Filha de Apolo - Flames
2 Sangue na Faca
Devia ser umas sete horas da noite quando peguei o táxi para a Times Square, portanto já estava escuro. Durante o trajeto li a mensagem que Callum me mandou:
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Vc quer ir na lanchonete amanhã??
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A mensagem me deu calafrios, fazendo me recordar da conversa que tive com Sierra mais cedo. Mas respondi mesmo assim:
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Ok. Que horas?
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A mensagem dele não demorou muito:
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17:30. Pode ser ou antes?
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Cinco e meia da tarde não era uma hora ruim. Disse que tudo bem e ele me mandou um emoticon de sorriso. Desliguei o celular e fechei os olhos até que o táxi chegasse a Times Square.
***
Enquanto eu atravessava a rua senti a sensação de que me observavam. Virei a cabeça e vi um rapaz, de pelo menos 20 anos me olhando com um sorriso encantador.
Engoli em seco e desacelerei o passo quando ele se desencostou da parede de uma loja e veio em minha direção, até que uma menina asiática, que devia ter a minha idade, porém muito mais alta, passou em frente ao rapaz e fez sinal para que a seguisse. Ele foi como se puxado por uma corda e os dois entraram em um beco entre as lojas.
Senti como se tivesse sido atingida na cara por um chinelo mutante voador número XGGG. Não que eu quisesse um namorado, mas era bom ter a atenção de um cara bonito as vezes.
Esse meu pensamento foi interrompido por um grito de terror vindo do beco.
E posso garantir que o grito não veio da menina.
***
Eu sei que correr na direção de um beco, no escuro, com um casal lá dentro é a coisa mais estupidamente estúpida a se fazer.
Mas fiz assim mesmo.
Enquanto derrapava pela calçada suja e molhada me passou pela cabeça a possibilidade de ver obscenidades. Simplesmente apaguei esse pensamento e corri mais rápido, me escondendo atrás de uma caçamba de lixo, sem fazer o mínimo de barulho.
Sob o círculo de luz que uma lâmpada jogava no espaço aberto atrás das lojas, pude ver o rapaz sentado no chão imundo com as costas na parede, ao lado oposto de onde eu estava.
Um filete de sangue corria da sua boca e um dos olhos estava inchado, uma das pernas torcida em um ângulo horrivel. O rapaz estava vivo, mas bem machucado.
–Vou perguntar pela última vez — a asiática quem falou -onde está?
A menina entrou na luz, e devo admitir: era mesmo bonita. O cabelo negro chegava até a base da bota de cano alto, os olhos escuros brilhando de maldade. Ela estava toda de preto, então ficava difícil distinguir mais alguma coisa.
–Eu já disse que não sei... — o rapaz gritou um palavrão — O chefe não diz onde esconde. Não confia na gente.
–Com uma boa razão. — disse uma voz masculina ao lado da caçamba onde me escondi — Pensa Ryna, porque ele contaria para os capangas?
–Cala a boca, Dake. — a garota se virou na minha direção e me encolhi ainda mais, torcendo para que não me vissem — De que lado você está?!
–Ele tem razão, — uma nova voz, também masculina , veio da mesma direção da outra — não vamos tirar nada desse aí.
–E o que você sugere?
–Falar com o chefe... — ele pensou um momento — na marra.
O rapaz riu desdenhoso.
–Vocês não vão ach...
–Não me lembro de ter me dirigido a você — disse o outro garoto — e se eu fosse você tomaria cuidado. Li um livro chamado " 1001 Maneiras de Esfolar Uma Pessoa e Usar a Pele como Tapete " e adoraria tentar uma delas com você.
–Vá para o inferno! — o rapaz no chão cuspiu sangue na bota da menina e ela pareceu não gostar muito.
–Quer saber, — disse ela trincando os dentes — faça o que quiser com ele.
***
Prendi a respiração quando um dos garotos falara antes entrou no círculo de luz.
Era alto e esguio, o cabelo loiro parecia ouro sob a luz da lâmpada. Uma faca de caça girava casualmente em sua mão, como se ele fizesse aquilo todos os dias.
