Eu já havia tomado o café da manhã e agora examinava os livros velhos do acampamento pelo que seria a milésima vez.

Todas as garotas haviam ido tomar o café da manhã, deixando-me sozinha no quarto e com tempo de sobra para ler os livros. Eu revirava suas páginas impacientemente, e quase arranquei algumas delas de frustração.

Suspirei após passar meia hora em um livro e não encontrar nada. Passei a mão pelo pescoço em busca do colar de contas e ao invés dele encontrei a corrente de ouro que Isaac me dera na noite passada. Fechei os olhos e lembrei-me do cheiro de terra molhada, das flores e do gosto dos lábios dele nos meus.

Apertei o pingente da corrente na minha palma.

Não adiantava pensar nisso agora que ele estava com raiva de mim, assim como Callum.

Peguei outro livro, colocando aqueles pensamentos de lado, e abri-o. Pulei vários capítulos até chegar em um que me chamou a atenção. A primeira página mostrava a imagem de uma grande fogueira em um palácio de mármore branco, com vários tronos enormes atrás, postos em semicírculo. Mas o que achei estranho foi o fogo. Era branco, exceto por algumas labaredas vermelhas, amarelas e laranjas, que mal apareciam em meio a tanta brancura. A legenda abaixo dizia: “O Fogo dos Deuses”.

Levantei-me da cama e corri para fora do quarto.

Enquanto seguia pela via praetoria, tentando me desviar das pessoas que passavam por ali, agarrei-me ao livro, aberto na página que falava sobre o fogo. Eu tinha certeza de que aquele era o mesmo fogo que saia de minhas mãos. E depois de tanto tempo no ramo de semideusa, aprendi que nada é impossível.

Quando cheguei perto da cidade, a estátua carrancuda apareceu na minha frente. Bufei e parei, ficando cara a cara com ela.

–Aonde a senhorita pensa que vai? – perguntou.

–É importante. – falei espiando por cima dos ombros sem continuação.

–Preciso de um motivo.

–Que tal esse? – eu já estava ficando irritada – Se eu não passar com esse livro agora quatro vidas vão estar em risco, e acho que você não quer isso, não é mesmo?

Ele me estudou de cima a baixo e desapareceu.

Voltei a correr, tentando me recordar do caminho até o centro residencial. Achei-o e parei em frente à casa de dois dias atrás. Bati na porta freneticamente até que a cabeça de Dakota aparecesse por uma fresta, com a mesma expressão que a estátua.

–Já ouviu falar em paciência?

–Não. – abri a porta à força, fazendo o garoto se desequilibrar. Passei por baixo do seu braço e fui em direção à passagem ao lado da lareira, que se encontrava apagada. Depois do arco na parede havia uma escada. Subi-a pulando dois degraus de cada vez e andei por um corredor curto.

Uma das portas ao longo das paredes brancas estava aberta. Coloquei a cabeça lá dentro e encontrei Isaac deitado em uma das duas camas, lendo um livro com título em latim. Ele me olhou com um leve desprezo e voltou a atenção a leitura.

–O que você quer? – perguntou seco.

–Você precisa ver isso. – falei estendendo meu livro.

Ele suspirou dramaticamente e levantou-se, passando a mão pelos cabelos dourados levemente bagunçados. Isaac pegou o livro que eu levara e encostou-se no batente da porta, os olhos azuis correndo pelas páginas do capítulo sobre o fogo. Depois de um tempo ele franziu a testa.

–E daí? – ele ergueu o olhar do livro e me encarou.

Bati o dedo sobre a imagem.

–É o mesmo fogo que eu produzo.

–Não é não.

–Deixa de ser idiota. – tomei o livro das mãos dele – Claro que é.

–Desculpe se eu sou o idiota aqui. – ele colocou os polegares pelos passadores do jeans – Mas acho que nossa percepção das coisas é completamente diferente.

–Você acabou de me chamar de idiota? – apertei o livro, as juntas dos meus dedos ficando brancas.

–Essa não foi a única indireta.

Estava preste a bater nele com o livro quando alguém apertou meu ombro.

–Me deixa ver isso. – era Dakota. Entreguei o livro a ele. Após alguns segundos ele abaixou o livro — É, ela está certa.

–Você nem viu como era. – Isaac trincou os dentes.

–Pelo que vocês me contaram é isso mesmo. – Dakota fechou o livro e me devolveu – Mas só vendo para ter certeza.

Isaac abriu a boca para dizer alguma coisa, mas então desistiu. Ele me olhou de cima a baixo, parando no meu rosto.

