Eu já estava andando pelo corredor do terceiro andar havia horas.

Depois que cheguei no Reformatório com os meninos, entrei em estado de choque e eles pediram que eu fosse para o meu quarto, para que pudessem conversar. Passei cinco horas deitada na minha cama, vendo os ponteiros do relógio se moverem, até que Sirena subiu com um prato de pizza e perguntou se eu queria conversar. Continuei encarando o relógio. Assim que ela se foi, suspirei de tédio e fui à biblioteca, peguei um livro. Era sobre mutilação. Coloquei de volta e escolhi outro aleatoriamente. “As Bruxas Queimadas na Fogueira do Século XII. Este Problema Existe até Hoje?”. Entrei em pânico, tive um ataque de raiva e joguei o livro nas portas duplas. Então minhas pernas cederam e eu chorei o resto da tarde.

23h55min.

Sentei-me no tapete macio da biblioteca e comecei a arranhar a mesa entalhada de madeira. Depois de chorar por horas e minhas “lágrimas acabarem”, ninguém havia subido, para falar comigo, me dar notícias ou simplesmente ver como eu estava. Aquilo abriu um vazio ainda maior no meu peito, e a dor jorrou lá como uma cachoeira.

Eu me senti mais sozinha que nunca. Queria ver meus amigos, Callum e Sierra. Queria a minha mãe, mesmo que ela estivesse louca de vontade de puxar minha orelha e me colocar pendurada pelos dedos dos pés no topo do Empire State. Eu queria até mesmo meu padrasto, Jordan, com suas piadas sem-graça que ele contava para mim quando eu era criança. Eu não queria estar ali, em um Reformatório para semideuses romanos inconsequentes.

Esses pensamentos sumiram com um poof, assim que ouvi batidas as portas. Tentei limpar meu rosto manchado de lágrimas da melhor forma possível e penteei o cabelo com os dedos, arrancando vários fios.

–Entra – falei com a voz embargada quando considerei que não estivesse tão ruim quanto eu me sentia.

As portas se abriram um pouco e Isaac entrou. O cabelo dele estava ligeiramente bagunçado e havia olheiras claras sob seus olhos. Vê-lo daquele jeito me doía, porque eu sabia que o garoto não descansara um segundo durante toda a tarde por minha causa.

–Eu quero te mostrar uma coisa – ele indicou as portas com a cabeça e saiu de novo. Levantei-me com certa dificuldade e saí da biblioteca.

Isaac estava no fim do corredor, observando um quadro grande pintado para representar uma paisagem de Roma. Eu nunca tinha prestado muita atenção aos detalhes daquele quadro. Na verdade, durante todo o tempo que eu passara naquele andar, nem ao menos tinha olhado para ele. Parei ao lado do garoto e inclinei a cabeça para o coliseu romano pintado a óleo, em sua construção original antes de ter sido parcialmente destruído.

–Era só isso? – perguntei baixinho – Já vi melhores.

O relance de um sorriso brilhou nos lábios de Isaac.

–Não, não é isso. – ele empurrou o quadro para o lado, revelando um buraco escuro e redondo na parede, um metro acima do chão e grande o bastante para que duas pessoas magras passagem lado a lado, agachadas – Pode ir, é seguro.

–Acho que seu conceito de seguro é diferente do meu.

–Você não confia em mim? – ele sorriu travesso.

Apenas ergui uma sobrancelha para mostrar que não.

–Eu só não entro antes porque estou segurando o quadro. – ele disse franzindo o cenho – eu juro que é seguro.

Respirei fundo e aproximei-me do buraco, sem tirar os olhos do rosto de Isaac, mas sua expressão continuou séria.

–É um pouco alto, então cuidado – ele disse quando me sentei na borda do buraco. Fechei os olhos, contei até três e pulei.

A queda foi suave, mas eu não via absolutamente nada, a única luz vinha da passagem aberta. Um frio subiu pela minha espinha quando a luz sumiu e ouvi um som sutil ao meu lado.

–Tudo bem, sou eu – era a voz de Isaac.

–Como posso ter certeza? – perguntei com a voz aguda.

