Filha de Apolo - Flames
6 Infância Difícil
Eu não podia acreditar.
Minha cabeça estava a mil enquanto repassava tudo o que acontecera nas ultimas semanas, e cheguei à conclusão de que não havia como piorar. Estava começando a entrar em desespero, um bolo se formando em minha garganta quando ouvi o som inconfundível da página de um livro sendo virada. Engoli o choro e fui em direção de portas duplas entreabertas. Na madeira haviam inscrições em latim, assim como no gesso da enfermaria, porém essas falavam sobre sabedoria, estudos e coisas do gênero. Talvez fosse uma biblioteca, só tinha um jeito de descobrir.
Empurrei a porta com todo o cuidado para não fazer barulho e meu palpite estava correto.
Estantes atulhadas de livros cobriam as paredes laterais e chegavam até o teto abobadado, pintado para parecer a noite. A parede dos fundos tinha duas janelas altas com vitrais, que davam vista para os prédios e casas de Long Island, uma praça arborizada não muito ao longe brilhava com as luzes a volta de um pequeno lago raso.
No centro amplo da sala um tapete bege de aparência fofa estendia-se pelo assoalho escuro. Três sofás longos postavam-se em triângulo, um de costas a entrada e os outros em diagonal, a volta de uma mesa de madeira entalhada a perfeição. Do lado esquerdo uma mesa de escritório antiga portava um abajur velho e um computador, meio deslocado em meio a tanta madeira e papel.
Mas o que me impressionou de verdade foi o lustre no centro do teto, dourado feito ouro com pingentes de cristais. Pequenas velas que pareciam não acabar nunca brilhavam fortemente lançando uma luz dourada e quente sobre todo o enorme recinto.
Enquanto assimilava tudo, esqueci-me do som das paginas de um livro, até que elas foram viradas de novo. Afastei-me devagar fechando a porta com cuidado.
–Já ouvi você. – era a voz de Isaac, e vinha do sofá de costas para mim.
–Desculpe – empertiguei-me com o susto enquanto ele se sentava e me encarava de sobrancelhas arqueadas, por sobre as costas do sofá – Eu vou...
–Tudo bem. – ele me interrompeu – Vem aqui, quero falar com você. Fecha a porta.
Fiz como ele pediu e fui em direção ao sofá, parando um metro atrás dele.
–O que a Sirena te disse? – Isaac passou os braços descobertos para trás do móvel. Uma das mãos segurava um exemplar de “Guerra e Paz”.
–Que eu não tinha escolha e ficaria aqui. – antes que pudesse me conter ou pensar duas vezes perguntei – Ela é sua namorada?
–Não. – ele sorriu – Deuses, eu jamais pensaria em uma coisa dessas.
–Por quê? – à uma hora dessas eu já queria me socar – Tipo, ela é bonita e... E pareceu com ciúmes, sei lá.
–Se eu não a considerasse minha irmã talvez a namorasse. – ele me olhou de cima a baixo, me dando calafrios – Porque a pergunta?
–Ãn... Curiosidade? – senti o sangue subindo para meu rosto.
Isaac sorriu ainda mais.
–Quer saber, eu acho que gosto da sua curiosidade. – ele inclinou a cabeça para o lado – Você vai ficar de pé?
Aproximei-me e sentei do seu lado no sofá, ainda um pouco afastada. Ele usava uma camiseta azul escura ligeiramente larga, jeans escuros e estava descalço. Se eu não soubesse quem era, podia jurar que ele era apenas um adolescente normal passando a tarde em casa.
Isaac juntou as pernas longas junto ao peito, repousando o livro no braço do sofá.
–Ainda não entendi – comecei — como você pode ter dezesseis anos de treino... Quer dizer, qual é a sua idade?
–Fiz dezessete mês passado – ele disse.
Um sorrisinho se formou em meus lábios.
–Então você é leonino.
–Algum problema? – ele não estava bravo, na verdade seu tom era de deboche – Pelo menos meu signo não é um bode-sereia.
Eu ri pela primeira vez naquele dia.
–Não, eu só... Deixa pra lá. Tudo bem, agora aos assuntos interessantes. – falei me sentando com as pernas cruzadas de frente para ele – Seu treinamento.
Isaac respirou fundo como se se preparasse para contar uma história longa.
–Eu não sei exatamente dos detalhes sobre minha própria vida, então não me julgue se algo não fizer sentido. – ele não sorria mais, agora estava sério de verdade – Fazia apenas alguns dias desde que eu tinha nascido. Minha mãe sofreu um acidente e enquanto estava viva pediu para que sua irmã cuidasse de mim. Já era noite, eu estava em meu quarto, separado do de minha tia e tive um tipo de pesadelo. Os canos de água por toda a casa responderam ao susto que levei e explodiram, derrubando a casa. Minha tia foi soterrada pelos escombros e eu era só um recém-nascido, então não podia fazer muito mais do que chorar. Algumas horas depois um homem passou por ali, me pegou e me levou para a casa dele. Ele cuidou de mim, com a ajuda de algumas de criadas, até os meus dez anos.Esse homem era meu próprio pai.
