Filha de Apolo - Flames

13 Decisões Perigosas


Nossos passos chapinhavam pelas poças d’água espalhadas pelas ruas enquanto seguíamos em direção à praça central da cidade, onde ficavam as casas nas quais as pessoas moravam.

Isaac virou em uma rua estreita e parou em frente a uma casa branca longa e alta, com várias janelas e algumas colunas perto da porta da frente. Isaac abriu a porta e entrou, mantendo a porta aberta para mim. Passei pela entrada e dei graças aos deuses por uma lareira estar acesa do outro lado da sala de estar. Do lado de fora a casa era tipicamente romana, mas por dentro o lugar era aconchegante e quente, parecido com um apartamento no centro de Nova Iorque.

Tirei minha blusa encharcada e pendurei-a no cabide ao lado da porta.

–Dake! – chamou Isaac enquanto colocava sua jaqueta perto de minha blusa.

Dakota apareceu por uma passagem perto da lareira. O cabelo escuro estava preso em um rabo de cavalo e ele usava uma camisa que dizia: Made in Georgia.

–Sirena vai cair matando em cima de você. – ele murmurou.

–Nem demoramos tanto assim. – Isaac franziu a testa e colocou sua mochila em cima de uma mesa redonda de madeira do lado esquerdo da sala.

–Você sabe como... – antes que Dakota terminasse Sirena surgiu atrás dele e o empurrou para o lado.

–Isaac Nathaniel Belcourt! – rosnou ela – Onde vocês estavam?!

Não consegui evitar um sorriso.

–Nathaniel Belcourt?

–Isso não é hora, ok? – murmurou Isaac, revirando os olhos.

–Vamos conversar mais tarde. – então Sirena apontou para mim – Você estava dormindo lá no trem. Sonhou com alguma coisa?

Foi como se uma lâmpada se acendesse na minha cabeça, iluminando a imagem do homem de terno. Contei a eles sobre tudo, dando ênfase a parte dele ter-me olhado diretamente e dito que poderia ter algo muito mais poderoso.

–E Callum me ligou dizendo que... – minha voz falhou.

–A mãe dela sumiu. – Isaac colocou a mão no meu ombro, me reconfortando – E agora que você falou sobre esse cara, eu acho que ele tem algo a ver com o sumiço.

–Mas e o amuleto? – perguntou Dakota revirando as páginas de um livro gigante e empoeirado que ele havia pego no meio da “história” – Não tem nada sobre ele aqui!

–Não se pode achar tudo nos livros. – Sirena cruzou os braços – Como é mesmo aquilo que você consegue fazer?

Encolhi os ombros.

–É tipo um fogo branco. – murmurei um pouco desconfortável – Parecido com aquele dentro da pedra no amuleto.

Sem dizer nada Isaac passou pela entrada de onde Dakota e Sirena vieram e sumiu em um corredor escuro.

–O que ele foi fazer? – perguntei.

–Sei lá. – Dakota virou-se e foi atrás de Isaac.

Suspirei e sentei-me no sofá em frente à lareira, esticando as pernas e deixando o calor do fogo me envolver. Meu cabelo já estava seco àquela altura, e cacheava em todos os pontos.

Sirena sentou-se ao meu lado, cruzando as pernas longas em cima do sofá.

–Ele gosta mesmo de você. – falou.

–O que? – perguntei franzindo a testa e esticando as costas.

–Isaac. – ela sorriu – Quer dizer, se fosse por mim eu teria te deixado no trem e feito você se virar sozinha.

–Valeu pela honestidade.

–Mas eu estou falando sério! – ela inclinou a cabeça – Tipo, você já deve ter percebido que ele não sai do seu lado.

–Ele me fez uma promessa. – meu coração batia rápido, justamente por eu estar falando com uma filha de Vênus sobre um garoto bonito que fazia eu me sentir como se colocasse os dedos na tomada elétrica.

–Exato. – Sirena baixou o volume da voz — Ele fez isso porque quer te proteger e ter uma desculpa para ficar perto de você. Acho que nunca o vi sorrindo com tanta frequência.

Meu rosto estava fervendo quando fui tentar responder. Por sorte os garotos haviam voltado, me livrando de ter que inventar algo para dizer.

–Você é totalmente sem noção! – gritou Dakota.

–Porque você não me deixa em paz? – Isaac abriu os braços. Em uma mão ele segurava um cinto de armas com algumas poucas adagas, inclusive a faca de caça que ganhara do pai – Isso é uma escolha minha, e se eu me ferrar não vou dizer nada sobre vocês estarem aqui!

–Isso não vem ao caso! – Dakota agarrou o braço de Isaac – O que você vai fazer é suicídio!

–Não me importo. – Isaac livrou-se do aperto do amigo – Caso não tenha percebido, Dayannya está correndo perigo.

–Ela não é a única!

–O que está acontecendo? – Sirena se levantou, pondo-se entre os garotos.

