As sombras se curvavam nas paredes de pedra úmida, parecendo grandes formas magras e grotescas com orelhas pontudas. Do outro lado da caverna, a fonte das sombras; lobos robustos e amedrontadores, os olhos vermelhos brilhando à luz das tochas. Na frente da fileira, que alcançava toda a extensão da longa caverna, um homem magro e alto caminhava, gritando instruções em latim. Licáon. As concavidades da pele esticada sobre o rosto ossudo criavam sombras fundas. Os olhos vermelhos brilhavam de malícia.

Mais ao canto, encarando os lobos, havia duas outras formas. Uma delas era um lobo musculoso e coberto por cicatrizes. Reconheci-o como Nihal, um dos comparsas de Licáon, aquele de quem Gael já fora aliado. A outra era um homem, magro e alto de cabelos castanhos claros. Ele tinha as mãos cruzadas atrás das costas, olhando a parede oposta com o queixo rijo e erguido. Seu rosto, magro e anguloso, me parecia estranhamente familiar, até que vi seus olhos. Eram verde amarelados, com fendas finas e verticais, os mesmos olhos do manticore que me atacara mais cedo.

Tive vontade de avançar, envolver o pescoço dele com minhas mãos, mesmo que não resultasse em nada. Ele havia machucado Sierra, e agora ela estava inconsciente por culpa dele. A raiva tomou conta de mim. Cada célula do meu corpo parecia arder, pegar fogo. O calor desceu do meu pescoço para os meus braços, se espalhando pelo meu peito. Sem conscientização, as chamas saíram dos meus dedos, filetes brancos e controlados. Licáon parou no meio do seu discurso, erguendo a cabeça para minha direção. Arregalei os olhos, tentando conter as chamas, mas elas continuavam crescendo, me envolvendo. Licáon resmungou algo, os olhos vermelhos brilhando.

“Tem mais dons do que pensa, Dayannya” sussurrou uma voz feminina e calorosa, familiar “E eles vão descobrir isso mais cedo ou mais tarde. Seus sonhos não são em vão”

—Dayannya!

Agarrei os braços da cadeira, abrindo os olhos e inspirando com força. Dakota estava inclinado sobre mim, segurando meus ombros como se os tivesse sacudido. Os olhos verde musgo estavam arregalados, o cabelo escuro e longo emaranhado.

—Você está bem?

Assenti freneticamente. Dakota se afastou, o cenho franzido em sinal de preocupação.

—Porque? — perguntei, minha voz estranhamente fraca e rouca — O que aconteceu?

—Você gritou. E estava ficando vermelha.

Olhei para minhas mãos. Estavam normais, sem sinal do fogo. Sierra continuava dormindo na cama de enfermaria, para onde voltei depois que Isaac e Sirena saíram. Meu rosto e pescoço estavam úmidos de suor, molhando a gola da camiseta.

—Eu tive um pesadelo — as palavras soaram como um sussurro — Só isso.

Estava escuro lá fora. A lua continuava baixa, uma linha azul clara brilhando rente ao horizonte. Ergui-me, minhas pernas bambas. Havia um gosto amargo em minha boca. Passei a mão no cabelo enquanto olhava para Sierra, adormecida.

—Ela não acordou — respondeu Dakota sem que eu precisasse responder — O dia todo.

—E Isaac? Ele e Sirena já deviam ter voltado.

—Nada — Dakota cruzou os braços. Tinha olheiras escuras sob seus olhos pesados de sono. Ele percebeu meu olhar espantado — Não precisa se preocupar, tenho certeza de que vão chegar logo. Olha, vou ficar aqui tomando conta de Sierra, ok? Sarah está ocupada, mas acho que Chris e Elias estão no quarto. Elias estava particularmente ansioso em te ver.

Estremeci, contendo um engasgo.

—Você não teria spray de pimenta, teria?

Dakota riu, largando-se na poltrona ao lado da cama de Sierra. Ele fora gentil comigo desde que cheguei ao Reformatório, mas, semanas atrás, depois que eu e Isaac voltamos de uma casa noturna, Dakota me culpou por tudo. Eu tentava esquecer, mesmo que o olho direito, ainda escuro pela briga que teve com Isaac por causa disso, não deixasse.

Saí da enfermaria. O quarto de Chris ficava no fim do corredor e fui para lá com cautela. A porta estava entreaberta, jorrando uma luz azulada no corredor. Empurrei a porta com a ponta dos dedos e encontrei Christopher e Elias, sentados em frente à um computador batendo furiosamente nas teclas do teclado.

