—Eu sabia que vocês ficariam juntos! – exclamou Sierra carregando um vaso com tulipas roxas – É o destino!

—Não estamos juntos – o pote em minha mão vibrava com as moscas vivas que se debatiam ali dentro. Fiz uma pausa, procurando por uma pinça – Ele quer me encontrar hoje.

—Sério? – Sierra arregalou os olhos. A faixa rosa estava torta em sua cabeça e vários fios se soltavam da trança cor de caramelo – Onde?

—Eu não sei – peguei uma mosca com a pinça e coloquei-a delicadamente na “boca” de uma planta carnívora. Como o senhor Martinez garantia para que nenhum inseto asqueroso tocasse em suas preciosas petúnias, tínhamos que alimentar as plantas carnívoras de três em três horas – Acho que ele vai me encontrar na sorveteria mesmo.

—Ou então ele te leve para um lugar romântico – ela saltitou até um umidificador – Com rosas! Se ele passar aqui eu te ligo!

Eu ri e encostei-me a uma bancada.

—Ele não é assim – murmurei. Sierra achava que Callum pudesse me levar para um passeio á meia luz de velas no Central Park, em direção a um jantar romântico num gazebo. Isso era completamente ilógico.

—Mas lembre-se de que você não esperava que ele fosse te beijar.

Raspei meus tênis surrados no chão de pedra áspera, sem saber o que dizer. Ela tinha quase razão quanto a isso. Quase.

Estávamos no porão da loja de George Martinez. O lugar era recheado de estantes e balcões atulhados de plantas comestíveis ou decorativas, daquelas com cheiro de pimenta e açafrão. Em tocos os cantos havia vasos de todas as cores e tamanhos, sacos de terra e, claro, flores lindas cobriam as partes vazias do porão. Matinhos brotavam por entre as rachaduras nas pedras e musgos em vários tons de verde se contorciam pelo chão. Janelas pequenas no nível da calçada, e rentes ao teto, levavam a luz solar até as plantas e umidificadores eram o que as mantinham hidratadas constantemente.

—Porque eu me sinto tão... Mau? – minha voz saiu falha. Durante a noite não consegui pregar os olhos pensando em Callum. Isso, e o fato de que levei um chute na boca do estômago, dado por Gael. Eu só não sabia se era algum tipo de vingança ou se ele estava tendo pesadelos. Só sei que passei a noite toda como se uma britadeira insistisse em me perfurar e agora eu mal conseguiria ficar em pé se não fosse pelos energéticos.

—Porque você está colocando isso em sua cabeça – Sierra podava um bonsai, etiquetado com o nome “Carmen” – Quer dizer, você está pensando em alguma outra coisa, né?

—Etopensademisc – resmunguei.

—O que?

—Etopensademisc – falei um pouco mais alto.

—Olha, ou isso é um feitiço ou você está com dor de barriga.

Revirei os olhos. Sierra nunca entendeu a língua dos resmungos arrastados.

—Estou pensando em Isaac – mordi o lábio, meus olhos ardendo – Eu não sei, é que... Me ajuda!

—Bem... – ela soltou uma risada nervosa – Ele não é de se jogar fora.

—Sierra!

—E o amigo dele...

—O que foi que você disse? – arqueei as sobrancelhas. Eu tinha ouvido direito?

—Nada! – Sierra empertigou-se e limpou a garganta. Ela parecia estar contendo um sorriso. Eu tinha certeza de que ela estava contendo um sorriso – Daya, eu só queria dizer que acho que se você acha que devia pensar em Isaac, ou se acha que devia ficar com Callum, você deve fazer o que acha certo e o que vai...

—Você está me confundido – cruzei os braços e olhei para Gael. Ele farejava uma roseira e, quando saiu de trás dos arbustos, notei seu pelo negro completamente sujo de terra e gravetos, o focinho molhado tinha espinhos e bolotas de lama grudados. Ele também tinha barro na língua.

—Você ainda não viu nada. E por favor, tire o lobo de perto dos meus filhos.

—Vem, Gael – chamei e ele veio trotando, passando a correr por entre as pernas das mesas e bancadas.

Ouvi passos acima de nós e a porta que dava para fora do porão se abriu. O senhor Martinez colocou sua cabeça por uma fresta da porta. Ele usava uma camisa amarela com seu nome bordado no bolso e abaixo, em letras pequenas e cursivas, o nome da loja “Flores & Arranjos Martinez”. Havia um pouco de terra em sua sobrancelha esquerda.

—Jordan chegou, Daya.

—Mas já? – Sierra fez um biquinho e deu um peteleco numa orquídea. Os botões brancos desabrocharam como em um daqueles filmes acelerados sobre a natureza.

