Filha de Apolo - Flames
15 O Jardim
–Quem era aquele cara?
Ergui o olhar do livro grosso sobre objetos mágicos que estava lendo e encarei Sierra.
–Que cara?
Ela se deitou na cama com a barriga para baixo e apoiou a cabeça nas mãos em concha.
–Aquele loiro gatinho, o que estava com você na frente de uma barraquinha.
Senti meu rosto esquentar e voltei a examinar o livro.
–Ele é só meu amigo.
–Um amigo mui sexy.
–E você é mui idiota.
–Eu te conheço, sei quando está gostando de um cara. – Sierra pegou um dos muitos livros que estavam jogados na minha cama – Qual é o nome dele?
–Isaac. – fechei o livro com força fazendo voar poeira para todos os lados e peguei outro – E pode ficar com ele, eu não ligo.
–Estou saindo com o Matt, lembra?
Arqueei as sobrancelhas.
–Você só está com o Matthew porque ele tem o nome de um ator.
Sierra revirou os olhos.
–Não sou tão idiota assim.
Eu sabia que ela não era, mas não disse nada. Estava concentrada demais tentando ler o título do livro. Eu não era disléxica, como a maioria dos semideuses, mas o sono começava a deixar minha visão embaçada. Depois de ser arrastada por Callum e Sierra, Stephy arrumou uma cama para Sierra perto da minha e, obviamente, Callum ficou no quarto dos meninos, porém na mesma coorte. Procuramos por horas e em dezenas de livros alguma coisa sobre o “medalhão de fogo”, mas não encontramos nada. Já havíamos voltado do jantar e eu e Sierra éramos as únicas no quarto das meninas.
Depois do que me pareceram horas – foram apenas alguns minutos – a porta do quarto se abriu, deixando o frio e o som agradável de chuva invadir o recinto. As meninas da quinta coorte entraram rindo e conversando. Stephy espremeu-se por elas e sentou-se ao meu lado na cama.
–Vocês deviam dormir um pouco. – disse tirando o livro da minha mão.
–Ela tem razão. – Sierra jogou seu livro de volta na pilha – Eu estou morta!
–Posso aguentar mais um pouco. – resmunguei tentando pegar o meu livro da mão de Stephy, mas ela o ergueu até onde eu não alcançava.
–Vá dormir! – ela pegou todos os livros sobre a minha cama e os espalhou sobre o criado-mudo. Então Stephy se levantou e jogou- se em sua cama. Sierra seguiu o exemplo.
Bufei exasperada. Eu não tinha tempo para dormir, precisava encontrar algo relacionado ao medalhão, caso contrário eu seria jogada no Tibre com meus amigos e um bando de cães.
No entanto, abri a mochila ao pé da minha cama e peguei uma camiseta para usar de pijama e um short – eu já havia tomado banho antes.
Esperei até que ninguém estivesse olhando e me vesti ali mesmo. Deitei e me cobri até o queixo, bloqueando o frio que ainda se mantinha no quarto.
Não levei muito tempo até que conseguisse adormecer.
Não tive sonhos significativos naquela noite, a não ser que correr por um vasto descampado sem chegar a lugar algum signifique alguma coisa.
Acordei com uma pressão leve entre minhas omoplatas, como se um gato pequeno estivesse dormindo sobre mim. Pelo barulho lá fora a chuva ainda caia, porém mais fraca.
–Dayannya! – sussurrou uma voz masculina em tom de urgência, e eu conhecia aquela voz.
Virei-me na cama e quase gritei de susto.
–O que você está fazendo aqui?
–Puxa, se não queria me ver era só ter sido mais direta. – os olhos de Isaac brilhavam sob a luz fraca que meu despertador lançava. Ele estava ajoelhado ao lado de minha cama – Ou você podia ter se levantado e corrido para os braços do seu amigo, qualquer coisa serve.
Suspirei.
–Me desculpe por aquilo. – então me lembrei de que não sabia o motivo da visita noturna – Por que você veio aqui? Aconteceu alguma coisa?
–Por que você sempre acha que eu estou aprontando alguma?
–Porque você sempre está aprontando alguma.
Ele sorriu.
–Não aconteceu nada, eu só quero te mostrar uma coisa.
Franzi a testa e olhei para o despertador digital sobre o criado-mudo: eram onze e meia da noite.
–É quase meia noite. – apoie-me sobre o cotovelo e estreitei os olhos – E está chovendo.
Ele deu de ombros.
–Uma aventura nunca pode esperar. Faça chuva ou faça sol.
