Notas iniciais
Gente, primeiro de tudo, eu queria realmente agradecer pelo apoio e pelos comentários, voces são uma graça e é ótimo para mim saber que muitos - mais ou menos - dos que leram o índice da história continuaram e estão gostando. S2 Obrigada de verdade! 

Callum se levantou e abraçou-me assim que cheguei perto.

Isaac parou a uns poucos metros e cruzou os braços.

–Daya, você não vai acreditar no que aconteceu! – Callum me apertou ainda mais, me sufocando – Você sumiu por uma semana! – o tom dele era sarcástico, e assim que se afastou seus olhos mostravam uma mistura de preocupação fingida e raiva – Então eu resolvi rastrear o celular do qual você ligou duas vezes, e adivinha! Esse não é o consultório do dentista!

–Call, eu posso explicar... – comecei mas ele me interrompeu.

–Espera, tem mais! Acabei de descobrir que você foi dar um passeio matinal com um loiro oxigenado!

O sorrisinho desapareceu dos lábios de Isaac.

–Loiro oxigenado?

–Isaac, não começa...

–Olha! – Callum fingiu espanto — Ele tem nome bíblico! Você é o que, Judeu?

–Vou quebrar a cara desse idiota... – Isaac cerrou os punhos e aproximou-se um passo.

–Chega! – apontei um dedo tremendo para ele – Você! Já para dentro!

–Mas...

–Agora! – tentei parecer o mais ameaçadora possível com minha voz estrangulada.

O garoto lançou um olhar a Callum, que o fez encolher, e entrou no Reformatório batendo a porta. Respirei fundo.

–Porque você mente pra mim? – Callum se virou para me encarar. Não havia mais raiva em seus olhos, mas sim tristeza.

–Eu... – eu não tinha nada para dizer, e com certeza qualquer coisa iria piorar a situação ainda mais.

Callum mordeu o lábio e assentiu devagar.

–Se... Se você não queria mais me ver, era só falar.

–Call, não é isso...

Ele estendeu a mão e tirou meu celular de seu bolso.

–Pega. – ele o jogou para mim – Não preciso mais dele.

O garoto deu as costas e começou a andar.

–Callum! – tentei me aproximar mas ele se virou, agora com raiva.

–Para! Está bem? Eu já cansei disso! Já que você prefere ficar com esse cara, então fica! – ele deu as costas outra vez e andou mais rápido.

E eu não tentei impedir.

Soltei um berro quando entrei na casa.

Porque minha vida tinha que ser um lixo?!

–O que aconteceu? – Sirena desceu a escada correndo. Ela vestia apenas uma camisola azul e curta, seu cabelo nunca estivera tão bagunçado.

–O que aconteceu?! – berrei cerrando os punhos – Pergunte ao Isaac que merda aconteceu!

Passei por ela e subi a escada batendo os pés. Quando cheguei ao terceiro andar entrei em meu quarto e me joguei na cama, chorando. Não, eu não tentei fugir de novo. Na verdade, estava pensando em me auto giletar, mas se não funcionasse eu ficaria com os pulsos doloridos e amarrada em uma camisa de força.

Contei até cem e levantei-me, enxugando as lágrimas. Fui ao corredor e vi uma porta aberta à minha direita, lançando um pouco mais de luz no corredor. Então lembrei-me de que não sabia onde ficava o quarto de Isaac. Os de Dake, Sirena e Christopher ficavam no andar de baixo, mas não o de Isaac.

Andei até a porta e espiei lá dentro. O quarto era simplesmente impecável.

A cama de solteiro tinha os cobertores brancos esticados com perfeição. Na outra parede um guarda-roupa de mogno brilhava , polido, ao lado de um baú aberto contendo pilhas de facas, longas e curtas. A única coisa fora de lugar era uma camiseta cinza jogada perto do baú, rasgada nas costas e ensanguentada. Isaac estava em frente – de costas, na verdade — à porta de espelho do guarda-roupa, sem camisa e tentando examinar o corte profundo em suas costas.

Limpei a garganta e desviei o olhar.

–Porque o berreiro lá embaixo? – ele perguntou sem voltar-me a atenção.

–Aliviando o estresse– senti meu rosto esquentar quando ele pousou os olhos azuis em mim.

–E seu namorado?

