Filha de Apolo - Flames
4 Acerto de Contas
Já estávamos andando há cinco minutos quando o garoto loiro se virou para mim e começou a caminhar de costas.
–Você não estava com um cara lá na lanchonete?
Bati em minha testa com mão espalmada.
–Droga, eu esqueci completamente.
O garoto ergueu uma sobrancelha.
–Quanto comprometimento ao seu relacionamento.
–O que?! – limpei a garganta quando minha voz saiu estrangulada – Olha, ele não é meu namorado.
–Tem certeza? Porque eu acho que ele ainda não sabe disso.
–Argh! Você me irrita! – falei cerrando os punhos, então me lembrei de que a minha bolsa tinha ficado na lanchonete, junto com meu celular. Suspirei e falei o mais suavemente possível – Você tem celular?
Ele tirou o celular do bolso da calça e entregou para mim. Quando liguei e vi que tinha senha virei a tela para ele e ergui as sobrancelhas.
Ele revirou os olhos.
–0608
Por algum motivo aquilo parecia uma data de aniversário.
–Você é leonino? – perguntei com um sorrisinho.
–Você é de Gêmeos? Normalmente eles é quem são os curiosos.
–Capricórnio – coloquei o celular no ouvido depois de digitar meu número e torci para não tê-lo deixado no modo Vibra-Call.
–Alô? – era Callum.
–Graças aos deuses... – suspirei aliviada – Call, me desculpa, eu tive que ir para... O dentista... – o garoto loiro começou a rir baixinho e virou-se de costas para mim. Mostrei a língua para ele, mesmo que não pudesse ver.
–Ah... Tudo bem... – ele pensou por um momento – De onde você está ligando?
–Ããnn... – o loiro ainda ria e meu pé formigava para chutar a canela dele – Emprestado da moça do balcão.
O garoto olhou por cima dos ombros e fez uma careta. Irritantemente isso não o deixava menos bonito.
–Ah... Ok. – Callum não parecia muito convencido – Vou deixar suas coisas no seu apartamento.
–Tá. Te vejo amanhã, então.
Desliguei o celular e o usei para cutucar as costas do garoto loiro. Ele se virou e o guardou de volta no bolso.
–Dentista?
–Cala a boca.
–Moça do balcão? – ele pareceu ligeiramente ofendido – Olha, já me chamaram de várias coisas, mas isso?
–Se não gosta de “moça do balcão”, devia ter me dito seu nome antes.
Ele sorriu suavemente, do mesmo jeito que os garotos fazem para xavecar as garotas.
–Isso é uma desculpa para saber meu nome?
Meu coração deu um pulo, ao mesmo tempo em que senti um frio glacial dentro de mim. “Se recomponha” pensei.
–Ãn... Não?
Ele mordeu o lábio e voltou a andar de costas pra mim. Depois de alguns segundos ele disse:
–Isaac. E o seu?
–Dayannya. – murmurei, mas alto o bastante para que ele ouvisse – Eu sei, é ridículo.
–Não é, não. – ele olhou por cima do ombro – Posso te chamar de Daya?
Ia responder que “sim” quando ouvi algo se quebrando a minha esquerda, e olhei a tempo de me desviar de um vaso que teria atingido minha cabeça. Ao meu lado havia um prédio caindo em pedaços, o qual eu nunca tinha notado antes. A placa onde deveria estar o nome do lugar estava descascando, assim como a pintura por cima dos tijolos que um dia talvez tenha sido azul.
–Cheiro de monstros. – Isaac franziu a testa – Sinceramente, eu já estava entediado, então acho que é hora de ver como você luta.
***
–Vai mais devagar, tenho pernas curtas! – depois de alguns minutos de discussão, resolvemos dar uma olhada no prédio. Que a propósito não tinha elevador, e a escada de serviço estava me matando.
–Eu não tenho culpa se você é uma anã – Isaac não diminuiu nem um pouco o ritmo: ele pulava dois degraus de uma vez e parecia não perder o fôlego.
–Você está brincando com o fogo – falei trincando os dentes.
–Isso é perigoso? – ele parou e olhou para trás – Porque meu nome do meio é perigo, eu adoro perigo, eu como perigo no café da manhã.
–Já entendi Mr. Perigo – passei um degrau na frente dele, que continuou com o ritmo apressado.
–Quando eu era criança, eu brincava com o perigo.
–Tá bom!
–E se... – ele parou. Uma discussão acalorada tinha começado atrás de uma das muitas portas pelas quais havíamos passado. A s vozes eram femininas e sempre alongavam nos “S‘s”. Dracaena.
Isaac abriu a porta que dava em um corredor com várias outras, escolheu a que vinham as vozes e encostou o ouvido nela. Depois de alguns segundos franziu a testa e virou-se para mim.
–Estão jogando damas! – sussurrou – Isso é inaceitável, xadrez é muito melhor.
–Engraçadinho. – sussurrei de volta – Alguma coisa importante?
–Não, – ele estralou as juntas dos dedos – mas eu adoraria atrapalhar a concentração delas.
–A porta deve estar trancada.
–Isso não é problema – Isaac chutou a porta que se abriu quebrando a tranca e batendo na parede de dentro.