–Seria difícil fazer sol agora.
–Você entendeu. – ele se levantou — Então, você vem ou não?
–Tenho que me trocar antes.
Ele suspirou e saiu do quarto, deixando uma fresta da porta aberta por onde a luz fraca da lua entrava.
Sai da cama e peguei uma calça e minha escova de dentes na minha mochila. Pesei por entre os beliches fazendo o mínimo de barulho possível e entrei no banheiro, fechando a porta com cuidado antes de acender a luz. Então eu me olhei no espelho. Meu cabelo estava tão bagunçado que eu parecia uma mendiga e meus olhos ainda estavam inchados de sono. Lavei o rosto o mais rápido que consegui e depois de limpar um pente sobre a pia penteei meus cabelos, até eles não estarem tão cheios. Escovei os dentes e vesti a calça com pressa.
Voltei ao quarto e joguei a escova e o short em cima da minha cama e sai do alojamento. Isaac estava apoiado na cerquinha da varanda. Com a luz das lâmpadas ali fora, pude notar o cabelo dele ligeiramente molhado. Ele usava uma jaqueta preta semiaberta, exibindo a camiseta cinza que usava por baixo. O cabo de um canivete militar saia do bolso da frente da calça jeans preta.
–Você veio! – ele sorriu fingindo surpresa e me jogou uma blusa de nylon com zíper.
–Se descobrirem o que estamos fazendo vão cortar nossa garganta. – vesti a blusa e fechei o zíper até o máximo, cobrindo minha cabeça com o capuz.
–Não vão descobrir. – ele também colocou o capuz e foi para baixo da chuva.
Prendi a respiração e fui atrás dele.
Estávamos andando devagar pela via praetoria em meio à chuva fina. Isaac andava alguns metros à minha frente e eu mexia em meu cabelo úmido a toda hora.
Chegamos perto de onde eu fora atingida por uma estátua carrancuda, mas ela não aparecera dessa vez.
Seguimos pela cidade até chegarmos ao pé de um pequeno morro, mas alto o bastante para que eu não pudesse distinguir o que havia no topo.
Isaac virou-se para mim:
–Feche os olhos.
Ao invés disso os arregalei.
–Por quê?!
Ele arqueou as sobrancelhas, mas não disse nada. Suspirei e fechei os olhos, irrequieta.
Isaac foi para trás de mim e pousou uma mão por cima dos meus olhos, para garantir que eu não espiasse, e começou a andar, me guiando.
Eu sentia a chuva batendo de leve nos meus ombros enquanto andávamos, e meu coração batia tão rápido que doía.
Depois de alguns metros ele parou.
–Pode olhar agora. – Isaac tirou a mão de cima dos meus olhos e eu os abri. Estávamos em um jardim amplo, uma fonte de Baco jorrava em seu centro, misturando-se à água da chuva. Treliças e diversos tipos de flores espalhavam-se em canteiros a toda volta do chão em tijolos de pedra branca. Pequenos vagalumes sobrevoavam as flores, iluminando-as com uma luz verde bruxuleante.
Fiquei sem palavras. Olhei por cima dos ombros e Isaac sorriu.
–O que você achou?
Eu não conseguia dizer nada. Fiz apenas um barulho estranho com a garganta e ele riu baixinho. Isaac foi até a fonte e sentou-se em uma parte seca da base, onde a chuva não atingia. Sentei-me ao seu lado.
–Graças aos deuses esse aí está de roupa. – Isaac dobrou as pernas junto ao peito e colocou as mãos nos bolsos da jaqueta.
Sorri e peguei uma mecha de cabelo.
–Esse lugar é incrível.
–Eu queria que não estivesse chovendo.
Franzi a testa.
–Por que você me trouxe aqui?
Ele inclinou a cabeça.
–Eu quero conversar com você a sós. E de dia não tem um só lugar onde possamos ficar sozinhos.
Meu coração deu um pulo.
–Sobre o que você quer conversar?
–Bem... – o rosto dele ficou ligeiramente corado – Eu menti para você quando disse que meu pai cuidou de mim até meus dez anos.
–O que?
–Foi até os nove.
Dei um soquinho no braço dele.
–Então me conta, — encostei a cabeça na estátua – como foi?
–A partir de agora você vai ser minha confidente. – Isaac sentou-se um pouco mais ereto – Por onde começar... Quando eu tinha nove anos, Netuno me pediu para que eu... Que eu matasse um dos criados, um fauno. Ele disse que só assim eu provaria que era um guerreiro de verdade, por fazer certos sacrifícios. Eu o matei, mas não pude mais aceitar isso, então fugi.
