“Sempre no seu aniversário...” sussurrou uma voz de mulher, distante “A chama mudava. Enlouquecia. Até mesmo antes de você ter nascido”.

Depois que a mulher falou, foi como se uma imagem se acendesse repentinamente na frente dos meus olhos. Eu sabia que não estava acordada, mas mesmo assim sentia a chuva contra a minha pele e o vento fustigando meu rosto.

Ouvi passos ao meu lado e vi a silhueta de uma mulher alta correndo. Um relâmpago brilhou no céu escuro e estrelado e iluminou a encosta de uma montanha. Com um susto percebi que estava no Olimpo, com suas mansões e construções em mármore. Diferente de antes, não havia quase ninguém nas ruas e as que estavam lá pareciam assustadas, mas não pela tempestade.

Resolvi correr atrás da mulher, para tentar descobrir o que estava acontecendo.

Os brasões lançava uma luz cobre no caminho, que me permitiu ver que a mulher carregava um embrulho pequeno no colo. Por baixo do cobertor branco e molhado, um corpo pequenino se contorcia.

Segui-a pelas estradas e todas as pessoas por quem passávamos olhavam assustadas para a mulher.

Não, elas olhavam para o corpinho que ela levava.

Outro relâmpago e pude ver a expressão aterrorizada no rosto da mulher e também seus olhos prateados. Aquela mulher era Ártemis.

A olimpiana chegou ao palácio dos deuses e parou à entrada da sala do trono quando viu o adolescente que estava em frente à fogueira, com suas chamas brancas e altas. Apesar de nunca ter visto ele pessoalmente, eu sabia exatamente quem era com seus cabelos loiros e os olhos azuis.

–Eu disse para leva-la a outro lugar. – murmurou Apolo com raiva.

–Não havia outro lugar. – Ártemis ergueu o queixo.

Apolo deu um passo à frente e Ártemis apertou a criança contra o peito, em um gesto protetor.

–Ela corre perigo aqui! – rosnou ele.

–E não corre longe daqui?!

–Se alguma coisa acontecer, a profecia...

–Não há como fugir da profecia, irmão. – disse Ártemis parecendo desesperada para manter a criança longe do outro – Sabe disso, você mesmo disse que...

–Eu sei o que eu disse! – gritou Apolo, prestes a cair em prantos – Mas estou quase perdendo a mãe dela, não quero perde-la também!

Foi então que todas as peças se encaixaram.

Minha mãe quase morreu no dia em que nasci, um dia de chuva.

“Sempre no seu aniversário a chama mudava”.

A criança que Ártemis levava era eu.

A cena mudou.

Agora Ártemis estava sentada nos jardins, com várias caçadoras ao seu redor. Elas brincavam com um bebê que a deusa segurava.

Elas brincavam comigo.

–Vocês não vão deixa-la dormir? – perguntou Ártemis, rindo.

–Ainda não. – respondeu uma garota alta de pele morena e cabelos negros compridos. Uma tiara prateada brilhava em sua cabeça. Eu já tinha visto aquela garota durante uma caçada, mas não me lembrava de seu nome – Como ela se chama mesmo?

–Dayannya. Significa “Iluminada”. – disse um homem. A roda de garotas se abriu revelando Apolo. Ele se aproximou e estendeu os braços para a Eu-Bebê. Ártemis entregou-me relutante.

Apolo embalou-me em seus braços.

–Eleanor está se recuperando. – murmurou ele com um olhar estranho – Talvez... Talvez a profecia não se realize.

–Irmão... – Ártemis se levantou. Ela usava uma túnica branca e sandálias, não algo que usaria em uma caçada. O cabelo estava preso em um coque no estilo grego. Ela fez um gesto quase imperceptível para que as caçadoras fossem embora. Estas hesitaram um pouco antes de irem até o mercado, deixando os gêmeos sozinhos.

–Talvez ela não precise passar por aquilo.

–É inevitável. É o destino dela, ela...

–Ela pode morrer. – murmurou Apolo – Por Zeus, eu nunca esperava que não pudesse prever uma profecia. Foi tão inesperado, tão...

Ele engasgou e as lágrimas rolaram.

Ártemis abraçou o irmão para tentar conforta-lo.

Tudo mudou novamente, em um turbilhão de cores.

Ártemis encontrava-se em frente à fogueira no salão do trono. Chovia novamente e a deusa chorava, algo que eu pensei que jamais aconteceria.

Ela me abraçava com força enquanto outra deusa, que reconheci como Héstia, tinha a mão em seu ombro e dizia alguma coisa.

–É o único jeito... – disse Héstia.

Ártemis negou com a cabeça e engasgou enquanto apertava ainda mais meu corpinho em seus braços.

–O que você prefere? Que uma desgraça aconteça? Ou que ela talvez morra queimada pelo fogo, ao invés de ter uma morte honrosa?

Então descobri o porquê de Ártemis estar chorando.

Héstia queria me sacrificar.

–O que há de honroso nisso?! – gritou Ártemis.

–Ela...

–Absolutamente nada. – Apolo entrou no salão do trono, com raiva, e estendeu os braços – Me dê minha filha.

–Não! – Ártemis arregalou os olhos e se afastou, chegando perigosamente perto do fogo que queimou com mais força – Apolo, posso leva-la para a caçada, ela não vai...

–Ela não é sua filha, Ártemis! – o outro tremia de raiva – Você que quis isso! Agora, dê-me ela!

A deusa ficou parada, perplexa. No exato momento em que ia dizer alguma coisa o fogo explodiu, a envolvendo. Os deuses berraram, mas as chamas não o deixavam se aproximar.

Depois de alguns instantes Ártemis saiu do fogo e desabou no chão, as roupas e pele queimadas. Eu não estava junto a ela.

Apolo ajoelhou-se ao seu lado e lhe deu ambrosia. Ártemis tossiu e tentou se levantar, mas não tinha forças para isso. Ela gritou quando Héstia lhe lançou um único olhar e entrou no fogo.

Os gêmeos esperaram, até que a deusa saiu carregando um embrulho pequeno queimado nos braços.

Ártemis conseguiu levantar-se com a ajuda de Apolo e os dois se aproximaram de Héstia. Apolo tomou o corpinho e tirou desesperadamente o cobertor que o envolvia, as lágrimas caindo e se acumulando no tecido.

Assim que retirou o cobertor, Apolo ficou com uma expressão de total alívio, horror e surpresa.

A Eu-Bebê respirava suavemente em seu colo, os olhinhos fechados e o peito subindo levemente. Não havia nenhuma queimadura ou arranhão em mim.

“O Oráculo lhe previu dois destinos” disse a mesma voz de mulher de antes “E o que lhe acolheu, foi mais tenebroso que a morte”.

Então tudo escureceu.