—Eu te conto tudo mais tarde – sussurrei em seu ouvido quando passei do lado dela.

—Vou querer os detalhes.

Subi a escada que levava a loja e o senhor Martinez fechou a porta. Jordan estava na calçada falando ao telefone e acenou para mim através de uma janela ampla. Varias pessoas caminhavam pelo espaço grande e iluminado por claraboias que era a loja, carregando vasos de aparência pesada e examinando flores.

—Obrigado por ajudar, querida – disse o senhor Martinez sorrindo.

—O senhor sabe que pode contar comigo – peguei minha blusa que deixei guardada atrás do caixa.

Despedi-me dele e sai, fazendo o sininho acima da porta tilintar. Jordan guardou o telefone e estendeu o braço em um gesto cortês. Gael latiu e correu pela calçada, de uma lixeira para outra.

—Madame?

Ri e peguei o braço dele, entrando debaixo do guarda-chuva preto e me protegendo da garoa que começava.

—Você paga?

—É claro! – ele arqueou as sobrancelhas – Que tipo de homem eu seria se não pagasse?

—Um mão de vaca.

—Exatamente! – começamos a andar próximos aos prédios, tentando evitar ao máximo os carros que passavam em alta velocidade jogando água suja na calçada.

Seguimos o resto do caminho em silêncio. Senti um aperto no peito quando um casal passou de mãos dadas na outra rua, rindo e se abraçando. Então pensei em Callum. Porque ele queria me ver? Realmente valeria a pena encontrar ele hoje? Eu nem sabia para onde iríamos!

—Daya, você está se sentindo bem? — perguntou Jordan passando o braço pelos meus ombros. O olhar preocupado dele parecia penetrar nas partes mais fundas da minha mente.

—Claro — resmunguei em resposta, evitando qualquer conversa até chegarmos na sorveteria. Eu não queria deixar Gael ali fora, no frio e debaixo da chuva, mas não era permitido animais no estabelecimento.

O lobo deitou debaixo de uma janela, sob o toldo azul céu da sorveteria e me olhou com calma, esperando.

—Vou te trazer alguma coisa — murmurei.

Eu e Jordan entramos. Ali dentro estava quente e aconchegante, algumas poucas famílias reunidas. Fomos até o balcão branco e surpreendentemente brilhante e pedi um Milk-Shake e uma bola de chocolate. Não ouvi o que Jordan pediu, mas quando a moça trouxe os pedidos deduzi que fosse pistache, por causa da cor verde.

Levei a pequena tigela com o sorvete de chocolate e deixei na calçada, em frente a Gael, e quando voltei para dentro sentei-me junto a uma janela onde eu pudesse ficar de olho nele. Jordan sentou de frente para mim.

—Daya!

—Uh?! — ergui os olhos, mastigando o canudo do meu Milk-Shake. Não havia percebido que Jordan estava falando comigo.

—Você tem certeza que está bem? Está mais distraída que o normal.

—Eu... — suspirei. Não adiantaria mentir para ele — É coisa demais na minha cabeça, só isso.

—O que está te preocupando? — perguntou ele, e então acrescentou: — Não conto nada para sua mãe.

Meus lábios tremeram. Eu sabia que podia confiar nele, tanto quanto confiava em Sierra, mas não sabia se podia contar agora. Então, prendendo a respiração antes, eu desabafei. Contei tudo desde o beco na Times Square, o porque de eu ter sumido por sete dias enquanto Jordan estava em Massachusetts, o que aconteceu na praça quando descobri o fogo. Falei cada detalhe — omitindo a parte em que Isaac me levou para um jardim a noite e nos beijamos — até a tarde passada, quando Elijah tentou me possuir. Jordan sabia quem era meu pai, sabia sobre meu sangue divino. Ele estava com a minha mãe, então não podíamos esconder dele para sempre.

Jordan me encarou pasmo. Ele esteve prestando atenção a tudo e agora eu soluçava, meus dedos gelados agarrando com força o copo de plástico. Gael gania do lado de fora, parecendo me observar com pena.

—Daya... — A voz de Jordan tremeu. Ele esticou a mão e segurou a minha. O toque dele me confortava, era tudo o que eu tinha de proximidade com um pai.

—Eu não sei se consigo por mais tempo.

—Você é mais forte do que parece — Jordan sorriu carinhoso — Me lembro de quando voltou do acampamento com um braço quebrado e nem se importou.

—Mas isso é diferente — resmunguei — Eu não quebrei o braço, eu estou... Ah, sei lá, prestes a entrar em combustão.

