Gael nos guiava pelos corredores com facilidade.

Sempre que outro lobo estava se aproximando, Gael passava a frente do grupo e rosnava para o outro que ia embora correndo. Viramos em várias esquinas até chegarmos a uma escadaria desgastada, então Gael virou-se e se sentou na base das escadas como se não pudesse seguir dali.

Dei um passo à frente tentando subir a escada e ele rosnou para mim.

–Tem alguma coisa lá em cima. – murmurou Dakota virando uma adaga na mão.

–Mais lobos? – afastei-me um pouco dos degraus.

–Acho que não. – Dakota franziu a testa – Se fosse, ele não teria parado.

Eu sabia que ia me sentir uma idiota fazendo o que pretendia, mas mesmo respirei fundo e virei-me para o lobo.

–Posso subir? – perguntei meio hesitante.

Gael balançou a cabeça levemente em um não, os olhos inteligentes brilhando ao mirarem Isaac.

–Que foi? – o rapaz ergueu uma sobrancelha – Quer que eu suba?

O lobo assentiu.

–Tudo bem macho alpha. – Isaac começou a subir a escadaria — Se você não tem coragem o suficiente, eu vou.

Gael rosnou baixinho para ele, mas não havia raiva ali. Na verdade, ele parecia estar se divertindo.

Isaac terminou de subir e sumiu nas sombras do corredor acima. Ele voltou depois de alguns segundos.

–Tem guardas aqui. – falou baixo.

–Quantos? – perguntou minha mãe. Durante o trajeto até ali ela fora segurando em meu braço porque estava muito mal para conseguir se manter em pé sozinha.

–Vários. Pelo menos vinte.

–Vinte? – exclamei. Nunca conseguiríamos passar por eles – Não tem outro caminho? – perguntei para Gael.

O lobo grunhiu o que pareceu um não e encolheu os ombros fortes.

Revirei os olhos e olhei a minha volta. Partindo dali só havia o caminho pelo qual viemos que se dividia em dois no final, mas um dos corredores era um beco sem fim.

–Acha que podemos dar conta deles? – perguntou Sirena sacando uma espada.

Isaac olhou por cima do ombro.

–Acho que sim. Se formos discretos e matarmos um por vez.

–Então vamos logo, acho que estou ficando alérgica a cachorro. – Sirena subiu as escadas correndo e passou agachada por Isaac, se escondendo nas sombras.

Os outros começaram a subir também, passando com cautela por Gael. Quando fui segui-los o lobo ficou de pé e repuxou os lábios, arreganhando os dentes, e eriçou os pelos das costas.

–É melhor você ficar, Daya. – murmurou Isaac meio ressentido, mas firme. Ele se virou e foi atrás dos outros.

Sentei-me no chão duro de pedra e minha mãe sentou-se ao meu lado. Fiquei encarando Gael por um tempo para que ele se sentisse pelo culpado, mas ele mal piscava.

–Daya? – minha segurou meu braço, tirando minha concentração – Você está bem?

–Estou. — suspirei – O que Elijah fez com você?

–Os lobos dele invadiram o apartamento de repente e me trouxeram aqui a força, só isso.

–Será que Jordan ligou? – perguntei me lembrando do meu padrasto. Quer dizer, ele não era meu padrasto, minha mãe e ele só namoravam, mas ele estava sempre em casa – Tipo, ele deve ter sentido nossa falta.

–Ele saiu em viagem dois dias antes. Conseguiu uma vaga na universidade de Massachussets.

–Ah. – murmurei. Jordan dava aula de ciências para a minha sala na escola em que eu estudava, foi assim que ele e minha mãe se conheceram. Mas eu não sabia que ele queria ser professor de uma universidade – Quando ele volta?

–Mês que vem. – minha mãe passou a mão pelos meus cabelos – Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Nós vamos voltar para casa.

Assenti e levei um susto ao perceber algo macio e quente na minha mão. Olhei para baixo e vi Gael deitado ao meu lado, esfregando o pescoço peludo na minha palma. Com relutância enterrei os dedos no pelo macio e fino dele. Fazia muito tempo que eu não acariciava um cão, ainda mais um tão grande.

–Parece que ele gostou de você. – minha mãe disse.

–Ele é diferente. – respondi observando os olhos dourados dele – Se não fosse por ele, eu não sei onde estaria agora.

–Como é mesmo o nome dele? – minha mãe estendeu a mão e fez um carinho no alto da cabeça do lobo.

–Elijah o chamou de Gael.

Minha mãe sorriu.

–Gael é o nome de um anjo, sabia? Ele lutou contra Lúcifer.

–E no caso, Elijah é Lúcifer. – murmurei examinando o lobo. Todos os cortes haviam se fechado e ele parecia nunca ter se metido em uma briga. O pelo escorria liso e brilhante pelo corpo como um véu negro. Porém havia uma coisa nele que me intrigava. Ele parecia ser inteligente demais, até mesmo para um lobo e ele me observava como se tivesse sentimentos humanos.

Um barulho no alto das escadas me tirou do meu devaneio. Christopher estava lá em cima com Sierra.

–Pronto. – disse ela em voz alta.

–Já? – levantei-me e ajudei minha mãe. Deviam ter se passado uns oito minutos desde que eles saíram.

–Foi fácil. – resmungou Christopher. Ele se virou e voltou de onde haviam vindo.

–Tem certeza de que não sobrou nenhum? – parei ao lado de Sierra e examinei o corredor largo. Vários homens magros e altos estavam jogados no chão em diferentes posições, alguns com marcas vermelhas no pescoço e outros com cortes abertos no peito e costas.

Uma porta encontrava-se entreaberta no fim do corredor, revelando um saguão abandonado do que um dia já fora um prédio.

–Tenho. – Sierra me puxou em direção a porta – Agora vamos logo, não aguento mais esse lugar.

–Nem eu. – murmurei. Procurei a minha volta por Gael, então percebi que ele andava ao meu lado como se fosse me proteger de qualquer coisa.

Aquilo me deixou mais tranquila, então seguimos para fora do corredor escuro e úmido.