17h40min

O sol descia dourado sobre as ruas de Manhattan enquanto eu esperava Callum.

Havíamos combinado de nos encontrar em uma lanchonete com estilo rústico na Broadway, que te deixava ficar lá desde que pedisse água com gelo de cinco em cinco minutos. Se Callum demorasse mais, eu não aguentaria muito tempo. O sininho da porta tocou e me virei enquanto Callum entrava, o cabelo escuro e cacheado bagunçado pelo vento. Ele era como todo filho de Hermes: feições de elfo, alto e magro, olhos divertidos e aquele senso de humor que te faria cuspir o refrigerante. Exatamente o mesmo senso de humor que fez com que virássemos amigos.

–Demorei? – ele perguntou com um sorriso tímido, enquanto passava os dedos pelo cabelo.

–Não. – encostei-me um pouco mais à parede para que ele pudesse sentar-se ao meu lado – Só não vá dar a desculpa do transito, você veio a pé.

–Sem graça. – resmungou ele com um sorriso e abriu o cardápio – Já pediu?

–Estava esperando você – encostei a bochecha no vidro da janela e olhei a rua. Não estava tão movimentado como era o normal em Nova Iorque. Algumas poucas pessoas passeavam pela calçada com seus filhos ou em casais, que riam e tomavam bebidas quentes. Essa calma não duraria muito, pelos menos não quando o Natal chegasse e a correria das compras tomasse conta de Manhattan.

Dei uma espiada na outra rua e meu coração deu um pulo quando reconheci o louro de ontem à noite no beco. Ele usava uma jaqueta e jeans pretos, e botas escuras com ponteiras de ferro. Seus olhos azuis aparentavam calma enquanto ele me encarava, mas eu tinha quase certeza que escondiam árduo ódio.

Segurei o pulso de Callum e encarei meu copo de água pela metade.

–O que aconteceu? – ele apertou minha mão e franziu o cenho, preocupado.

–Eu... – o sino da porta tocou de novo e um frio extremo percorreu meus nervos, de puro terror, quando senti uma mecha do meu cabelo ser puxado suavemente e então solto. Ouvi vozes baixas perto do balcão de bebidas e então algo se cravando na madeira.

Espiei por cima do ombro e a mesma faca de caça com que o rapaz fora assassinado na noite anterior estava na batente do portal que levava aos fundos da lanchonete.

Respirei fundo.

Minha curiosidade dizia que eu devia segui-lo, aquela faca com certeza estava ali por isso, mas a minha razão e bom senso diziam que eu devia ficar sentada quietinha no meu lugar e ligar para a polícia.

A curiosidade falou mais alto.

–... Eu preciso tomar um ar – falei a Callum me levantando.

–Ok – ele pareceu meio decepcionado, mas eu não tinha tempo para isso. Fui em direção aos fundos e tirei a faca da madeira, com a sensação horrorosa de pegar uma arma que fora usada para matar alguém a sangue frio.

***

O vento gélido soprava levemente meus cabelos quando saí aos fundos da loja. Caixas de encomenda estavam empilhadas em alguns cantos e latas de lixo se entulhavam ao lado da saída. Parei no segundo degrau da escadinha em frente a porta e estendi a faca assim que vi o garoto loiro, e mesmo onde eu estava, ele se avantajava uma cabeça de altura acima de mim.

O pior de tudo: ele era bonito. Tipo, não bonito gato, mas bonito de verdade, de um jeito suave e sedutor, com rosto anguloso e músculos de quem treinava, mas sem exagerar.

–Essa é a parte em que você me mata? – minha voz saiu mais fina do que eu queria.

O garoto sorriu discretamente.

–Eu sei que esse é um péssimo lugar para um primeiro encontro, — falou casualmente – mas não, eu não vou te matar.

–O que você quer? – meu braço tremia enquanto eu tentava manter a faca firme.

–Primeiro – ele estendeu a mão – a minha faca. Depois a gente conversa.

Apertei mais ainda o cabo da arma.

–Não. – dessa vez pelo menos minha voz saiu como eu queria – Você fala o que quer, promete que não vai me matar, então eu te devolvo.

Ele revirou os olhos.

–Mesmo que você tenha essa paranoia, eu juro que não vou te matar... – ele ergueu uma sobrancelha – juro pelo Rio Estige.

***

“Que beleza,” pensei “meu mundo caiu”.

–Rio Estige... – sussurrei para mim mesma enquanto baixava devagar o braço com a faca.

O garoto se aproximou um passo e tirou algo do bolso: meu colar de contas. Passei a mão pela clavícula, onde ele normalmente repousava. “Idiota” falei para mim mesma. Como eu não havia sentido falta do colar que eu usava há 11 anos?

–Como você... – minha garganta estava seca, então minha voz saiu rouca.

–Deve ter se prendido em algo quando você se levantou ontem. – ele colocou o colar na minha mão e sorriu um pouco tímido — Acredite ou não, você nos assustou com aquilo.

Entreguei a faca a ele.

–Semideuses... – eu ainda tinha dificuldade para formar uma frase inteira – Semideuses não podem atacar mortais... Você devia saber disso.

