Filha de Apolo - Flames
5 Segunda Chance
Eu caia.
Não conseguia ver nada, mas tinha a sensação de estar caindo no vazio, em uma escuridão que mais parecia um mar de nanquim, sem nada em que me agarrar.
Sentia-me assim pelo que pareciam dias, e tudo o que eu podia fazer era respirar, e até isso era difícil.
Silêncio enquanto o escuro passava como tinta por mim.
Uma coisa vermelha voou diante de meus olhos, rápido demais para que eu pudesse distinguir. Fora a primeira cor que eu vi desde que comecei a cair no vazio. Mais coisas do mesmo tipo e cor passavam como relâmpagos. Depois de um tempo percebi que eram filetes de fumaça. A negritude começou a dar lugar gradativamente ao vermelho, tão intenso quanto sangue, e a fumaça aumentava junto com o cheiro de enxofre e podridão. A fumaça tomava forma e tamanho, e eu passava por ela, que se dissipava ao meu toque. Nuvens. Longas extensões de nuvens feitas de puro vapor sanguíneo, que começavam no nada e terminavam em lugar algum.
Foi quando eu vi a paisagem. Um chão escuro e brilhante, como se pequenas luzinhas led estivessem espalhadas por ali. Formações rochosas opacas brotavam da terra negra aqui e ali, pontiagudas como facas. Eu devia estar a quilômetros do chão, e a distância podia ver um rio de fogo correndo depois de um precipício rochoso afiado feito navalhas. Coisas negras e encouraçadas voavam entre as nuvens de sangue. Enquanto assimilava tudo isso atingi o chão. A força do impacto não doeu, na verdade eu não sentia nada, dor alguma.
A terra parecia ser coberta por cacos de vidro com pontas afiadas. Por algum motivo eu sabia onde estava, eu sentia isso.
O Tártaro.
Então era isso o que acontecia quando as pessoas estavam morrendo. Elas viam o Tártaro antes que pudessem encarar a morte com os próprios olhos, antes que pudessem ter seu destino pós-vida definido pelos temidos Três Juízes, e talvez até mesmo pelo próprio Hades.
Foi quando senti algo me puxando para cima.
E eu queria isso, não queria morrer.
Encarei isso como uma segunda chance, então me agarrei a ela e subi de volta.
Respirei fundo e foi como se respirasse poeira e pedras. Comecei a tossir descontroladamente me apoiando sobre os cotovelos em algo macio. Mãos fortes agarraram meus ombros.
–Calma! – disse uma voz masculina pouco familiar – Cara o que eu faço?!
As mãos me soltaram abruptamente enquanto eu parava de tossir a caia numa massa fofa, parecida com um travesseiro. Cobri o rosto com as mãos, as lágrimas causadas pela garganta dolorida rolando pelo meu rosto.
Senti um toque suave no braço.
–Daya? Está tudo bem? – Isaac. Fiquei aliviada quando ouvi a voz dele e meu corpo relaxou um pouco. Pelo menos alguém que eu sabia quem era estava ali.
–Não te dei permissão para me chamar assim – minha voz saiu rouca, gutural e seca. Ou seja, um horror, e minha garganta doía ao pronunciar as palavras.
Descobri o rosto e abri os olhos.
Isaac estava ao lado da minha cama, no que parecia ser um tipo de enfermaria. Ele tinha o rosto sério, mas seus olhos estavam divertidos, até aliviados. O cabelo loiro parecia a penugem de um passarinho, arrepiado em alguns pontos e assentado em outros. Aquela visão me fez sorrir um pouco, mas o gesto abriu um corte em meus lábios secos.
Ao lado de Isaac havia um garoto de mesma altura e porte físico, porém com cabelo moreno e comprido até os ombros e olhos verdes musgo ao invés de azuis.
–Onde eu estou? – perguntei, mas as palavras mal saíram audíveis.