Uma luz branca se acendeu do teto, iluminando a sala. Isaac abriu os braços e arqueou as sobrancelhas. O lugar era uma sala de geradores, inclusive, um gerador enorme encontrava-se no centro, roncando enquanto enviava energia pela casa. Fios se cruzavam pelo chão e tubos pelo teto, que a um canto parecia uma cúpula coberta de observatório. O lugar cheirava a ferrugem e poeira. Uma alavanca de tamanho médio estava acoplada a parede do lado oposto ao nosso e uma escada de ferro circular levava a um alçapão no teto.

–Ninguém mais conhece esse lugar além de mim e Sarah, nossa supervisora – disse Isaac indo em direção à alavanca.

–Porque não? – perguntei girando nos calcanhares.

Isaac colocou um pé em cima da alavanca.

–Imagine quatro crianças de dez anos na sala dos geradores. – ele fez força para baixo na alavanca usando o pé, os braços e o próprio corpo. Nada – Porcaria. – murmurou – Enfim, a Sarah não faz a menor ideia de que eu conheço esse lugar.

Aproximei-me e sentei de lado na alavanca para colocar peso extra. Isaac empurrou de novo com toda a força. O objeto nem fez menção de se mexer.

–Essa droga sempre emperra. – o rosto do garoto começava a ficar corado.

–Porque você conhece isso aqui? – perguntei me equilibrando de pé na haste de alavanca.

–Quando eu era pequeno, lia muitos livros onde havia passagens secretas atrás dos quadros. – ele colocou uma caixa de ferramentas ao meu lado e se preparou para puxar de novo – Um dia eu olhei para aquele quadro e pensei: “por que não?”. Eu acho que estava com sorte. – e puxou.

A alavanca desceu rápido demais e não tive tempo de pular para o chão ou me segurar em algum lugar. Desequilibrei-me e Isaac me segurou, mas a força do impacto o fez tropeçar em um amontoado de fios e cair de costas no chão empoeirado, comigo estirada por cima de seu corpo. Ele levou uma mão à cabeça e franziu a testa com dor.

–Acho que quebrou – murmurou ele.

–A alavanca? – perguntei me apoiando nos cotovelos, um de cada lado de seu corpo.

–Não. Minhas costas.

Eu ri então me dei conta da situação em que estávamos. Os joelhos dele apertavam de leve meus quadris e nossos rostos se encontravam a centímetros de distancia, meu cabelo caindo feito uma cortina a nossa volta. Uma das mãos dele estava entre minhas omoplatas.

Os olhos do garoto eram mais bonitos do que pensei, a íris era composta por várias tonalidades de azul, que alternavam entre si suavemente. Uma linha dourada fina circundava as pupilas, que começavam a dilatar.

Parei de rir quase que imediatamente. Senti meu rosto esquentando enquanto ele acariciava levemente minha bochecha com o polegar. Seu coração batia acelerado junto ao meu.

Prendi a respiração e me levantei apoiada nos braços. Rolei de lado e fiquei de pé, me afastando alguns passos dele que se sentava meio atônito. Engoli em seco e encarei meus pés que de repente ficaram muito interessantes, meu coração ainda batia desordenadamente.

Isaac se pôs de pé, as faces vermelhas, e terminou de baixar a alavanca. A parte do teto que se parecia com uma cúpula abriu-se como a lente de uma câmera digital, revelando o céu aberto. As estrelas e a lua lançavam uma luz suave no recinto. Soltei a respiração e encarei Isaac, que estava mais corado que nunca.

–Era isso que eu... – a voz dele falhou – Que eu queria te mostrar.

–É incrível – sussurrei encantada.

–Desculpe pelo... – ele engoliu em seco, o rosto começava a voltar à cor normal – Pelo que aconteceu. Você se machucou?

–Não, está tudo bem. – tentei sorrir. Sem êxito.

Ele se sentou perto do gerador e meneou a cabeça para que eu me aproximasse. Sentei-me ao seu lado e passamos um bom tempo citando as constelações que eram ou não visíveis.

Mas eu menti para ele, e isso me corroía por dentro.

Eu me machuquei de verdade.

Me machuquei ao me afastar dele.