A ponta da espada de ouro cutucava minhas costas constantemente.

Depois dos guardas nos atacarem na casa em Nova Roma – não pudemos nos defender, já que não tínhamos nenhuma arma conosco e usar o próprio corpo não faria diferença alguma – eles ataram nossas mãos e nos arrastaram para fora, um guarda para cada um de nós. Na metade do caminho Isaac conseguira se soltar, derrubando o cara que o levava. Agora ele tinha dois guardas segurando suas mãos firmemente enquanto andavam. Como Dakota ficara sem ninguém, o meu guarda levava nós dois com uma espada em cada mão e nos cutucava com elas a toda hora para nos fazer andar.

Eu olhava fixamente para a nuca de Peggy, que andava a nossa frente, com a esperança de que ela começasse a pegar fogo.

Entramos no acampamento, os semideuses nos olhando com pena e, às vezes, raiva disfarçada.

Em meio à multidão que se juntava localizei Sierra e Callum. Os dois tentaram passar pela barreira de corpos, mas um cara os parou e disse alguma coisa.

Saímos por portões enormes ladeados por torres de observação, onde ainda mais guardas paravam o que faziam para assistir.

O barulho das pessoas foi ficando para trás, então eu pude ouvir latidos. E pelo som eram cães muito grandes.

Meu corpo começou a gelar, o medo me invadindo por completo. O guarda que me levava me empurrou fazendo-me andar de novo. Meu coração batia forte de horror e procurei com os olhos qualquer um, mas o desespero me fazia perder a concentração. Fechei os olhos quando os latidos ficaram mais altos. Uma mão pequena agarrou meu queixo e ergueu minha cabeça. Abri os olhos e encarei Peggy.

–O que foi? – ela perguntou sorrindo maliciosamente – Não vá dizer que está com medo.

“Na verdade, estou apavorada.” pensei, mas mesmo que eu quisesse dizer aquilo, as palavras não saiam.

Peggy saiu de minha frente e pude ver os cães.

Não, eles não eram grandes.

Sim, eles eram gigantescos.

Haviam pelo menos seis, todos do tamanho de um cavalo adulto de grande porte e com pelagem negra feito carvão. Eu já vira aqueles animais na aula sobre criaturas do Acampamento Meio-Sangue.

Eram cães infernais.

Algumas partes do pelo eram falhas e sangravam, como se os cães houvessem sido espancados o que, obviamente, eles foram. Os olhos grandes e vermelhos brilhavam, assim como a saliva que escorria das bocas e pingava no chão formando poças enormes de baba.

Correntes grossas de ferro envolviam seus pescoços robustos e guardas totalmente de armadura seguravam a outra ponta de cada corrente com as duas mãos.

Um meio grito escapou de minha garganta enquanto eu tentava me afastar, sem ligar para a espada de ouro abrindo um corte em minhas costas, o sangue começando a molhar minha camiseta.

Olhei por sobre os ombros quando ouvi meu nome ser chamado. Callum e Sierra corriam em nossa direção. Callum tinha um olho roxo.

Peggy estendeu uma faca longa e colocou-a sobre meu peito.

–Parem agora! – gritou. Os dois pararam, quase caindo um em cima do outro.

Nesse momento um dos cães avançou, libertando a corrente das mãos do guarda.

Foi como se tudo ao meu redor parasse. Ouvi meus amigos gritando e vi-os tentando se libertar das mãos dos guardas. Meus braços começaram a esquentar, as cordas que envolviam meus pulsos desfizeram-se em pó e eu sabia o que fazer.

Estendi as mãos agora livres em frente ao corpo, exatamente quando chamas brancas as envolveram, lambendo meus braços. O cão infernal caiu no chão, contorcendo-se, enquanto o fogo o consumia e extinguia o pouco de pelo que ainda sobrava em seu corpo doente.

Abaixei as mãos.

O fogo já havia se apagado, deixando-me apavorada e sem nenhuma defesa. Desviei o olhar do monstro morto a alguns metros de mim, se evaporando em poeira dourada.

