Estava de novo no escritório, mas dessa vez não haviam vozes por detrás da porta.

Olhei em volta. A mesa no centro do recinto, que já não estava em boas condições, encontrava-se no o chão aos pedaços. As janelas sujas não tinham mais vidro e a pintura nas paredes estava ainda mais descascada. Porém alguma coisa estava faltando...

Nesse momento a porta se abriu, batendo na parede com estrondo. Um homem alto e magro entrou. Os cabelos escuros e lisos estavam penteados para trás com gel. Usava um terno e calça social pretos, como se fosse a uma reunião formal. Os olhos grandes e inteligentes mudavam de cor rapidamente, como óleo sendo derramado no asfalto.

O homem gritou e pegou uma caixa no chão. As dobradiças da caixa estavam quebradas e um bilhete em latim com letra garranchada encontrava-se sobre uma almofada de veludo roxo dentro dela. O homem rosnou assim que terminou de ler o bilhete e atirou a caixa pela janela quebrada. Então ele olhou diretamente para mim e sorriu.

–Para que o amuleto, — rosnou baixinho – se eu posso ter algo muito melhor e mais poderoso.

Abri os olhos de repente.

O trem do Ponto parecia não se mover mais, então devíamos ter parado de novo. Na metade da viagem havíamos feito uma parada em Ohio para deixar alguns passageiros e pegar outros e acabei adormecendo ao lado de Isaac. Uma mão tocou meu braço.

–Tudo bem? – era Isaac. Bocejei e esfreguei os olhos. Minha cabeça estava apoiada no ombro dele e a lateral do meu corpo doía por mau jeito.

–Uhum. – resmunguei e sentei-me ereta, fazendo minhas costas estralarem. Isaac passou as mãos pelo rosto que estava vermelho de um lado e haviam olheiras debaixo dos seus olhos. Pelo jeito ele tambem caíra no sono.

–Vamos, – ele se levantou pegando sua mochila e a minha – Eles já estão esperando lá fora.

–Dessa vez estamos no lugar certo, né? – levantei-me colocando o arco e a aljava nas costas.

Ele sorriu.

–Estamos – Isaac foi para fora do trem comigo em seu encalço. Quando saímos na estação subterrânea, ouvi o que parecia ser chuva pesada, vindo de um lugar muito acima.

Seguimos por entre o amontoado de pessoas, esbarrando em algumas e às vezes recebendo olhares de raiva, medo e surpresa. Não entendi o porquê, até que notei que as mangas da jaqueta de Isaac estavam erguidas até um pouco abaixo do cotovelo, exibindo a tatuagem com o tridente no seu antebraço esquerdo.

Uma garotinha de uns sete anos soltou um gritinho ao ver as marcas e correu para trás das pernas do pai, que fechou a cara para nós e colocou a mão sobre o punho da espada presa em seu cinto.

Engoli em seco e apertei o passo para ficar quase grudada em Isaac.

Entramos em um túnel de ferro, exatamente igual àquele pelo qual eu e Dakota havíamos passado, porém neste lâmpadas pendiam do teto alto. Andamos por um bom tempo até Isaac parar em frente a um portão e apertar repentinas vezes o botão ao lado das grades.

–Que droga! – gritou uma voz abafada do outro lado do portão – Será que vocês não podem esperar? Que falta de consideração!

Um garoto surgiu atrás das grades. Tinha o cabelo castanho aparado bem curto e usava uma armadura romana quase completa, exceto pelo elmo, que estava de baixo do braço. O garoto era do meu tamanho — ou seja, quase um anão –, e não estava exatamente em forma. Assim que ele viu Isaac seus olhos se arregalaram de puro terror.

–Te conheço? – perguntou com a voz aguda, se afastando alguns passos.

–James, já conversamos sobre isso. – Isaac se apoiou nas grades do portão, fazendo o outro garoto estremecer.

–Estou proibido de falar com você. – James parecia estar tentando evitar olhar para Isaac – Todos nós estamos.

Isaac revirou os olhos.

–Ela ainda está com essa frescura?

