Respirei fundo tentando amenizar minha dor de cabeça.

Virei-me na cama e tentei examinar o lugar em que estava, com sua luz precária. As tochas nas paredes iluminavam as camas dispostas umas ao lado das outras ao longo das paredes longas e brancas, agora no escuro. Pelas janelas altas eu podia ver as estrelas brilhando no céu noturno, a lua prateada e graciosa como sempre.

–Você está bem? – eu conhecia aquela voz. E só saber que o dono dela estava ali comigo fez todas as minhas preocupações se dissiparem.

–Um pouco. – murmurei esfregando os olhos – O que houve?

–Héstia te mostrou alguma coisa. – Isaac fechou a mão em torno de algo pequeno – Mas foi demais pra você.

Suspirei passando a mão na testa. Senti um calombo ali.

–Eu caí?

–E bateu a cabeça. Você desmaiou depois da visão.

Ergui-me sobre os cotovelos, minha fronte latejando.

–Porque isso sempre acontece comigo? – resmunguei.

–Falta de sorte? – ele sorriu.

–Acredite, minha falta de sorte ultrapassa em muito esses limites.

Ele estendeu a mão e acariciou meu rosto de leve. Não o afastei.

–O que importa é que você está bem agora. – falou baixo e recolheu o braço meio relutante – Ártemis disse que poderia demorar mais para acordar.

–Há quanto tempo eu estou aqui?

–Dois dias. – ele mordeu o lábio – E eu estou proibido de te ver, então acho que não devíamos estar conversando agora.

–Não me importo. – falei irritada – Não me importo com isso, eu só quero... – ia dizer que só queria que ele estivesse ali comigo, mas aquela não era uma boa hora. Joguei-me na cama e fiquei encarando o teto – Você sabe como minha mãe está?

–Já mandaram ela pra casa. – ele hesitou um pouco antes de continuar – Passei no hospital antes de... Antes de voltar para o prédio.

Sentei-me na borda do colchão e o movimento repentino fez as marteladas em minha cabeça aumentarem, mas não dei importância.

–Você voltou lá? – sussurrei. Eu queria ter gritado, mas sabia que não podia ainda mais porque ouvi passos do lado de fora, bem debaixo da janela.

–Voltei. – ele respondeu no mesmo tom de voz que o meu – Não havia mais nada lá, nenhum lobo, guarda... Muito menos Elijah.

–Será que ele está morto? – a esperança transpareceu na minha pergunta mais do que eu queria.

–Acho que não. Como eu disse, ele é muito mais forte que Gael, talvez tenha apenas fugido. – Isaac apertou mais o punho – Mas ele não é nossa única preocupação. Tenho quase certeza de que Peggy mandou alguém atrás de nós.

–E os pretores? – perguntei abraçando meus joelhos junto ao peito – Eles já estão sabendo da nossa visita?

–Já. Eu entrei em contato com eles mais cedo. Disseram que vão nos ajudar, “mesmo que eu não mereça”. – ele disse em tom de deboche — Mas entenderam sua... situação.

Assenti e olhei para a mão fechada dele. Consegui captar o brilho de algo dourado.

–O que é isso? – ergui os olhos para o rosto dele.

Isaac abriu a mão e uma corrente de ouro ficou pendurada pelos seus dedos. O pingente dourado e verde balançava sutilmente.

–Quando voltei encontrei-a no meio de uns destroços. – murmurou – No mesmo lugar em que Elijah tinha tirado ela de você. – ele franziu a testa e abriu o fecho da corrente – Olhe, eu sei que as coisas estão estranhas entre a gente agora...

Um sorrisinho involuntário se formou em meus lábios.

–Sempre foram.

Ele sorriu.

–Mas agora são de um jeito diferente. E mesmo assim quero que continue com ela. – Isaac prendeu a corrente em meu pescoço. Quando prendeu os fechos, ele tomou meu rosto entre suas mãos e colocou sua testa junto a minha. Fechei os olhos e entrelacei meus dedos nos dele.

–Eu queria que as coisas não fossem tão difíceis. – sussurrei sentindo a respiração dele se misturar a minha. Tê-lo perto fazia eu me sentir melhor, todas as dores iam embora e meu coração batia mais rápido e forte como se nunca pudesse parar.

–Eu também. – ele beijou minha testa e se afastou, porém mantendo nossas mãos juntas — Tenho que ir agora. Se alguma ninfa me ver aqui, vai dar o maior chilique.

Apertei as mãos dele.

–Fica aqui, só mais um pouco. – falei meio que implorando – Eu não quero ficar sozinha.

Os olhos dele brilharam por um momento, e então ele assentiu e pediu que eu fosse para o outro lado da cama.

Assim que me afastei Isaac sentou-se do meu lado e me abraçou, minha cabeça deitada em seu peito.

–Lembra quando eu disse que Netuno estava certo? – murmurou enquanto acariciava meu cabelo – Eu me arrependi de ter dito isso.

Abri os olhos e me virei na cama, me erguendo sobre os cotovelos.

Com uma pontada de angústia e solidão, percebi que ele havia ido embora.