–O que aconteceu? – Call pegou minha mão, mas eu mal notei. Olhava para as portas de metal ainda tentando absorver tudo o que havia acontecido.

–Nada. – murmurei meio perdida.

–Daya eu... Eu preciso falar com você.

Voltei a atenção para ele e tomei consciência dos lobos se aproximando, os latidos e rosnados ficando cada vez mais audíveis.

–Agora não é uma boa hora. – tentei puxa-lo em direção as portas, mas ele se manteve firme.

–Por favor. Se eu não disser agora, nunca mais vou conseguir.

Suspirei e assenti, calculando o tempo que levaria para os lobos chegarem até nós.

Ele respirou fundo.

–Desde a guerra contra Gaia eu... Eu pensei que pudesse te perder. Eu tive medo de que alguma coisa tirasse você de mim. Depois daquilo eu queria te proteger a todo custo e não... Não te via mais apenas como uma amiga.

Meu coração deu um salto, mas eu não soube exatamente o por que.

–Naquele dia na lanchonete eu havia tomado coragem para te dizer tudo isso, mas então você sumiu e eu fiquei ainda mais desesperado. E quando eu soube com quem você estava... Eu tive medo de que você simplesmente esquecesse de mim e preferisse ficar com ele.

–Call, o que...?

–Eu estou apaixonado, Daya! – ele quase gritou enquanto apertava mais minha mão – Mas você nunca percebeu! Desde que o conheceu você literalmente me deixou para trás!

Olhei chocada para ele. Jamais poderia imaginar que o que ele sentia por mim fosse algo tão importante, e descobrir isso de dois caras na mesma hora era demais.

–Call, eu nunca te deixei para trás!

–Deixou, Daya. – ele me soltou e se preparou para abrir a porta. Agora os latidos dos lobos eram tão altos que as pedrinhas soltas no chão pulavam – Você me deixou por ele.

Callum entrou e deixou a porta aberta para mim. Fiquei parada ainda alguns segundos, encarando o chão e tentando processar o que acontecera. Nenhum garoto nunca dera bola para mim, e justo agora eu estava dividida entre dois garotos. E eu amava os dois, mas de maneiras diferentes.

Ainda muito longe no corredor pude ver o primeiro lobo, correndo a toda velocidade. Sai do transe e passei pela porta de ferro, tendo alguma dificuldade em fecha-la. Olhei a minha volta, com as costas apoiadas no metal frio, e meu coração parou. Várias armas estavam penduradas nas paredes, todas as armas que estavam conosco no trem inclusive meu arco com a aljava. Porém o que fez eu me sentir um pouco melhor, foi ver a mulher que abraçava Sierra.

Minha mãe estava do lado oposto da sala e sorria ao se afastar de Sierra e colocar o cabelo escuro e cacheado atrás da orelha. Foi quando ela me viu e pude examinar melhor seu rosto. Os olhos verdes pareciam cansados e com olheiras escuras. Marcas roxas cobriam seus braços e pescoço e um filete de sangue passava pela camiseta.

Fiquei sem palavras ao ver minha mãe daquele jeito, ainda mais porque nunca pensei que ela pudesse ter um arranhão. Mesmo sabendo que eu era semideusa, ela nunca me deixava pegar uma faca na gaveta de talheres sem fazer um escarcéu porque eu iria me “cortar com esse objeto afiado, e depois não venha reclamar para mim que seu dedo esta doendo. Eu avisei.” Tudo bem, ela podia ser super protetora, mas ainda assim era minha mãe.

Ela se aproximou de mim e me abraçou quase me sufocando. Percebi que ela estava chorando.

–Mãe... – falei tentando conforta-la – Está... Está tudo bem.

–Eles me contaram sobre o que você é capaz de fazer. – ela se afastou e enxugou as lágrimas – Ah, Daya, eu nunca pensei... Nunca pensei que você...

–Está tudo bem, sério. – naquele momento eu não me preocupava se iria passar vergonha na frente dos outros, só queria dar o fora dali e me certificar de que minha mãe não correria mais perigo.

–Bem? – ela ficou um pouco mais séria, assumindo um tom de preocupação maior – Olhe para o seu pescoço, o que houve?

Fui responder quando ouvi um estardalhaço detrás da porta. Os lobos haviam chagado e tentavam puxar a porta, mas sem mão isso era impossível. Um latido diferente veio dentre os demais e todos se calaram. O dono do latido fez mais uma série de rosnados até que o som das patas almofadadas dos lobos se afastou em uma corrida.

Alguns segundos depois garras raspavam o metal, como um cãozinho faz quando seu dono o deixa trancado em um quarto.

Isaac franziu a testa.

–Tem só um lá fora?

Dei de ombros enquanto Dakota pegava uma espada longa em um suporte na parede e se aproximava da porta.

–Só tem um jeito de descobrir. – falou se preparando para abri-la.

–Para! – Sierra segurou o braço dele – E se for uma armadilha?

–Pode ser aquele lobo que nos ajudou. – falei.

–Também pode ser Elijah. – Isaac terminou de afivelar o cinto de armas e pegou uma adaga nele – E se for, vou acabar com a raça dele. – ele olhava para o corte em meu pescoço ao dizer isso.