–Ele quer reunir o conselho!

–Que? – Sirena arregalou os olhos – Você é louco?

–Você já me conhece há oito anos, – depois de prender o cinto de armas, Isaac vestiu a jaqueta que já havia secado e pôs o capuz sobre a cabeça – devia saber que eu não meço consequências. – então ele se virou e saiu da casa.

Dakota e Sirena viraram-se para mim.

–Que foi? – levantei-me indignada – Vocês são os amigos dele!

–Mas ele está fazendo isso por você! – o olhar de Dakota era suplicante – Por favor, Daya. Quando ele começa alguma coisa idiota é difícil fazê-lo voltar atrás.

Fui até a porta e peguei minha blusa no cabide ao lado.

Respirei fundo enquanto saia para o vento frio e úmido de uma noite chuvosa.

Isaac já estava quase virando na outra rua.

Ele era apenas um vulto negro, quase impossível de enxergar, mas mesmo assim peguei uma pedrinha ao lado de um vaso e joguei, conseguindo atingir as costas dele. Isaac se virou e ficou olhando impassível enquanto eu corria em rua direção, a chuva me molhando novamente.

–Você vai pegar uma gripe. – ele disse puxando as mangas da jaqueta sobre os punhos.

–Volta. – falei meio ofegante – Por favor.

Ele me olhou de cima a baixo e disse decidido:

–Não. – Isaac deu as costas e continuou a andar.

Resmunguei um palavrão e segui-o. Depois de alguns metros ele virou de novo.

–O que você quer?

–Se não posso te impedir, vou com você – empinei o queixo. Eu sei que aquilo foi uma atitude infantil, mas era o mais determinado que eu iria conseguir enfrentando um garoto muito mais alto e mais forte que eu.

–Tudo bem – ele sorriu e continuou a andar, me deixando atônita.

–Como assim tudo bem? – perguntei confusa.

–Pode vir comigo. – Isaac não diminuiu o passo, me obrigando a andar também – Se você estiver lá, terei provas de que não estou mentindo.

–Mas...

–Você vai fazer objeções ou vai vir?

Resolvi calar a boca.

Saímos da pequena cidade e seguimos por uma estrada de pedra, que para minhas pernas curtas foi como caminhar do Bronx até Long Island. Passamos por portões altos e seguimos mais alguns metros até Isaac parar em uma esquina de entroncamento, onde se encontrava o edifício mais impressionante que eu vira no curto período em que estivera no acampamento romano: uma cunha de dois andares, de mármore branco, com um pórtico sustentado por colunas, como um banco antigo. Acima da porta pendia um grande – e agora encharcado – estandarte roxo com as letras douradas SPQR bordadas dentro de uma coroa de louros.

–Que lugar é esse? – perguntei examinando de longe todos os detalhes do edifício.

–A principia – Isaac aproximou-se da porta e bateu em seu centro algumas vezes. Depois de alguns segundos a porta se abriu e uma garota de armadura apareceu na entrada. Ela tirou o elmo revelando um cabelo loiro e longo. Seus olhos castanhos brilharam de um jeito esquisito assim que viu Isaac – Boa noite.

–O que você está fazendo aqui? – a menina colocou a mão sobre o punho da espada presa em sua cintura. Então ela disse alguma coisa em latim, baixo o bastante para que eu não entendesse, e apontou para mim.

Isaac olhou por cima do ombro.

–Amiga minha. E a principal causa por eu estar aqui.

–Você não devia ter voltado! – a garota trincou os dentes.

–Mas eu voltei não é mesmo? – ele sorriu sedutor – Vai dizer que você não sentiu falta de mim.

A garota ficou vermelha.

–Você não é tão irresistível assim.

–Eu sei quando você está mentindo.

–Tá! – a garota bateu pé, fazendo a armadura tilintar. Ela me indicou com o queixo – Qual é o nome dela?

–Eu sei falar, ok? – por algum motivo, aquela menina estava me deixando com raiva. Mas eu não sabia se era por ela ter me menosprezado, ou por ter tido alguma relação com Isaac.

–Não duvido nada. – ela empinou o nariz, parecendo muito mais alta que eu – Mas eu não me dirigi a você, então cale a boca.

Aconteceu rápido.

Só me lembro do meu punho indo em direção a cara daquela menina, porém antes de atingi-la Isaac segurou meu braço e me puxou para trás.

–Ela é uma oficial romana. – murmurou baixo o bastante para que apenas eu ouvisse – Você não vai querer fazer isso.

–Vaca – resmunguei baixinho.

–É, eu sei. – ele me soltou e voltou-se para a garota – Preciso conversar com você. É importante.

Ela torceu o nariz para mim.

–Essa coisinha tem que vir também?

–Tem. – Isaac segurou meu braço de novo, impedindo que eu avançasse – E por mais que eu adore ver uma briga envolvendo puxões de cabelo, vocês duas vão ficar pelo menos quatro metros de distância uma da outra.

