Filha de Apolo - Lights
6 Ouro e Obsidiana
Era difícil me concentrar com ele tão perto.
Assim que minha perna não estava mais tão dolorida, deixei uma mensagem para Jordan dizendo que não poderíamos ir tomar sorvete aquela tarde e outra para minha mãe, avisando que ela não se preocupasse se eu não estivesse em casa.
Agora, eu estava espremida entre Isaac e Gael em um banco no Central Park. O lobo havia deitado ao meu lado, se esticando e me empurrando de encontro ao garoto, que batucava os dedos na perna parecendo impaciente.
Depois de duas semanas, percebi que ele havia mudado. Parecia ligeiramente mais magro e cansado e havia olheiras escuras sob seus olhos, como se ele não dormisse mais de uma hora por noite.
Depois de um tempo, Gael se cansou de ficar ali sem fazer nada e foi caçar pombos pelo parque. Exalei o ar aliviada e escorreguei para o outro lado do banco. Notei que os ombros de Isaac ficaram menos tensos quando me afastei.
Suspirei e comecei examinar o parque, com as copas das árvores molhadas. A chuva já havia parado e agora o sol brilhava fortemente no céu, mesmo que ainda estivesse cheio de nuvens escuras e pesadas. Parecia que tudo estava se alternando de acordo com o que eu sentia. Mesmo cheia de preocupações e problemas que pareciam não ter fim, sempre havia uma luz que me dava esperança.
E essa luz estava sentada carrancuda ao meu lado, estalando as juntas dos dedos.
–Para com isso, tá me dando aflição – resmunguei olhando feio para ele.
A sombra de um sorriso passou pelos seus lábios.
–Esse é um dos meus passatempos favoritos.
–Estalar os dedos?
–Não. Te dar aflição.
Tentei conter um sorriso, mas não consegui. Então o deixei o menor possível para que Isaac não notasse. Mesmo que fosse meio irritante, eu gostava dele fazendo piadinhas.
Ouvi um latido alto alguns metros à frente. Virei a cabeça para aquela direção e vi Gael, agachado e com o rabo balançando, esperando que eu o assistisse. Assim que olhei ele colocou a língua para fora e voltou a correr atrás das aves assustadas que pousavam nas partes baixas das árvores e na grama úmida. O lobo deu a volta em um monumento e parou para cheirar um dálmata. Segundos depois os dois estavam correndo atrás dos pobres pássaros.
Desta vez não consegui segurar o sorriso. Era ótimo ver que Gael se recuperara e que ele agia como um cão doméstico, daqueles bem grandes e amigáveis.
–Ele fica no Reformatório? – perguntei ainda olhando para Gael. Ele havia parado de correr e agora rolava na grama.
Isaac assentiu, mas não disse nada. Ele também estava observando o lobo.
De repente senti meu rosto esquentando.
–Escuta aqui, você me tirou de casa e agora não vai falar comigo?
Ele me olhou indiferente, quase sem expressão.
–Na verdade, eu salvei sua vida antes de te tirar de casa.
Ergui minhas mãos, impaciente e um pouco brava.
–Tanto faz!
Ele passou a mão na testa e apoiou o cotovelo na perna. O sol refletia no cabelo claro, deixando-o parecido com ouro, e os olhos azuis estavam opacos e escuros.
–Eu só... – ele bufou – Sei lá.
Eu me senti meio insegura com o que fiz em seguida, mas mesmo assim estiquei uma mão e coloquei nas costas dele, chegando um mais perto e tentando falar do jeito mais consolador possível.
–O que está acontecendo? – perguntei. Senti os músculos das costas dele enrijecerem e então relaxarem sob minha mão – Você... Está diferente.
Ele ergueu os olhos, agora recuperando um pouco do brilho de antes. Com o sol batendo, aquele aro dourado ficava mais nítido e intenso, como uma chama viva em seus olhos.
–Te garanto que não mudei nada.
Ergui uma sobrancelha.
–Não é o que parece.
Os lábios dele se curvaram levemente mostrando um sorriso pequeno e tímido, parecido com o primeiro sorriso que vi no rosto dele.
–Não é nada. Sério.
Eu não estava acreditando nele, e ele percebeu. Tirei a mão de suas costas, mas não me afastei. Isaac ergueu o corpo e encostou-se no banco, cruzando os braços em frente ao peito.
–Você vai pra faculdade um dia?
A pergunta foi repentina, porém pensei um pouco antes de responder.
–Acho que sim. Medicina ou música – franzi a testa e o encarei – Por quê?
Ele deu de ombros e começou a mexer no anel de prata.
Quase pulei para fora do banco quando alguma coisa se esfregou na minha perna. Isaac deu um tapinha no próprio joelho e Gael se ergueu nas patas traseiras, apoiando-se nas pernas do garoto. O sol refletia no pelo negro do animal, que, se não se mexesse tanto com a respiração ofegante, pareceria uma estátua feita da mais pura obsidiana.
