*Isaac*

Arrastei os pés pelo saguão de entrada, resmungando enquanto Sirena tagarelava sobre depilação. Ela não calava a maldita boca desde que entramos na picape.

—Sirena — parei em frente à escada, segurando a garota pelos ombros — Você pode ficar quieta? Não consigo pensar.

—Ah, desculpe te atrapalhar, milorde — ela balançou as mãos em um gesto dramático e me seguiu escada assim. O único motivo para eu ter concordado em leva-la junto, foi para que ela pegasse as roupas de Dayannya — Não podíamos ter pego um elevador?

—Você não acharia estranho, só um pouquinho, o elevador se abrir sozinho? — como estávamos cobertos pela névoa, ninguém podia nos ver ou ouvir. Nem mesmo o porteiro notou a presença desastrada de Sirena quando ela tropeçou e se agarrou na porta — É no quinto andar, Ryna. Deixa de ser mole.

—Ai, deixa de ser mole — ela resmungou em uma imitação de mim. Simplesmente revirei os olhos. Era impressionante o quando Sirena podia ser infantil quando queria.

—Sabe, as vezes eu penso seriamente que devia ter te largado na estação de trem há alguns anos.

—Você não faria isso. Não consegue viver sem mim.

—Ah, claro, porque você é a azeitona da minha empadinha.

—Credo, você só pensa em comida. Como consegue não engordar?

—Não vou responder a essa pergunta.

Paramos no quinto andar, em frente ao apartamento número 9. Bati algumas vezes na porta e ouvi movimento lá dentro. A porta foi destrancada e aberta um pouco. Eleanor Garcia apareceu, empunhando uma faca de cortar carne. Ela sorriu aliviada, seu rosto se iluminando. Era incrível o quanto ela era parecida com a filha; o mesmo cabelo longo, escuro e cacheado, a estatura pequena e magra. Até mesmo o nariz das duas era parecido, pequeno e arrebitado.

—Graças a Zeus — a sra. Garcia baixou a faca e abriu mais a porta. O apartamento estava uma bagunça. Tábuas desiguais de madeira cobriam as janelas, as cortinas rasgadas fechadas por cima. Eleanor devia ter varrido o chão, pois não havia mais cacos de vidro ou concreto, apesar de ainda estar ligeiramente empoeirado.

—O que a senhora pretendia com essa faca? — perguntei, sorrindo. Eu me dava bem com ela, por isso tinha um limite longo para piadinhas.

—Eu não sei onde Dayannya guarda as armas — ela e Sirena se abraçaram, fazendo perguntas que não entendi direito. Depois de uma troca de risadinhas Sirena se dirigiu para o quarto de Daya, para pegar as coisas. Eleanor passou a mão pelo cabelo que caia no rosto e se apoiou no balcão — Nem acredito que isso está acontecendo de novo — a voz dela saiu trêmula e quase embargada. De repente fiquei com medo, porque, se ela começasse a chorar, eu não saberia o que fazer.

—Está tudo bem, sra. Garcia — falei com calma. Eu tinha que abaixar minha cabeça para olha-la nos olhos — Daya está ótima, ela não...

Engasguei com as palavras. Falar em Dayannya era como tomar veneno. Casa palavra era um gole que queimava e me corroía por dentro, consumindo cada parte do meu ser. Eu me lembrava de quando abracei-a na frente da escola. Eu teria dado qualquer coisa para poder beija-la como beijei no jardim em Nova Roma. Eu não havia planejado aquilo, mas foi como acender um fogo dentro de mim. E a chama continuava queimando, se intensificando sempre que eu via Dayannya.

—Não se machucou — completei com pesar.

—E Sierra? George está sabendo?

—Ela ainda está dormindo, mas vai ficar bem. E Dayannya ligou para o sr. Martinez, ele disse que não tem problema desde que Sierra fique em segurança.

—Cuide bem delas — Eleanor sorriu ligeiramente — Não sei o que faria sem Dayannya.

—Eu também não — não sei se falei aquilo, ou se apenas pensei, mas meu rosto esquentou depois dessas palavras — Ahn... Daya pediu que eu pegasse a gata dela...

—Pixel? — Eleanor se espantou visivelmente — Como você pretende levar ela?

Franzi a testa, confuso. Ela e a filha falavam da gata como se fosse um tigre raquítico e muito raivoso.

—Vocês não teriam uma caixa de transporte?

Eleanor fez que não com a cabeça.

—Tudo bem, eu dou um jeito. Onde ela está?

—No quarto — Eleanor mordeu o dedão. Ela parecia estar tentando não rir — Vou arrumar minhas coisas — e partiu apressada para o corredor.

Mordi o lábio, indo para o quarto de Dayannya. A porta ficava de frente para a sala e tinha alguns arranhões na soleira. Parei, encarando a madeira, com receio de entrar no quarto dela. Isso não seria invasão de privacidade? Não, pensei comigo mesmo, Ela não está aqui.