–No Reformatório – disse o garoto moreno.
–O lugar que eu queria te trazer. – Isaac passou a mão pelo braço direito, o que havia sido machucado, e pegou um copo de água gelada – Eu não podia te levar para um hospital mortal, então tive que te levar para o Ponto o mais rápido que pude, e depois disso viemos para cá. – disse me entregando o copo d’água, que peguei com gratidão – Fizemos o possível pela sua perna.
–Infelizmente... Não pudemos salva-la. Você tem uma prótese agora – disse o garoto moreno e quase cuspi a água enquanto esticava a mão para checar minha perna. Graças aos deuses as duas estavam ali, intactas.
Isaac deu uma cotovelada no outro garoto que começou a rir.
Uma porta se abriu com um baque a um dos cantos da sala e uma garota asiática entrou, a mesma garota que eu vira no beco um dia antes de conhecer Isaac. A propósito, isso fora há quantos dias?
–Há quanto tempo eu estou aqui? – perguntei a Isaac assim que a garota parou do meu outro lado. Ela não parecia nada feliz.
Os dois meninos ficaram sérios de repente.
–Uma semana. – disse a garota. Ela vestia uma camisa rosa justa, legging pretas e estava descalça. A garota jogou bruscamente uma pilha de roupas em cima do meu peito e se virou para os garotos – Essa foi minha contribuição do ano, agora se me dão licença, tenho coisas mais importantes que... – ela se lembrou de que eu estava ali, deu as costas e saiu da sala de nariz empinado.
–Essa é a Sirena, – disse o garoto moreno sorrindo – sempre simpática.
Examinei as roupas. Uma blusinha branca e jeans claros simples.
–Me lembrem de agradecer a ela depois. – falei me sentando na borda do colchão. Eu estava um trapo. Minha calça estava rasgada até os joelhos, exibindo uma atadura branca e grossa ao redor de minha panturrilha. Minha camisa estava manchada e resgada em alguns pontos e meus braços sujos de sangue – Mas que me...
–Olha a boca – disse Isaac me estendendo a mão.
–É sério? – falei me levantando com a ajuda dele – Olha a boca?
–O banheiro é ali – disse ele apontando para os fundos.
Caminhei meio mancando até uma porta que havia ali, entrei e a tranquei.
Levei um susto ao mirar-me no espelho. Meu cabelo estava uma juba, haviam olheiras escuras sob meus olhos vermelhos de sono e meus lábios estavam rachados. Despi-me e liguei o chuveiro, deixando a água fria lavar tudo grudado em minha pele, enquanto eu me esfregava freneticamente tentando me livrar da sensação de sujeira, e lavei minhas roupas íntimas.
Depois de me secar arranquei as ataduras que cobriam minha perna e a joguei no lixo junto com minha camisa e calça rasgadas e passei a mão pelas cicatrizes brancas que atravessavam minha perna, na frente e atrás.
Vesti as roupas novas e penteei o cabelo, agora molhado. As olheiras continuavam sob meus olhos, mas não havia nada que eu pudesse fazer quanto aquilo. Saí do banheiro e vi pela primeira vez como era a enfermaria. Várias camas com lençóis brancos se espalhavam pelas paredes longas de mesma cor. O gesso do teto tinha inscrições em latim pintadas em dourado, que falavam em saúde e vida próspera – meu latim não era lá essas coisas – e alguns armários de mogno e vidro estendiam-se pela mesma parede onde estava a porta que levava ao banheiro.
Saí pelas portas duplas altas e encontrei-me em um corredor acarpetado. Algumas portas estendiam-se nas paredes, mas eu não fazia ideia de onde dariam. Segui pelo corredor até chegar a uma escadaria circular de mogno polido – ah, que ótimo – e desci. As escadas davam lugar a uma sala rústica. Um sofá comprido de couro marrom escuro encontrava-se a um canto, em frente a uma mesa de centro com tampo de vidro.
