Sierra empurrou a porta e a trancou com uma tábua que encontrara em meio aos outros destroços.

É claro que um pedaço de madeira podre não aguentaria muito tempo, mas era o melhor que tínhamos.

Vi um rato pequeno sair de baixo de uma cortina branca resgada. Sierra grunhiu de nojo e minha mãe olhou para o outro lado. Eu não me importei, ainda mais por que ele correu para longe quando Gael tentou agarra-lo com os dentes.

Passei por cima de um montinho de blocos de concreto e cai em uma pilha de coisas quebradas e entulho, fazendo estrondo.

Caminhei com dificuldade pelo lixo espalhado pelo saguão e cheguei à entrada velha e destruída no prédio.

O que eu vi fez meu coração dar um pulo.

Os meninos estavam reunidos a um canto com a cabeça ligeiramente abaixada, com exceção de Isaac e Dakota. Sirena estava mais a frente conversando com uma garota que parecia ter uns 12 anos e de cabelo castanho-avermelhado. Ela trazia um arco nas costas e olhava os garotos com certo desprezo.

Eu conhecia aquela garota.

Era Ártemis.

Eu não olhava por onde andava e tropecei em uma viga partida ao meio. Ártemis finalmente me notou e a tensão em seus ombros desapareceu. Ela deixou Sirena e correu em minha direção, pulando os escombros com leveza – muito diferente do que eu fiz.

–Você está bem? – perguntou ela preocupada. Vergonhosamente, em sua forma de menina ela era apenas alguns centímetros mais baixa do que eu. Ou seja, eu era um pouco mais alta que uma garota de 12 anos.

–Estou. – murmurei. Por algum motivo, eu estava brava com a deusa e não queria falar com ela. Mas eu não tinha outra escolha.

–Que bom... – ela mordeu o lábio com receio – Dayannya, nós precisamos conversar.

Então lembrei por que estava com raiva.

–Não podíamos ter conversado, sei lá, alguns anos atrás?

Ela suspirou.

–Querida, eu queria, mas... – sua voz falhou.

–Mas?

–Zeus... Zeus não permitiu! Desculpe, eu queria ter te dito antes! Se tivesse, isso jamais teria acontecido!

–O que Zeus tem a ver com isso?

Ela parecia ter perdido a fala.

Nesse momento a porta pela qual havíamos vindo estremeceu. A madeira que a segurava ameaçou partir-se.

–Temos que ir logo, isso não vai aguentar muito tempo. – Ártemis preparou uma flecha e a apontou para as vigas restantes no teto.

Puxei minha mãe e Sierra para fora, com Gael ao meu lado. Assim que a porta cedeu a deusa disparou a flecha que atingiu uma fissura no gesso. Ela correu para fora enquanto o chão do primeiro andar desabava sobre um monte de lobos surpresos.

Ártemis parecia que ia dizer alguma coisa, mas assim que se aproximou de mim Gael se postou a minha frente e rosnou para ela.

–Gael! – falei um pouco mais severa do que pretendia. Ele virou-se com as orelhas baixas e se encolheu, quase que pedindo desculpas.

–Tudo bem. – murmurou Ártemis – Ele é corajoso, respeito isso. Mas agora preciso te levar para o Olimpo, Daya.

–Me perdoe milady, – Isaac colocou-se ao lado de Gael – mas a senhora não vai levar ela a lugar nenhum.

Callum fez o mesmo e ficou do outro lado do lobo, formando uma barreira entre mim e Ártemis. Pela primeira vez eles concordaram em uma coisa: não iam deixar que eu fosse embora sem que eles estivessem lá para me proteger.

Sierra, Sirena e Dakota sacaram armas. Até mesmo Christopher parecia determinado a não deixar que eu fosse sozinha.

Ártemis me encarou por um momento e então deu um suspiro longo e assentiu.

–Está bem. – ela ergueu o arco acima da cabeça – Pelo jeito eu não tenho outra escolha mesmo.

Depois, tudo ficou escuro.

Eu já havia visto o Olimpo várias vezes.

E de novo fiquei sem fôlego.

