Filha de Apolo - Electricity
6 Perseguida
Cruzei os braços sobre o peito, abaixando a cabeça enquanto caminhava pela rua. O ponto de ônibus mais próximo do meu prédio ficava a cinco quarteirões de distância, então eu tinha que andar um bocado, mas ao menos tive tempo para pensar.
Quando cheguei ao apartamento de Teo e finalmente percebi que teria que cantar uma musica tão íntima, tive vontade de ir embora. Porque eu tinha escrito aquilo? Percebi o quanto Call pareceu constrangido assim que terminei de cantar e não quis que ele ficasse me fazendo perguntas no trajeto para casa. Eu gostava da companhia dele, mas no momento queria ficar sozinha.
Pulei a sarjeta, indo para a calçada, e senti uma queimação em minha nuca descoberta. Não era como se um raio de sol estivesse batendo ali, era a sensação de ter alguém olhando fixamente para mim. Virei-me, esperando encontrar alguém, mas só o que vi foram algumas pessoas apressadas, entre elas turistas perdidos. Ninguém prestava atenção na garota baixinha e solitária parada no meio da calçada.
Franzi a testa, confusa. Eu podia jurar que tinha alguém me encarando. Segui meu trajeto e, novamente, aquela sensação me abateu. Foi sufocante os últimos metros até o meu edifício, como se alguma pessoa se aproximasse de mim, respirando no meu pescoço. Sem notar, comecei a correr, desviando habilmente dos transeuntes. Entrei apressada no saguão do prédio e me virei, em pânico. Não tinha ninguém me perseguindo.
–Srta, Garcia, está tudo bem? — perguntou o porteiro, Mitchel, com a expressão preocupada.
–Não... Quer dizer, está! — minha respiração estava acelerada. Passei os dedos pelo meu cabelo solto e me dirigi lentamente para as escadas, andando de costas, o olho na entrada do saguão. Meu apartamento era no quinto andar, eu só pegava o elevador quando tinha algo pesado em mãos — Está tudo bem, Mitchel.
Cheguei ao pé da escada e subi correndo, a mochila batendo em minhas costas. Cheguei ao quinto andar e, desesperada, procurei a chave do meu apartamento. Não sentia mais como se alguém me observasse, mas não queria ficar ali do lado de fora. Abri a porta e Gael já estava ali para me dar as boas vindas. Afaguei sua cabeça negra e tranquei a porta. Larguei a mochila no balcão da cozinha e fui até a sala, parando em frente a janela.
Encarei a rua lá embaixo. Continuava a mesma coisa de sempre; O Empire State Building se erguendo ao longe. As pessoas andando não muito abaixo, sem se dar conta do mundo a sua volta. Os táxis nova iorquinos amarelos lotavam as ruas, seus motoristas buzinando impacientes.
Larguei-me na poltrona, olhando para a televisão desligada. Gael sentou-se a minha frente, os olhos âmbar investigando meu rosto para ver se havia algo errado comigo. Fechei os olhos, respirando fundo para me acalmar, e soltei um berro quando o interfone tocou. A voz de Mitchel anunciou que Sierra estava subindo.
Levantei-me, arrumando meu cabelo em um rabo de cavalo desleixado, e fui até a porta esperar por Sierra. O elevador se abriu e ela surgiu na entrada, batendo o pé no chão, os braços cruzados sobre o peito.
–Você me largou na escola.
–Eu pensei que você já tivesse ido embora — murmurei dando passagem para ela. Sierra não estava com o celular na mão, o que era um milagre. O cabelo cor de caramelo estava preso por uma faixa rosa, da cor da blusinha que mostrava o umbigo.
–Você podia ter esperado um pouco, não acha? — ela sentou-se no parapeito da janela, cruzando as pernas.
Fechei a porta, sem trancar, e me joguei no sofá, passando as mãos no rosto. Sierra franziu o cenho e se inclinou.
