O cheiro do lugar era insuportável.

Uma mistura de cachorro molhado e carne podre, que estava me deixando ainda mais com dor de cabeça.

Abri os olhos e apoiei-me nos cotovelos. Eu me encontrava em algum tipo de cela, feita com blocos deformados de pedra cinzenta. Barras de aço fechavam a parede da frente, e por elas eu podia ver dois lobos de porte médio sentados de costas para mim.

Tentei sentar-me, mas o esforço fez minha cabeça latejar e gemi de dor.

Os dois animais se viraram, arreganhando os dentes para mim. Um deles se levantou e correu para a escuridão de um longo corredor, que não podia ser iluminado apenas pela lâmpada em minha cela.

O lobo que ficara começou a me encarar, e parecia que não ia parar tão cedo.

Deitei-me no chão de concreto frio e esperei, olhando para a lâmpada que pendia oscilante do teto, piscando de vez em quando. Depois de alguns minutos, ouvi passos vindo de onde o primeiro lobo desparecera.

Um homem alto de terno saiu da escuridão, a luz amarela da lâmpada iluminando seu rosto magro. O homem fez um sinal para que o lobo restante saísse. O animal rosnou para mim mais uma vez e deu as costas, indo por aonde o homem veio.

Ergui-me sobre os cotovelos de novo.

–Elijah. – eu só tinha forças para formar uma palavra de cada vez.

–Muito bem. – ele sorriu com desdém – Pelo menos aprende rápido.

Ele correu os olhos por mim cuidadosamente, como um cientista que estuda um novo espécime em seu laboratório. Aquele homem me dava nojo, e ao mesmo tempo medo. Tudo o que eu queria era sair dali, quando me lembrei de uma coisa.

–Onde está minha mãe?

–Se refere à Eleanor? – ele sorriu – Ela está bem. Pelo menos o bastante para te dizer o quanto está sofrendo.

Não disse nada. Apenas cuspi nos pés dele e fiquei surpresa ao ver o pouco de sangue que saíra de minha boca.

Elijah afastou-se, o rosto contorcido de raiva. Ele rosnou por um momento, sua face dando a impressão de estarem mudando, até que ele fechou os olhos e pareceu estar tendo um autocontrole incrível como se isso acontecesse todos os dias.

–Você sabe quem eu sou, menina? – disse calmo, mas os olhos giravam em um turbilhão de cores.

–Um desgraçado com péssimo gosto para roupas?

Elijah torceu o nariz e abriu uma porta de ferro bem no canto da cela. Ele disse algo em latim e os dois lobos que guardavam minha prisão entraram rosnando, o pelo nas costas e nucas eriçados. Eles se postaram um de cada lado meu e ameaçaram me morder enquanto me empurravam, me forçando a ficar em pé.

Cambaleei quando a tontura me atingiu em cheio de novo e apoiei-me na parede, o corpo todo doendo. Os lobos começaram a me empurrar de novo até que eu estivesse fora do recinto e cara a cara com Elijah.

Ele deu as costas e seguiu pelo corredor escuro, iluminado aqui e ali por tochas oscilantes. Os animais atrás de mim rosnavam com ódio, indicando que eu devia seguir o homem então o fiz. Não era surpresa que não tivessem atado minhas mãos. Um movimento em falso contra Elijah e todos os lobos naquele lugar me atacariam.

Andamos pelo que pareceram séculos. Ao virarmos uma última dobra no corredor onde o cheiro de carne podre e cachorro molhado aumentou. Bem no canto da junção entre duas paredes pelo menos uns dez lobos estraçalhavam o que um dia devia ter sido um tipo de veado. Cobri nariz e boca com as mãos quando a ânsia me tomou por completo. Desviei o olhar, porém a imagem do animal destroçado e sangrento não sairia de minha cabeça tão cedo.

Paramos em frente a uma porta robusta de madeira que se destacava entre as pedras com musgo e a água suja que escorria pelos blocos de pedra e se acumulava em poças no chão. Elijah empurrou a porta e entramos em uma sala grande com paredes brancas. Não havia nada ali além de um patamar baixo, com a altura de três degraus.

Os lobos empurraram a porta que se fechou com um baque. Elijah subiu no patamar junto com os dois animais, que se sentaram e ficaram me olhando presunçosos e cheios de expectativa.

–Vejo que já conhece Gael e Nihal. – disse o homem indicando os lobos, respectivamente. Gael era o de pelo preto e parecia mais jovem, enquanto Nihal tinha o pelo grosso e cinzento com cicatrizes marcando seu corpo musculoso.

