Filha de Apolo - Flames
11 O Ponto
Passei os dedos pelo caule da rosa.
Depois de falar sobre meus sonhos, os quatro saíram da cozinha e foram conversar na sala. Já estava quase me levantando e indo para meu quarto quando Isaac voltou. Ele se apoiou nas costas da cadeira na cabeceira.
–E então? – perguntei meio tímida.
–Vamos para o Acampamento Júpiter. – ele girou o anel de prata no dedo – Hoje à noite.
–Porque não vamos para o Meio-Sangue? – empertiguei-me indignada – Quer dizer, já estamos aqui! E ainda teremos que fazer a viagem até Berkeley Hills!
Ele deu de ombros.
–Nem sempre sou eu quem toma as decisões.
Suspirei e encarei a rosa.
–Como você fez isso? – dirigi-me a Isaac depois de alguns segundos.
–Névoa. – ele sorriu e estendeu a mão. Pousei a flor em sua palma – É um truque bem fácil se você souber usar.
–Que bom. – falei – Eu não sei usar.
Isso tirou uma risada suave dele.
–Seu instrutor nunca te ensinou?
–Não. O pessoal do chalé de Apolo tem como base Arco e Flecha e Medicina. – coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sempre que ficava nervosa ou insegura começava a mexer em meu cabelo, e estar sozinha com Isaac me causava as duas sensações.
–Tudo bem. – ele sentou-se na cadeira ao meu lado – Semideuses que não são descendentes de um deus da magia, tipo Hécate, tem certa dificuldade para fazer isso. Eu mesmo me desconcentro às vezes. – ao dizer isso ele estralou os dedos e a rosa voltou a sua forma original, uma esfera de vidro. Por um momento pareceu-me que filetes de névoa a envolveram – Você só precisa... Sei lá, se concentrar no que as pessoas ao redor querem ver. Só não entendo porque isso virou uma rosa.
Meu rosto esquentou.
–Eu estava pensando naquela flor que você deixou no meu quarto outro dia.
–Como você sabe que fui eu? – ele arqueou as sobrancelhas. Dei de ombros e pulei na cadeira quando o celular em meu bolso começou a tocar. Já esperava que fosse Sierra, mas o nome de Callum brilhava no visor. Isaac recostou-se na cadeira – Não vai atender?
Engoli em seco e aceitei a ligação, colocando no viva-voz.
–Daya? – Callum parecia inseguro – Olha, me desculpe por hoje cedo. Talvez se você pudesse me perdoar, mas sei lá, né?
–Esta tudo bem.
–Sério? Que bom. – ele fez uma pausa – Então... Quando você volta?
–Te garanto que não vai ser hoje. – de repente fiquei com dor de cabeça – Nós vamos para Berkeley Hills à noite e...
–Nós? Ah é... – a voz dele transbordava raiva. E ciúmes.
–Olha, ele é só meu... – franzi a testa e olhei para Isaac buscando ajuda. Os lábios dele se moveram com a palavra “amigo” – Amigolega.
–Amigolega? – os dois disseram em uníssono.
–Amigo e colega, — passei a mão na nuca – tanto faz, eu só quero dizer que não somos íntimos um do outro.
–Não tanto quanto você pensa. – disse Isaac e o fuzilei com o olhar.
–Cala a boca – resmunguei -, você não está ajudando.
–E quem disse que eu queria ajudar?
–Eu não gosto desse cara. – murmurou Callum do outro lado da linha.
–Ótimo, porque meus sentimentos por você são recíprocos!
–O que está acontecendo aqui? – Sirena apareceu atrás de Isaac. Eu estava tão absorta na conversa que nem a percebi entrando – É melhor vocês arrumarem suas coisas logo, para não acontecer como da última vez. – essa última frase foi dirigida a Isaac. Ele revirou os olhos e saiu da cozinha.
–Call, eu tenho que desligar... – comecei.
–Espera! Eu vou com você! – ouvi algo caindo assim que ele terminou de falar. Desliguei o viva-voz e coloquei o celular no ouvido.
–Não vai não. – olhei feio para Sirena quando ela se aproximou para ouvir a conversa – Isso é sério ok? Pode ser perigoso.
–E sumir de repente não foi? Sua mãe está louca e talvez Sierra fique doente! Não se faz isso com as pessoas!
Suspirei.
–Desculpe, mas eu realmente tenho que ir. Diga para minha mãe que está tudo bem comigo. Eu já falei com Sierra mais cedo.
–Ok. – ele resmungou e depois de alguns segundos cortou a ligação.
–Que fora – Sirena apoiou os cotovelos na mesa.
–Porque você não vai arrumar suas coisas? – fechei os olhos e encostei-me na cadeira, respirando fundo.
–Porque você não vai arrumar as coisas aqui dentro? – ela me cutucou acima do coração e se levantou. Abri os olhos e encarei o teto por alguns segundos antes de voltar para meu quarto.
Coloquei minha rosa em copo que havia pegado na cozinha no dia anterior. Agora eu tinha um mini vaso em meu quarto com duas flores lindas.
