Filha de Apolo - Electricity
3 Zona da Amizade
–Ela está olhando para você.
–E daí?
–Parece que a cara dela vai explodir.
Arrisquei uma olhadela por cima do ombro. Annie Genkies me encarava, o rosto púrpura de raiva, como se fosse soltar raios laser pelos olhos. Ergui as sobrancelhas e voltei a atenção para o meu cozido de “carne anônima”, ou carne de cavalo, o que muitos de nós acreditava ser.
–Ela sempre parece que vai explodir — resmunguei arrancando uma risada de Melody. Sierra deu um sorrisinho e nada mais, pois estava concentrada em uma conversa aprofundada com Dakota. Na aula de educação física, a anterior ao intervalo, havíamos jogado basquete. Eu gosto de basquete, mas o problema é que aquela bola enorme caiu bem no nariz de Annie. Todos acharam engraçado, porém eu vi aquilo como meu último dia de uma vida tecnicamente calma.
–Você devia ter acertado a bola com mais força — Mel ajeitou os óculos gigantes, me fazendo uma crítica através dos olhos castanhos. Eu gostava de Melody, mesmo os outros a achando estranha. Tinha o cabelo cor de laranja e crespo, sempre preso por presilhas coloridas. O rosto pequeno e redondo era cheio de sardas vermelhas e, apesar de parecer meiga, ela tinha uma alma negra, sempre pensando em violentar os outros. Por isso eu gostava dela. Mel nunca fazia objeções quando eu queria socar a cara de Annie até que o nariz dela saísse do lugar.
–Foi sem querer — falei pela milionésima vez, revirando os olhos. Então parei, olhando fixamente para uma parede cor de creme do refeitório — Mas eu gostei bastante.
Sierra riu repentinamente. Ela nem pareceu notar que eu e Mel a encaravamos, sobressaltadas. Ela simplesmente continuou digitando fervorosamente em seu celular. A comida em sua bandeja estava intocada.
–Ela está pior do quando namorava o Matt — Mel revirou os olhos, cutucando um pedaço particularmente grande de carne de cavalo.
–Você ainda nem viu como é pessoalmente — respondi num sussurro. Eu aceitei o namoro dos dois. Na verdade, nunca mais discuti sobre isso com Sierra desde que ela escondeu a relação de mim. Porém era totalmente chato quando os dois estavam juntos. Viviam sussurrando e trocando afeto. Nem mesmo Isaac aguentava ficar ao lado do melhor amigo quando isso acontecia.
Porque eu tive que pensar nele? Eu não tentava mais esquece-lo, mas pensar nele a toda hora era tão irritante. As vezes eu me pegava querendo beija-lo de novo, como no jardim. Havia momentos em que tudo o que eu queria trocar carícias com ele, mas Isaac parecia tão frio ultimanete. Uma gargalhada de repente se transformava em um olhar distante e melancólico. Então ele olhava para mim, aqueles olhos azuis incríveis ficavam escuros quando inventava alguma desculpa e saia do recinto. E isso machucava como uma apunhalada, sempre que ele me deixava sozinha olhando para o carpete, perdida em meio a uma conversa.
O sinal do fim do intervalo tocou, me dando um susto enorme. Meu coração batia fortemente no peito quando puxei Sierra pelo braço, dizendo que era hora de voltarmos para a aula. Passei as duas últimas aulas — matemática e química, minhas favoritas — olhando para o vazio ou consertando a letra da música que eu iria gravar hoje com Teo. As músicas da banda vendiam bem, apesar dela ser chamada de Electric Destiny. Contra minhas expectativas, o nome pegou.
Quando eu pensei que fosse morrer de tédio, minha cara a centímetros de se espatifar contra a mesa de madeira, o sinal estridente tocou. O som de mesas se movendo foi sincronizado. Inclusive a professora fechou os olhos e fez um agradecimento ao Pai. Não encontrei Sierra nem Mel enquanto descia as escadas junto a parede, evitando ser pisoteada pelos alunos animados pelo fim da tortura. Cheguei ao meu armário, guardei minhas coisas apressamente, e já estava quase saindo da escola para esperar por Callum quando parei, os olhos arregalados. Minhas pernas pareciam ter virado gelatina.
A familiar picape preta do Reformatório estava estacionada no meio fio e, em frente a ela, Callum gesticulava muito. Ele usava uma camiseta folgada branca com.a estampa da Triforce. O cabelo cacheado e castanho estava bagunçado, como sempre, mas o que me chamou a atenção foi com quem ele discutia.