—O que estão jogando? — perguntei suavemente, sabendo que eles deviam estar em algum jogo intenso. Eu tinha experiência com Callum me ignorando por causa de League Of Legends.

—Tibia — respondeu Elias, sem tirar os olhos da tela. Ele franziu a testa, como se só então tivesse percebido que estava falando com alguém e me lançou uma olhada rápida. Aquilo foi o bastante para eu ter toda sua atenção voltada para mim. Os dedos do sátiro pararam imóveis sobre o teclado.

—Eli! — berrou Chris jogando as mãos para o alto, exasperado. Elias tinha os olhos vidrados em mim e instintivamente puxei a blusa vermelha sobre meu peito.

—Desculpe — murmurei, me preparando para sair — por atrapalhar.

—Não, tudo bem — Chris tirou os óculos e massageou as têmporas. Uma imagem dele e Teo juntos invadiu meus pensamentos. Ainda era difícil olhar para ele e pensar que já fora apaixonado por Isaac. Chris apontou para a porta, olhando dramaticamente para o outro lado — Elias Rosalez: saia da minha frente.

Eli parecia muito melhor do que quando o conheci; os chifres pequenos e pontudos, saindo em meio ao cabelo negro e rente, brilhavam lustrosos. Usava uma camisa branca da Discovery Channel e jeans escuros. Estava com os pés falsos para cobrir os cacos e não marcar os carpetes com eles. Elias parou ao meu lado na porta do quarto e, antes de sair, piscou para mim com os olhos cor de amêndoa.

—Tudo por você, gatinha.

Abri a boca, enojada, vendo-o se afastar pelo corredor. Voltei-me para Chris que me encarava entretido.

—O que — comecei lentamente — foi isso?

—Ele não para de falar sobre você — Chris sorriu mexendo o mouse rapidamente, fechando uma página do computador — Pode acender a luz, por favor?

Tateei pela parede em busca do interruptor e apertei-o. A luz piscou, iluminando o quarto. As lentes dos óculos de Christopher ficaram brancas sob a luz. Sentei-me na cadeira onde Elias estivera há pouco.

—Vocês estão se dando bem, pelo visto — falei girando a cadeira, dando uma volta completa. Era inevitável sentar em uma cadeira giratória e não fazer isso.

—Ele é um gênio. E adora jogos de MMORPG. Tenho que tirar proveito disso.

—E como está o plano? — perguntei dando outra volta na cadeira — De mandar Elias para espionar Elijah.

—Ainda não começamos. Estávamos esperando você.

—Então... — finalmente sosseguei sobre a cadeira, apoiando os cotovelos na escrivaninha do computador — Mudando de assunto... Como estão as coisas entre você e Teo?

Chris corou. Não do tipo rosa e envergonhado. Manchas vermelhas surgiram por todo o seu rosto, indo e voltando.

—Estão... Boas — a voz dele soou aguda como a de um ratinho — Como ficou sabendo?

—Fui eu que troquei os números de vocês, lembra?

Meu sorriso aumentou ao ver que os lábios dele tremeram, suas faces tão vermelhas quanto um pimentão.

—Isaac não sabe, né? — de repente Chris parecia extremamente amedrontado, os olhos arregalados por trás dos óculos.

—O que...? Não. Ninguém sabe além de Sierra — franzi as sobrancelhas, confusa — Porque, Chris?

—Eu acho que não vai dar certo — sussurrou, olhando ansioso para a porta do quarto.

—Não vai dar certo? Mas faz tão pouco tempo...

—Não por isso — ele esfregou as têmporas novamente — Você não vai entender.

Mas eu entendi. Vi a expressão dele. A mesma expressão que eu via.no espelho sempre que sofria agressão física e moral na escola. Eu sabia o que era o preconceito.

—Chris — falei o mais suave possível, apertando o pulso do garoto ao meu lado. Ele estava desamparado os olhos parecendo úmidos — Eu nasci no México. Sei o que é ter pessoas me rebaixando pelo que eu sou. Cresci com isso, todos os dias, até hoje. Acha que não sei o quanto é difícil? Ser... Homossexual não é nenhum problema.

Ele me olhou pelo canto dos olhos cinzentos, agora realmente marejados. Meu rosto ardia, mas não de vergonha. Eu sentia as lágrimas queimando minha garganta.

