Eu estava em uma campina relvada sob a luz das estrelas.

Eu já havia estado naquele lugar antes, aos seis anos.

Uma mulher se encontrava a minha frente. Usava uma túnica prateada, os cabelos negros estavam presos por uma tiara com um emblema de meia-lua. Seus olhos cor de prata brilhavam de ternura e astúcia.

Ártemis.

Eu a via em meus sonhos várias vezes, mas desta vez foi diferente.

–Como é bom te ver de novo – disse a deusa com um sorriso.

–Milady – fiz uma pequena reverência.

Ela riu com doçura.

–Sabe que não gosto dessas formalidades. – disse se aproximando – Não de você.

Eu não pude me conter. Abracei a deusa que devolveu o gesto.

Conhecia Ártemis desde que era pequena. Ela quem fez meu parto a pedido de meu pai, e enquanto minha mãe se recuperava fora a deusa quem cuidou de mim. Eu a amava como minha própria mãe, porem depois que a verdadeira ficou bem de novo, Ártemis abriu mão de mim. Ela continuou a me visitar depois. Levava-me as caçadas e me ensinou a usar a adaga e o arco e flecha. Minha relação era mais familiar com ela do que com meu pai, que eu vira uma única vez na vida.

A deusa se afastou me segurando pelos ombros.

–Veja como você cresceu! – disse ela – Da última vez que nos vimos pessoalmente você tinha apenas treze anos. Agora já é quase uma mulher adulta. E por falar nisso, pensou em minha oferta?

A oferta. Há três anos Ártemis quis que eu me juntasse à caçada. Eu disse que queria pensar antes de responder, mas não pensei nisso desde então.

–Ãn... Para falar a verdade não. – falei corando – Me desculpe, esqueci completamente, eu...

–Tudo bem. – ela tocou meu rosto – Mas quero que tenha uma resposta antes que seja ludibriada por algum homem, antes que... Bem, esqueça. Não é para isso que estou aqui.

–Não?

–Você corre perigo, Dayannya. Eu lhe disse para conter os poderes.

–Que eu não tenho – resmunguei.

–Você tem – ela apertou meus ombros – e é mais forte do que pensa. Se Elijah descobrir... – ela suspirou – Tome cuidado, pelo amor de meu pai, pelo menos até ter alguma ideia de como usar seus poderes. Como já disse antes, isso é uma benção, mas tambem uma maldição.

–Quem...

–Tome cuidado – foi a última coisa que ela disse antes que eu acordasse.

Levantei-me de um pulo enquanto segurava minha adaga em frente ao corpo.

Na noite anterior, depois de jantar, fui ao quarto separado para mim. A um canto havia uma cama parecida com as da enfermaria, porém mais larga e aconchegante. Encostado na parede oposta um guarda-roupa vazio juntava poeira. Tirei a blusa e a calça antes de despencar na cama e me enrolar até a cabeça feito uma múmia. Não demorei muito para dormir, e não tive sonhos além do aviso de Ártemis.

Agora eu estava sentada e arfando na cama. Não enxergava nada e corri para acender a luz. Como filha de quem era, tinha um pavor tremendo do escuro.

A lâmpada no alto se acendeu com um estampido e iluminou o quarto. Sobre a escrivaninha embaixo da janela havia uma pilha de roupas limpas, inclusive íntimas que ainda tinham a etiqueta. Escolhi uma blusa e uma calça aleatoriamente, peguei as peças íntimas e fui ao banheiro junto ao quarto.

Tomei uma ducha fria rápida, e vesti as roupas, que couberam perfeitamente em mim. A calça era parecida com a que eu usara na noite anterior, mas a blusa era azul turquesa e caia em um dos meus ombros, revelando a alça branca do sutiã. Tentei fazer com que a blusa cobrisse os dois ombros, mas não tinha jeito. Quando subia de um lado, caia do outro. Deixei assim mesmo, tomando o cuidado de cobrir a parte descoberta com o cabelo que secava aos poucos e começava a cachear mais que o normal.

