A grade atingiu-o em cheio, errando-me por pouco.

Nihal saltou para cima de mim, mas Isaac caiu do buraco de ventilação, chutando o lobo na cabeça.

–Gael! – Elijah empurrou a grade para o lado e ficou desesperado ao perceber que o outro lobo estava sentado, impassível.

Elijah rosnou e levantou-se. Com um movimento tão rápido que impediu Isaac de fazer algo ele me agarrou pelo pescoço e me puxou até o patamar. Gael levantou-se e se virou em um gesto defensivo, pronto para sair dali, quando Nihal pulou em sua garganta. Gael gania sob o peso do outro lobo que mordia com força sua garganta, sem mata-lo.

–Não tente nada. – rosnou Elijah tirando uma faca de dentro do terno e colocando-a sob meu queixo.

–Não vai mata-la. – Isaac deixou a adaga que segurava cair e chutou-a para longe – Precisa dela.

–Mas posso tortura-la. – o licantropo agarrou meu cabelo puxando minha cabeça para trás e apertou a faca, fazendo um pequeno corte acima de minha garganta – E você não quer isso.

Isaac não me olhava nos olhos, mas eu podia ver com clareza que ele estava aterrorizado e isso era bem difícil de se ver, ainda mais nele.

–Você nunca escutou seu pai. – Elijah afundou mais o corte – Ele te disse que sofreria.

–Isaac... – o sangue escorria quente pela minha garganta e molhava minha camiseta – Do que ele está falando?

–Solte ela. – havia um tom de desespero na voz do garoto. As mãos dele tremiam ligeiramente e lembrei-me de seu anel de prata.

–Por quê? O que você vai fazer? Você é egoísta, garoto, um mentiroso. Assim como seu pai.

Isaac franziu o cenho.

–Netuno não...

–Não era um mentiroso? Se eu fosse você não acreditaria nisso, nem em nada do que ele já te contou.

–Não escuta ele! – gritei. A faca afundou mais e agora o local estava realmente dolorido.

–Quantas coisas ele já te disse, Isaac? Que sua mãe estava morta, que você não tinha família além dele? Que ele... Amava você?

Isaac cerrou os punhos e encarou os pés de Elijah.

–Não tem como você saber de nada disso.

–Não tenho? – Elijah afastou-se alguns passos, levando-me com ele – Sabe, eu já tive um caso com Íris. Quando ela descobriu quem eu era, me amaldiçoou com visões do futuro. No começo, realmente, era horrível. Mas eu já me acostumei e agora sei tudo sobre cada um de vocês. Até mesmo o que sentem um pelo outro. E não é tão difícil de descobrir depois de você ter dado essa herança de família a ela.

Elijah passou a faca pela minha garganta em um movimento rápido e arrancou a corrente de ouro dali. O sangue começou escorrer mais rápido e o corte ardia como fogo.

Isaac não disse nada. Ele mantinha o olhar duro em Elijah.

–Tudo o que Netuno te contou era mentira. Sua mãe nunca morreu, e ele não te tirou da casa da tia. Ele te tirou do berço durante a noite, enquanto Kathleen dormia. Seu sobrenome nem mesmo é esse.

–Você está inventando isso. – murmurou Isaac.

–Não estou, Isaac Nathaniel Van Garden. Esse é seu nome verdadeiro. Você é quem não quer deixar de acreditar em Netuno. Mas ao menos houve uma única coisa em que ele não mentiu. E quanto a isso você não quis ouvi-lo.

Agora Isaac realmente evitava olhar para mim.

–Você se apaixonou. E por uma garotinha tola e imbecil! Todos aqueles nove anos ele te disse que isso só te machucaria. E aqui está a consequência. Você vai ver sua amada morrer, e não me importo o quanto eu perca com isso.

Elijah ergueu a faca acima da cabeça ao mesmo tempo em que Isaac arremessou alguma coisa. Um anel fino de prata voou e atingiu o olho de Elijah. O licantropo largou a faca e cobriu o rosto com as mãos enquanto berrava em agonia. Cambaleei pelos dois degraus do patamar e abracei Isaac, soluçando com o rosto enterrado em seu ombro.

Ele me abraçou de volta e beijou minha testa. Apertei mais os braços a sua volta e respirei fundo o cheiro familiar dele, agora misturado com o odor metálico de sangue.

–Idiota! – berrou Elijah se levantando com dificuldade. O local onde o anel atingira estava deformado e vermelho, em carne viva – Nihal, deixe esse traidor! Mate-os!

O lobo saltou do patamar e parou a nossa frente, arreganhando os dentes. Ele se preparava para atacar quando caiu, ganindo e se esperneando. Gael estraçalhava sua garganta com raiva, o sangue molhava o chão e banhava o pelo negro do lobo.

Assim que terminou Gael deixou o corpo morto de Nihal e virou-se para Elijah. Este começou a se transformar, pelos castanhos e cinzentos tomaram conta de seus membros e seu rosto fino se alongou em um focinho.

Elijah – agora um lobo – rosnou para Gael e os dois atacaram ao mesmo tempo, se atracando na escada.

Isaac abriu a porta de madeira e me empurrou para fora. Corremos no escuro, passando pelo bando que detonava um animal grande. Os dez lobos começaram a uivar chamando outros e alguns correram atrás de nós, latindo e rosnando.

–Temos que achar os outros! – falei por cima do barulho.

–Eles já devem ter encontrado uma saída. – Isaac pareceu lembrar-se de algo importante – Eu vi sua mãe quando estava vindo para cá. Acho que me lembro do caminho.

Ele me pegou pelo pulso e dobramos uma esquina, correndo mais rápido. Se não fosse pelo nosso treinamento forçado, os lobos já teriam nos alcançado há muito tempo.

Chegamos a um corredor que se dividia em três caminhos. Isaac virou no da esquerda me levando com ele. Seguimos pelo corredor pisando em poças d’água e escorregando no musgo de vez em quando.

Havíamos deixado os lobos para trás quando eles tiveram que decidir para qual lado virar. Infelizmente, eles escolheram o lado correto. Pelo menos, estavam longe o bastante para que até seus latidos ficassem quase inaudíveis.

Paramos em frente a uma porta de ferro trancada com correntes. Isaac pegou uma barra de ferro no chão e bateu com ela no cadeado que soltou faíscas.

–Sobre aquilo lá atrás... – começou Isaac.

–Tudo bem. – interrompi – Posso esquecer se você quiser.

Ele suspirou e parou de tentar arrancar o cadeado. Ele parecia extremamente vulnerável, como nunca ficara antes.

–Não é isso, é que...

Nesse momento as correntes da porta caíram e a cabeça de Callum apareceu pela fresta.

–Ah, deuses. – ele saiu para o corredor e me abraçou. Eu estava surpresa demais com tudo para retribuir o gesto.

Olhei por cima dos ombros dele e vi Isaac, com uma expressão de desamparo. Ele mordeu o lábio inferior, e mais do que nunca quis abraça-lo ou então beija-lo.

–Quer saber...? – murmurou quando Callum notou a tensão e afastou-se de mim – Acho que Netuno estava certo.

Então Isaac deu as costas e deixou-me sozinha com Callum, quando o que eu queria era estar com ele.