Filha de Apolo - Lights
18 Pessoa Horrível
Respirei fundo e parei em frente a porta do meu apartamento.
Gael esfregou o nariz gelado na minha perna, os olhos dourados me observando atentamente. Ajoelhei-me à sua frente e mordi o lábio.
–Olha... Eu vou entrar e você vai me esperar aqui, está bem? Não sei se minha mãe vai aceitar bem esse negócio.
O lobo inclinou a cabeça, parecendo entender tudo.
–E se ela não ligar... — eu me senti minha mãe dizendo o seguinte:- Não suba no sofá, não se esfregue no tapete e não entre no quarto dela. Fique londe da cozinha.
Ele apertou os olhos, arreganhando um pouco os lábios: “E eu vou comer o que?”
–Você pode comer metade do meu almoço — comecei a me levantar e me lembrei de algo importante — Vou deixar um jornal no meu quarto. De manhã e à tarde eu posso te levar pra fora — coloquei a mão na maçaneta — Fique aqui.
Ele assentiu. Abri a porta e, assim que meus pés passaram pelo portal, fui atacada. Pela minha mãe.
–Você está me sufocando — gemi enquanto ela me apertava.
–Onde você estava? — ela me segurou pelos ombros, os olhos verdes arregalados. Sempre diziam que eu e minha mãe éramos bem parecidas. Cabelo cacheado e bem escuro. Nós duas éramos baixinhas e magras, e de costas havia pouca diferença. Mesmo que ela tivesse algumas rugas nos cantos dos olhos e o rosto mais cansado que o meu, eu a considerava muito mais bonita. Alguns cortes ainda prevaleciam em seus braços, mas eram imperceptíveis se eu não olhasse com atenção.
–A pergunta, Ellie, é com quem ela estava — disse alguém na direção da sala de estar. Olhei para lá de relance e vi Teo sentado em uma poltrona, um violão novo deitado em seu colo. O cabelo preto estava arrumado, pelo menos mais do que o normal. Os olhos azuis escuros dançavam divertidos pensando que finalmente eu tomara coragem para ir a uma festa de universitários — Não é mesmo, gatinha?
–Você devia ir logo atrás do seu homem — resmunguei. Eu gostava muito dele, mas as vezes ele era irritante — A fila tá andando, sabia?
–Dayannya — minha mãe estalou os dedos em frente ao mesmo rosto, puxando minha atenção para ela — Onde você estava? Eu fiquei preocupada, Jordan também quer saber o que você fez nesses dois dias!
Como eu ia explicar? Teo era mortal, eu não podia falar sobre deuses gregos que andavam por aí tendo filhos com mortais. Mas pensando bem, ele não iria ficar muito surpreso. O cara sempre teve umas crenças estranhas.
–Lobos — sussurrei, tomando cuidado para que só minha mãe ouvisse — Divindades ancestrais psicopatas. Isaac.
Ela fez um muxoxo. Minha mãe tinha uma espécie de radar para encrenca. Isaac não teve vista grossa. Ele simplesmente estava na lista de “Quem não pode ficar com minha filha. Ameaça total”.
–Conversamos mais tarde — ela olhou de lado para a mochila longa com o arco.
–Na verdade... — respirei fundo e contei toda a ideia de Gael ficar em casa para tomar conta de mim.
–O que? — ela arregalou os olhos, o rosto ficando com um tom avermelhado. Eu não imaginava que sua reação seria essa.
–Ele vai se comportar — prometi. Por dentro, eu queria mesmo que Gael ficasse ali comigo. Eu me sentia mais segura só de saber que ele estava por perto — Por favor, mãe. Se ele ficar aqui, pode me proteger de um ataque futuro.
–Ataque... — ela bufou exasperada, encarando o chão. Teo dedilhava o violão, parecendo querer nos dar privacidade — Tudo bem. Mas você vai...
–Eu sei, eu dou conta da titica — resmunguei e abri a porta. Gael está sentado bem na frente dela, a língua de fora e a cabeça enclinada para o lado. Parecia um cachorrinho esperando o dono lhe dar permissão para entrar em casa.