Coloquei meias brancas e calcei os tênis Converse pretos que estavam perto da minha cama. Estava saindo do quarto quando vi uma rosa vermelha sobre o criado mudo. Encostado às pétalas havia um papel, escrito em uma letra fina e perfeita:

Encontre-me na garagem.

Suspirei inesperadamente, me repreendendo depois. Fui para o corredor e desci as escadas quase correndo. Na sala, ao lado da cozinha, havia uma porta entreaberta que jorrava um filete de luz do dia para dentro do cômodo, vozes masculinas baixas vinham de trás da porta. Abri-a com cuidado e desci alguns degraus, indo parar na garagem. Uma Picape preta de quatro portas estava estacionada no centro, ao lado de uma moto da mesma cor. Isaac sentava-se na borda da caçamba do carro com Dakota ao seu lado, os dois me avaliaram assim que entrei. Senti o rosto esquentando.

–Você fica bonita nessa cor. – disse Isaac casualmente enquanto pulava para o chão. Minha cara parecia estar pegando fogo – Caminhada matinal. – ele apontou para o portão aberto da garagem – Se não quiser vir tudo bem.

–Não, eu... Eu vou. – falei saindo da garagem com ele e Dakota. O portão se fechou assim que saímos – Sirena não vem?

–Não. – Isaac se espreguiçou feito um gato, levantando um pouco do moletom cinza, assim como a camiseta que usava por baixo. Desviei o olhar – Vocês viraram amiguinhas agora?

–Meninas são desse jeito mesmo, já devia saber disso. – Dakota havia prendido o cabelo castanho em um rabo de cavalo. Ele ficava bonito assim.

–Isso foi uma indireta? – perguntei passando a andar na frente deles – Porque se sim, foi muito mal feita.

Dakota deu uma risada seca, como qualquer um faz quando não acha graça em uma piada.

Isaac começou a andar do meu lado, o cabelo dourado brilhando sob o sol.

–Dormiu bem? – perguntou.

–Uhum. – franzi a testa – Foi você quem deixou aquelas roupas no meu quarto? Porque se foi...

Ele sorriu.

–Não, eu não sou tão pervertido assim.

–É sim. – disse Dakota ao lado dele – Sabia que ele tem uma revista erótica escondida debaixo da cama dele, e...

–Mentiroso, – Isaac lhe deu uma cotovelada — é você que tem.

–É, isso é verdade.

–Que nojo – falei torcendo o nariz. Os garotos riram e Dakota começou a contar piadas idiotas enquanto andávamos pela rua cheia de folhas que caiam das árvores com o vento.

Depois de alguns minutos minha barriga roncou. Isaac deu um meio sorriso irritante.

–Você está com fome?

–Isso é normal – cruzei os braços sobre o peito.

–Tem uma padaria aqui perto. – disse Dakota – Eu tambem estou com fome.

Dobramos uma esquina e nos encontramos em uma pequena praça com restaurantes e padarias a toda volta espalhando o cheiro de comida pelo ar. Gemi enquanto minha barriga doía ainda mais.

Entramos em uma pequena padaria vintage e me sentei com Isaac perto das janelas enquanto Dakota ia fazer os pedidos. Fiquei em silencio tentando evitar o olhar de Isaac. Eu ainda não me sentia muito a vontade perto dele e dos seus comentários sarcásticos. E o jeito como ele me fazia ficar sem graça me intrigava.

Dakota voltou com três copos de café fervendo e um prato de muffins. Ele se sentou ao lado do amigo e pegou um bolinho. Tomei um gole do meu café com creme e a tensão nos meus ombros sumiu. Mas logo foi substituída pela sensação de ser observada. Umedeci os lábios e espiei por cima do ombro. Ninguém olhava para nós.

–Tudo bem? – perguntou Isaac segurando meu punho que estava repousado sobre a mesa, seu toque me enviando ondas de eletricidade pelo corpo.