Quando se aproximou do rapaz no chão, deu um sorriso arrogante e arremessou a faca, deixando-a voar livremente até que se cravasse na cabeça do outro.
Levantei-me de um ímpeto enquanto um grito escapava de minha garganta. Cobri a boca com as mãos como se pudesse reverter o que fiz. O garoto e a menina se viraram de uma vez na minha direção aparentando espanto, mas que logo se transformou em raiva. Os olhos azuis claros do garoto faiscaram de ódio por um momento, então em audácia, como se fosse pegar a faca e atirar em mim. Não pude deixar de pensar que ele parecia uma pantera pronta para o ataque, uma pantera que nem o caçador mais corajoso de todos enfrentaria.
A menina falou entre dentes:
–Já sabe ou quer que eu corte sua língua pra garantir que o que aconteceu aqui não vai se espalhar?
Fiz o mais sensato que pude.
Corri.
***
Meu corpo tremia enquanto meus pés chapinhavam pela rua molhada. A imagem da faca na cabeça daquele rapaz não saia da minha cabeça. Por um tempo fechei os olhos para tentar me acalmar, respirei fundo e contei ate cem.
Nada adiantou.
Toquei o interfone do prédio de Sierra com o dedo tremendo de terror e vi a faca voando pelo que seria a milésima vez.
A voz de Sierra veio dizendo que eu podia subir e o portão da frente se abriu. Andei o mais rápido que podia até o elevador e apertei o botão do 10° andar várias até que as portas se fechassem e eu escorregasse para o chão, com as mãos no rosto.
***
–Creme ou rosa? – Sierra apareceu à porta do apartamento com dois frascos de esmalte, com suas respectivas cores. Mas eles não duraram muito tempo em suas mãos – Deuses, você esta muito pálida... Entra, vou fazer um chocolate quente, ok?
–Eu não quero...
–Quer sim, – ela praticamente me puxou para dentro – você está mais gelada que um morto.
A palavra "morto" me deu calafrios, mas mesmo assim um sorriso involuntário se formou em meus lábios.
–Já tocou um morto?
–Você entendeu – ela me jogou no sofá da sala e foi para a cozinha. Sierra era... Bem... A típica filha de Deméter. Tinha cabelo liso cor de caramelo até os ombros, era super amigável e AMAVA estampas florais. Naquela noite mesmo ela usava um pijama branco com margaridas, que combinavam com as meias – está um frio terrível lá fora, porque não está usando cachecol?
–Odeio cachecóis. – franzi a testa enquanto ela colocava a quinta colher de chocolate em pó na xícara – Vem cá, você quer me matar de uma overdose de açúcar, né?
–Ah não, essa é pra mim – ela colocou o excesso de chocolate no micro-ondas e pegou outra xícara – adivinha... Não, deixa que eu conto... – ela balançou a colher pingando de leite na frente dela – Matt Damon... Me chamou pra sair!! Não é o máximo?!
–Pensei que ele estivesse namorando – falei abrindo a bolsa e pegando meu celular.
–Bem, ele estava. – Sierra trouxe o chocolate quente para mim e se jogou ao meu lado no sofá enquanto tomava o seu – Ele e a Tiffany brigaram semana passada. Coisinha boba, mas não se falam desde então.
–Callum tambem me chamou pra sair – aquilo saiu como um murmúrio gorgolejante, mas Sierra entendeu. Infelizmente.
–VOCÊS VÃO TER UM ENCONTRO?! – ela se colocou sobre os joelhos derramando um pouco de achocolatado.
–Não é um encontro, encontro. – tomei um gole do conteúdo em minha xícara – Vamos jantar em uma lanchonete, só isso.
–Eu tenho que fazer suas unhas, e... E seu cabelo, está um horror!
–Obrigada pela sinceridade. – bufei – Olha, é sério, nós não vamos a um daqueles restaurantes chiques em que o pãozinho é mais caro que a lagosta. – me levantei com a bolsa e fui em direção aos quarto de hospedes – E é melhor ir fazendo a pipoca, estou com fome.
–Vamos assistir Titanic! – Sierra gritou enquanto eu fechava a porta – E queira ou não, vou fazer suas unhas!
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