–Daya? — chamou Teo do outro lado do apartamento. Ele encarava o lobo com incredulidade — Porque você não está correndo e gritando feito uma menininha?
–Ele vai morar aqui agora — falei e Gael entendeu isso como uma deixa. Entrou com o nariz empinado como se estivesse em uma passarela, pisando no chão com todo o cuidado. Eu teria rido se não me sentisse em pedaços — É o meu cão de terapia. Pra eu perder o medo.
–Cão ou cavalo?
Gael desfilou até a sala e sentou-se no chão ao lado da poltrona velha onde Teo estava. O lobo ficou me olhando, convidativo, para que eu me sentasse no sofá ao lado da poltrona. Olhei rapidamente a sala. As paredes pintadas em um tom alegre de laranja claro contrastavam com o céu cinza que se via pela janela, a chuva escorregando pelo vidro e embaçando a vista de Manhattan. O aquecedor antigo, mas confiável, era a única coisa que nos impedia de congelar. Isso e a jaqueta de Isaac que eu estava usando, e já havia me esquecido. Minha mãe não fez nenhum comentário sobre ela.
–O único cavalo aqui é você — respondi me sentando no sofá de frente para a janela, fazendo Gael abanar o rabo feliz e estender o focinho pedindo carinho. Olhei para a mesinha de centro a minha frente. Uma toalha de renda branca cobria o tampo que eu sabia estar arranhado da última vez que estive em casa. Ops.
Teo estendeu a mão e bagunçou meu cabelo, mas nem me dei o trabalho de arrumar. Ele ia fazer aquilo de novo. Teo era o cara mais novo da banda que, na verdade, era do seu pai, o Teo original. Porém este ficou muito velho e o nosso garotinho salvador estava lá. O cara mais velho da banda, o Kev, tinha 34 anos, a mesma idade da minha mãe.
–Bebeu quantas? — ele perguntou folheando um caderno de música. Ele estava usando jeans e uma camiseta do Pink Floyd — E de quem é essa blusa?
Meu rosto esquentou enquanto eu tirava a jaqueta e pendurava nas costas do sofá.
–De um amigo — afaguei a cabeça de Gael, evitando olhar para ele. Eu tinha quase certeza de que começaria a chorar ou então a entrar em desespero. Eu só queria apagar Isaac da minha cabeça por enquanto e tentar esquecer dele. Foi uma das coisas mais difíceis que já tentei fazer.
–Ah — Teo deixou o violão de lado e cruzou as mãos sobre os joelhos — Ele é bonito?
–Lindo — minha mãe se intrometeu, colocando uma tigela com salgadinhos na mesa de centro — Mas é um daqueles.
–Mãe!
–Você sabe que é verdade.
Eu sabia, só não queria admitir que ele era o problema em pessoa. Lembrei do dia em que eu tentei fugir do Reformatório e ele estava lá para me ajudar. Isaac sempre ficou do meu lado, mesmo que as vezes eu tivesse vontade joga-lo em um poço. Eu não queria colocar-lo do lado negro da força.
–Hum — murmurei mexendo no cabelo. Minha mãe me olhou por alguns segundos, com algo que parecia solidariedade. Evitei olhar para ela, não querendo transparecer o que eu sentia naquele momento.
–Call ligou há umas horas — disse minha mãe voltando para a cozinha. O tom dela era calmo — Ele queria saber se você já tinha chegado. E pediu pra você ligar de volta.
Engoli em seco, o vazio em meu peito aumentando. Desde o dia que ele me disse o que sentia, as coisas não foram mais as mesmas. Claro, ele ainda era meu melhor amigo e eu amava ele. Mas ultimamente era estranho ficarmos juntos e termos uma conversa normal como antes. A gente tentava, mas parecia que era impossível.
Levantei-me e fui em direção ao telefone fixo, minha mão tremendo ao colocar o aparelho na orelha. Encarei o telefone hesitando em discar o número. e respirei fundo. Soaram três toques antes de Callum atender.
–Alô?
Um nó se formou na minha garganta. O que eu ia dizer? Oi, acabei de voltar da minha estadia com o cara que você odeia, como vão as coisas?
–Oi? Senhora Garcia? Está tudo bem?