–Eles não devem ser do tipo que faz amizades. – resmunguei observando Gael atentamente. Os olhos claros e inteligentes me percorriam de jeito que eu nunca vira um animal selvagem fazer antes. Senti um frio na espinha quando ele rosnou por um momento. Então o lobo deitou-se com a cabeça sobre as patas dianteiras e encarou o chão a sua frente.

–Não foram criados para isso. – Elijah fuzilou o lobo com os olhos ao perceber que ele havia se deitado – Mas eles não são minha principal causa.

–Porque você não me deixa em paz? – gritei – Nunca vai conseguir o que quer!

Elijah riu baixo, o sorriso medonho esticando a pele da face.

–Você acha? Você nem sabe quem eu sou, garota. Mas caso queira saber, já deve ter ouvido falar de Prometeu. – murmurou – E aposto que nunca te disseram quem foi o primeiro homem a quem ele entregou o fogo.

–Você não pode ser ele. – a compreensão passou por mim como um raio, até que percebi que isso acontecera há milhões de anos.

–E porque não? Eu tinha o fogo, tinha o poder até Zeus tirar isso de mim. Fui amaldiçoado, mas não tinha acabado. Ainda não.

–O que você quer dizer? – fiz um esforço enorme para ainda manter-me em pé e me afastei do homem, levando minhas costas de encontro à porta úmida.

–Minha linhagem continuou. – os olhos dele brilhavam – E sempre foi passado entre ela que encontrassem um jeito de me trazer de volta aos vivos. Agora, adivinhe qual descendente meu conseguiu essa proeza.

–Alguém bem idiota? – arrisquei. Eu já estava ferrada mesmo, não havia o porquê de não tentar aliviar a tensão.

Bem, eu falhei.

–O próprio rei de Arcádia. – Elijah sorriu presunçoso – Depois de anos que pareciam intermináveis, Licáon virou um monstro e fez um acordo com a Morte, mas não contam isso nas histórias.

–Que tipo de acordo? – aquela história estava me dando calafrios, e eu realmente nunca tinha ouvido falar nela.

–A imortalidade e a mim. Se a Morte perdesse em uma corrida de bigas, Licáon conseguiria isso. Caso contrário ele e todos os licantropes morreriam.

–E ele ganhou... – minha voz não passou de um sussurro.

–E me transformou em licantropo. Depois disso eu convenci os ciclopes a me fazerem um medalhão que suportasse o fogo dos deuses. Então fui até o Olimpo e o roubei, tendo-o em minhas mãos uma segunda vez. Mas Licáon nunca gostou muito de mim e sempre desejou ser o mais poderoso. Ele almejou o amuleto todos esses séculos, e finalmente conseguiu rouba-lo. Mas agora tenho você, uma fonte infinita do fogo.

–Você nunca vai tira-lo de mim. – aproximei-me um passo.

–Ah, querida. – o homem olhou para Nihal – Tenho minhas dúvidas quanto a isso.

O animal saltou na minha direção e derrubou-me. Bati a cabeça na porta. O lobo rosnava para mim enquanto me prendia ao chão, sua saliva pingava quente em meu pescoço. Eu queria chorar de desespero até que olhei para cima.

Pude ver Isaac através da grade de ventilação no teto, algumas mechas finas do cabelo dourado caiam no rosto. Ele colocou o indicador sobre os lábios e se afastou, fazendo-me perde-lo de vista. Mas só aqueles poucos segundos foram o bastante para fazer eu me sentir melhor, tirando o fato de eu ter um lobo grande e fedorento em cima de mim.

–Eu sei tudo o que você teme, Dayannya. – Elijah se aproximava lentamente de mim – O escuro. Meus cães. A perda.

–Você está errado. – falei com dificuldade. O peso do lobo sobre meu peito me sufocava.

–Estou? – o homem estralou os dedos e Nihal saiu de cima de mim, ainda rosnando e babando. Elijah se agachou e segurou-me pela gola da camiseta, me erguendo com uma força surpreendente – Isso é uma pena, porque significa que você não vai sofrer tanto quando eu matar seus amigos.

–O que? – arregalei os olhos de terror.

–Um por um. Todas as noites, uma morte mais dolorosa que a outra. E vou deixar o filho de Netuno por último, para que você assista e sinta a dor dele enquanto deixo os dois saberem o que sentiam um pelo outro, até...

Ele não terminou a frase.

Só teve tempo de olhar espantado a grade de ferro que voou em direção ao seu rosto.