedi pra você vir comigo.

–Eu não tinha escolha.

Franzi o cenho e o medi de cima a baixo.

–Tinha sim – exclamei embravecido.

–Bem, então digamos que você é quem não tinha escolha.

Nos sentamos à uma mesa pequena perto de uma coluna, onde as garotas não poderiam nos ver.

Estávamos na Macy’s, e havíamos chegado bem depois delas. As três estavam almoçando em uma lanchonete e, como eu havia dito, íamos apenas garantir que nada de mal acontecesse a elas.

–Isso é um saco. – Resmungou Dakota depois de alguns minutos. Eu tinha manipulado a névoa para nos esconder, então assim ninguém – barra meninas escandalosas – viria falar conosco ou ficaria nos observando de longe – ou seja, as meninas escandalosas.

–Eu disse que não precisava vir comigo – murmurei passando as costas da mão na cabeça de Gael. Descobri que ele adorava isso.

–Podia ter mais ação, você não acha?

–São garotas, Dake. O que você esperava, que elas estivessem de maiô camuflado e saíssem por aí dando tiro de RPG em todo mundo?

Ele pareceu ponderar a ideia.

–É, seria uma boa.

Revirei os olhos.

–De inocentes passaram para terroristas.

–Não se esqueça do maiô, porque com ele elas seriam terroristas de topless.

–Maiô não é tecnicamente topless.

–Você entend... – ele próprio se interrompeu – Elas estão saindo.

Olhei para a entrada da lanchonete. As três estavam saindo, Sirena e Sierra mais a frente e Dayannya caminhando atrás, as mãos nos bolsos da calça. Vê-la de novo fez meu coração dar um salto, como sempre. Eu vivia sentindo a falta dela, mesmo que a tivesse visto há apenas uns minutos, e quando eu a encontrava de novo sentia um misto de dor, preocupação e nostalgia, assim como uma felicidade imensa.

Quando a vi no apartamento dela, assustada e confusa, senti um nó na garganta. Ela estava mais pálida do que eu me lembrava, e era como se todos os medos que eu via em seus olhos me afetassem.

Olhei de lado para Dakota e nos levantamos, seguindo elas de longe. Perto da escada rolante, Dayannya parou meio afastada de uma mesa, onde duas adolescentes distribuíam folhetos.

Ela parecia estar escutando atentamente alguma coisa, Sirena e Sierra com cara de quem não entendia nada. Pelo canto do olho vi outra garota se aproximar, alta e loira, parecida com a típica imagem de uma líder de torcida. Tive a impressão de conhecê-la de algum lugar.

Ela parou atrás de Dayannya e disse alguma coisa. As duas começaram a conversar, as faces de Dayannya ficando ruborizadas, o nariz ligeiramente franzido e os olhos brilhando impiedosos, porém ainda assim incríveis. Eu sabia que expressão era aquela. Vi nela muitas vezes. Pensei rapidamente em como ela ficava linda com raiva.

As duas meninas que estavam com os folhetos saíram detrás da mesa. Mesmo de longe pude ouvir o tilintar metálico e oco que faziam quando andavam.

–Isso não é bom – murmurou Dakota procurando com a mão a faca que havia pegado mais cedo.

–Espera – pedi segurando o braço dele – Quero ver no que vai dar.

Ele baixou a mão e me encarou espantado.

–Pensei que estivéssemos aqui para garantir que elas não se machucariam.

–E estamos. Mas briga de mulher faz bem pra alma, e quando a coisa ficar feia nós interferimos.

–Isaac, estamos falando de empousai! Não dá pra brincar com elas.

–Eu sei – respondi com calma, soltando o braço dele – Por isso que é tão divertido.

Então esperamos. As empousai eram como vampiras. Elas seduziam um cara, tomavam seu sangue e então comiam a carne – bem romântico – e além do mais, eram lindas. Menos quando se transformavam, a menos que alguém goste de pele branca como leite, e pernas desiguais: uma de burro e outra de bronze. Por isso o som de metal.

Depois que ouvi o som, me lembrei de quem era a loira, e não gostei nada de ter lembrado.

As empousai se transformaram. A loira, cujo nome era Gwen, parecia ser a líder. As garotas começaram a lutar, e fiquei ligeiramente impressionado ao ver Dayannya. Ela se movia ágil como uma gata, esguia e graciosa.

Estava observando tudo entretido, enquanto Dakota roía as unhas, quando Gwen conseguiu acertar Dayannya e esta bateu as costas em um pilar. As outras empousai seguraram Sierra e Sirena.

Estava na hora de intervir.

Olhei para Gael que estava pronto para atacar, os pelos das costas eriçados e as orelhas abaixadas. Os lábios estavam repuxados em um rosnado silencioso. Ele ergueu a cabeça, me fazendo uma única pergunta.

–Vai – mandei com calma.

E ele atacou, rápido como um raio negro.