–Call, sou eu — minha voz saiu falha. Gael me observava com as orelhas coladas na cabeça, o olhar fulminante.
–Ah, oi — ele fez uma pausa — Então... O que aconteceu? Aonde você foi?
Abri a boca, pensando no que dizer, quando a porta da frente abriu e Jordan entrou, abrindo um enorme sorriso para mim. Ele usava um casaco marrom bonito de tweed e tinha feito a barba, espalhando cheiro de loção ao entrar. O cabelo estava penteado, o que significava que ele ia sair com minha mãe e ela se esqueceu, por que estava de pijama de flanela.
–Porque você não vem aqui em casa? — falei rápido e baixo, esperando que minha mãe não ouvisse. Ela gostava muito do Callum, mas não de me deixar sozinha a noite com ele. E Teo — Minha mãe vai sair. Eu te conto tudo.
–Vinte minutos?
–Ótimo — pensei um pouco — Evite os restaurantes, minha mãe vai te ver e sabe como ela é.
–Pode deixar — ele riu e desligou.
“Foi um progresso” pensei “Ninguém pareceu um disco travado dessa vez”.
–Eu esqueci! — exclamou minha mãe histérica e ficou na ponta dos pés para beijar Jordan. Olhei para Teo e ele fingiu colocar o indicador na garganta.
–Não tem problema — Jordan sorriu e apoiou-se no balcão de granito da cozinha. Ele era assim. Tudo estava bem para ele desde que você não tocasse na sua coleção de discos da música country. Eu odiava sua coleção de discos da música country — Seja rápida.
Minha mãe correu para o quarto. Me aproximei de Jordan com passos largos, as sobrancelhas erguidas e um sorrisinho.
–Aonde vocês vão?
–Jantar fora — ele colocou uma sacola no balcão — Trouxe comida pronta para vocês dois.
Abri a sacola. Havia dois recipientes quentes de alumínio, o cheiro delicioso da comida apimentada do restaurante indiano que íamos de vez em quando se elevando.
–Trouxe meu curry?
–Com frango e molho de pimenta extra — Jordan franziu a testa, rugas de expressão aparecendo. Ele parecia muito mais velho quando fazia isso — O que aconteceu ontem?
–Ah — senti que começaria a corar. Eu havia decepcionado bastante o Jordan quando cancelei o sorvete que iríamos tomar ontem a tarde — Houve um imprevisto. Eu precisei sair.
–A gente pode marcar para outro dia? Eu preciso te perguntar uma coisa.
–Pergunta agora...
–É importante.
Olhei por sobre o ombro. Teo deu de ombros. Pelo jeito ele não fazia parte de uma conspiração para me molhar com balões de água. Eles dois já fizeram isso antes.
–Que tal amanhã? É domingo, eu vou ajudar a Sierra na loja do senhor Martinez. Você pode me buscar depois.
Ele sorriu exibindo os dentes brancos e bem cuidados. Havia uma cicatriz minúscula em seu queixo, de quando eu tinha dez anos e ele me levou para patinar e escorregou no gelo. Não foi nada de mais, mas ele berrou feito uma garotinha.
A porta do quarto da minha mãe se abriu e ela saiu, usando um vestindo azul longo que devia ser novo, porque eu nunca o tinha visto antes.
–Olha só — Teo arqueou as sobrancelhas. Os olhos dele eram da mesma cor do vestido, azul muito escuro — Daya, você devia aprender a se vestir com a sua mãe. Você até parece um menino com as roupas que usa.
–Vá tomar banho!
–Eu não sei quando voltamos — disse minha mãe revirando uma bolsa branca — Então vou deixar o número da senhora Taker na geladeira, junto com o da emergência, dos bombeiros, da polícia, do...
–Está bem, mãe, eu já decorei todos os números que estão na geladeira — empurrei-a para fora, junto com Jordan. Segurei a porta, pronta para fecha-la, e acenei sorrindo do jeito mais simpático possível — Divirtam-se. Não se afoguem na cerveja e usem proteção.
–Dayan...!
Fechei a porta. Teo ria atrás de mim.
–Usem proteção?