Meu coração pareceu parar enquanto eu olhava para Isaac, lindo parado sob o sol, o cabelo dourado no estilo “acabei de acordar e já estou bonito”. Os olhos brilhavam e eu sempre ficava impressionada quando olhava para eles. Eram únicos, da cor do mar do Caribe, os muitos tons de azul se intercalando para formar um misterioso e magnífico padrão, as pupilas negras cercadas por um finíssimo aro dourado e reluzente. O jeito desleixado dele era totalmente natural e, mesmo com Callum parecendo aflito Isaac sorria, completamente relaxado.
Mordi o lábio, tomada por uma sensação de pavor. Como estava meu cabelo? Eu estava pálida demais ou muito corada? Havia alguma coisa nos meus dentes? Esqueci tudo isso assim que Annie Genkies e suas amigas pararam um pouco a minha frente, sem me notar. Ela tinha uma mão na cintura, cochichando para as amigas e olhando diretamente para Isaac.
Meu rosto ardeu. O calor desceu pelos meus braços até as pontas dos dedos. Eu conhecia aquela sensação, a sensação de antes de eu pegar fogo, literalmente. Respirei fundo tentando me controlar. Annie começou a andar em direção a saída, com aquela passada falsa para impressionar os rapazes. Foi aí que perdi a paciência.
Avancei, tentando não bater o pé, e esbarrei no braço de Annie com o ombro ao passar por ela. Não me virei para ver sua cara quando me dirigi decidida até a picape, o queixo erguido, sustentando um sorriso verdadeiro assim que ele me viu, aumentando ainda mais o sorriso. Abracei-o com força, colocando meu rosto na curva entre o ombro e o pescoço, sentindo os músculos de seus braços e costas se contraírem ao devolver o abraço. Senti seu hálito quente balançando meu cabelo ao dizer, com suavidade:
–Qual o motivo dessa inesperada demonstração de afeto?
–Um bom coração? — falei, ruborizada, me afastando para abraçar Callum, que olhava fulminante para Isaac.
–Conheço você, Dayannya — Isaac sorriu de lado, se apoiando no carro — Sei quando esconde algo sombrio nas profundezas de sua pequena alma.
Olhei para a janela escura do carro. Ali estava refletida a imagem ligeiramente distorcida de Annie, a boca escancarada. Sorri de prazer, falando distraidamente:
–Atuação — olhei para ele, fazendo meu coração pular. Eu sentira falta de Isaac, de seu jeito e rosto familiar. Ele era realmente bonito, o formato do queixo, a linha da garganta, o modo como o cabelo dourado se curvava em pequenos cachos na direção do pescoço — Pode me fazer um favor?
Ele olhou de esguelha para a entrada da escola e sorriu, atrevido.
–Quer fazer ciúme? — Isaac me puxou pela cintura, me tirando o fôlego. Eu não esperava o gesto, mas entendi o que ele pretendia. Coloquei as mãos em seus bíceps, um pouco acima dos cotovelos, ficando de costas para Annie — Eu não sabia que você é assim, se bem que qualquer uma iria querer ao menos fingir ser minha namorada.
–Tudo bem, já chega — Callum suspirou com cara de nojo e entrou no carro.
–Acho que estamos fazendo ciúme pra pessoa errada.
–Ele ainda não entendeu que não tem nada entre a gente.
–Vocês nem estão mais juntos.
–Ele continua sendo meu melhor amigo — baixei a voz, juntando as sobrancelhas — Tem todo o direito de não gostar de ver isso — indiquei as mãos dele em meus quadris fazendo um gesto quase imperceptível com o queixo.
Isaac ergueu as sobrancelhas e me puxou com força, querendo me provocar. Eu sentia o coração dele em ritmos compassados contra o meu próprio, que mais parecia um animal enjaulado tentando se libertar.
–Não vamos chegar tão longe com isso — Isaac se aproximou e me beijou na bochecha e quando se afastou abriu a porta do carro para mim — A menos que você esteja se aproveitando da atuação.
Revirei os olhos e entrei, tentando esconder um sorriso. Callum me fulminava pelo retrovisor.
–Que é?
–Nada — o olhar dele vacilou antes de começar a torcer os dedos na camiseta. Me senti um pouco mal. Callum era apaixonado por mim, ele confessou, mas eu não sabia se esse sentimento prevalecia. Pelo que eu sabia ele não gostava de me ver com ele, dizia que era como me prender. E por mais que eu amasse Callum, ele não era com quem eu queria ficar.