–Daya, aconteceu alguma coisa?
–Eu vi Isaac hoje.
–Sério? E como foi?
–Horrível — minha voz saiu embargada — Ele está bravo comigo, só porque eu fiz uma pergunta estúpida.
Sierra torceu o nariz e sentou no sofá, pegando minhas pernas e as colocando sobre as dela.
–Isso vai passar.
–Ele está tão estranho — puxei um fio de cabelo solto em minha camisa e fiquei brincando com ele — A gente pode estar conversando sobre abóboras e, do nada, ele vai ficar com raiva.
–É só uma fase — Sierra sorriu tranquilizadora — Talvez ele só...
Ela não terminou a frase. Só tivemos tempo de cobrir nossos rostos com os braços quando a janela explodiu, estilhaços de vidro voando pelo apartamento. Gritei quando uma pata laranja gigantesca arranhou o ar, puxando um corpo de mesma proporção e cor. Sierra gritou uma palavrão enquanto pegava um vaso sobre a mesa de centro e jogava na janela. Imediatamente, a pequena planta cresceu criando cipós grossos que taparam a janela. O monstro do lado de fora rugiu enraivecido.
Nos levantamos e procurei minha adaga. Foi então que lembrei que eu havia deixado-a em meu quarto. Comecei a correr para lá, mas a pata enorme rasgou os cipós e o corpo do monstro finalmente emergiu do buraco feito na janela.
O manticore tinha que se espremer para passar pela abertura, o rosto humano distorcido no corpo de leão. A cauda rija e prateada de escorpião ergueu-se sobre o corpo, espinhos sobressaindo-se da ponta.
O manticore saltou, me errando por pouco. Gael pulou sobre ele, mordendo e arranhando. O monstro se sacudiu, se livrando do lobo que voou pela sala, socando as costas na parede com um estalo horrível. A cauda do monstro se moveu com incrível agilidade, passando pelas minhas pernas e me derrubando. Perdi o fôlego quando atingi o chão e me virei para não ser espetada pela cauda.
Apesar dos pontos coloridos que embaçavam minha visão ainda pude ver um raio prateado passar por cima de mim e atingir o manticore na perna. O monstro rugiu e praguejou, tentando agarrar o cabo da faca enfiada em sua carne.
Mãos firmes e calejadas me ergueram e me colocaram apoiada no sofá. Uma onda se alívio se espalhou pelo meu corpo quando Isaac se postou a minha frente, puxando duas lâminas longas e finas da correia presa a suas costas. O manticore rugiu, rondando um pequeno espaço antes de pular de volta pela janela, em direção a rua. Havia se livrado da faca de caça dentada, agora ensanguentada no chão.
Isaac avançou em direção a janela, os ombros tensos. Percebi quase no último segundo que ele ia atrás do monstro e consegui agarrar seu braço. Por um momento achei que ele fosse me arrastar junto, mas o garoto parou, me encarando com olhos azuis faiscando de raiva.
–Deixa — murmurei ofegante. Minhas pernas tremiam enquanto eu me segurava em Isaac com força. O garoto me soltou e me colocou no braço do sofá com delicadeza.
–Você está bem? — perguntou, se agachando a minha frente. Assenti, olhando o estrago em meu apartamento. O chão estava coberto de cacos de vidro, afiados como lâminas. Havia um rasgo enorme no sofá e um rastro de sangue na sala, que até então parecia sem fonte.
Gael havia se erguido e mancava até mim, ganindo, as costas curvadas e o olhar dourado em agonia. Isaac se pôs de pé, indo ajudar o lobo, quando se virou e olhou para trás do sofá. Seus olhos azuis se arregalaram, o peito subindo e descendo rapidamente.
Imediatamente senti a falta de Sierra e me levantei sem ligar para a dor.
Meu coração parou quando a vi, deitada sobre os cacos de vidro, sem dar sinal de estar respirando.
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