—Desculpe, sou péssimo com esse assunto — ele torceu o nariz, tentando pensar em outro jeito de me animar — Daya, não é só por causa disso que você está preocupada, né?

Mordi o lábio e agarrei a corrente que Isaac me deu.

—Problemas com garotos? — sussurrou Jordan apertando os olhos — Olha, eu não gosto muito dos garotos da sua série, eles...

—O que? Não! — senti meu rosto esquentando e recolhi minha mão — Não, não é ninguém da escola.

—Conheço ele?

—Não, ele... Bem, mais ou menos...

—É um bom rapaz? Não quero minha garotinha se envolvendo com...

—Jordan!

—Tudo bem, desculpe. Quem é?

—São... Dois garotos, na verdade — me encolhi na cadeira — Não conta pra mamãe.

—Não vou contar — ele franziu a testa, confuso, e observou Gael esfregando o nariz no vidro da janela. Tinha parado de chover e o sol brilhava fortemente por detrás das nuvens — Isso é uma conversa de enteada e padrasto. Que tal?

—Isso é ridículo — falei rindo.

—É — assentiu Jordan — Então quem são eles?

—Callum e... Você não conhece o outro.

—Callum? — Jordan pulou na cadeira, espantado — Mas ele é seu melhor amigo.

—Eu sei, mas ele gosta de mim — puxei uma mecha de cabelo, enrolando-a nos dedos — E eu amo ele, só não sei se do mesmo jeito. Tipo, por um lado eu quero ficar com ele, mas meu outro lado diz que isso é só para não magoa-lo. E Isaac... Bem, é intrigante. Eu não sei direito o que sinto por ele.

—E o que ele sente por você? Você também tem que levar isso em conta.

—Não acredito que estou falando se sentimentos com meu professor.

—Eu ainda nem comecei a falar de puberdade, e...

—Esquece — pedi meio ríspida, meio rindo — Eu só... Não quero pensar nisso agora. Preciso de alguma coisa pra me distrair de... — engasguei. Por pouco não falei “Isaac”, sendo que nem era essa a palavra que eu tinha em mente — tudo isso... — completei devagar.

Levei minhas mãos aos bolsos da do suéter e encontrei algo retangular e duro. Quando tirei a mão do bolso encontrei o celular de Sierra, as lantejoulas da capinha cor de rosa refletindo a luz das lâmpadas.

—Daya, eu sei que isso está sendo difícil — murmurou Jordan, colocando o sorvete de lado. O olhar dele estava carregado de solidariedade — Não vou insistir em mais detalhes, mesmo que eu nunca tenha entendido muito bem o negócio dos deusea, ou dos seus relacionamentos. Mas eu te trouxe aqui para pedir uma coisa.

—Pedir... — franzi o cenho, confusa — O que?

Jordan respirou fundo. Parecia estar se preparando para apresentar um discurso revisado muitas e muitas vezes.

—Dayannya, você já tem dezesseis anos — começou. Ergui uma sobrancelha, prestando atenção — Eu e sua mãe já estamos juntos há nove anos — nesse ponto, minhas duas sobrancelhas estavam arqueadas — Eu achei que você já está pronta para isso, não queria te pedir uma coisa dessas quando ainda fosse nova demais — Jordan prendeu a respiração. Eu nunca vi-o tão nervoso, nem mesmo quando explodi sua pasta de couro durante uma aula de química — Daya, eu preciso... Preciso da sua... — um gosta de suor escorreu de sua testa — Permissão.

Ele disse a última palavra quase como um sussurro. Abri um sorriso enorme, não porque a cara esperançosa dele era hilária, mas porque ele estava me pedindo permissão.

—Santo Zeus — murmurei rindo — Eu não acredito que você esperou nove anos para me perguntar se você pode se casar com a minha mãe!

—Isso é um sim?

—Claro que é um sim, seu bobo — exclamei ainda rindo e tomei meu Milk-Shake ruidosamente. Por um momento esqueci de Isaac, de Callum e do resto — Quando vai pedir a mão dela?

—Ah, eu não sei — ele disse devagar, sorrindo feito louco — Tudo bem, isso não importa realmente agora. Vou te comprar um refrigerante.

Ele se levantou um pouco cambaleante e peguei o celular de Sierra. Estava pensando em ligar para o senhor Martinez e dizer que fiquei com o objeto. Abri a agenda de contatos, procurando por George, ou então Pai, quando um nome me chamou a atenção. Estava ali, preto no branco, o nome de Dakota. Um súbito interesse me atingiu e fui para o registro de ligações.

Duas semanas inteiras de ligações dele, cada uma com pelo menos um ou dois retornos.

