*Isaac*

Ando de um lado para o outro, a expressão de Dayannya – uma mistura de incredulidade e tristeza cortante – voltava a minhas lembranças toda hora. Porque eu tive de ser tão imbecil? Poderia ter facilmente explicado a ela o porquê de não querer ver o filho de Poseidon. Não devia ter mandado ela embora. Não devia ter sido tão estúpido. E, agora, eu me destruía por dentro.

Olhei a minha volta. As árvores do Central Park lançavam sombras na pequena clareira. Os raios de sol se infiltravam nas folhas de bronze, como água escapando por entre pequenas rachaduras. Pisquei quando a luminosidade atingiu meus olhos e olhei rapidamente para o chão.

—Enfim um bom lugar para um encontro.

Sobressaltei-me, virando rápido demais e quase perdendo o equilíbrio. Charlotte, a ninfa enviada de Vênus, estava parada ali, o vestido dourado tremeluzindo como as folhas de outono. O cabelo negro e liso estava preso em uma trança, jogada por cima do ombro esquerdo. As sobrancelhas arqueadas lhe davam um ar de inquisição naquele rosto em forma de coração.

—Desculpe pela observação – murmurei, seco, passando a mão pelo meu cabelo que havia caído no rosto – Mas, novamente, chamei Vênus. Não a senhorita.

—Como já disse, Sr. Belcourt, minha senhora é muito atarefada – a ninfa fez um gesto de desdém com a mão – Mas pode me dizer o que quer, repasso o recado para ela.

Estreitei os olhos, desconfiado. Porque Vênus sempre mandava aquela ninfa? Se ela não podia vir, devia dizer antes.

—Me desculpe, mas realmente prefiro conversar com a deusa.

—Você tem um grande interesse por Vênus – Charlotte ergueu uma sobrancelha – Isso tem algo a ver com a garota, não?

Meu rosto esquentou.

—Não, eu só... – engasguei. Não conseguiria mentir para ela. Por qual outro motivo eu iria querer falar com Vênus? Dicas de maquiagem? – Tenho uma dúvida. Só isso.

Charlotte sorriu o que devia ser algo amigável, mas me deixou arrepiado.

—Tire a dúvida.

—Quanto tempo eu precisaria para odiar alguém?

O rosto de Charlotte ficou vermelho. Ela colocou uma mão sobre o peito e arfou.

—Oh, que coisa horrível de se dizer, Sr. Belcourt!

—Eu... – suspirei, todo o ar escapando dos meus pulmões – Eu preciso de ajuda. Não aguento mais isso.

—Se se entregasse tudo seria mais fácil...

Quase sem pensar levei a mão ao meu bolso, agarrando o cabo da faca de prata. Uma das últimas frases de Elijah antes de me matar fora aquela. Antes de me matar. Repeti a frase várias vezes. Ainda me era difícil acreditar que já estive morto. A imagem do rio Estige, as lamentações dos mortos, tudo parecia permanentemente gravado em minha memória.

—Não – balancei a cabeça devagar – Eu só quero esquecer ela. Não quero machucá-la.

—Machucá-la? – Charlotte sorriu, inclinado levemente a cabeça para o lado – Isaac, não percebe? Ela...

—Eu sei! – fechei os olhos, respirando fundo – Mas eu não quero isso. Não quero acabar iludindo ela. Não quero me iludir – abri os olhos, sem conseguir olhar para a ninfa – Não quero estar apaixonado – sussurrei, mais para mim mesmo – Tem que ter um jeito...

—O único jeito é renunciar aos seus sentimentos – a expressão de Charlotte era de dor – Você seria incapaz de amar. E ninguém quer isso.

Sentei-me em um tronco caído, escondendo o rosto nas mãos. Charlotte aproximou-se de mim.

—E se fizesse isso – ela disse lentamente – então estaria a machucando.

Passei a mão pelo rosto, o olhar perdido no chão coberto por folhas.

—Já morri uma vez – murmurei – Se morresse de novo, seria como mata-la e não posso aceitar isso. E se... E se ela morrer? – dizer tais palavras me causou uma dor profunda, como uma apunhalada – Eu não quero isso. Preciso me afastar antes que algo aconteça, não posso me apegar a ela... Não desse jeito.

—Se quer um conselho, Isaac – Charlotte juntou as mãos em frente ao corpo -, e se acha que vai perdê-la, deveria aproveitar os últimos dias com a garota que ama.

—Eu não posso – minha voz estava fraca. Meu corpo todo tremia – Netuno tinha razão. Isso só vai me destruir. Devia ter ouvido ele ao invés de ser tão idiota...

Charlotte se aprumou. Em seus olhos cor de terra havia uma mistura de pena, infelicidade e raiva.

—Se é isso que acha, não devia mais solicitar encontros com Vênus – Charlotte olhou por cima do ombro, para a cidade – E se preza pela vida de Dayannya Garcia, é melhor ser rápido. Ou não vai ter tempo de fazer algo que realmente vale a pena. E salva-la da morte.