***
Alguns semideuses passavam as vidas sem nunca terem visto seu pai ou mãe divinos. Outros não eram reclamados. E o resto nem ao menos sabia que era semideus até que um monstro o devorasse.
Mas ser criado por dez por anos pelo seu próprio pai divino? Nunca. Bem, talvez não por dez anos, mas...
–Continua – falei um pouco mais empolgada do que pretendia.
–Tudo bem. – ele deu um sorrisinho mínimo – Meu pai me levou para o meio do deserto texano. Porque eu não sei, então não me pergunte. Lá havia um rio circular, e talvez ainda haja, encoberto pela névoa que escondia a si próprio, a campina em seu centro e a mansão que ficava nela. Por toda a volta do rio e da casa haviam barreiras protetoras, como as que vocês tem no Acampamento Meio-Sangue, e passei a morar lá com meu pai. Quando fiz um ano ele começou a me treinar e tatuou meu braço. — ele estendeu o antebraço esquerdo – Quinze horas de treino por dia, e no tempo restante eu tinha que estudar. Ele era tão rígido, que eu já lia e usava uma espada com dois anos e meio. Minha primeira arma foi aquela faca de caça. Ela é de prata.
–Minha mãe mau me deixa pegar uma faca hoje, imagina com dois anos. – lembrei-me de que minha mãe não me via há sete dias – Você se importa de me emprestar o celular de novo?
–Você vai acabar com meus créditos – respondeu com uma sobrancelha erguida e me entregou o aparelho.
Disquei o número do telefone fixo de casa e aguardei. Depois de três toques minha mãe atendeu.
–Alô? – a voz dela estava cansada, como se tivesse acabado de acordar.
–Mãe! Mãe, sou eu!
–Graças a Deus! –sua voz ficou mais alerta – Onde você está, mocinha?! Quando chegar em casa eu vou... Eu vou... – ela começou a chorar.
–Mãe... – eu não iria chorar também. Afastei o celular, pedi licença e saí da biblioteca – Mãe, está tudo bem.
–Onde você está?
Eu duvidava que pudesse dizer alguma coisa sobre onde estava, especialmente a uma mortal, mesmo que ela fosse minha própria mãe.
–No Acampamento. – falei rápido – Precisaram de ajuda e eu...
–Que tipo de ajuda? – minha mãe parecia desconfiada. Eu até podia imaginar a cara dela.
–As barreiras romperam e... – me virei para Isaac que me observava por cima do sofá e fiz um gesto pedindo ajuda. Ele balançou a cabeça e moveu os lábios: “Você mente muito mal”.
–Dayannya Della Rosa Garcia, — agora ela berrava, e se estava me chamando pelo nome completo, é porque eu ia me ferrar de verdade quando chegasse em casa — se você tiver ido para uma festa de universitários, eu vou matar você!
Ela desligou depois de dar um grito estrangulado de raiva. Suspirei e passei a mão pelo rosto. Ouvi passos vindo da minha esquerda, Dakota se aproximava sorrindo.
–Olha, você descobriu a biblioteca. – ele espiou lá dentro e bateu continência para Isaac que revirou os olhos e levantou-se, arrumando a camiseta – Sirena terminou o jantar, mas a comida é toxica na maioria das vezes, então vou pedir pizza. Do que você quer?
Foi só então que percebi que estava com uma fome imensa.
–Vegana – falei devolvendo o celular ao dono e segui os dois garotos até a escada.
–Que nojo – murmurou Dakota e tirou o celular da mão de Isaac.
–Cá entre nós, vocês não tem um desses não?! – ele perguntou indignado.
–Você quebrou o meu, lembra? – disse Dakota discando o número da pizzaria.
–Pega o da Sirena, ou do Chris, porque o meu?
–O seu é mais bonito e compatível ao meu estilo. E foi você quem quebrou o meu celular, não eles.
–Quem é Chris? – perguntei quando chegamos a sala.
–“O Nerd”. – disse Isaac – O Dake é “O Palhaço” e Sirena é “A Irritada”.
–E você? – eu já esperava a resposta.
–“O Gato”, “O Guerreiro”, “O Inteligente”, “O Encrenqueiro”, “O Bonitão”, O ...
–“O Convencido” – completou Sirena virando uma gosma verde na pia ao lado do fogão.