–Você fugiu? No meio do deserto texano?
–Agora você sabe de onde veio minha insanidade. – ele sorriu vacilante – Depois de fugir só com minha mochila, andei por dias pelo deserto até que encontrei uma estrada e comecei a segui-la. Depois de um tempo alguns semideuses me encontraram e me levaram para o reformatório.
–Então você não veio direto para cá?
Ele fez que não com a cabeça.
–Quando cheguei lá conheci Sirena e Dakota, que tambem haviam fugido. Sarah, a nossa supervisora, é tia de Sirena então ela nos aceitou até que estivéssemos preparados para o acampamento. Quer dizer, eu já estava, mas não iria sem eles.
Revirei os olhos.
–Sempre tão modesto.
–Eu sei.
Lembrei-me de que todos os semideuses romanos passaram pelo treinamento com os lobos antes de irem ao acampamento, mas não perguntei nada a ele.
–Seu pai era muito rígido com você, né?
Ele deu de ombros.
–A maioria das vezes. Mas de vez em quando ele me dava um tempo livre. Quando fiz seis anos, uma das criadas me ensinou a tocar piano. – ele me olhou pelo canto do olho – Não me julgue.
–Não vou. – sorri ao pensar nele, um assassino em série em vista dos demônios, tocando Chopin. Não era engraçado, na verdade era uma coisa fofa saber que ele tinha um lado sensível e criativo, e não era totalmente violento.
Ele sorriu, mas estão ficou sério rapidamente.
–Tudo bem, mas essa história não é o principal motivo por estarmos aqui. – ao dizer isso ele tirou uma caixinha de veludo preta do bolso e a abriu. Uma corrente de ouro pousava graciosamente sobre uma almofadinha. O pingente era tambem de ouro, porém com uma pedra verde brilhante no centro – Quero que fique com isso.
Fiquei sem fôlego.
–Isaac, eu... Por quê?
–Era da minha mãe. – ele tirou a corrente da caixinha e abriu o feixe – Quero que fique com ela porque é importante para mim. A única coisa que tenho de minha mãe e se estiver com você, sempre saberei disso. Sei que posso confiar em você para cuidar dela.
Assenti devagar e ele passou os feixes por trás do meu pescoço, prendendo-a. Corri a mão pelos elos da corrente que agora repousava em minha clavícula. O ouro brilhava sob a luz da lua.
–Isaac, isso... – eu não tinha palavras para descrever aquilo — Caramba, eu podia te beijar agora.
–O que te impede? – nossos olhares se encontraram e engoli em seco. Em parte, eu realmente queria aquilo, mas por outro lado... Não falei nada, apenas inclinei-me um pouco e ele se apoiou em uma mão, usando a outra para inclinar meu rosto para cima. Nossos lábios quase se tocavam e meu coração parecia estar explodindo dentro do meu peito quando um trovão ribombou ao longe. Assustei-me com o barulho repentino e me afastei, o rosto mais quente que nunca enquanto a chuva apertava, começando a respingar onde estávamos. Isaac estalou a língua – É melhor... É melhor voltarmos. – ele se levantou e estendeu a mão para mim.
Suspirei e amaldiçoei Zeus por escolher a hora errada para me dar um susto. Peguei a mão de Isaac e levantei-me.
Antes que pudesse descer da base de mármore, escorreguei na água que se acumulava ali. Isaac me pegou pela cintura e me puxou para perto dele, antes que eu batesse com a cabeça na estátua. A chuva corria pelo meu rosto e encharcava meu cabelo, mas eu não dava a mínima importância. Ele me olhou ligeiramente espantado.
–Por que você vive caindo? – ele murmurou, ofegante. Eu podia sentir seu coração acelerado junto ao meu.
–Porque eu sei que você sempre vai me segurar. – não pude deixar de pensar em como seus olhos eram lindos vistos tão de perto, em como ele era lindo e não apenas fisicamente.
Esse pensamento durou um momento antes que estivéssemos nos beijando.
Aconteceu rápido, ele apenas me puxou até que estivéssemos tão próximos que a água da chuva não passava por entre nossos corpos e então ele me beijou ou eu o beijei, não sei ao certo. No começo foi estranho, até que senti como se meu corpo derretesse em seus braços. Os lábios dele eram suaves, ainda mais do que imaginei. Envolvi seu pescoço com os braços e enterrei os dedos em seus cabelos molhados, ficando na ponta dos pés para que ele não tivesse que se curvar tanto. As mãos dele pressionavam suavemente minhas costas, e para o primeiro beijo debaixo da chuva, e em qualquer outro lugar, fora perfeito.