—Mas que... — ofeguei quando, no fim da lista dos intermináveis Dakota, havia o nome de Isaac e, pontuando aqui e ali, o de Sirena. Então a safada da Sierra Martinez estava mantendo contato com o Reformatório? E, principalmente, com Dakota — Filha de uma...

—Daya? — a voz de Callum chegou ao meus ouvidos e pulei de susto, derrubando o celular no chão. Ergui os olhos quando ele se sentou de frente para mim e vi Jordan saindo sorrateiro da sorveteria.

—Vocês combinaram isso, né? — perguntei catando o celular do chão e colocando de volta em meu bolso. Eu pretendia ver as mensagens dela, mais tarde.

—Foi de última hora — Callum sorriu, divertido, e notei que ele vacilou rapidamente. Gael espremia o focinho na janela, mastigando o vidro e olhando insano para Callum — Ele tentou me morder.

Fuzilei Gael com o olhar, que continuou tentando morder a janela. Os dentes dele faziam um barulho agudo enquanto raspavam no material. As pessoas riam da cena e tentei ver pela névoa. Por um momento vi o mesmo que elas, um poodle preto, gordo e com cara de maluco, roendo a janela.

—A gente devia ir para outro lugar — murmurei puxando uma cortina e cobrindo a visão do lobo. Ele uivou e rosnou como um cão com raiva — Algum lugar que ele possa se distrair.

—Ou devíamos chamar a carrocinha — Callum se levantou, exitando com a mão na porta.

—Cala a boca — empurrei-o com o ombro e saí. Gael rosnava com as orelhas coladas à cabeça, o olhar vidrado em Callum — E você, é melhor ser bonzinho.

Gael fez uma série de grunhidos e atravessou a rua me escoltando. Duas ruas mais a frente entramos no Central Park, à copa dourada das árvores tapando a luz do sol. Uma mulher passou de mão dada com uma menina de seis anos e tivemos que parar porque ela quis fazer carinho em Gael.

—Você queria conversar sobre alguma coisa? — perguntei me sentando em um banco da trilha. A menininha começou a correr atrás de Gael e a mãe assistia a tudo, atenta.

—Queria — Callum se sentou ao meu lado, arrumando a blusa vermelha e gasta — É que... Ficou tudo muito estranho depois que te confessei aquilo. E ontem a noite... Fiz sem pensar.

—Não pareceu que foi sem pensar.

O vento soprava o cabelo de Callum para o rosto e ele o tirava do rosto à toda hora.

—Eu só te olhei, e a ideia me veio a cabeça — ele bufou quando uma folha cor de bronze pousou no seu cabelo — Você está brava comigo?

—Não! — arregalei os olhos — Porque eu ficaria brava com você?

—Eu sinto como se eu tivesse te molestado.

Comecei a rir.

—Foi só um beijo, Call...

—É, eu sei que não foi seu primeiro — o rosto de Callum ficou rubro, os olhos escuros pesarosos — Aposto que você preferiu ele...

—Será que você pode parar com isso?! — exclamei com raiva. Não nos falávamos com frequência porque ele sempre se referia aquela noite, a mesma cara de quando ele me viu enroscada com Isaac à porta do dormitório — Pelo amor de Zeus, Call, não foi nada!

—Se não é nada, porque vocês continuam se encontrando? Porque você continua com essa corrente?

—Porque eu fiz uma promessa!

—Ela se parece muito com uma herança de família!

— Você é um idiota! — Gritei sem conseguir me conter. A mãe agarrou a menina e foi embora — Eu não tenho nada com ele, está bem?! E caso não tenha notado, eu estou aqui com você, e não com ele!

Callum suspirou e pareceu encolher no banco. Eu detestava gritar com ele. Era difícil nós brigarmos, e quando acontecia eu me sentia muito mal.

—Desculpe — murmurei olhando para os meus pés, um peso enorme recaiu sobre meus ombros — Eu é que sou a idiota.

—Não, você tem razão. Eu estou sendo possessivo, e a gente nem... — ele mordeu a língua, parando de falar abruptamente.

Me inclinei e o beijei rapidamente nos lábios. Quando me afastei ele tinha os olhos arregalados, o rosto vermelho.

—Você pode mudar isso — sussurrei. Pelo canto do olho vi Gael com a boca aberta, engasgando de nojo.

—É só falar?

—É só falar.

—Eu te amo — ele disse baixinho, decidido.

Meu coração vibrou no peito. Senti meu rosto esquentando, mas não de vergonha. Me senti aliviada, percebendo que aquilo valeria a pena. Eu amava ele. Por um segundo esqueci-me de Isaac, esqueci de todo o resto. Sorri e o beijei de novo, me divertindo com Gael se lamentando atrás de uma árvore.