Entrei no quarto devagar. Sirena estava sentada na cama de baixo de um beliche, dobrando roupas e colocando em uma mochila. Olhei rapidamente a minha volta. Nunca pensei que Dayannya pudesse ter um quarto tão feminino. Outra olhada rápida e encontrei o que queria.

Uma gata magra estava deitada no parapeito da janela. O rabo longo e cheio balançava como o pêndulo de um relógio enquanto os olhos verdes me encaravam com intensidade. O olho esquerdo tinha um círculo branco com uma mancha preta na retina, o que dava a entender que ela era cega daquele lado. A gata estremeceu, fazendo o pelo laranja, preto e branco tremular como uma bandeira. Ela tinha a cara ligeiramente amassada, como se tivesse sido atingida no focinho diversas vezes por uma frigideira.

—Pensei que fosse um cavalheiro — disse Sirena com as sobrancelhas erguidas, enfiando uma pilha de roupas na mochila.

—Vai se danar — murmurei indo para a janela e me ajoelhando. A gata, Pixel, continuou me observando. Estendi a mão e ela cheirou meus dedos, inclinando a cabeça para que eu fizesse carinho — Ela não parece assim tão ruim.

—Ela tem cara de quem quer morder todo mundo — Sirena torceu o nariz, se levantando e indo para o guarda-roupa.

—Pela última vez — resmunguei revirando os olhos e estendendo as mãos para pegar a gata — É só uma AI!

Sacudi a mão, cinco pontinhos vermelhos evidenciando onde Pixel me mordeu. Olhei indignado para a gata, que colocou a língua de fora e lambeu os beiços, me olhando como se pensasse seriamente em me morder de novo.

Sirena ria, quase derrubando uma pilha de objetos em seu colo.

—Você é um idiota.

Estreitei os olhos, considerando se pegava Pixel e a jogava em Sirena.

—Vem você pegar a gata.

—Não!

Afastei-me da janela e sentei na cama, encarando a gata, tentando pensar em como levaria aquele diabinho para o Reformatório.

—Isaac — Sirena havia fechado a porta do quarto e agora estava sentada ao meu lado na cama, parecendo ansiosa. O cabelo negro e liso estava espalhado nos ombros e os olhos castanhos brilhavam — A gente precisa conversar.

Franzi o cenho, esperando que ela começasse.

—Eu sei que você anda se encontrando com a minha mãe.

Arregalei os olhos, sem saber o que dizer.

—Como você descobriu? — minha voz não era nada mais que um sussurro assustado.

—Eu não sou tonta — ela pegou minha mão, colocando-a entre as dela — E além do mais, é minha mãe. Ela me conta as coisas — Sirena franziu a testa, me olhando com intensidade, o mesmo olhar da gata. Me lembrei do primeiro treino que tive com Sirena, quando tínhamos nove anos. Aquele era o mesmo olhar que ela me lançou assim que derrubei-a no chão depois dos primeiros sete segundos de luta — Sabe que qualquer coisa, pode falar comigo. Qual o problema? Day...

—Não — fechei os olhos, recolhendo minha mão — Não, não é isso, eu só... — suspirei. Como era difícil mentir para Sirena, que sempre foi sincera comigo — É confuso — abri os olhos, olhando para o chão — Tipo, eu quero ficar com Dayannya, quero que ela também me ame, mas... Eu também quero ficar longe dela. Não suportaria se algo de ruim acontecesse. Ryna, eu estou sofrendo. Não aguento mais isso.

Sirena me abraçou, passando a mão suavemente pelo meu cabelo.

—Nada que é bom se consegue sem um pouco de dor, lembra? — ela sorriu, o gesto apertando os olhos já pequenos — Esqueça Netuno e tudo que ele disse. Isso é bom, Isaac. Você vai ver, se apaixonar não é só sofrimento.

Respirei fundo, olhando para Pixel, que devolveu o olhar. Sirena tinha razão. Eu adorava os momentos com Dayannya em que ela não estava gritando comigo, quando não estávamos brigando. Eu amava o sorriso dela, o brilho em seus olhos sempre que eu conseguia dizer alguma coisa que a agradavá. Mas ela pensava a mesma coisa? Os seus sentimentos por mim eram recíprocos?

—Me dá a fronha do travesseiro — falei finalmente, tentando esquecer a conversa de agora há pouco.

Sirena, confusa, tirou a fronha de um travesseiro e me entregou. Levantei-me e, mais antes que Pixel conseguisse pular pela janela, cobri-a com o tecido. A gata se esperneou e fez um som grave, como se o próprio demônio rosnasse.

—Muito bem — murmurei mordendo o lábio enquanto as unhas afiadas de Pixel se cravaram nos meus braços — É melhor irmos logo. Vou precisar de uma caixa.

Sai do quarto e do apartamento, apertando a gata contra o peito. Eu pretendia ficar na picape, só pensando, por quanto tempo desse.

Eu queria ir embora logo. Precisava ver Dayannya novamente.