–“O Sem-Noção” – acrescentou Dakota se sentando do meu lado à mesa.
–Tenho muitos títulos, a maioria bons – Disse Isaac fulminando o amigo com o olhar.
–O cara da pizza disse que chega em meia hora – Dakota jogou o celular para Isaac que pegou com a mão esquerda, sem nem mesmo vacilar ou olhar o que estava fazendo. Ele examinava um anel de prata ao redor do anelar direito.
Sirena se sentou do lado oposto ao meu, ao lado de Isaac. Ela sussurrou algo no ouvido dele. Fiquei imaginando se seria alguma coisa em relação a mim, – garotas fazem isso quando não gostam uma das outras – mas quando se afastou estava séria e Isaac balançou a cabeça em negativa.
Ouvi uma porta se abrir e então se fechar. Um garoto magricela e alto de cabelos castanhos avermelhados apareceu à porta da cozinha e suas faces ficaram coradas assim que me viu. Ele usava um óculos fundo de garrafa sobre o nariz fino salpicado de sardas, os cabelos pareciam bagunçados pelo vento e tinha olhos azuis cinzentos. Ele era bonito de um jeito fofo.
–Esse é o Chris – disse Dakota abrindo os braços como se expusesse uma Obra-de-arte.
–Christopher, se preferir. – disse o garoto e se sentou ao lado de Sirena. Ele colocou uma sacola com uma garrafa de Coca-Cola na mesa – É bom ver que você está bem.
–Obrigada. – respondi meio tímida e empurrei minhas costas contra o encosto da cadeira, me virando para Dake – Quem é seu pai olimpiano?
–Cibele. Deusa das montanhas, natureza, essas coisas fofas. – ele respondeu – Para falar a verdade, tenho um descendente sátiro.
–Sátiro? Tipo... Grego? – Nós, gregos, tínhamos os sátiros, aqueles caras com traseiro de bode e chifres, que ajudavam no Acampamento com as colheitas e coisas do tipo. Mas os romanos tinham os faunos, que eram basicamente a mesma coisa, porém muito folgados e vagabundos.
–É, minha bisavó conheceu um sátiro e tiveram um filho, meu avô que nasceu um mortal com sangue de sátiro, e ele teve meu pai, que conheceu minha mãe. Acho que ela se apaixonou por ele por ser parente de um bode. Vai saber. Mas até que é legal. Eu consigo criar elos de empatia. Inclusive, eu e Isaac temos um.
Um elo de empatia acontece quando um sátiro propriamente dito liga sua mente a de um semideus. Se um deles morrer pode acontecer que o outro permaneça em estado vegetativo pelo resto da vida, mas isso são apenas detalhes.
Olhei para Isaac.
–Você não contou que tem um elo de empatia.
–Você não perguntou- ele ergueu a sobrancelha e se inclinou para frente, cruzando os braços sobre a mesa.
Christopher limpou a garganta.
–Seu pai é Apolo, não é, Dayannya?
Toquei a primeira conta em meu colar que era pintada com uma lira dourada e assenti.
–Se o pai dela é um olimpiano comum, então não devia ter nada de especial – disse Sirena torcendo o nariz para mim.
–Caramba, qual é o seu... – comecei mas Isaac me interrompeu.
–Chega. – falou, sem mais nem menos, e mesmo assim calei a boca e me encolhi, do mesmo jeito que Sirena. Ele a fuzilou com o olhar e me avaliou sem dizer nada, os olhos azuis brilhando. Se com uma única palavra o garoto me fazia ficar com medo, eu tinha pena dos monstros com quem ele lutava.
Uma campainha tocou aliviando o clima tenso e Dakota se levantou para atender. Ele voltou um minuto depois trazendo duas caixas de pizza, e colocou uma delas entre mim e Sirena. Na tampa estava escrito Vegana.
–Você que pediu? – Sirena me perguntou e assenti, olhando de relance para Isaac esperando que ele a mandasse calar a boca. Porem ele já estava envolvido em uma conversa de garotos com os outros dois – Hm... Pelo menos tem bom gosto. – e abriu a caixa, o cheiro doce de vegetais se espalhando.
–Olha porque você não... – comecei, mas então entendi o que ela disse – Espera aí, o que?
–Você tem bom gosto para comida. – ela repetiu e mordeu a ponta de uma fatia – É Vegana, ou só apoia?
–Não eu... – ainda estava atônita pelo meio elogio – Eu não sou Vegana, só gosto.
Ela deu um sorrisinho e eu peguei uma fatia. Começamos a conservar e descobri que sua mãe era Vênus, o que era bem a cara da garota.
Bem, quem diria que uma pizza de legumes faria duas pessoas que a pouco se odiavam se darem bem.
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