Nossos lábios já estavam encaixados quando outro trovão ribombou mais perto dessa vez, fazendo-me pular, literalmente. A chuva caia com pancadas fortes sobre nós, me dando uma dor de cabeça fraca.
–Agora temos mesmo que voltar. – ele disse meio rindo, com a testa junto a minha.
Eu sorria e devia estar parecendo uma louca, mas assenti e reprimi um suspiro quando ele passou um braço sobre meus ombros e corremos de volta aos alojamentos o mais rápido possível, tomando cuidado para não escorregarmos.
Chegamos à varanda da quinta coorte ensopados e ofegantes, mas mesmo assim sorrindo.
Encostei-me a parede ao lado da porta e respirei fundo. Meu cabelo pingava dentro da blusa de nylon fazendo a camiseta ficar grudenta e gelada. Cobri a boca com o antebraço e espirrei.
–Agora você vai ficar resfriada – disse Isaac passando a mão pelos cabelos molhados – e a culpa é minha.
–Valeu a pena. – eu o encarei por um segundo até desviar o olhar e sentir meu rosto fervendo.
–Eu já ia pedir desculpas por aquilo também, mas já que você acha...
Ri meio vacilante.
–Você não precisava pedir desculpa. – já estava difícil respirar por conta do frio, e ficou pior ainda quando ele se aproximou e tomou meu rosto entre suas mãos, acariciando minhas maçãs do rosto delicadamente – Você já namorou a Peggy, não é?
Eu sei que essa frase pode cortar o clima, mas ele não se afastou.
–Já. – ele colocou a testa junto a minha e fechei os olhos aproveitando cada momento – E se eu dissesse que ela nunca significou nada pra mim?
–Eu poderia acreditar. – puxei-o pela frente da jaqueta e ele me beijou, lenta e demoradamente. Senti-o sorrir junto aos meus lábios um momento antes de alguém dizer atrás de nós, alguém cuja voz eu reconheceria mesmo com a maior barulheira:
–Que merda é essa?!
Afastei Isaac com um empurrão e tentei recuar, mas a parede atrás de mim impedia isso.
–O q-que você está fazendo fora da cama?! – gaguejei, a voz trêmula.
–Eu queria conversar com você, sem que ninguém atrapalhasse! – Callum fuzilou Isaac com o olhar – Mas parece que alguém pensou nisso antes.
Isaac cerrou os punhos.
–Só nessa noite fiz muitas coisas antes de você.
Callum se preparou para avançar, mas eu não podia deixar que uma briga começasse. Interpus-me entre os garotos.
–Vocês não podem ser civilizados apenas um segundo?!
–Por que você fez isso? – Callum mordeu o lábio inferior. Ele parecia prestes a chorar, ou qualquer coisa parecida – Você disse que não havia nada entre vocês...
–E não tem, nós só...
–Não tem? – virei-me e Isaac sorriu, meio abatido meio sarcástico – Então a gente só se beijou?
–Isaac, não foi isso que eu...
–Então o que foi? – Callum parecia totalmente decepcionado – Eu já estou cansado de você mentindo pra mim, Dayannya.
Ele se virou e entrou no quarto dos meninos, batendo a porta.
Fechei os olhos e respirei fundo o cheiro de terra molhada, fazendo-me lembrar do jardim. Abri os olhos e olhei por cima do ombro. Isaac estava calmo, mas eu sabia que era só fingimento.
–Vai pedir desculpas pra ele. – ele balançou a cabeça devagar em negativa – Vai dizer que você sente muito pelo que aconteceu, que foi um erro!
–Para de ser assim! – quase gritei aquela frase. Eu não aguentava mais ter que fingir o que sentia, o que eu pensava. Por dentro eu queria tanto chorar quanto dar um soco na cara dos dois – Como se... Como se nada tivesse a menor importância pra você!
–E não tem. – ele colocou o capuz da jaqueta e se virou. Perdi-o de vista em meio à chuva depois de alguns metros.
Respirei fundo.
Eu queria ir falar com Callum, mas isso acabaria acordando os outros garotos.
Então virei-me e entrei no quarto das meninas. Desabei na cama sem nem mesmo trocar de roupa ou me secar.
Fiquei encarando o colchão do beliche de cima por um tempo antes de fechar os olhos e deixar as lágrimas correrem livremente.
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