Filha de Apolo - Flames
18 Elijah
O trem sacolejava de um lado para o outro enquanto eu tentava processar as palavras dele.
–V-você...? – gaguejei, sem conseguir formar uma frase completa.
De repente Christopher me segurava pelo pescoço junto a parede, o rosto vermelho e os óculos meio tortos.
–Se disser para alguém – sussurrou – eu juro que te mato...
–Você não consegue. – cuspi as palavras como veneno – Você não faria mal nem mesmo a uma mosca. É um covarde.
Ele se afastou de mim e esfreguei a garganta. Christopher arrumou os óculos, me olhando com ódio. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa quando o trem deu uma guinada, lançando-me de encontro a uma estante. Christopher apoiou-se a parede, assustado. O garoto me olhou de lado antes de dizer:
–Fique longe dele. – então saiu da sala, indo ver o que aconteceu.
Empertiguei-me quando o trem parou do nada outra vez, mas eu me segurei na porta. Saí e encontrei todos reunidos no centro do corredor.
–O que aconteceu? – perguntei apoiando-me nos bancos, já que o trem não parava de dar solavancos.
–Não sabemos. – disse Dakota espiando pela janela ao lado de um assento.
–Alguém foi falar com o maquinista? – o trem lançou-me para a frente mais uma vez e me agarrei em Sierra, quase levando nós duas ao chão.
–Isaac. – Sirena sentou-se no braço de um assento.
Espremi-me por Callum e Sierra até a sala do maquinista. Empurrei a porta de correr, que devia estar trancada, e entrei na sala.
Isaac estava de costas para mim.
–O que aconteceu? – dei um passo, mas recuei logo em seguida ao perceber que o chão estava molhado. Olhei para baixo e soltei um berro.
Poças de sangue inundavam o chão, o mesmo sangue que escorria das paredes, o qual eu não havia percebido antes. O corpo do maquinista jazia esfolado sobre o painel de controle.
Isaac olhou por cima do ombro, e até então foi a primeira vez que ele pareceu apavorado.
Senti-me petrificada quando ele me disse calmamente para sair.
Apoiei-me ofegante na parede atrás de mim. Eu não conseguia despregar os olhos daquela visão, por mais horrorosa que fosse. Meus joelhos cederam e Isaac segurou-me pelos braços.
–Precisamos sair daqui. – ele disse devagar, me segurando firme – Agora.
Assenti, o olhar vidrado no rosto dele.
–Qual o problema? – era a voz de Sirena. A porta de correr abriu-se e a garota desviou o olhar da cena sangrenta. As faces dela ficaram esverdeadas rapidamente – Tudo bem, não precisa responder.
Isaac empurrou nós duas para fora e tirou uma espada do cinto de armas.
–A gente tem que dar o fora. – falou antes que mais alguém pudesse perguntar o que estava acontecendo.
–Por quê? – Callum empertigou-se ao ver Isaac tão próximo de mim.
–Porque você mesmo não vai lá ver? – Isaac pegou a mochila – Mas já vou avisando que não é nada bonito.
–E qual é a ideia? Pular do trem em movimento?
–Bem pensado. Eu devia te jogar antes pra ver o que acontece.
–Vocês vão mesmo brigar agora? – minha voz saiu trêmula, mas eles calaram a boca mesmo assim. Peguei o arco e passei a aljava sobre o ombro – Olha, alguém tem que...
Nesse momento o trem começou a desacelerar e parou por completo. Tudo ficou no mais completo silêncio, exceto pela respiração dos outros.
–Porque paramos? – a voz de Sierra saiu quase inaudível, mas ainda era possível ver o terror que sentia.
–Eu não sei. – virei uma flecha na minha mão, pronta para dispara-la se fosse preciso. Mas no segundo seguinte eu já não estava mais com ela. Minha mão encontrava-se vazia e Sirena havia sido levada ao chão, paralisada de terror. Um lobo cinzento a pressionava no chão com suas patas enormes.
O lobo rosnou sem tirar os olhos de Sirena, e eu soube que se tentássemos alguma coisa ele a mataria. O trem virou de leve para o lado, como se várias pessoas o empurrassem pretendendo derruba-lo. Um estouro no fundo do trem e a porta que levava ao outro vagão explodiu, enviando estilhaços cortantes de ferro para todos os lados.
Pelo menos cinco lobos, muito maiores que aquele que prendia Sirena, saltaram pelo estrago e arreganharam os dentes para nós, os pelos das costas eriçados.
Sinceramente.
Minha cota de cães para uma semana já havia passado dos limites.
–Olhem só. – disse uma voz masculina, o dono escondido pela poeira e pelo avantajar dos lobos – Justamente quem eu queria encontrar.
Os animais abriram espaço, revelando um homem alto de rosto magro e fino. O cabelo penteado para trás com gel brilhava negro apesar da sujeira. O terno, também preto e de aparência cara, não tinha uma poeirinha ou sequer rasgo.
Mas os olhos.
Brilhavam em diversas tonalidades diferentes, feito um arco-íris refletido em um lago ondulando.
–Sabe, Dayannya, — disse o homem que eu reconheci como aquele em meu sonho – Ártemis deixou a entender que você era mais esperta.
Então eu apaguei.
Fale com o autor