Filha de Apolo - Electricity
7 Preocupação
Respirei fundo, torcendo nas mãos a faixa cor-de-rosa de Sierra. Esta estava deitada na cama a minha direita, a respiração preocupantemente fraca. Um vergão vermelho marcava sua testa, lentamente sucumbindo aos efeitos da ambrósia.
A cada segundo a culpa ficava maior, como um animal se alimentando da minha infelicidade. Eu sabia que estava sendo seguida. Devia ter sido mais cuidadosa. Burra, burra, burra!
Senti um peso sutil em meu ombro, um aperto leve. Ergui os olhos e vi o reflexo de Isaac na janela da enfermaria. A expressão dele era preocupada. Ele tinha um copo alto na mão com um líquido amarelo escuro. Gelos boiavam na superfície.
–Está se sentindo bem? — sussurrou, pressionando meu braço com ternura.
Fiz que não com a cabeça. Eu não me sentia nada bem.
Isaac deu a volta e puxou uma cadeira, sentando de frente para mim.
–Bebe um pouco — ele pediu, estendendo o copo para mim. Peguei-o com as mãos trêmulas.
–O que é?
–Chá — ele se recostou na cadeira, olhando fixamente para Dakota, dormindo em uma poltrona do outro lado do leito — De limão.
Tomei um gole cuidadoso. Era doce e, ao mesmo tempo, ácido. Fiquei alguns segundos com o copo gelado encostado nos lábios, perdida em pensamentos.
–Eu devia ter sido mais rápido — murmurou Isaac apoiando os cotovelos nas pernas — Isso não teria acontecido.
–A culpa é minha — minha voz saiu fraca. Eu não conseguia olha-lo diretamente nos olhos — Eu podia ter usado o fogo. Nem me passou pela cabeça.
Isaac ergueu o olhar, curioso e ao mesmo tempo solidário. Estávamos na enfermaria do Reformatório, sentados ao lado da cama branca e baixa onde Sierra dormia calmamente. Tínhamos chegado há horas e ela ainda não havia acordado. Dakota chegou um pouco depois de nós e não saiu do lado da namorada, onde acabou adormecendo. Eu também fiquei lá o tempo todo, esperando algum sinal de que Sierra fosse se levantar.
–Daya, nem tudo é culpa sua — Isaac esticou a mão, colocando-a sobre meu braço. Meu coração pulou quando ele disse meu nome, com tanto carinho e afeto que pareceu quase impossível. Abaixei a mão e peguei a dele, entrelaçando meus dedos nos seus, longos e finos.
–Eu sabia que tinha alguma coisa errada — minha respiração trêmulou, minha voz estava embargada — e não fiz nada.
–O que você poderia fazer? — ele sorriu com doçura. Tinha começado a acariciar as costas da minha mão, em movimentos lentos e circulares com o polegar — Não tinha arma nenhuma.
–Eu queria saber — sussurrei com um meio sorriso — como você sempre sabe quando eu preciso de ajuda.
–Você sempre precisa de ajuda.
–Então como você me encontra? Tipo aquela vez...
Sierra se mexeu na cama, me interrompendo. Ela virou as costas para mim e Isaac e sua mão ficou jogada pela lateral do colchão, tocando a de Dakota. Me senti constrangida por estar vendo aquilo. Era como entrar em um quarto e descobrir que não era seu.
Com um tremor lembrei que segurava a mão de Isaac e a recolhi. Foi rápido, mas notei um pouco de decepção em seu olhar.
–Quando me encontrou na lanchonete — completei com um sussurro mais baixo. O rosto de Isaac corou ligeiramente.
–Foi coincidência — ele ficou ainda mais vermelho — Eu só estava caminhando por Manhattan e te vi saindo de um prédio. Antes, no beco, estava escuro então não deu pra ver seu rosto direito. Mas eu sabia que era você. Tinha que ser.
–Então você me seguiu? — ergui uma sobrancelha. Agora Isaac parecia completamente envergonhado.
–Pelo seu ponto de vista... Sim. Eu segui você. Só um pouquinho.
Sorri com a expressão dele. O cabelo dourado caia em frente sós olhos, que se moviam freneticamente pela enfermaria. Os ombros estavam tensos e as costas eretas na cadeira, seu rosto voltando a cor normal.
–Depois eu sou o pervertido.
Pulei, quase caindo no chão. Isaac se pôs de pé em um salto, seu rosto novamente ruborizado. Dakota nos observava com os olhos quase fechados, uma linha verde visível através dos cílios escuros. Um sorriso irônico brincava em seus lábios.
–Você é um trouxa.
–Eu também te amo — Dakota se aprumou na poltrona, se espreguiçando. Ele olhou para Sierra e assumiu o semblante preocupado — Ela ainda não acordou?
–O que você acha, espertão? — Isaac ergueu uma sobrancelha, mas sua voz estava trêmula. Ele olhava para o amigo com um misto de preocupação e compreensão. Dava para ver que, mesmo sendo grossos, os dois se importavam um com o outro — Ela está assim desde que chegamos, Dake. Mas vai ficar tudo bem.
Me levantei, com a intenção de deixar os dois a sós. Toquei o braço de Isaac rapidamente e saí da enfermaria. Sarah estava lá fora, o cabelo liso preso um uma trança bem elaborada. Ela dirigiu os olhos pequenos para mim e sorriu um pouco.
–Como ela está?
Dei de ombros.
–Dormindo, ainda.
–É bom ter você aqui, Daya — Sarah tocou meu braço, com um sorriso meigo — Graças aos deuses Isaac chegou lá a tempo.
–Ele sempre chega — meu rosto esquentou. Olhei por cima do ombro, para o interior da enfermaria. Isaac olhava para mim, também por cima do ombro. Nossos olhares se encontraram por uns segundos e então ele fez uma careta, voltando a conversar com Dakota, que ria. Não consegui evitar um sorriso.
–Eu liguei para sua mãe — a supervisora assumiu um tom sério — Ela disse que não quer vir para o Reformatório. Eu tentei de tudo.
–Ela não pode ficar lá — franzi a testa — E se Elijah pegar ela de novo...?
–Eleanor disse que iria para a casa do seu padrasto. Vamos bloquear a casa para que Elijah não a encontre.
Suspirei com alívio. Jordan morava do outro lado do Queens, mas ainda bem longe do Reformatório. E se a casa seria bloqueada, Elijah, com sorte, jamais a encontraria.
–Isaac e Sirena estão indo buscar seus pertences, Daya, e levar Eleanor. Você quer que eles peguem mais alguma coisa? Provavelmente vai passar um bom tempo aqui conosco.
Pensei um pouco e me lembrei de Pixel. Era ia para o meu apartamento todos os dias para comer. E se ela passasse fome? Também poderia chover e o que ela faria?
–Eu tenho uma gata. Mas ela é um pouco... Arisca.
–Não vai ser problema — Isaac surgiu ao meu lado, os braços cruzados. Ele tinha tirado o cabelo da frente do rosto — É só um gata, né?
–Isaac, não é só uma gata. Ela é a gata. Nunca deixou ninguém pegar ela no colo, além de mim.
–Daya, por favor — Isaac seguiu até as escadas — É só uma gata — repetiu abrindo os braços em um gesto amplo. Ele sumiu nas escadas e suspirei, exasperada.
–Sabe como ele é teimoso — murmurou Sarah com um sorriso afetado — Faria de tudo para agradar você.
–É — murmurei com um sorriso, meu rosto esquentando aos poucos — Eu sei.
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