Ao lado esquerdo da sala uma luz branca jorrava sobre o sofá. Vozes baixas viam de depois do portal então entrei.
Isaac e o outro garoto estavam sentados a uma mesa de madeira longa e escura. Sirena mexia em uma panela de inox sobre um fogão encostado a parede do lado oposto ao portal. Ela ralhava com os meninos até que o moreno limpou a garganta e ela olhou para trás. Quando me viu fechou a cara e voltou a atenção a panela.
–Tira os pés da mesa, Isaac – resmungou. Isaac mostrou a língua para ela e sentou ereto, com os pés no apoio da cadeira. Ele indicou com o queixo uma cadeira ao seu lado e me sentei.
–Você ainda não me explicou que lugar é esse – falei um pouco tímida.
–O Reformatório – respondeu — e, como eu disse antes, é o lugar onde os semideuses não aceitos se refugiam e treinam.
–O que você quer dizer com isso? – perguntei – Semideuses não aceitos?
–Semideuses que fizeram coisas inaceitáveis e foram punidos do acampamento. – disse o garoto moreno – Pelos menos nós temos isso para romanos. A propósito, meu nome é Dakota.
–Dayannya.
–É – Dakota sorriu – eu fiquei sabendo.
Não sabia o que ele quis dizer com aquilo, mas não falei nada a respeito.
–E o Ponto?
–Conhece aquele metrô abandonado em Manhattan? – disse Dakota e assenti – Ele não é exatamente abandonado. Enfeitiçamos um dos trens e ele nos leva a qualquer lugar nos Estados Unidos, cinco drenários. Os mortais não o veem por causa da Névoa.
–Você disse Manhattan como se não estivéssemos lá... – comecei.
–É porque não estamos. – Isaac se levantou – Pode parecer engraçado, mas a base romana fica no território do acampamento grego. Estamos em Long Island.
–Você me arrastou para Long Island? – rosnei – Por uma semana inteira?
–Era pegar ou largar. – disse ele – E além do mais, você teria morrido então não me culpe.
–Eu quero ir para casa – falei de imediato.
–Você não pode. – disse Sirena sem olhar para mim, Isaac já tinha saído da cozinha – Fez um acordo de que viria para cá, nos deixaria ver o que tem de diferente em você, e em troca... Na verdade eu não sei o que você ganha em troca. Proteção?
–Isso é... Injusto!
–E você, é uma mal agradecida! – Sirena se virou para mim segurando uma faca de manteiga – Se não fosse pelo Isaac, você teria morrido, e aqui você está mais protegida do que na sua casa, ou até mesmo no seu acampamento...!
Eu me levantei com raiva.
–Não ouse dirigir uma palavra sobre o Acampamento! – berrei – Lá pelo menos...!
–Já chega! – Dakota se levantou do outro lado da mesa – Está bem?! Sirena, temos que conversar, e você – ele apontou para mim – venha cá.
Ele saiu da cozinha e fui atrás dele. Dakota parou em frente à escada, já não parecia bravo.
–Olha – falou com calma – eu sei que isso está sendo difícil para você, ok? Foi para todos nós, mas... Você é especial, diferente, e temos que saber por quê. Para sua proteção, e até mesmo para a nossa, entendeu? – assenti. Era fácil conversar com ele – E Sirena ainda não aceitou o fato de não ser mais a única menina aqui, ainda com toda a atenção voltada para você nesses últimos dias, especialmente de Isaac... Ela não está gostando nem um pouco. Agora, separamos um quarto para você no terceiro andar, caso queira descansar um pouco... Assimilar tudo isso. É o terceiro a direita, não tem como errar.
Aquilo era um pedido disfarçado para que eu estivesse longe enquanto ele dava uma bronca em Sirena. Assenti e comecei a subir a escada.
Tudo o que eu queria fazer era chorar com a cara no travesseiro.
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