Do topo das nuvens se erguia o pico decapitado de uma montanha, o cume coberto de neve. Na encosta da montanha havia dúzias de palácios com vários níveis – uma cidade de mansões – todos com pórticos de colunas brancas, terraços dourados e braseiros de bronze brilhando com mil fogos. Estradas se enroscavam de um jeito maluco até o pico, onde o maior dos palácios resplandecia contra a neve. Jardins precariamente encarapitados floresciam com oliveiras e roseiras. Havia também um mercado a céu aberto cheio de tendas coloridas, um anfiteatro de pedra construído em um lado da montanha, um hipódromo e um coliseu do outro.

Pude ver o sol se pondo por trás da montanha, iluminando tudo com uma luz cor de ouro e bronze.

–Uau. – ouvi Sirena exclamar, encantada.

Se eu não tivesse estado ali antes, teria feito o mesmo. Quando olhei para trás vi o elevador de bronze que dava no Empire State. Notei que minha mãe não estava ali.

–Onde está minha mãe? – perguntei exasperada.

–Mandei-a para um hospital perto do seu apartamento. Agora venha, Zeus está esperando. – Ártemis me puxou pelos degraus de mármore branco. Gael seguiu-nos pulando de dois em dois degraus e parava assim que nos ultrapassava, o pelo negro se destacando em meio a tanta brancura. Olhei por cima dos ombros novamente. Meus amigos se apressavam para se manterem o mais perto possível de mim.

Meus olhos encontraram os de Isaac e ele assentiu brevemente, indicando que ficaria tudo bem. Mas mesmo assim ele parecia preocupado.

Andamos pelas estradas o que pareceu uma eternidade, passando por outros semideuses – que olhavam com curiosidade para Ártemis puxando uma garota pelo braço — e entidades como dríades, sátiros e deuses menores até que finalmente chegamos ao pátio central do palácio e além dele, a sala do trono.

–Fiquem aqui. – disse Ártemis aos outros no mercado, ou seja, estávamos só nós duas no palácio.

Subimos mais um lance de degraus até estarmos na sala do trono – ou melhor, na Grande Estação Central com seu tamanho ampliado muitas vezes – e prendi a respiração.

A grande fogueira lançava suas labaredas a uma altitude que seria impossível para o fogo comum. As chamas brilhavam em vermelho, laranja e amarelo, mas assim que pus os pés no salão elas ficaram brancas com algumas pinceladas aqui e ali das outras cores e ergueram-se ainda mais, assustando a mulher que estava sentada junto à fogueira.

Os deuses me encararam. O primeiro reconheci como Zeus, em seu terno azul escuro risca de giz, o cabelo e barba cinza escuros e cacheados e os olhos da cor de uma nuvem em dia de tempestade. A segunda era a mulher. Ela usava um manto marrom e tinha os olhos brilhando como as chamas. Só podia ser Héstia.

–Então é ela? – disse ela me observando com um sorriso terno – Se não fosse o fogo, jamais a reconheceria.

Eu ainda prestava atenção na fogueira. Sabia que tinha que me ajoelhar diante do “deus supremo”, porém mal conseguia me mover.

Zeus se aproximou de mim e olhei para cima assustada. Ele não parecia bravo e – graças aos deuses – estava em seu tamanho humano. O deus colocou a mão grande e forte no meu ombro e senti uma faísca de eletricidade percorrer meu corpo. Involuntariamente chamas saíram das pontas dos meus dedos e subiram pelo meu braço, rápido demais para que Zeus tivesse tempo de se afastar sem ser queimado.

Ele franziu a testa enquanto examinava a mão chamuscada que se curava lentamente.

–Ela é mais poderosa do que imaginei. – murmurou como se eu não estivesse ali. Olhei para Ártemis buscando respostas. Ela nem me olhava.

Resolvi que deveria me pronunciar.

–Senhor? – chamei timidamente, a voz falha. Zeus mirou-me como se tivesse acabado de perceber minha presença – Hã... Desculpe-me por... Por isso. – falei me referindo à queimadura em sua mão – Mas... – suspirei – Porque isso?

–Por um infortúnio. – disse ele olhando para Ártemis. Ela se encolheu e ficou encarando o mármore do chão.

–Senhor Zeus. – Héstia caminhou até nós, o manto marrom esvoaçando levemente ao redor de seus pés – Acha que está na hora?

–Se ela estiver pronta.

Eu ia perguntar o que ele queria dizer com aquilo, mas nesse momento Héstia segurou minha mão.

E a escuridão me levou mais uma vez.