–Não é frescura. – James fechou os olhos, determinado a não encarar o outro – Você sabe muito bem o que fez.

–E ainda assim você está falando comigo.

James não respondeu.

–Quer fazer as honras? – Isaac se dirigiu a mim, o olhar suplicante.

–Ei. – aproximei-me do portão – James não é? Olha James, eu sei que esse cara é meio chato e irritante de vez em quando, e entendo que você não queira falar com ele. Mas será que você pode me fazer um favor?

–Que favor? – James abriu um olho.

–Nos deixar passar.

–Não. – o garoto balançou a cabeça freneticamente em negativa – Você pode passar, mas ele não.

–Vem cá, o que foi que você fez? – fuzilei Isaac com o olhar.

–Ajo impulsivamente nas piores horas. – ele colocou as mãos nos bolsos – E também sou inconsequente.

–E quando você é impulsivo dá tudo errado.

–Exatamente.

–Bem, James, vamos fazer um acordo – passei os braços pelas grades e virei as palmas das mãos para cima – Você nos deixa passar e me conta o que o Senhor Impulsivo aqui fez. E em troca, não dissemos nada aos pretores sobre termos estado aqui.

James cerrou os olhos.

–Jura?

–Eu jur... – antes que pudesse terminar, Isaac apertou meu ombro.

–Não, nada feito. – ele arqueou as sobrancelhas – Que tal assim: você nos deixa passar, ou eu quebro esse portão e os seus dentes. Feito?

–Ele me assusta. – murmurou James tremendo, enquanto abria o portão com uma chave de bronze.

–Idem. – empurrei o portão, agora destrancado, e segui James por um corredor de terra iluminado de quando em quando por uma lâmpada de luz fraca presa na parede por correntes de ferro.

–Onde estão Chris, Dakota e Sirena? – perguntou Isaac, pulando por cima de uma pedra e pousando no chão com leveza. James não respondeu.

–James? – falei do modo mais delicado que consegui.

–Sim?

–Onde estão nossos amigos?

–Eles também me ameaçaram para passar. Tipo, como foram banidos do acampamento eles não podiam voltar, e se a pretoria descobrir que eu deixei, estes vão me colocar em um saco com cães raivosos e me jogar no pequeno Tibre. – ele olhou por cima do ombro – Mas eu deixei por uma boa causa.

Franzi a testa. O que ele queria dizer com aquilo?

–Que causa?

–Você. – James deu um sorrisinho tímido – Eles disseram que tinham uma garota poderosa, mais do que já tinham visto antes. E você sem dúvida é essa garota.

–Como pode ter tanta certeza?

Ele encolheu os ombros, olhando de relance para Isaac.

–Minha mãe é Belona. Eu meio que sinto o poder emanando de vocês dois. – então ele se virou e não disse mais nada.

Depois de alguns metros perguntei baixinho a Isaac:

–O que você fez de tão ruim?

–Eles dizem que eu traí a Legião. – ele baixou as mangas da jaqueta – Mas não é verdade. E se não se importa, não quero falar sobre isso.

–Tudo bem. – suspirei e parei diante de uma porta de ferro enorme. James havia tirado um molho de chaves de dentro do peitoral da armadura e agora procurava a chave certa, até escolher uma grande e feita do mesmo material que a porta. Colocou a chave na fechadura e destrancou a porta, que dava para uma sala pequena, parecida com um galpão de ferramentas. A um canto uma escada de mármore levava a um pavilhão coberto, porém sem paredes, apenas com colunas por toda a volta do chão de mármore branco. A chuva caía do lado de fora, deixando a terra e as ruas de uma pequena cidade romana ensopadas.

Respirei fundo o ar úmido com cheiro de terra molhada e olhei para Isaac. Ele tinha colocado o capuz da jaqueta deixando o rosto encoberto pelas sombras. Fechei o zíper da minha blusa, bloqueando parte do vento frio.

–Só posso vir até aqui. – James juntou suas mãos que tremiam – Tenho que voltar. Acho que seus amigos estão na parte residencial da cidade. – então ele deu as costas e voltou para o túnel.

–Espero que você se lembre do caminho até lá. – falei para Isaac.