–Ele é um bom lobo – murmurou Isaac fazendo carinho no focinho de Gael.
–Não anula meu medo de cães – respondi. Como se fizesse um sacrifício, estendi a mão e acariciei o pescoço do lobo.
Isaac sorriu, e pude ver o cara que conheci, aquele sempre irônico e sorrindo mesmo que a situação não fosse a das melhores.
–Você devia tentar esquecer isso – disse quando Gael se deitou enrolado aos nossos pés, as orelhas atentas a tudo. Uma moça, do tipo atleta, passou correndo e diminui o ritmo para examinar o lobo por uns instantes até voltar a correr. A névoa estava agindo sobre ele, então ela deve ter visto um daqueles cães gigantes quase do tamanho de um cavalo – A partir de agora, vai passar um bom tempo com ele.
Fiz um muxoxo mostrando o que achava de passar um bom tempo com um canino. Isaac riu de leve.
–Você devia ter mais compaixão.
–Ah tá, como se você entendesse disso – ergui as sobrancelhas – O cara que não pensa duas vezes antes de jogar a faca em outro está me ensinando sobre compaixão.
–Isso é diferente – ele me olhou de lado, os olhos divertidos – Dependendo da situação, eu sei o que é.
–Uma breve explicação?
Ele respirou fundo, e eu soube não iria me responder diretamente.
–Existem dois tipos de pessoa. – ele não olhava para mim e estava sério – Aquelas que sentem, e aquelas que não.
Esperei um pouco. O sangue havia subido levemente para meu rosto, e por um momento eu não sabia o que pensar.
–E qual delas é você, Isaac? – murmurei olhando diretamente nos olhos azuis dele. Ele pareceu ponderar sobre o que responder, os lábios entreabertos. Quando achei que fosse dizer alguma coisa o celular em seu bolso tocou, um sinal breve e simples.
Ele ligou o celular, olhou por um momento, e então desligou. Isaac se levantou e indicou a rua com a cabeça. Uma picape preta estava estacionada no meio fio, a mesma picape que eu havia visto na garagem do reformatório. Levantei-me e fomos até o carro, em um ritmo normal.
Gael passou correndo a nossa frente e pulou dentro da caçamba, fazendo o carro balançar. As pessoas que caminhavam ali olharam um pouco assustadas.
Chegamos à picape e pude ver Dakota no banco do motorista, mesmo através das janelas escuras.
Isaac abriu a porta de trás para mim, e antes que eu entrasse ele segurou meu braço levemente.
–Vai depender de você – sussurrou em meu ouvido. Encarei os olhos claros dele por um instante, meu coração vibrando dentro do peito. Ele se afastou e pulou na caçamba, ao lado de Gael.
Entrei no carro e fechei a porta. O ar condicionado estava ligado e o ar gelado circulava ali dentro.
Dakota me cumprimentou com um aceno de cabeça e ligou o carro. Pelo retrovisor pude ver Isaac sentado ao lado de Gael, com o braço em volta do pescoço robusto e negro do lobo. Era estranho ver os dois juntos, um contraste entre dourado e preto.
E mesmo assim, pareciam a mesma pessoa juntos.
A mesma pessoa que, ao mesmo tempo, me assustava e fazia eu me sentir feliz.
–E Licáon? – perguntei a Dakota enquanto atravessamos a Queensboro.
–Nada – Dakota suspirou. O cabelo castanho estava preso em um rabo de cavalo, e notei que havia uma barbicha pequena no queixo dele. Tenho que admitir, ele era bem bonito – Procuramos pelo parque todo. E vocês, não viram nada?
Fiz que não com a cabeça e olhei pelo espelho retrovisor pelo que devia ser a milésima vez. Gael havia se sentado na borda da caçamba da picape e colocado as pernas dianteiras para fora. A língua estava pendurada para fora da boca e os pelos negros bagunçados pelo vento forte.
Isaac estava sentado com as costas no vidro de trás, os braços cruzados. De vez em quando, Gael olhava animado para ele e soltava um latido que podíamos ouvir de dentro do carro, mesmo que abafado.
–Porque ele tem que ficar lá fora? – resmunguei. Desde que Dakota começou a andar, o carro a quase 200 quilômetros por hora, fiquei preocupada com o ele passar por um buraco e os dois acabarem se machucando. Claro, Isaac sabia se cuidar, mas ainda me deixava com vontade de faze-los entrar a força.
–A Sarah disse que o lobo não pode ficar dentro do carro, solta muito pelo. Então, Isaac fica ali fora com ele.
–Eu tenho um amigo que solta bastante pelo, mas minha mãe não o coloca no porta-malas quando vai dar uma carona – falei me lembrando de Joey, um dos caras que tocava na banda dos amigos da minha mãe. Eram cinco homens ao todo, e os mais jovens eram Teo e Joey com 20 e 23 anos, respectivamente.
–Tá, mas aposto que seu amigo não fede.
Franzi a testa.
–Mas o Gael não fede.