–Ele não era mortal. – foi quando eu percebi que o garoto não tinha um colar de contas. Aliás, eu nunca nem havia visto ele no Acampamento Meio-Sangue.

–Você é romano... Não é? – além do Acampamento Meio-Sangue, que ficava em Long Island e era grego, havia o Acampamento Júpiter, que ficava em Berkeley Hills, mas era romano. Eu nunca tinha ido lá nos dias de visita entre acampamentos, mas os romanos que já foram para o Meio-sangue eram gente boa.

–Sou. – respondeu o garoto cruzando os braços

–Então aquele cara...

–Relaxa, ele não era um semideus. Era um lobisomem.

Ergui as sobrancelhas.

–Lobisomem? – ok, eu já tinha visto de tudo, mas lobisomens? Isso ainda estava na minha lista de coisas inacreditáveis.

O garoto sorriu solidário.

–Gregos não tem isso, né?

–Não... – falei devagar, estudando o garoto para ter certeza de que ele não estava tirando uma com a minha cara – Se ele era um lobisomem, não devia tipo... Estar em forma de lobo? Quer dizer, já estava de noite e...

–Netuno, dai-me paciência. – disse ele fechando os olhos – Olha, não é porque o cara era um lobisomem que ele devia necessariamente virar um lobo à noite. Se não é lua cheia isso não é obrigatório.

–Ah... Ah, verdade. – senti o meu rosto esquentando.

–Tudo bem, – ele sorriu divertido – erro de principiante.

Aquele comentário me irritou.

–Não sou principiante, – resmunguei – já tenho treino de onze anos.

–Sério? – o sorriso dele aumentou – Eu tenho dezesseis.

–Isso é impossível... – eu já ia dizer que ele estava mentindo quando me interrompeu.

–Posso ser muitas coisas, – disse sério – menos impossível.

–O que quer dizer com isso? – perguntei. Aquele garoto me assustava um pouco.

–Quro dizer apenas que você não acreditaria se eu não tivesse provas de quem é meu pai – então ele ergueu a manga da jaqueta que cobria o braço esquerdo.

***

Se quase tive um ataque quando soube que ele era um semideus, o que vi em seguida devia ter-me feito desmaiar.

Em seu antebraço havia as típicas tatuagens que os romanos faziam quando completavam o primeiro ano no Acampamento. SPQR, abaixo quem era seu pai ou mãe divino, então as linhas que mostravam o tempo de treino obtido, que aumentava a cada ano.

A primeira coisa que notei foram as linhas: havia dezesseis, e o garoto não devia ter mais que uns dezessete, dezoito anos. A segunda, que fez meu coração frear, então dar um mortal ao avesso e cair estatelado foi o tridente abaixo do SPQR, tão nítido quanto nanquim no papel.

Tive que me segurar no corrimão da escadinha.

–Isso é...

–Não me venha dizer que é impossível, pelo amor dos deuses – ele franziu a testa e cobriu de novo o braço.

–... Real? – minha respiração falhou de leve. Havia um cara, o filho de Poseidon, deus grego dos mares, que perdeu a memória há dois anos, foi mandado ao Acampamento Júpiter por Hera, e chamado de Filho de Netuno. Se aquele garoto na minha frente era o filho de Netuno de verdade, então o pessoal do Acampamento Júpiter não devia ter comentado alguma coisa? Ou então ter apresentado os dois, ou algo do tipo?

–Porque eu desenharia isso a caneta no meu braço? – ele ergueu a sobrancelha – Claro que é real. Não são apenas vocês, gregos, que podem ter um filho do deus dos mares.

–Mas... A pretora de vocês, porque ela...

–Assunto delicado. – ele claramente não queria falar nisso – Não contaram a vocês sobre mim porque fizeram uma jura de não dizer uma palavra a meu respeito enquanto vivessem.

–Mas você está me contando agora.

–Eu não fiz a jura.

–Mas você está me contando por algum motivo.

Ele umedeceu os lábios.

–Falo mais se fizermos um acordo.

–Ah, não. – passei a mão na testa – Eu sabia que isso iria acontecer.

–O que? – ele franziu o cenho.

–Você fala que vai me contar mais se fizermos um acordo. Eu aceito, e aí você me estupra, eu vi isso nos filmes. Não, não vai rolar.

Ele riu.

–Fala sério, eu tenho coisas melhores a fazer do que estuprar uma menina inocente. Eu não vou tocar em você, em hipótese alguma, só preciso que venha comigo.

Franzi a testa.

–Aí você me mata.

–Pu... – ele respirou fundo – Você é difícil, sabia? Eu não jurei pelo Rio Estige que não mataria você? Se quiser eu juro de novo.

–Quer que eu vá com você pra onde? – subi um degrau. No momento eu queria ficar o mais longe possível dele.

–Para um lugar aonde os semideuses vão quando não são aceitos. Não que eu esteja me referindo a você, mas lá é mais seguro para conversarmos do que os fundos de uma lanchonete, e eu vi alguma coisa diferente em você... Quer dizer, você não é uma semideusa normal.

Suspirei.

–Apenas o fato de eu ser uma semideusa anula todas as chances de eu ser normal. – dei de ombros, a curiosidade de novo gritando em meu ouvido para que eu o seguisse – Tudo bem, eu vou com você.