Isaac entrou e me olhou por cima do ombro, ao mesmo tempo em que dava a partida no carro.
–Aquela é a Genkies?
–É — resmunguei, dando um suspiro dramático, e apoiei os cotovelos nos bancos da frente — Todo mundo ama seus cachos louros e seus lindos olhos verdes...
–Ela nem é tão bonita assim — pude ver, através do espelho retrovisor, que Isaac sustentava um sorriso torto — Prefiro morenas.
–Duas das suas ex-namoradas são loiras.
–Elas são apenas duas coisas de que não gosto de me lembrar — ele franziu o rosto — Tipo a minha primeira espinha.
Ergui as sobrancelhas, cética.
–Você? Com espinhas?
–Ninguém é perfeito — resmungou Callum.
–Você tem razão. E se não se importam, não quero me recordar desses tempos sombrios.
–Então... — pousei as mãos no colo — Posso saber porque vocês dois vieram me buscar?
–Eu estava sem carro — Callum parecia envergonhado — Minha mãe bateu de novo. Sinceramente, eu não sei como ela não consegue ver o poste.
–E eu não sei porque você deixa ela dirigir sozinha.
–Tem razão.
–E sua primeira opção de carona foi ele? — apontei para Isaac.
–Eu só disse que sim porque tinha uma coisa para fazer aqui — disse Isaac distraidamente.
–E eu liguei para ele porque, sei lá, achei que vocês iam gostar de se ver.
Meu rosto esquentou. Uma onda vermelha atingiu as faces pálidas de Isaac. Callum, achando que nós dois iríamos querer nos ver? Ele detestava Isaac, porque raios quis fazer algo assim?
–Somos só amigos — dissemos eu e Isaac ao mesmo tempo. E lá estava eu novamente. Na zona da amizade. Para mim, aquilo tinha mais conflitos do que qualquer zona de guerra sendo bombardeada. Era como se qualquer estilhaço fosse me matar.
Tossi,olhando para o teto do carro. Isaac parecia totalmente normal, mesmo que ainda ruborizado.
–Já falou com Percy? — perguntei, baixinho, só querendo mudar de assunto. O olhar de Isaac estava fixo na rua e ele demorou para responder. Aquilo era um assunto delicado. Tentávamos esquecer que os pretores contaram ao Acampamento Meio-Sangue sobre a existência de Isaac. Tentávamos esquecer que isso aconteceu porque ele havia morrido. Mas era inevitável sonhar com a espada de ouro atravessando o peito do filho de Netuno, se ver a vida vazando de seus olhos.
–Não — ele respondeu, seco — Não quero falar com ele.
–Ele é um cara legal — Callum franziu a testa. Ele percebeu o quão desconcertante estava sendo aquilo. Também deve ter notado a mudança repentina do estado de espírito de Isaac — Você devia conhecer ele. Além do mais, vocês são irmãos...
–Ele não é meu irmão — murmurou Isaac. Os olhos dele haviam se tornado frios, como cubos de gelo sobre um fundo azul — Não temos a mesma mãe. E Netuno é romano. Poseidon grego. E ponto.
–Isaac, eu não queria...
Ele freiou o carro abruptamente. Reconheci o prédio como aquele em que Teo morava.
–Pronto — ele não olhou para mim — Vocês podem, por gentileza, sair do carro? — Não foi uma pergunta. Eu conhecia Isaac bem o bastante para saber que aquilo foi uma ordem.
Callum saiu, sem reclamar, mas eu continuei sentada, olhando para a nuca de Isaac.
–Dayannya...
–O que está acontecendo? — perguntei com suavidade. Tentei colocar a mão em seu braço, porém notei a tensão em sua postura e mudei de ideia — Isaac, porque você está assim?
Ele olhava para o chão, as sobrancelhas claras estavam juntas. Seus músculos relaxaram visivelmente.
–Daya, por favor — ele murmurou, mas não havia qualquer indício da raiva de antes — Saia.
Mordi o lábio e saí, sem olhar para ele. Callum me esperava na frente do prédio e passei por ele sem dizer nada.
Entrei no elevador e, antes das portas se fecharem com Callum já do meu lado, pude ver a picape ainda parada, e a silhueta de Isaac curvado sobre o volante.
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