–Tudo. – falei quase que automaticamente. Ele franziu a testa e tirou a mão de cima da minha, lançando um olhar para Dakota que pareceu entender.

Não dissemos mais nada enquanto comíamos, mas Isaac ainda me olhava de relance, especialmente quando eu varria o recinto com o olhar. A sensação não me abandonou até que Dakota pagou a conta e saímos da padaria.

Uma mão agarrou meu ombro, me virou e me puxou para um canto isolado. Isaac.

Olhei para trás e vi Dakota ir para o outro lado da praça e sentar-se em um banco.

Isaac parou e encarei seus olhos azuis.

–O que aconteceu? – ele perguntou sério.

–Nada – falei movendo o ombro na tentativa de me livrar do seu toque, mas ele apenas apertou mais a mão, imobilizando meu braço. O cara era bom.

–Você viu alguma coisa.

–Me. Solta. – ralhei, e ele intensificou o olhar, agora aparentando impaciência – Eu não vi nada, está bem?

–Não minta para mim.

Revirei os olhos.

–É sério. – torci o nariz – Você está me machucando.

A impaciência perdeu o lugar para a culpa em seu olhar e ele me soltou.

–Desculpe. – murmurou e passou a mão pelos cabelos, bufando – Olha, eu preciso que você me conte as coisas, ok? Eu estou tentando te proteger, eu me...

–Você se preocupa comigo? – falei amarga enquanto massageava meu ombro – Você nem me conhece.

Isaac empertigou-se parecendo ainda mais alto. O lampejo de alguma coisa passou como um raio pelos seus olhos. Seria dor?

–Vamos – ele passou por mim e foi se juntar a Dakota. Antes que pudesse segui-lo um grito escapou da minha boca quando duas mãos me arrastaram e uma luz ofuscante espalhou-se a partir de onde eu estava.

***

Acho que eu bati a cabeça, nunca tive certeza.

Mas sei que quando abri os olhos estava sentada no chão da praça e minha cabeça doía muito. As pessoas gritavam e cobriam os olhos, apontando para um ponto atrás de mim.

Tinha consciência de Isaac ao meu lado me ajudando a levantar e Dakota correndo em nossa direção. Assim que fiquei de pé, Isaac passou os braços por trás de mim e me puxou para longe dali. Quando tentei olhar para trás ele colocou a mão no meu queixo e virou minha cabeça.

–Não olha – murmurou e estalou os dedos. As pessoas que apontavam e gritavam franziram a testa e voltaram ao que estavam fazendo. Isaac tinha manipulado a névoa para esconder o que quer que tenha acontecido.

Dakota se juntou a nós e imediatamente desviou o olhar para mim, horrorizado. Isaac lhe disse algo em francês e aumentou o aperto em meu queixo quando tentei olhar para trás de novo. Assim que Dakota respondeu Isaac disse:

–Non, vous avez aucune idée de ce qu'il a fait – então olhou para mim com os olhos espantados.

–O que aconteceu? – minha garganta estava estranhamente seca.

–Nada, só... – Isaac olhou para trás de mim. Dakota fazia alguma coisa – Fica quietinha.

Fechei os olhos e apoiei o rosto no peito dele. Eu não me sentia nem um pouco a vontade fazendo aquilo, mas não tinha muitas opções.

Foi quando Dakota soltou um grito e me virei, rápido demais para que Isaac pudesse me conter.

Um corpo jazia no chão, que devia ter sido o de um homem minutos atrás. Apenas alguns pedaços de pele queimada sobravam na carne vermelha e ensanguentada. O rosto estava completamente desfigurando, mas ainda era possível ver o osso do nariz e uma parte do crânio, esbranquiçados em meio a tanto sangue, os membros estavam retorcidos como palitos de fósforo queimados. Fumaça saia do corpo destruído.

Soltei um berro, não apenas de horror, mas porque eu sabia o que tinha acontecido.

Eu fizera aquilo.