–Ele não é meu namorado, droga. – minha cara estava prestes a entrar em combustão – Eu já te disse isso. E ele foi para casa, está bravo comigo.

–Uhum... – ele ergueu uma sobrancelha e olhou o reflexo das costas no espelho – Você sabe fazer pontos? Não que eu não saiba, mas aqui é difícil.

–Sei. – entrei no quarto e ele sentou-se na beirada da cama, se agachando para pegar uma caixinha de madeira. Fiquei de joelhos atrás de Isaac e abri a caixa. Lá dentro havia agulhas e linhas para suturas, esparadrapo, néctar, ambrósia e várias pomadas, assim como remédios para dor e... – Viagra?

–Não é meu! – Isaac olhou por cima do ombro, as faces rubras.

–Seeei... – peguei um pano e passei um pouco de néctar misturado com um remédio para desinfetar cortes.

–É sério! – ele torceu o nariz – Deve ser do Dakota, sei lá. Ele que é o pervertido.

–Mas o que isso está fazendo no seu quarto? – arqueei as sobrancelhas e comecei a limpar o machucado.

–Cala a boca e costura. – ele franziu a testa e voltou a cabeça para frente – Mas sério, isso não é meu. Eu juro.

–Tá. – terminei de limpar as costas dele e peguei agulha e linha – Agora fica quieto e se doer me fala.

–Eu não sinto dor. – ele apoiou os cotovelos nos joelhos. Cutuquei a base de sua espinha com a agulha e os músculos nos ombros e braços dele ficaram tensos – Isso não conta.

Sorri e comecei a fazer os pontos.

–Seu amigo gosta mesmo de você. – Isaac se pronunciou quando eu estava na metade do corte.

–Aposto que ele nunca mais vai querer falar comigo. – murmurei. Aquela não era a primeira vez que Callum e eu ficávamos de mal, mas eu tinha quase certeza absoluta de que seria a última.

–Porque ele estava com ciúmes? – Isaac espiou por cima do ombro – Ele não vai aguentar muito tempo sem você.

–Por quê? – terminei os pontos — Você nem o conhece.

–Não preciso conhecê-lo para saber o que ele sente por você. – ele pegou uma camisa no criado-mudo – Está na cara.

–Você fala como minha amiga. – lembrei-me de Sierra e da conversa que tivemos uma semana antes.

–Ela é loira e gostosa? Porque se for, tudo bem.

–Cala a boca! – joguei um rolo de esparadrapo nele.

Ele se levantou segurando a camisa debaixo do braço e colocou os polegares nos passadores da calça.

–Você acha que eu devia ligar para ele e pedir desculpas? – perguntei me levantando da cama e guardando as coisas de volta na caixinha.

Isaac evitou meu olhar por um momento, havia algo estranho em sua expressão, algo que eu nunca vi antes.

Pelo menos não nele.

–Há uma grande chance de ele desligar na sua cara. – o garoto pegou uma toalha dentro do guarda-roupa – Mas se você acha que deveria tentar... Agora, se você me der licença, preciso tomar um banho urgentemente.

–Claro. – meu rosto esquentou e ele deu um sorrisinho – Hã... Boa noite?

–Boa noite – ele disse e um sorriso escapou de meus lábios antes que eu fechasse a porta.

–Eu te disse para tomar cuidado! – Ártemis estava acariciando uma corça prateada, com chifres e cascos de ouro.

–Mas eu... – minha boca estava seca. Em um momento estou em minha casa no México e no outro, de volta à campina relvada do meu último sonho.

–Não. – a deusa ergueu a mão para me silenciar – Nem mais uma palavra. – ela parecia triste – Eu esperava que você soubesse o que era antes de usar seus poderes! Que você...

–O que eu sou? – murmurei – O que a senhora quer dizer com isso?

–Isso... – ela suspirou – Isso não importa agora. Mas agora Licáon sabe do que você é capaz, e não vai deixar isso para lá.

–Por quê?! – aumentei o tom de voz – O que eu significo para ele?!

Ártemis não disse nada.

Com um único gesto seu, o campo desapareceu.

Agora eu estava em uma caverna ampla e escura, lobos enormes de olhos vermelhos e brilhantes rodeavam a entrada da caverna, despedaçando algo que não consegui distinguir.