–Mas e se não?

–Elijah é mais forte Dayannya, ele...

–“É”?! – me aproximei de Isaac, ficando cara a cara com ele e dei um cutucão em seu peito – Você não sabe se ele “era” mais forte ou...

–Vocês dois podem parar de brigar?! – berrou Dakota perdendo a paciência – Pelo amor dos deuses, vocês não ficam um segundo sem discutir por algo idiota! Não podem entrar em acordo pelo menos uma vez na vida?!

Isaac respirou fundo.

–Vai lá. – resmungou – Se formos estraçalhados, a culpa é sua.

Mostrei a língua para ele e parei do lado de Dakota. Ele contou até três silenciosamente e empurrou a porta. O corpo de um lobo caiu quase inerte ali dentro. O peito subia com dificuldade sob a pelagem negra e os olhos cor de âmbar suplicavam por ajuda.

No momento eu queria esfregar na cara de Isaac que eu estava certa, mas eu sabia que aquele era o lobo que nos ajudara e precisava de ajuda. Ajoelhei-me ao lado do animal enquanto Dakota fechava a porta.

Examinei os cortes e as falhas de pelo no corpo de Gael. Várias marcas de dentes espalhavam-se pelo pescoço e costas, assim como o sangue vermelho vivo que escorria dos machucados.

–Ah meu... – murmurei sem fôlego quando ele ganiu assim que pousei a mão sem querer sobre um corte aberto em sua barriga. Ergui os olhos para Isaac que observava a cena ligeiramente chocado.

–Esse lobo está assim por sua causa? – Sirena agachou-se do meu lado colocando a mão sobre o peito de Gael e sentindo seus batimentos.

Assenti e olhei a minha volta procurando algo que pudesse ajuda-lo, porém não havia nada útil ali. Então me lembrei de algo que usávamos quando nos feriamos.

–Precisamos de néctar.

–Isso vai matar ele! – disse Sirena arregalando os olhos.

–É nossa única chance! – olhei suplicante para Isaac. Aquele animal se tornara importante para mim apenas por me proteger de Elijah, quase se sacrificando – Por favor, temos que tentar!

Ele olhou para o lado como se refletisse no que foi que se meteu. Então tirou um pequeno frasco do cinto de armas e jogou-o para mim.

Tentei abrir a boca do lobo com o maior cuidado possível e mesmo assim ele ganiu de dor, lágrimas se acumulavam no canto de seus olhos.

–Eu te ajudo. – Isaac ajoelhou-se de frente para mim e segurou o focinho do lobo aberto, com as mãos tremendo um pouco.

Pinguei algumas gotas de néctar na língua caído do animal e Isaac o soltou. Alguns segundos se passaram e durante eles o corpo de Gael tremeu por uns momentos antes de parar. Fiquei desesperada ao pensar que havia o matado, quando os cortes pelo seu corpo começaram a se fechar. Caí sentada no chão enquanto ele ia se curando lentamente.

–Eu acabei – murmurei – de tocar em um lobo. Que provavelmente tem muitas doenças.

–Mas você superou seu medo. – Sirena levantou-se e ficou observando os cortes que se fechavam.

–Não. – ergui o olhar para ela – Eu estou apavorada.

–Pensei que néctar matasse quem não fosse semideus. – murmurou minha mãe chocada.

–E mata. Então ele já deve ter sido...

Gael ergueu a cabeça repentinamente, ficando de pé um pouco cambaleante. O movimento rápido me assustou e afastei-me do lobo o mais depressa possível, indo de encontro à parede.

Ele farejou o ar a sua volta e seus olhos me encontraram. Alguns momentos me encarando e ele veio saltando em minha direção, até estar com o focinho molhado em meu rosto.

Soltei um grito, por mais que não houvesse ameaça nenhuma naquele gesto.

Callum tentou se aproximar, porém o lobo olhou para trás e rosnou.

–Alguém me ajuda! – choraminguei desesperada.

Isaac passou por trás de Gael, que não lhe fez nada, e estendeu a mão para mim. Agarrei-a e me icei para cima, abraçando o garoto e tentando me manter o mais longe possível do lobo.

–Ele não vai te fazer nada. – disse Isaac tranquilizador.

Enterrei o rosto no peito dele.

–Eu não quero saber.

–Você o ajuda depois quer afasta-lo?

Espiei pelo canto do olho. Gael tinha olhos e orelhas baixas, a expressão tristonha. Uma sensação de culpa e pena me invadiu. Eu queria gostar dele, mas o medo de cães deixava isso quase impossível.

Soltei Isaac e fui para o lado dos outros, mantendo o olhar no lobo. Até aquele momento não havia percebido o quanto ele era grande. Sua cabeça batia na altura do meu peito e mesmo assim ele era esguio e gracioso, não um brutamontes musculoso como o outro que ele matara.

Gael apoiou-se de pé sobre as patas traseiras e empurrou a porta de ferro, abrindo-a. ele saiu para o corredor e deu alguns passos até parar, olhar para trás e indicar que o seguíssemos.

Sem hesitar, fui atrás dele.