–Como não poderia? – ele começou a andar. Antes que pudesse segui-lo, meu celular tocou de dentro da minha mochila. Tirei-a da mão de Isaac e abri o bolso da frente, pegando o aparelho e atendendo sem ver quem era.

–Pronto. – falei passando a alça da mochila pelo meu braço.

–Daya? Graças aos deuses! – era a voz de Callum, e ele parecia desesperado — Estou tentando te ligar há quatro horas, já peguei um avião pra Berkeley Hills e....!

–Espera! – encostei-me à uma coluna, a chuva respingando nos meus tênis – Por que você está vindo para cá?

–Daya, me desculpa, eu não sei o que aconteceu! – ouvi uma mulher falando ao fundo e Callum xingando-a – Eu estava indo para seu apartamento, mas quando cheguei lá... estava tudo destruído e sua mãe... – a voz dele falhou – Sua mãe tinha sumido.

–O quê? – minha garganta tinha ficado seca de repente, e um vazio se formava em meu peito. Dei um passo involuntário indo parar debaixo da chuva enquanto sentia Isaac tocando meu ombro e dizendo alguma coisa, mas tudo parecia muito distante.

–Eu não sei o que aconteceu! – a voz de mulher do lado de Callum tinha ficado mais persistente – Eu tenho que desligar agora, mas já estou indo para aí. Devo chegar amanhã, não tenho cert...

Não ouvi o que ele tinha para dizer. O celular caiu de minha mão, quebrando-se em dois ao atingir uma pedra no chão molhado.

A chuva escorria pelo meu rosto misturando-se às lágrimas enquanto minhas costas escorregaram pela coluna. Sentei-me no chão encharcado e fechei os olhos, minha cabeça e costas apoiadas no mármore escorregadio. O barulho de chuva parecia o som de fundo para agravar a sensação de que meu mundo estava caindo.

Isaac segurou meus braços e disse alguma coisa, que eu não compreendi.

–Eu já estou cansada disso. – solucei, minha voz quase inaudível – Se eu estivesse em casa ela não... – solucei de novo, as lágrimas entrando em minha boca junto com água de chuva.

–Vai ficar tudo bem! – Isaac parecia calmo e ao mesmo tempo decidido. Ele tirou uma mecha de cabelo do meu rosto assim que abri os olhos. O capuz dele havia caído e a chuva escorria pelo seu rosto, algumas gotas pingando dos cílios para as bochechas. O cabelo dourado estava totalmente encharcado – Eu sei que você não está aguentando mais, Dayannya. Mas você tem que tentar mais um pouco, ok? Se pudéssemos deixar de lado as coisas que dificultam nossas vidas, que nos deixam arrasados, eu já teria desistido há muito tempo. Mas eu venho aguentando tudo isso pelas pessoas que eu amo. E se desistir agora você não vai conseguir trazer sua mãe de volta. Prometo que vou ficar do seu lado enquanto damos um jeito em toda essa merda e você vai poder ir embora e voltar a sua vida normal quanto tudo acabar, mas por enquanto você vai se manter firme e vai lutar! Eu sei que você é mais forte do que parece e é exatamente por isso que não vou desistir de você. Nunca.

Prendi a respiração e o encarei. Já havia pensado muita coisa de Isaac, mas não no fato de ele ser motivador ou alguém que já tivesse considerado desistir de tudo pelo que havia lutado. Assenti devagar e passei os braços em volta de seu pescoço enquanto ele me abraçava e dizia que ia ficar tudo bem, que daríamos um jeito. Solucei, o rosto enterrado em seu ombro e me levantei com sua ajuda. Agachei-me para pegar minha mochila, que havia escorregado para o chão, e as partes quebradas do celular.

Não havia concerto.

–Espero que você não se importe de me emprestar o seu. – murmurei com a voz embargada.

Ele sorriu e cobriu a cabeça com o capuz preto.

–Não, eu não me importo. – Isaac colocou a mão nas minhas costas e me empurrou delicadamente, me fazendo andar pelas ruas encharcadas de nova Roma, com ele em meu encalço e sempre me dando apoio.