Filha de Apolo - Electricity
4 Com o Coração
*Callum*
Paramos ao lado da porta e Dayannya bateu, o punho pequeno tremendo violentamente. Ela parecia tão miserável ali, parada encolhida em frente a porta, encarando a soleira cheia de pesar.
—Ahn... Daya? — chamei com cuidado e ela ergueu a cabeça, os olhos grandes e bicolores marejados. Senti uma vontade imensa de conforta-la. Eu sabia que Dayannya era forte, mas seu jeito delicado, como se fosse quebrar, fazia com que eu me esquecesse disso — O que ele disse?
Ela apenas balançou a cabeça levemente, fazendo alguns cachos escuros escorregarem do ombro.
—Nada.
—Daya...
—Eu estou falando sério, Call — ela abraçou o próprio corpo, voltando os olhos azul/verde para o olho mágico da porta — Ele não disse nada.
Franzi a testa, encarando-a. Dayannya mudou de posição, desconfortável. A porta se abriu e Teo colocou a cabeça pela frestra, sorrindo abertamente e com os cabelos pretos bagunçados.
—Finalmente, achei que não fossem chegar — ele abriu mais a porta e nos deu passagem. Voltou-se para mim — Trouxe os CDs?
—Trouxe — bati em minha mochila, mostrando onde os objetos estavam.
Teo nos levou pelo hall, passando pela cozinha e finalmente chegando ao corredor. Da última porta vinham vozes baixas. Entramos no estúdio de gravação caseiro, com um monte de computadores, microfones e headphones. A toda volta haviam caixas de som e teclados de mixagem. Uma porta a prova de som levava a a minúscula sala onde gravavam as músicas.
Sentado ao lado da entrada estava Joe, a barba farta e ruiva tremendo com o queixo. Os olhos castanhos pousaram em mim, Daya e Teo e ele fez um sinal com a mão. O que quer que Kev estivesse dizendo, parou. Ele me intimidava, e tudo o que eu queria era não me intrometer em uma briga.
—O que aconteceu? — perguntou Dayannya alegremente, como se o episódio com Isaac não tivesse acontecido. Ela se agachou para beijar Joe no rosto. O ruivo parecia nervoso, olhando para a garota com olhos vacilantes.
—Nada, gatinha — Kev sorriu amigável, abraçando Dayannya. Kev poderia muito bem ser um jogador de basquete profissional, ou pelo menos confundido com um. Ele era o mais velho dentre nós, com mais ou menos 1,89 metro de altura e corpo esguio. Tinha a pele marrom escura e cabeça lisa. Parecia mais jovem que a maioria das pessoas com 34 anos.
Dayannya se afastou, o cenho franzido. Ela sabia que tinha algo errado, sempre sabia. A tensão era visível em todos, até mesmo em Teo, que sempre parecia descontraído. Os olhos azuis dele percorreram a sala e então ele sorriu.
—Vamos lá, pra que isso? Daya, a música está pronta? Ótimo — ele próprio respondeu antes que Daya abrisse a boca — Vai para lá, temos que começar a gravação.
Dayannya se dirigiu para a pequena sala a prova de som e sentou-se em um banco alto no centro. As luzes refletiam sobre ela e pelo menos cinco microfones apontavam para ela, que parecia muito nervosa.
—Pronta? — perguntou Joe apertando um botão e falando por um microfone. Ela assentiu, ajustando os headphones na cabeça. Joe contou três dedos e começou a gravação.
Ouvi a música suave que começava antes de Dayannya começar a cantar. Ela respirou fundo e fechou os olhos, iniciando a música.
Mesmo com sua voz fina e doce, quando cantava sua voz ficava poderosa e harmônica. Sempre gostei de ouvi-la cantar, mas dessa vez foi um pouco diferente. A voz dela tinha dor, dor de verdade, é desespero. Falava sobre perda e incompreensão. E também sobre um amor que nunca poderia ter.
Meu peito apertou com a emoção imposta na música, a amargura. Teo sentou-se ao meu lado, cruzando os braços sobre o peito. Eu não me incomodava com o rapaz,mas as vezes tinha medo de que ele começasse um flerte.
—Ela está muito melhor — disse, a ninguém em particular.
—Como assim, muito melhor?
—Na última vez que tentamos gravar — disse Joe, dando as costas para Daya — ela não se empenhou de verdade.
—Ela está cantando com o coração — murmurei, ressentido. Eu sabia exatamente o porque da música ser tão melancólica. E também sabia que Isaac havia feito alguma coisa no carro para chatear Dayannya. Depois daquilo, me arrependi de ter pedido carona para ele. Eu queria agradar Dayannya, por isso chamei-o. Mas será que foi a escolha certa a se fazer?
—Realmente — Teo franziu a testa — Aconteceu alguma coisa a ver com aquele garoto com quem ela está se envolvendo?
Ergui as sobrancelhas Teo sabia mais do que eu imaginava.
—Garoto? — Kev arregalou os olhos, assumindo o instinto protetor — Que garoto?
—Eu também queria saber — Teo sorriu, travesso — Pelo que ouvi dizer ele é muito bonito. Isso é verdade, Call?
Olhei-o surpreso. Estava distraído com outras coisas.
—Ah... Ah, sei lá. Tipo, as meninas acham ele bonito, mas pra mim tanto faz. Loiro, olhos azuis. Acho que qualquer garota gosta dessa combinação.
—Se ele fez alguma coisa para Dayannya... — Kev cerrou os punhos, fazendo-me encolher na cadeira.
—Ele não fez nada. Quero dizer, eu acho que não fez — nos entreolhamos e não falamos mais no assunto. Foquei em Dayannya, perdida no próprios pensamentos.
Depois de três minutos, ela terminou em um falsete baixo e prolongado. Pisquei surpreso, porque assim que Dayannya abriu os olhos sei rosto ficou muito vermelho. Ela esperou a luz vermelha se apagar para então saltar para o chão, saindo da sala.
Dayannya esfregou as mãos, olhando em volta.
—E então? — perguntou, a voz de menininha de sempre.
—Você foi ótima — Teo se levantou e pegou o rosto dela entre as mãos — Parecia uma deusa. Mas estou com fome, podemos comer alguma coisa?
Daya sorriu, mas, de repente, o sorriso sumiu e seu olhar ficou perdido.
—Eu acho que vou para casa — disse, baixinho, pegando sua mochila.
—Mas você acabou de chegar...
—Vamos gravar outra música?
—Eh... Não...
—Então ótimo — ela foi até a porta, sem falar tchau.
—Quer que eu vá com você? — me adiantei, já pegando minha própria mochila.
—Não, Call, tudo bem — ela tentou sorrir, porém vacilou — Eu te vejo amanhã.
Então se virou, correndo até a entrada do apartamento e sumindo no corredor.
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