Filha de Apolo - Flames
9 Lobos e Chamas
Acordei no meio da manhã suando frio.
Passei pelo menos duas horas com Isaac na sala dos geradores, até que cai de sono. Ele deve ter-me levado até meu quarto quando percebeu que eu tinha adormecido. Conversamos especialmente sobre as constelações e suas origens, tentando não tocar no assunto de eu ter caído em cima dele. Isaac parecia não estar dando a mínima, mas meu rosto esquentava só de olhar para ele.
Eram três da manhã quando acordei. Sonhei que caia, exatamente como quando o veneno do manticore foi-me injetado. Porém dessa vez eu consegui acordar muito antes de atingir o chão.
Sentei-me na cama e passei a mão nos meus cabelos emaranhados. Não tenho certeza se pensei direito no que fiz em seguida, mas me levantei no mais completo silencio, tomei uma ducha fria e vesti uma camiseta branca de aparência velha e um jeans rasgado nos joelhos.
Só sabia que não importasse como, eu iria embora naquela noite.
O vento gélido fustigava meu rosto como milhões de agulhas congeladas. E o cabelo voando na cara não ajudava nem um pouco. Por incrível que pareça, em Long Island não se encontravam táxis em serviço às três da manhã, diferente de Manhattan, então eu planejava ir andando até a estação de metrô mais próxima, tentar a sorte e ir até onde desse. Não havia outro jeito. E só para constar, pegar um jeans rasgado e sair na rua às três e meia da manhã é uma péssima ideia, – crianças, não tentem isso em casa – mas por sorte eu havia pegado uma blusa de lã e agora me agarrava a ela, com as mãos nos bolsos.
Se não fosse pelos postes de luz, eu não veria nada a minha frente, exceto minhas mãos.
A luz iluminava a rua e a misera chuvinha que caía, umedecendo levemente meu cabelo. Não era uma tempestade, nem nada com que eu pudesse me preocupar. Mas era irritante.
Já estava a umas cinco ou seis quadras do reformatório quando ouvi passos em um beco próximo. Espiei por cima do ombro, mas não havia nada ali. Apertei o passo, ocasionalmente pisando em uma poça mínima de agua e fazendo o que parecia um estrondo naquela rua silenciosa. Já estava quase correndo quando algo pulou na minha frente. Um lobo enorme de pelo cinzento, maior que um cavalo. Os olhos vermelhos brilhavam de crueldade e a boca pingava enquanto exibia dentes tão ameaçadores quanto o próprio animal. Meu corpo congelou. Sempre tive pavor de cães e qualquer coisa parecida, desde que um me atacou quando eu era mais nova.
Tirei minha adaga – que eu havia posto na barra da calça antes de sair para a rua – do esconderijo e a estendi em frente ao corpo, enquanto me afastava devagar.
–Onde a mocinha pensa que vai? – o lobo parou de rosnar e disse em uma voz gutural – Ainda nem começamos a nos divertir.
O animal se ergueu nas patas traseiras e seus membros começaram a se transformar em braços e pernas humanas. A cara peluda virou o rosto de um homem, a pele parecia esticada sobre o rosto, porém os olhos vermelhos e as presas continuaram lá. O homem vestia peles de outros animais pelo corpo, que pareciam estar lá há séculos.
A lembrança de um homem-lobo veio-me a cabeça, mas não podia ter certeza ainda.
O homem começou a andar lentamente em volta de mim, estudando a presa antes de atacar.
–Você é um lobisomem... – murmurei.
–Sou. – ele rosnou baixinho – E parece que você ainda não descobriu qual.
A lembrança veio com tudo. Licáon. Droga, era claro que os gregos tinham os lobisomens na mitologia! “Burra, burra, burra!” pensei. Eu queria me dar um tapa, mas isso não mudaria nada.