A minha volta havia um círculo amplo de terra queimada, a grama carbonizada e faiscando. Dakota estava no chão fora do círculo e a salvo, me olhando espantado, as mãos ainda atadas.

Já o guarda não teve tanta sorte.

Ele encontrava-se também no chão, porém metade de seu corpo estava para dentro do círculo, a armadura derretendo enquanto ele tentava desesperadamente tira-la aos berros.

Isaac, Sirena e Christopher estavam a salvo, bem longe de onde eu me encontrava. Os quatro guardas que os levavam tinham sumido e suas mãos estavam soltas.

Callum amparava Sierra, que tinha coberto a boca com as mãos, o olhar carregado de horror, me observando como se perguntasse: “O que você fez?”.

Voltei a atenção aos outros cães infernais, mas eles já não estavam lá, assim como as correntes e os guardas.

Então eu vi Peggy.

Ela estava sentada no chão, a uma distância segura de mim, o cabelo loiro chamuscado assim como a frente da camiseta. Ela me olhava como se eu a tivesse estapeado do nada, e eu realmente queria fazer isso.

Minhas mãos tremiam de raiva.

–Daya? – era Isaac. Ele exibia um sorrisinho de deboche que não estava lá antes – Temos que ir.

Acenei com a cabeça e dei as costas para Peggy, que piscava como se algo tivesse pousado em seu olho.

Sirena aproximou-se de Dakota e desfez as amarras. Ele se levantou, ainda um pouco longe de mim, e fomos em direção ao portão de entrada no acampamento. Gritos soavam do outro lado, e pela fresta aberta dos portões eu podia ver pessoas correndo apavoradas.

Respirei fundo quando todos nós, incluindo Callum e Sierra, trocamos um único olhar e passamos correndo pelo portão.

Os campistas se empurravam tentando sair do nosso caminho.

Corríamos em direção a cidade, pretendendo pegar algumas armas lá. Ninguém tentou nos impedir, exceto um cara que foi nocauteado por Dakota.

Passamos correndo pelos cidadãos ao chegarmos à cidade e fomos em direção ao centro residencial. Encontramos a casa, entramos e batemos a porta. Lá dentro o som de pessoas correndo era abafado, mas não inaudível.

Encostei-me a parede e fechei os olhos. Pude ouvir as discussões entre meus amigos e seus passos subindo a escada, ou de um lado para o outro pela casa. Uma mão tocou meu ombro e abri os olhos, encarando Sierra, que parecia estar prestes a chorar.

–Eu não pensei que... – ela balançou a cabeça em negativa, a voz engasgada. Abracei-a quando ela começou a soluçar. Senti suas lágrimas molhando a manga da minha camiseta.

–Está tudo bem. – falei tentando acalma-la. Ela se afastou, enxugando os olhos.

–Tem certeza? – ela soluçou – Não dói?

–Não. – eu sentia que tambem começaria a chorar – Nós vamos resolver isso e vai tudo voltar ao normal.

Ela sorriu.

–Nada nunca foi normal.

Rolei os olhos para o alto.

–Ok. Tão normal quando o possível.

Rimos e ela me abraçou de novo. Ouvi alguém limpar a garganta atrás de Sierra.

Afastamo-nos e Isaac estendeu-me o arco e a aljava que me dera dias atrás. Eu nem lembrava mais dele. Peguei o arco, nossos dedos se encontrando em algum momento, e foi como se eu houvesse colocado a mão molhada em uma cerca elétrica.

Baixei os olhos, evitando olhar para Isaac, e pendurei a aljava nas costas.

Todos já haviam se reunido em frente à porta e Dakota tinha a mão sobre a maçaneta, pronto para abri-la. Lá fora fazia silencio.

Apertei firme o punho do arco enquanto me preparava para pegar uma flecha, a mão sobre ela.

Dakota girou a maçaneta da porta e abriu-a. Vários oficiais de armadura encontravam-se lá fora, em formação. Havia pelo menos uns trinta. Peguei a flecha e preparei-a no arco, estendendo a corda ao máximo.

Saímos da casa assim que os oficiais atacaram. Soltei a flecha, que atingiu o ombro do cara mais perto de mim. Ele caiu no chão, berrando de dor. Era difícil acertar alguém de armadura, mas ser filha do deus arqueiro e ter um bom treinamento ajudava quanto a isso.