O lugar estava lotado de monstros. Duas dracaena jogavam damas a um canto, e agora as peças estavam espalhadas pelo chão atulhado de lixo porque uma dracaenae havia se levantado e esbarrado na mesa. Um manticore rosnava com a cauda eriçada, em frente ao que devia ser o banheiro – que devia ser fechado pela segurança sanitária. Pelo menos quatro ou cinco ciclopes pequenos – com pequenos quero dizer 2,30m – olhavam carrancudos para nós, mas pareciam não entender o que estava acontecendo.
Minhas pernas tremiam, porém Isaac sorria com expectativa.
–Isso vai ser divertido. – murmurou.
Os monstros atacaram.
***
Tirei a adaga que guardava dentro da blusa e derrapei por baixo de um ciclope, enfiando a faca em suas costas.
Ele evaporou na hora.
Não via o que Isaac estava fazendo, mas antes de entrar no apartamento ele disse que cuidaria das dracaena primeiro, então eu iria confiar. Outro ciclope veio para cima de mim, e enquanto me esquivava de seu soco senti uma dor aguda na panturrilha e algo me puxava em direção à porta. Estiquei o braço para trás e cortei um corpo cascudo com minha adaga. Um rugido e então silêncio, pelo menos atrás de mim. O ciclope que me atacava partiu pra cima de mim de novo, mas então congelou em uma cara de surpresa e virou pó, ao mesmo tempo em que uma faca de caça dentada caia no chão. No fundo do quarto Isaac lutava contra o maior dos ciclopes, seu braço sangrando.
Manquei até lá o mais rápido que pude quando uma viga do teto caiu nas minhas costas e me derrubou. Soltei um grito de dor, minhas costas estalando com o peso da viga e levantei a cabeça a tempo de ver o quarto ciclope levantando as mãos em punho para terminar de me esmagar, mas como ocorreu com o outro, este congelou e virou pó.
Isaac estava parado atrás de onde o monstro estivera um momento antes, o cabelo loiro grudado na testa. Ele ofegava pesadamente quando puxou a viga que me prendia no chão e ajudava a me levantar.
–Alguma coisa acertou minha perna – falei tossindo enquanto me apoiava no peito dele.
–O manticore– ele tirou ambrósia do bolso interno da jaqueta e me entregou.
–Mata? – eu nunca tinha recebido um ataque de manticore, mas sabia que eles tinham veneno.
–Não – Isaac passou a mão pelo cabelo –, mas dói bastante.
–Isso eu percebi. – resmunguei enquanto examinava o corte. Era basicamente superficial, a ambrosia tinha feito efeito e não sangrava mais, porém eu me sentia enjoada – Seu braço está sangrando.
Ele examinou o braço que vertia sangue e torceu o nariz.
–Não é nada de mais. – Isaac olhou para mim e viu que eu não acreditava – Sério, eu não...
Ele não concluiu a frase porque minha mão estalou em seu rosto, deixando marcas vermelhas. Aconteceu muito rápido, eu quase não me dei conta do que fiz, só sabia que estava com raiva. Com raiva por ele ter nos arrastado para aquele lugar, por estarmos machucados, e porque eu queria descontar toda a preocupação pesando em meus ombros naquilo.
Até que eu me senti mais leve depois daquele tapa.
–Isso foi por você ter me trazido até aqui, e seu eu morrer a culpa vai ser toda sua! – gritei. Ele estava atônito demais para responder, os olhos azuis aparentando surpresa, mas nenhuma dor.
Dei as costas para ele, fui ao corredor e comecei a descer as escadas, pisando duro. Diminui o ritmo quando minha perna começou a latejar e encostei-me ao corrimão, respirando fundo para me acalmar. Aquele dia já fora ruim o bastante, não tinha que me arrastar até onde seja que Isaac queria me levar.
–Desculpe – disse Isaac atrás de mim, segurando meu cotovelo e me dando apoio. Ele parecia sincero, mas não disse mais nada depois disso e terminamos de descer a escadaria em silêncio.
***
Já fazia meia hora desde que saímos do prédio. Havíamos feito algumas pausas para que eu pudesse descansar minha perna. O lugar não era muito longe, segundo Isaac, e mesmo assim não poderíamos pegar um táxi no estado em que estávamos.
Depois de mais um pouco de caminhada, um enjoo forte me atingiu e minhas pernas cederam. Isaac me amparou antes que eu desse de cara no chão.
–O que aconteceu? – ele me ajudou a levantar e passou o braço atrás de mim, me apoiando.
Eu não conseguia articular palavras, minha boca estava seca e minhas pernas tremiam. Tive de me agarrar na camisa dele para que não caísse de novo. Não sentia mais dor, meu corpo inteiro estava dormente, o veneno do manticore correndo pelas minhas veias, mas senti quando ele me ergueu, uma mão em minhas costas e o outro braço debaixo de meus joelhos, e começou a andar mais rápido.
Encostei a bochecha em seu ombro respirando com dificuldade e a última coisa que ouvi foi ele me dizendo que ficaria tudo bem, antes que a escuridão me levasse por completo.
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