Ouvi batidas à porta.
–Você esta pronta? – era a voz de Dakota do outro lado.
–Já. – peguei a mochila que eu havia preparado e fui ao corredor. Tinha passado o dia todo em meu quarto lendo um livro da biblioteca: “Um Conto de Duas Cidades”. Eu já havia lido aquele livro, mas foi o primeiro que achei.
–Aqui. – Dakota me estendeu uma bolsa curva e fina de couro preto – Vê se é do seu tamanho.
Abri o zíper lateral da bolsa e tirei um arco escuro e longo de dentro. A madeira com que era feito era escura e entalhada em padrões simplesmente incríveis. O punho era envolto por couro branco.
–É perfeito. – murmurei e então franzi a testa – Mas por que...?
–Você não tem nada além daquela adaga. – ele deu de ombros – E andar por aí com uma arma de longo alcance é sempre bom.
–Obrigada. – sorri.
–Agradeça a Isaac. – Dakota colocou o cabelo para trás da orelha – Para falar a verdade, a ideia foi dele. A aljava está na sala.
Ele foi em direção à escada e eu o segui, guardando o arco na bolsa.
Quando terminamos de descer a sala estava vazia, com todas as suas luzes apagadas. Peguei uma aljava que estava em cima do sofá. Dakota me levou em direção á porta da frente e saímos. Ele se virou e trancou a porta. A rua estava totalmente deserta exceto por nós dois, a lua e as poucas estrelas lançavam uma luz fantasmagórica por sobre as árvores que começava a perder suas folhas.
–Onde estão os outros? – perguntei seguindo Dakota pela rua vazia.
–Resolveram sair antes e pegar um lugar no Ponto.
–Vamos de metrô? Mas... – então me lembrei do que ele me disse sobre o Ponto – Ah é.
Dakota riu.
–Você acaba se acostumando. – ele entrou em um beco e levantou uma grade do chão – Vai em frente.
Aproximei-me do buraco no chão e espiei lá embaixo. Ou melhor, eu tentei. Não conseguia ver nada naquele escuro.
–Eu não vou entrar aí. – falei indignada, os olhos arregalados.
Dakota não disse nada, apenas deu de ombros e me empurrou.
Soltei um berro enquanto caia.
Pousei de pé em algo macio. Parecia um colchão, mas eu não podia ver nada.
Arrumei minha camiseta e sai de cima do “colchão”. Depois de alguns ouvi mais alguém caindo no mesmo lugar que eu e então soquei aquele lugar, acertando algo.
–Ei! – reclamou Dakota acendendo uma lanterna.
–Nunca mais faça isso! – gritei e o segui por um túnel revestido de ferro. Quando chegamos ao final Dakota desligou a lanterna e meu queixo caiu.
Estávamos em um lugar amplo, um metrô típico na verdade. Porém as pessoas que andavam por ali carregavam armas e caixas que diziam “cuidado: ovos de águia gigante” ou “basilisco vivo: mantenha distancia”. Um trem bala estava parado nos trilhos, pintado na lateral com grandes letras SPQR em dourado. O teto do metrô era abobadado com várias plataformas se entrecruzando, onde as pessoas passavam com animais vivos, como unicórnios e pegasos robustos.
Vi Sirena de pé em um banco acenando para nós. Seguimos em sua direção e quando chegamos ela nos entregou duas fichas do metrô.
–Venham logo, o trem sai em cinco minutos! – Sirena agarrou minha mão e me puxou em direção aos trilhos. Esprememo-nos entre as pessoas até conseguirmos pular para dentro do trem. O lugar estava praticamente vazio. Sirena sentou-se ao lado de Christopher, em frente a onde Isaac estava sentado, mexendo no celular. Dakota piscou para mim e se dirigiu a outro lugar no fundo do trem.
Respirei fundo e sentei-me ao lado de Isaac, apoiando o arco e aljava no assento da frente.
–Quanto tempo para chegarmos? – perguntei.
–Vinte minutos, mais ou menos. – ele guardou o celular e passou os dedos pelo cabelo – Isso se não nos atrasarmos. Você já foi lá?
Fiz que não com a cabeça.
– Nunca quis.
–Que tristeza. – ele murmurou.
–Além do mais, minha mãe me mataria se eu saísse de Nova Iorque.
–Como você está fazendo agora?
–É... – suspirei – Valeu pelo arco.
–Não tem de que. – ele tirou duas barrinhas de cereais de sua mochila e me ofereceu uma – Só espero que você saiba usar, senão vai ter sido um desperdício.
Bati no braço dele com a barrinha.
–Olha... – ele começou – Desculpe por ter sido... Grosso... Com seu amigo. É que...
–Está tudo bem – tentei sorrir – Sério, você não fez nada de mais.
–Que bom. – ele abriu o pacotinho da sua barra de cereais – Porque eu não ia pedir desculpas para ele mesmo.
Eu ri e conversamos a viagem inteira, mas sem tocar no assunto de Callum.
Fale com o autor