–Fico perplexo com o modo como você convence os outros. – então ele entrou no quarto e bateu a porta.

Fechei os olhos, um bolo se formando em minha garganta. Dakota pousou a mão em meu ombro novamente.

–Não se preocupe, ele é assim mesmo. Embora essa seja a primeira que vez que eu o vejo assim.

–Mas você nem sabe o que está acontecendo. – falei abrindo os olhos e o encarando, com a cabeça bem erguida.

Dakota arqueou as sobrancelhas. Não produziu o mesmo efeito de quando Isaac fazia isso.

–Garotos também precisam desabafar às vezes. Só que isso envolve muita tequila.

Senti meu rosto esquentar, por ele saber o que acontecera na outra noite. Ele sorriu e se virou, indo em direção à escada. Antes que pudesse descer, falei:

–O que você quis dizer com essa ser a primeira vez que o vê desse jeito? Desse jeito como?

–Você sabe do que eu estou falando. Só está com medo de acreditar nisso.

Então ele desceu as escadas.

Virei-me para a porta do quarto e bati. Isaac abriu-a, e provavelmente ia fazer algum comentário sarcástico quando eu o interrompi.

–Não diga nada, ok? – falei com a maior calma possível – Só me escute, pelo menos uma vez.

Ele inclinou a cabeça e abriu mais a porta.

Respirei fundo.

–Tenho certeza que o fogo que o livro fala é o mesmo que... Que o meu, assim por dizer.

–Mas esse é o fogo que Prometeu roubou e deu aos humanos. – Isaac mordeu o lábio inferior – E você tê-lo... É impossível.

–Posso ser muitas coisas, — falei me recordando de algo que ele me disse quando nos conhecemos – menos impossível.

Aquilo abriu um sorriso mínimo em seus lábios.

–Eu sei. – nossos olhares se encontraram, mas olhei rapidamente para outro lado.

Talvez Dakota estivesse certo.

Talvez eu tivesse mesmo medo de acreditar nos meus sentimentos.

–Nas únicas vezes que aconteceu – disse Isaac andando de um lado para o outro – você estava sendo atacada.

–Por lobos. – Christopher mudou de posição ao meu lado. Depois de Isaac convence-lo, ele resolveu sair do seu quarto e nos ajudar a tentar me fazer liberar o fogo de novo. Agora estávamos sentados no chão de pernas cruzadas, um do lado do outro, enquanto Isaac andava impaciente pela sala.

–Ou seja, — disse Dakota de trás do sofá – você tem medo de cães.

–Muito bem Sherlock, — arqueei as sobrancelhas, mesmo que ele não pudesse ver – Mas isso você podia ter perguntado.

Dakota se levantou e me mostrou a língua.

–E além do mais, não podemos ter certeza de que o primeiro cara era um lobisomem. – falei.

–Claro, você não deu nenhuma chance a ele. – Isaac sentou-se no braço do sofá.

–Você queria o que? Que eu perguntasse?

Ele ficou inexpressivo.

–Depois dizem que homem é quem detesta perguntar.

Revirei os olhos.

–Vocês não estão ajudando.

–E o fato dela ter medo de cachorro não vai fazer diferença alguma. – Christopher empurrou os óculos sobre o nariz.

–Talvez faça. – disse Isaac, como se surgisse uma luz no fim do túnel – Porque o medo de cães, Daya?

Mudei a posição de minhas pernas.

–Um cachorro me mordeu quando eu era pequena.

Dakota tossiu, reprimindo uma risada.

–Tudo bem, eu ainda sou pequena! – falei constrangida – Mas você me entendeu!

–Tudo bem. – Isaac juntou as mãos e estendeu-as entrelaçadas – Precisamos de um cachorro, mesmo que...

Antes que ele pudesse terminar, a porta de entrada atrás de mim abriu-se com estrondo.

–Isso não vai ser um problema.

A voz era feminina. Levantei-me de um pulo me virando e vi Peggy parada em frente à porta, com cinco guardas robustos de armadura completa. Um deles segurava Sirena pelo pescoço. Ela estava viva, mas suas mãos estavam amarradas e esfoladas.

Isaac ficou branco feito papel.

–Tínhamos três dias. – sua voz estava firme, assim como sua expressão. Mas seus olhos encontraram os meus por um momento, cheios de espanto

–Tinham. – Peggy cruzou os braços – Mudei de ideia.

Ela lançou um único olhar aos guardas e eles atacaram.