–Porque demos um belo de um banho nele ontem, senão ninguém estaria aguentando.
Eu ri e observei enquanto Dakota atendia o celular dele. Ele não dissenada, apenas fechou o aparelho alguns segundos depois.
–O que foi? – não era da minha conta o que acontecia ali, mas podia ser algo relacionado à Licáon.
–Nada com que precise se preocupar – ele forçou um sorriso e aumentou a velocidade do carro.
Resolvi deitar-me no banco com a cabeça na janela, tentando varrer todas as preocupações e possíveis causas para aquela ligação. Fechei os olhos por um momento, mas a inquietação não me deixava em paz.
De repente, ouvi batidinhas leves contra o vidro. Ergui a cabeça e vi que as nuvens escuras haviam coberto o sol, e as primeiras gotas de chuva começaram a cair.
Dakota parou o carro e ouvi uma movimentação na caçamba. Segundos depois, Isaac abriu a porta do passageiro e entrou, o cabelo levemente úmido.
Ele indicou a porta de trás e a abri. Gael entrou e deitou-se em cima das minhas pernas. O peso dele era confortável, então deixei que ficasse ali.
Depois de um tempo, com o som leve da chuva e a barriga quente de Gael sobre minhas pernas como se fosse um cobertor aquecido, minha cabeça caiu para o lado e adormeci.
–Vai contar para ela?
Houve um breve silencio até a resposta.
–É melhor não – a voz era de Dakota – Ela já tem preocupações demais.
Um suspiro e a porta do carro se abrindo e então se fechando. Fingi que ainda estava dormindo. Outra porta se abriu, dessa vez à minha frente, e o peso que eu sabia que era Gael saiu. Mexi-me um pouco no banco e esfreguei os olhos.
–Ei, nós chegamos – era Isaac. Ele parecia cansado e meio abalado.
Abri um pouco os olhos, observando ele por uma fenda pequena.
–Já? – minha voz saiu rouca e esquisita.
Ele sorriu um pouco e estendeu a mão.
–Já – peguei a mão dele e ele me ergueu. Sai do carro um pouco grogue e esfreguei os olhos de novo, depois encarando a casa bege e alta a minha frente.
–Eu não senti nem um pouco de falta desse lugar – murmurei. Não era exatamente verdade, mas ainda assim tinha ressentimento por ter ficado ali, quase em coma, por um bom tempo.
–Nem um pouco? – Isaac abriu a porta da frente e Gael entrou correndo. Uma mulher gritou lá dentro e depois xingou o lobo.
Isaac manteve a porta aberta para mim e entrei. O lugar estava como sempre, as paredes de madeira clara tinham algumas facas penduradas ao longo dela, mas eu não sabia se era decoração ou algo que usavam. A cozinha encontrava-se a direita, depois da porta que levava a garagem onde pude ouvir a picape entrando. No lado esquerdo, havia um sofá e duas poltronas em frente a uma janela grande com cortinas claras e leves, que cobriam a vista para a rua. Do outro lado do cômodo espaçoso, uma escada ampla e circular de madeira escura, que levava ao segundo e terceiro andar e desaparecia na parede quando chegava ao sexto degrau.
Em frente à escada, uma mulher asiática arrumava a blusa azul. Ela resmungava alguma coisa a ver com pelo solto e o carpete dos corredores até que Isaac limpou a garganta e ela nos olhou assustada.
Então seus olhos pousaram em mim e ela sorriu amigável.
–É bom ver que alguém fez o que pedi – disse se referindo a Isaac, mas ainda olhando para mim.
–E qual era o plano? – ergui as sobrancelhas, minhas mãos cerradas ao lado do corpo – Tirar o pouco tempo que eu tenho como uma pessoa normal?
–Uma pessoa normal não é atacada por um lobo no seu próprio apartamento — Sarah colocou as mãos na cintura e ficou esperando. Ela não parecia ser uma má pessoa, só um pouco rígida e controladora.
–Como você... – comecei.
–Isaac me contou – disse antes que eu terminasse. Olhei para Isaac e ele tinha a cabeça erguida, passando a mão pelo pescoço. Ele não olhava para mim.
–É bom saber que posso sempre confiar em você – murmurei.
–Daya, eu... – mas antes que ele pudesse dar uma justificativa, Sarah ergueu a mão, o interrompendo.
–Você teve muito tempo para falar com ela – Sarah indicou as escadas com a cabeça – Dayannya, pode vir comigo? Até a biblioteca.
Dei uma última olhada em Isaac pelo canto do olho e a segui, emburrada. Subimos as escadas e no corredor do terceiro andar vi Sirena saindo do quarto que eu ficara antes. Ela murmurou um “oi” inaudível e dei um aceno pequeno.
Sirena apontou para as escadas e “disse” sem emitir som algum: Preciso falar com você depois.
Assenti e entrei na biblioteca atrás de Sarah.
Ela se sentou à mesa de escritório e cruzou as mãos.
E naquele momento soube que estava metida em uma bela encrenca.
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