–Prevenção nunca é demais — peguei as duas marmitas e levei até a sala — Não estou pronta para um irmãozinho.
–Eu ensinaria ele a ser como eu.
–Gay?
–Cantor, gatinha. Cantor.
Comemos a comida indiana e tomamos uma garrafa de dois litros de Coca-Cola. Meia hora depois a campainha tocou e Gael correu até a porta da frente, latindo e pulando de um lado para o outro, arranhando a madeira do chão e da porta.
–Gael! — levantei-me e fui até a porta, exitando com a mão na maçaneta. Gael corria pelo apartamento,ganindo, as unhas afiadas fazendo um clec-clec alto no assoalho.
–Você não vai abrir a porta?! — gritou Teo vindo em minha direção. Comecei a gesticular que ele de afastasse, agarrando a maçaneta como se protegendo ela. Gritei quando Teo me agarrou pela cintura, me erguendo do chão, e abriu a porta. Callum estava parado do outro lado com uma sobrancelha erguida.
–Ia perguntar se estava atrapalhando alguma coisa — ele disse devagar nos observando atentamente. Me descencilhei de Teo e arrumei minha camisa — mas isso não faz o seu tipo, cara.
–As vezes eu gosto de inovar — disse Teo. Lhe dei um tapa.
Callum riu e olhou diretamente para mim. Senti meu estômago rrevirar, pensando em tudo o que ele havia me dito, de como eu havia trocado ele por Isaac. Eu não tinha feito isso. Ou tinha?
–Então... — ele franziu a testa — Você me chamou aqui pra quê?
–Ah — minha voz falhou. Eu me sentia desmoronando por dentro — Sei lá. Quer ver um filme?
Teo bateu palmas e foi para a sala com uma cara suspeita. Eu já sabia que filme ele ia querer assistir.
–Vamos ver Psicose.
–Sempre que eu venho aqui você quer assistir esse filme! — Callum entrou e olhou para mim de relance. Fechei a porta encarando o chão.
–É um filme interessante, profundo, e além disso eu gosto do final — Teo imitou a cara que Norman Bates faz no final do filme, quando descobrem ele é o assassino. Deixei escapar uma risada breve e fui procurar o filme na sessão de clássicos da minha mãe.
–Aonde você foi ontem? — perguntou Callum enquanto eu colocava o CD pra rodar. Prendi a respiração. Eu não tinha me preparado para aquela pergunta. Então ele notou Gael pela primeira vez e fechou a cara, murmurando para si mesmo. Gael estava deitado ao lado do aquecedor rosnando baixinho para Callum.
Sentei-me no sofá ao lado de Callum e assistimos o filme por alguns minutos até que Teo anunciou que precisava ir ao banheiro. Quando ele saiu olhei para Callum. O cabelo cacheado dele estava úmido por conta da chuva. O sorriso que era tão familiar no rosto dele não estava lá. Um nó surgiu em minha garganta. Ele era meu melhor amigo. Me odiei por vê-lo daquele jeito, por minha culpa. Como eu podia ser tão estúpida?
–Desculpe — murmurei. Ele parou de encarar Gael e se virou para mim. Os olhos cor de café pareciam ter perdido o brilho de quando éramos pequenos. Lembrei de uma vez em que ele caiu de uma árvore e, ao envez de chorar por ter quebrado a perna, ele riu porque se assustou com um esquilo.
–Por que? — a voz dele estava rouca. Ele parecia saber exatamente o porque das desculpas e ia me fazer explicar tudo.
–Por ter sido uma idiota — engoli em seco e continuei — Eu nunca tive uma chance de me desculpar por tudo de imbecil que já fiz com você, principalmente... Nunca ter notado — meus olhos ardiam enquanto.eu tentava encontrar as palavras certas — Me desculpe por não perceber que você...
–Que eu te amo? — ele falou baixo, provavelmente querendo ter certeza de que Teo não nos ouviria — Tudo bem, eu só... Imaginei que quando te dissesse fosse ser diferente. Quer dizer, eu planejava te contar numa lanchonete, e não em um corredor fedorento com lobos nos perseguindo.
Eu ri e captei Gael rosnando pelo canto do olho. Era impressão minha ou ele se preparava para morder Callum?