A garota olhou-me com nojo, transmitindo uma mensagem bem clara: Fique longe dele. Assim que notei isso aproximei-me de Isaac mais um passo.

A garota respirou fundo.

–Tudo bem. – ela entrou na principia e eu e Isaac fomos atrás.

O lugar era ainda mais impressionante por dentro.

No teto havia um mosaico reluzente de Rômulo e Remo debaixo da loba, sua mãe adotiva. O piso era de mármore polido. As paredes eram todas cobertas de veludo. Ao longo da parede dos fundos estavam expostos estandartes e bastões de madeira cravejados com medalhas de bronze.

Em um canto aos fundos uma escada levava a um piso inferior. Estava bloqueada por barras de ferro, como barras de prisão.

No centro do cômodo havia uma longa mesa de madeira entulhada de rolos de pergaminhos, cadernos, tablets, adagas e uma tigela grande cheia de balas delicadas que pareciam meio estranhas ali.

–Você tem sorte de os pretores não estarem – disse a garota pegando uma bala.

–Onde eles foram? – Isaac franziu a testa e apoiou-se na mesa, examinado um pergaminho.

–Estão no acampamento grego.

–Porque?

A menina deu de ombros e colocou sua espada em cima da mesa.

–Assuntos confidenciais ou algo do gênero. Então, qual o problema?

Isaac começou a narrar os acontecimentos desde que nós dois havíamos nos conhecido. Enquanto ele falava peguei uma adaga na mesa e examinei o punho decorado com desenhos de rosas.

–Como era o nome daquela cara que Ártemis mencionou? – perguntou Isaac dirigindo-se a mim.

–Elijah – respondi sem olhar para ele.

–Eu tenho quase certeza que foi esse o cara que ela viu no trem, e que ele tem alguma coisa a ver com o desaparecimento da mãe dela.

–Mas e o amuleto? – a garota havia tirado a armadura e agora ela se encontrava de regata preta e calça camuflada.

–Eu não faço a menor ideia. Nunca o vi antes.

–E o negócio com o fogo? – a garota franziu a testa para mim – Você pode fazer isso agora?

–Eu adoraria incendiar você, – falei ainda examinando a adaga – mas não controlo esse negócio.

–Ainda não. – Isaac suspirou – Peggy, deve haver algum registro sobre isso aqui.

–Seu nome é Peggy? – ergui o olhar com um meio sorriso.

–Algum problema com isso, Dayannya?

–Claro que não Miss Peggy, continue. – ergui as sobrancelhas aumentando mais o sorriso. Isaac limpou a garganta.

–E então?

–Vou procurar. – o rosto de Peggy estava ficando roxo – Mas já está tarde. Vocês deviam ir dormir. Em lugares separados.

–Espero que você não se importe de dividir o quarto com a Sirena. – disse Isaac vestindo a jaqueta.

–Ah não. – Peggy estreitou os olhos – Ela pode ficar na quinta coorte com as outras garotas.

Isaac abriu a boca para protestar, mas eu o interrompi.

–Tudo bem.

Ele franziu o cenho e colocou o capuz da jaqueta sobre a cabeça.

–Então vem comigo, vou te mostrar onde é.

Saímos da principia sem ouvir o que Peggy tinha para dizer. Já não chovia mais e seguimos por uma rua até pararmos em frente a um alojamento, onde uma garota estava deitada em uma rede na varanda.

–Oi? – perguntou ela se deitando de lado e nos examinando.

–Ela acabou de chegar. – disse Isaac, o rosto coberto pelas sombras – Estava sendo perseguida por monstros, e não tinha para onde ir.

–Grega?

Isaac assentiu.

A garota levantou-se e parou na minha frente. Era alta e de pele morena, o cabelo cacheado e preto estava preso em um rabo de cavalo.

–Ok. – ela cruzou os braços e sorriu – Sorte sua que temos uma cama vazia, as meninas vão adorar uma guria nova para conversar. É sua primeira vez aqui?

Assenti devagar. Estava começando a gostar daquela garota.

–Meu nome é Stephy. – ela olhou para Isaac – Pode ficar tranquilo, vou cuidar direitinho dela. – então ela se virou e subiu de volta na varanda, esperando ao lado da rede que eu a seguisse.

–Vou trazer suas coisas amanhã cedo. – murmurou Isaac antes de ir embora.

Esperei que ele desaparecesse em uma curva e segui Stephy.

–Fiquei feliz por saber que Isaac voltou. –disse Stephy ao abrir a porta do alojamento. Fiquei parada olhando atônita para ela. Como ela sabia que era Isaac?

Stephy piscou para mim e entrou. Entrei atrás dela, ainda um pouco confusa, mas não demorei para cair na cama assim que ela mostrou onde eu ficaria.

Naquela noite não tive sonhos.