Licáon fora rei de Arcádia, um cara extremamente religioso, porém não seguia as leis da hospitalidade e sacrificava todos os estrangeiros que chegavam a sua casa. Zeus, revoltado com isso, fez-se de mortal e foi à casa de Licáon hospedando-se lá, dizendo ser um deus aos servos do anfitrião. Os servos contaram a Licáon que, querendo provar o contrário, matou um de seus escravos e cozinhou a carne, servindo-a a Zeus. Enfurecido, Zeus destruiu o palácio, e enquanto Licáon fugia foi transformado em lobo, dando a origem ao primeiro lobisomem, ou licantropo.
Eu não fazia ideia de como essa coisa toda era para os romanos, mas duvidava que fosse descobrir.
Licáon parou do lado oposto a onde ele estava antes, me encarando com os olhos cor de sangue.
–Sabe, é uma pena que seu namoradinho não esteja aqui. – ele começou – Eu adoraria cortar a garganta de um filho de Netuno. Não tive a vingança que pretendia com a filha de Zeus, ou o garoto de Júpiter. – seus lábios subiram em um sorriso horrível, arreganhando os dentes – Então acho que um filho de Netuno é o mais próximo que vou conseguir, já que o de Poseidon está nos domínios romanos.
–Você me dá nojo. – resmunguei.
–Ah, muito obrigado. – ele parecia lisonjeado – E aposto que iria adorar meus filhos, todos os cinquenta. São tão horríveis quanto o pai. – ele ergueu as mãos, e aproximadamente quinze lobos maiores que um cão de grande porte saíram dos becos, todos salivando com a expectativa de um lanchinho matinal. "Ótimo." pensei "Mais cães." – Pena que nem todos possam comparecer agora. E você é tão magrinha, duvido que dê para alimentar esses.
Eu já ia começar a dizer que realmente era uma péssima ideia eles se alimentarem de mim porque meu gosto era horrível, quando um lobo atrás de mim uivou brevemente. Então silêncio.
–Maldito! – berrou Licáon, e fiquei impressionada por as pessoas nos prédios não terem acordado – Você é mesmo tão covarde que nem ao menos apar...
Ele não concluiu a frase. Um fio de sangue atravessou seu rosto, cegando um dos olhos. O licantropo uivou de dor e cobriu o rosto com as mãos, que logo ficaram sangrentas. Um vulto negro se postou a minha frente de costas para mim, segurando duas laminas longas e prateadas. O movimento rápido baixou o capuz em sua cabeça e revelou o cabelo dourado que se escondia alí embaixo.
–Fique bem longe dela, seu vira-lata! – disse Isaac enfurecido. A água da chuva que caia no chão começou a girar lentamente em volta de nós dois e de Licáon, cercando-nos dos outros lobos.
–Isso vai ser interessante. – Licáon piscou o olho bom, que estava coberto de sangue – Vamos ver o quanto você luta para proteger sua fêmea.
Os outros lobos tentaram atacar, mas sempre que se aproximavam do círculo de água ela subia bloqueando sua passagem e ferrando-lhe os olhos. Alguns dos lobos ganiam enquanto cobriam os focinhos com as patas.
–Caramba, – eu não podia ver o rosto de Isaac, mas tinha certeza absoluta que uma de suas sobrancelhas estava erguida – você é tão covarde assim que precisa dos outros para atacar?
Licáon rosnou.
–Não sou covarde...
–Ah, me desculpe! – Isaac interrompeu-o – Qual é a palavra mesmo... Frouxo? Fraco?!
Licáon uivou e voltou a se transformar em lobo, entendendo uma pata enorme com a intenção de derrubar a mim e Isaac, mas este fez um movimento curvo com a lâmina da esquerda e uma das garras do lobo caiu no chão, vertendo sangue, licor e fumaça. O licantropo uivou mais uma vez, agora bem mais alto e rosnou enquanto os pelos da pata ao redor da garra que fora decepada começaram a chamuscar, então um bom pedaço de carne virou pó e desapareceu, deixando o lobo sem uma parte da pata.
Isaac olhou rapidamente por cima do ombro enquanto Licáon estava distraído.
–Você é muito estúpida! – murmurou e depois de um momento acrescentou: — Mas na boa, eu adoro isso em você.