Preparei outa flecha

Pude ver os outros pelo canto do olho: Sirena lutava com dois oficiais ao mesmo tempo, sem ser atingida. Christopher, Callum e Sierra lutavam um de costas para o outro, se defendendo dos ataques, e ferindo os oficiais quando possível. Isaac e Dakota lutavam juntos e em sincronia, ajudando-se e protegendo um ao outro.

Abaixei-me quando uma espada tentou me decepar e soltei a corda do arco, acertando meu agressor na perna. Assim como o outro, este caiu gritando. Mas ainda assim eram muitos, e sempre que um caia mais dois romanos chegavam para ajudar.

Outro cara tentou me atacar, mas desta vez me joguei no chão, rolando por entre suas pernas. Levantei-me atrás dele e bati em suas costas com o arco, derrubando-o.

Senti mãos agarrando meus braços e me puxando.

Já ia gritar por ajuda quando vi que era Isaac. Os outros já estavam correndo a frente, defendendo-se quando podiam.

Apertei o passo livrando meu braço de Isaac.

–Onde estamos indo? – gritei por cima do berreiro quando ele me alcançou, ligeiramente ofegante.

–Ponto. – ele só disse isso antes de pegar meu braço de novo e começar a correr muito mais rápido.

Passamos por entre as ruas, sem encontrar ninguém nelas e com os oficiais vindo atrás de nós.

Estávamos indo em direção a uma construção de mármore branco. Na verdade, era apenas uma plataforma baixa com escadaria e um telhado de mármore sustentado por colunas, mas o reconheci como o lugar que dava para o terminal do Ponto.

Já na construção, descemos a escada ao canto que dava para a sala do tamanho de um galpão.

A porta de ferro ali estava aberta, e corremos pelo corredor de terra com as lâmpadas nas paredes. Depois de alguns metros saímos pelo portão e fomos um pouco mais devagar na parte em que a terra dava lugar ao ferro. A lateral do meu corpo doía e eu não conseguia respirar direito. Parei por um segundo, encostando-me a parede do túnel e respirei fundo, enxugando o suor no meu rosto.

–Você acha que os despistamos? – perguntei com a voz rouca.

Isaac balançou a cabeça em negativa. O pescoço e bíceps brilhando de suor.

–Eles vão chegar aqui logo, ou vão dar o aviso para pararem o trem.

Ele pegou a faca de caça dentada do cinto de armas. Seguimos os poucos metros que faltavam e saímos no terminal. Passamos por entre as pessoas, empurrando algumas de vez em quando, até que ouvi os gritos dos guardas vindos pouco atrás de nós. Voltamos a correr, e ao chegarmos perto da bilheteria um guarda tentou nos parar, dizendo que o trem já estava para sair. Simplesmente saltamos por cima da catraca.

Pulamos para dentro do trem, este começando a andar sobre os trilhos. Sentei-me no primeiro banco que vi e Isaac foi para o fundo do corredor juntar-se aos outros. Fechei os olhos, respirando ofegante. Havia cortado meu braço durante a corrida, e agora apertava o corte tentando estancar o sangramento. Alguém tocou meu braço e abri os olhos.

–Posso falar com você? – Christopher respirava com dificuldade, mas parecia decidido.

Fiz que sim e levantei-me, largando arco e aljava sobre o banco. Segui o garoto pelo corredor e passamos por uma porta que dava a uma sala média, cheia de produtos para limpeza e essas coisas. Ele fechou a porta.

–O que foi? – perguntei me distanciando um pouco dele.

–O que aconteceu entre você e Isaac?

A pergunta me chocou um pouco.

–Ãn... Nada. – senti meu rosto esquentar.

Ele estreitou os olhos por detrás dos óculos.

–Ouvi ele e Dakota conversando ontem. Sobre você.

Franzi a testa. Era impressão minha, ou ele parecia estar... Com ciúmes.

–Porque isso importa para você?

O rosto dele corou ligeiramente.

–Na verdade, é ele que importa para mim.