A caverna sumiu e então eu me encontrava em um escritório sujo e caindo aos pedaços. Uma caixa de metal estava aberta sobre uma mesa a um canto, exibindo um amuleto de ferro e esmeralda com uma pedra transparente em seu centro. O mesmo fogo que saiu de minhas mãos rodopiava lá dentro de um jeito hipnotizante. Ouvi vozes atrás da porta arruinada do escritório.

Então eu acordei.

Respirei fundo.

Eu encarava o teto do meu quarto, a luz do sol entrava pela janela aberta.

Mas eu tinha quase certeza de não ter aberto minha janela.

Bocejei e esfreguei os olhos, sentando-me no colchão, fazendo as cobertas escorregarem de minhas pernas. E dessa vez eu tinha certeza absoluta de não ter me coberto, quer dizer, depois de ligar para Sierra e dizer que estava tudo bem, prometendo que ligaria de novo mais tarde eu passara quase duas horas tentando ligar para Callum e então cai de cansaço com o celular ainda na mão e agora ele se encontrava sobre meu criado-mudo. Franzi a testa enquanto me levantava. Antes de minhas tentativas fracassadas de me reconciliar com Callum eu havia me trocado rapidamente de roupa, colocando uma camiseta tamanho família que chegava aos meus joelhos e um shorts curto. As outras roupas, as quais eu havia jogado no chão, estavam sobre a escrivaninha, lavadas e dobradas.

Vesti a mesma calça de mais cedo e guardei o celular no bolso de trás enquanto saia para o corredor. A porta do quarto de Isaac estava fechada, e não passava nenhuma luz pela fresta embaixo dela. Ou ele estava dormindo ou já tinha descido. Resolvi checar a segunda opção. Desci a escada circular sem fazer barulho e ouvi vozes vindas da cozinha.

Assim que passei pela porta que levava a cozinha uma faca voou em direção a minha cabeça, cravando-se na parede bem ao lado dela.

–Adivinha! – gritou Sirena já com outra faca na mão.

–Isaac contou que merda aconteceu. – fuzilei o garoto com o olhar que apenas deu de ombros. Ele girava uma esfera de vidro decorativa pela mesa, de uma mão para a outra.

–Fugir no meio da manhã? Você é louca? – Sirena passou a mão pelos cabelos, respirando com força.

–Ela é um pouquinho sim. – murmurou Isaac.

–Você não esta ajudando... – resmunguei e ele me olhou indiferente.

–E você tocou fogo em um licantropo!

–Isso sim é que é loucura. – Isaac pegou a espera e girou-a na ponta do dedo.

–Daya, nós precisamos conversar. – Dakota se debruçou na mesa, quase derrubando um copo de suco de laranja – Tipo assim, agora.

Revirei os olhos.

–Ah! Eu já ia me esquecendo. – Isaac girou a esfera mais uma vez, que afinou e ficou longa, criando cor e forma. Assim que a transformação acabou, o que foi bem rápido, o garoto estendeu uma rosa vermelha para mim – Bom dia, e me desculpe por ter te chamado de estúpida ontem, e por qualquer outra coisa.

Toda a tensão em meus ombros desapareceu, assim como minha fala. Aquilo era um gesto muito fofo, especialmente para Isaac. Quando fui tentar responder, Sirena bateu na mesa com a mão espalmada.

–Não temos tempo para isso! – ela apontou para mim – Senta logo!

Peguei a rosa e sentei-me ao lado de Isaac. Um sorrisinho formou-se em meus lábios, mas o escondi logo apoiando o queixo na mão.

Christopher empurrou os óculos para cima do nariz, ele tinha ficado muito vermelho de repente.

–Bem, para começar, você tem alguma ideia de como fez aquilo?

Balancei a cabeça em negativa.

–Tudo bem então... – Chris apertou as mãos – Como tudo aconteceu exatamente?

Contei a ele sobre quando o lobo pulou para dentro do círculo e ergui minha mão em um gesto protetor, e em como meu braço esquentou e do fogo saindo das pontas dos meus dedos, sem me queimar. E tambem que era um fogo diferente do que eu já havia visto.

Dakota estreitou os olhos quando terminei.

–Tem mais alguma coisa. Não é?

Respirei fundo e narrei meus últimos sonhos com Ártemis.