*Isaac*

Os raios de sol que passavam pelas grades da janela iluminavam a poeira dançando a minha volta.

Ficar observando essas coisas simples era algo que eu gostava de fazer, mas agora que via o sol me lembrava dela.

E eu a havia perdido outra vez.

–Encontrou alguma coisa? – perguntou Dakota atrás de mim.

–Não. – falei perdido em pensamentos. E realmente não havia nada, nem mesmo lá fora onde só se podia ver o céu aberto e sem nuvens.

–Ei. – Dakota pousou a mão no meu ombro. Ele era uns poucos centímetros mais alto que eu, o que era de se esperar, já que ele era o mais velho com dezenove anos. – Vamos encontrar ela e dar o fora daqui. Você sabe disso.

Eu não podia negar. Até mesmo antes do elo de empatia ele sabia praticamente tudo o que eu pensava.

–É que... – minha voz saiu rouca depois de tantas horas naquela cela de pedra – E se não chegarmos a tempo?

Ele engoliu em seco. Pelo jeito, achava o mesmo que eu.

–Você sempre teve um timing ótimo, então... Só vendo, né?

Suspirei. Não aguentava mais ficar ali, esperando que alguma coisa acontecesse ou que Dayannya simplesmente voltasse como se nada tivesse acontecido e fosse apenas tudo um mal intendido.

Olhei a minha volta pela milionésima vez. Estávamos — eu, Chris, Callum e Dakota – em uma cela feita de blocos de pedra grotescamente dispostos um sobre o outro. A parede da frente tinha barras grossas de ferro e uma porta do mesmo material. Um retângulo pequeno com grades na parede dos fundos era nossa única fonte de luz naquele lugar

Depois dos lobos invadirem o trem, todos nós desmaiamos. Acordamos naquelas celas, – na verdade eram várias, uma ao lado da outra em um corredor escuro – Sirena e Sierra separadas de nós quatro. Apenas Dayannya quem não encontramos em lugar algum.

E aquele homem no trem havia falado diretamente com ela.

–A porta não pode ser nossa única saída. – Chris piscou seguidas vezes. Sua visão devia estar embaçada, já que ele havia perdido os óculos sabe-se lá onde.

–Tem a ventilação. – disse Callum encolhido a um canto.

Quase engasguei com aquele comentário.

–Vent... Porque você não disse antes?! – respirei fundo para manter a calma. Aquele cara já estava me tirando do sério, mas isso foi a gota d’água.

–Eu não estava pensando direito... – ele franziu a testa e se levantou devagar – Além do mais, você devia olhar um pouco pra cima, não acha?

–Isso não é hora. – Dakota apertou os olhos procurando a grade de ventilação no teto alto, onde a luz não alcançava. Encontrei-a antes dele, bem no canto do recinto.

–Como vamos subir lá? – nem esticando o braço eu conseguia alcançar as grades.

–Dá pezinho. – Callum ficou ligeiramente vermelho – É o que normalmente se faz.

–Então vai você primeiro, magricela. – aproximei-me da parede da frente e segurei duas das barras de metal.

–Magricela?!

–Sirena! – gritei por entre as barras. A cela das garotas estava do outro lado do corredor.

–Oi?! – ela gritou de volta – Encontraram alguma coisa?!

–Tem um tubo de ventilação no teto. – esperei um pouco – Achou?!

–Achei! – ela fez um som de esforço – Mas eu não alcanço! E acho que não consigo levantar a Sierra!

–Tudo bem. – pensei por um momento – Eles já estão indo buscar vocês.

Virei-me e vi que Dakota ainda não tinha subido. Ele estava me esperando de braços cruzados, ao lado da grade de aço agora jogada no chão.

–O que você quis dizer com “eles”?

–Vocês soltam as meninas. Eu procuro a Daya.

–Você não vai sozinho! – ele franziu a testa – Isso é suicídio!

–Sempre disse que quando morresse, seria fazendo algo de que eu me orgulhasse. – olhei dentro dos olhos dele. Dakota sempre foi meu melhor amigo e sempre esteve do meu lado quando eu precisava. Mas eu não queria que ele fosse comigo, não quando ele tinha a escolha de se salvar e aos outros – E se isso for agora, que seja.

O lábio inferior dele tremeu um pouco.

–Você é um imbecil.

–Um imbecil que não mede consequências. – tentei sorrir, mas vacilei – Olha cara, você é meu melhor amigo, só que eu não quero tornar isso meloso.

–Já tornou. – ele respirou fundo – Mas já que é assim, quero que saiba que você é meu herói.

–Já fui o herói de várias garotas, mas de um cara que nem você...

–Você entendeu. – ele balançou a cabeça – Então é isso?

–Talvez. Mas eu vou fazer o possível pra voltar para você, garotinha.

–Cala a boca. – ele ergueu a cabeça para o buraco – Chris?! Estamos prontos!

Chris apareceu no buraco, deitado de barriga para baixo. Ele esticou os braços e içou Dakota pela passagem. Respirei fundo e ergui os braços quando foi minha vez. Dakota quem me ajudou e puxou-me até que eu conseguisse me pendurar na borda do buraco. Passei as pernas para dentro do corredor quadrado de aço e sentei-me na superfície polida.

O túnel se bifurcava depois de alguns metros. Um dos caminhos continuava reto e o outro virava à direita.

–Por onde? – Callum enxugou o suor da testa com as costas da mão.

–Vocês continuam reto. – levantei-me. O túnel era alto o bastante para que eu ficasse de pé, mesmo que com a cabeça um pouco inclinada.

–E o que você vai fazer? – o rosto de Chris estava um pouco vermelho por causa do calor.

–Vou procurar a Daya. – puxei a gola da minha camiseta. Estava realmente quente ali dentro – Se der tudo certo e acharmos uma saída, encontramos vocês lá fora.

–Você vai sozinho? – Chris se levantou de um pulo.

–E se alguma coisa der errado? – Callum também se levantou – Eu vou com você, mesmo que não te suporte. Mas faço de tudo para encontrar a Daya.

–Quanto mais pessoas mais fácil vai ser para eles, sejam lá quem forem, nos descobrirem. Vou trazer ela de volta. – tentei parecer suplicante, mesmo que já estivesse sendo o mais sincero possível – Eu prometo.

Callum mordeu a boca pelo lado de dentro. Ele abaixou a cabeça por um momento antes de dizer:

–Tome cuidado.

Assenti e me virei para Chris. Seus olhos estavam completamente arregalados.

–Vou voltar. – falei – E você vai poder continuar me enchendo o saco com todas aquelas coisas com as quais eu não me importo.

Ele fungou e engoliu em seco, ficando interessado em seus pés de repente.

Dakota se levantou e respirou fundo.

–Boa sorte, Texas.

–Pra você também, Georgia.

Batemos continência, como sempre fazíamos antes de aprontar alguma quando éramos mais novos.

Seguimos todos juntos pelo túnel, até a bifurcação onde eu me separaria deles. Trocamos um último olhar que significou tudo e seguimos em frente, cada um para o seu caminho.