–Daya, eu... — ele suspirou e passou a mão no cabelo levemente molhado. Ele nunca me pareceu tão triste quanto naquele momento — também tenho que me desculpar. Não fui justo com você.
–Deixa de ser idiota — encostei-me no sofá. Um peso pequeno havia sido retirado dos meus ombros, mas eu ainda não me sentia totalmente aliviada. Franzi a testa e deixei Gael de lado, voltando.a atenção para Callum — Você acha que as coisas vão ser diferentes agora?
Ficamos em um silêncio constrangedor por alguns míseros segundos, a tensão palpável no ar. Então ele se inclinou e me beijou. Fiquei tão surpresa que me esqueci de como respirar, minhas mãos tremiam. Gael ganiu e inclinou a cabeça para o lado, os olhos arregalados indo de mim para Callum. Aquilo teria sido engraçado se meu coração não ameaçasse rasgar meu peito.
Meus músculos relaxaram aos poucos e me inclinei para mais perto de Callum. Ele soltou a respiração, aliviado, e me puxou pela cintura. Aquele beijo foi um pouco desconfortável no começo, com um lobo nos observando indignado e uma mulher sendo esfaqueada congelada na tela da televisão.
Depois de uns momentos, só tentando arrumar meus braços ao redor do pescoço de Callum, esqueci-me completamente de Gael e de todo o resto. A chuva batia com leveza na janela, encobrindo o estalo suave que os lábios de Callum fizeram nos meus.
–Amém!
Pulei no sofá quando ouvi o grito, quebrando todo o clima. Call ofegava, mas eu não sabia se foi por causa do susto ou do beijo.
–Você é idiota?!
–Eu esperei tanto por esse momento — os olhos de Teo lacrimejavam, as mãos estavam juntas em frente ao peito. Um sorrisinho besta estava estampado no rosto — Se bem que foi um pouco assustador. Vocês estavam quase se engolindo.
Peguei uma almofada e joguei nele, errando por pouco por causa dos meus braços trêmulos. Meu rosto ardia como se estivesse pegando fogo.
–Eu preciso ir — disse Callum, taciturno. O rosto dele estava tão rubro quanto o meu — Minha mãe deve estar me esperando.
Aquela foi, sem dúvida, a pior desculpa das história.
–Mas já? — Teo franziu a testa e sentou-se na poltrona — Fica mais um pouco, pra terminar de ver o filme. Talvez dar mais uns amassos.
–Não, eu... — Callum suspirou. Ele parecia estar evitando olhar para mim — Eu tenho que ir.
Callum hesitou um pouco, mas então se aproximou de mim e me beijou na bochecha. Depois ele foi rápido em direção a porta da frente.
–Call...
–A gente pode se encontrar amanhã? — ele perguntou abrindo a porta. Parecia um pouco desesperado, o rosto estava pálido e úmido.
–Ah... — eu já tinha um monte de coisa para fazer no dia seguinte, mas não podia dizer isso a ele, eu não queria magoa-lo. E no fundo, eu queria ver ele — Claro. Seis horas?
Ele assentiu e saiu do apartamento. Desabei no sofá, encarando a janela a minha frente. A água corria pelo vidro feito pequenas cobras transparentes. O céu cinza e pouco avermelhado não tinha nenhuma estrela brilhando naquela noite. Na verdade, era raro ver uma estrela nas noites em Manhattan.
Fiquei pensando no beijo. Foi tão inesperado. Havia sido completamente diferente do beijo com Isaac. Foi menos molhado, é claro, e Callum pareceu completamente inseguro. Isaac estava completamente seguro do que estava fazendo, pelo menos era o que parecia com as mãos firmes em meus quadris e os lábios macios nos meus. Ele não estava rígido como Callum.
“Droga!” berrou meu subconsciente “Esqueça ele!”
Senti uma imensa vontade de chorar. Por que esquece-lo era tão difícil?!
Teo ria de alguma coisa e, quando percebeu que eu olhava fixamente para a cidade lá fora ele ficou sério.
–Daya? O que foi?
–Eu sou uma pessoa horrível.
Fale com o autor