Revirei os olhos e encostei minhas costas nas dele. Os lobos fora do círculo de água rosnavam e davam patadas na barreira, nos rodeando e abocanhando uns aos outros ocasionalmente, sedentos de sangue. Eu não prestava muita atenção em um que parecia machucado e estava deitado a um canto, o focinho encoberto pelas patas. Péssima decisão. Assim que deixei de olhar para ele, o lobo levantou-se pulou para dentro da barreira, quebrando-a. os outros lobos latiram em aprovação, mas assim que aquele que pulou para dentro chegou perto de mim estendi a mão instintivamente, um grito encapando da minha garganta. O nariz molhado do lobo tocou minha palma e senti um calor sobrenatural descendo do ombro até minha mão. Então o focinho do animal pegou fogo, assim como minha mão. Porém não senti dor. O fogo era mais branco e luminoso do que o fogo comum, e tão rápido quanto veio ele se apagou. O corpo do lobo começou a entrar em combustão enquanto o fogo se espalhava por ele e queimava seus pelos e carne. Então ele virou o mesmo que aquele homem na praça: membros retorcidos e sangrentos de carne, pele e ossos.
A fumaça saia do corpo irreconhecível que já fora um lobo.
Licáon ganiu e então rosnou enquanto os outros lobos se aproximavam para cheirar a carcaça repugnante do ex-companheiro. Olhei Isaac nos olhos, uma pergunta silenciosa brilhando neles: “Você fez isso mesmo?”. Assenti devagar enquanto meu estomago revirava, meu braço ainda quente.
Licáon uivou e os lobos bateram em retirada. O licantropo virou-se para nós e arreganhou os dentes, então seguiu seu bando noite adentro.
Minhas pernas cederam e Isaac me segurou pelos ombros, me virando de frente para ele. O garoto examinou meu rosto rapidamente e então seus olhos assumiram um brilho raivoso.
–Qual é o seu problema?! – murmurou me causando arrepios.
–Eu não aguento mais. – falei, as lágrimas rolando pelo meu rosto – Eu quero ir pra casa.
Então ele fez algo que eu não esperava.
Me abraçou.
Não foi um abraço romântico, mas sim confortador. Envolvi o corpo dele com meus braços e comecei a soluçar, meu rosto enterrado em seu peito. Isaac me puxou para mais perto, passando uma mão pelas minhas costas de um jeito carinhoso.
–Tudo bem. – ele sussurrou – Mas pelo amor dos deuses, nunca mais faça isso a não ser que queira me matar do coração.
–É impressão minha ou você me persegue? – murmurei com a voz embargada.
O peito dele sacudiu de leve enquanto ele ria baixinho.
–Talvez um pouco. – ele se afastou e limpou as lágrimas do meu rosto – Vamos voltar, ok? Eu prometo que vou fazer o possível para que você se sinta em casa, só não fuja de novo. Eu preciso que você fique lá, porque assim eu sei que está mais segura.
Notei que ele não disse “nós” mas sim “eu”.
“Eu preciso”.
Meu coração bateu descompassadamente quando ele se virou e seguiu pela rua, virando-se de vez em quando para ver se eu o seguia. Quando passamos debaixo de um poste de luz, vi sangue brilhando através de um rasgo na jaqueta preta dele.
–O que aconteceu? – perguntei me aproximando mais e tocando de leve o ferimento com as pontas dos dedos. Os músculos nas costas de Isaac se retesaram.
–Nada, só... – ele olhou por cima do ombro rapidamente e respirou fundo – Um dos lobos acertou minhas costas quando tentei chegar até você.
–Dói muito? – me senti estúpida fazendo aquela pergunta, mas ele não me julgou.
–Dói. – ele disse – Mas não é a primeira vez que isso me acontece, vai ficar tudo bem. O que Licáon queria com você?
–Eu não sei. Mas ele disse que adoraria cortar sua garganta.
Depois disso não dissemos nada enquanto caminhávamos. Estávamos na rua do Reformatório quando Isaac parou de repente.
–O que ele está fazendo aqui? – murmurou.
Por um instante pensei que ele pudesse estar falando de Licáon, mas então vi um garoto sentado em frente a porta do reformatório sob a luz de uma lâmpada.
Callum.
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