—Sabe quantas vezes tive que ficar quieta, ouvindo as pessoas perguntarem quanto eu cobrava por hora? – Murmurei, a voz embargada – Eu já sofri, Chris, mais do que você pode imaginar. Não deixe Teo pelo que as outras pessoas dizem, ele gosta mesmo de você. Você não é um monstro. Nós não somos, Chris. As pessoas que veem problema pelo que realmente somos é que são monstros.

O lábio inferior de Chris tremeu. Ele parecia tão pequeno, tão sozinho. Ninguém jamais devia ter dito isso a ele. Mas eu também duvidava que alguém soubesse. Christopher assentiu com um sorriso breve e passou a mão sob os óculos rapidamente, querendo não evidenciar que estava quase chorando.

—Isaac me disse que você é legal, que eu devia tentar conversar direito com você. Cara, ele estava certo.

Nós rimos, sendo interrompidos por Elias na porta do quarto.

—Você – ele apontou para Chris, o olhar sombrio naquele rostinho de doze anos – Saia de perto dela. Ela é minha.

—Elias, por favor, está bem claro que você não tem a menor chance – Chris revirou os olhos e percebi do que ele estava falando. Nunca imaginei que Christopher pudesse me defender em relação a Isaac.

—É o que veremos – Eli se aproximou e, a cinco passos de distância, me pus de pé, as costas eretas.

—Vou para o meu quarto – me dirigi para o corredor e parei apenas para olhar por cima do ombro, olhando para o sátiro – E a porta vai ficar bem trancada.

Ouvi Chris rindo na cara de Elias, que protestava. Passei rapidamente pela enfermaria, vendo Dakota com os braços cruzados sobre uma cama; Sierra continuava dormindo. Subi as escadas correndo, entrei no meu quarto e tranquei a porta. Gael roncava profundamente em minha cama. O golpe que ele recebeu do manticore foi forte demais. O lobo ficou de repouso o dia todo, levantando apenas para comer.

Sentei ao seu lado na cama. Gael levantou os olhos dourados e piscou lentamente. Senti uma dor aguda no peito enquanto acariciava sua cabeça. Vê-lo assim, amuado, parecia me destruir. Fiquei tão concentrada no lobo que não ouvi passos do lado de fora, até baterem em minha porta. Levantei-me e abri a tranca. Imediatamente um borrão multicolorido passou por entre meus pés e pulou na cama, afofando o travesseiro.

—Eu retiro o que disse – Isaac parou em frente à minha porta, se apoiando no batente. Seus braços descobertos estavam cobertos de arranhões vermelhos. Um ponto minúsculo e escarlate, do diâmetro de um furo de agulha, vertia sangue entre seu pescoço e clavícula. Ele trazia uma caixa pequena e branca na mão e uma mochila – Não tenho mais certeza de que isso é só uma gata.

—Como trouxe ela para cá? – Perguntei rindo, indo para minha cama. Pixel saltitou para o meu colo e Gael olhou com um pouco de ciúmes.

—Foi através de uma estratégia bem elaborada envolvendo uma capa de travesseiro e uma caixa.

Ri novamente, passando a mão pelas costas de Pixel. Isaac se aproximou, deixando a mochila na cama e me estendendo a caixinha.

—Comprei isso pra você.

Peguei a caixa e arregalei os olhos para a imagem do telefone estampada no papelão.

—Isaac...

—Por favor, não se oponha.

—Não vou – sorri, tirando o celular da caixa – Isaac, isso é incrível.

—Desculpe ter demorado – ele se sentou do meu lado – Mas sua mãe já está em casa, em segurança.

—Obrigada – murmurei, pousando a caixa do meu outro lado – Por tudo.

Ele sorriu, uma mecha de cabelo dourado caindo em frente ao seu rosto.

—Você não se importa, não é? De ficar aqui por um tempo.

—Não, é claro que não – mesmo sentados eu ficava muito menor que Isaac. Ele se erguia uma cabeça e pouco mais acima de mim, os olhos azuis brilhando muito – O único problema é que vou perder aula.

—Não deve ser nada muito preocupante – ele franziu a testa, incerto – Você é inteligente, pode recuperar.

—Espero – Pixel se esfregava contra meu peito. Olhei a minha volta; o quarto continuava do mesmo jeito que antes: O armário ligeiramente empoeirado, a cama pequena e escura a um canto. Debaixo da janela estava a escrivaninha, agora cheia de cadernos meus.

Lembrei da conversa que tive com Chris e, olhando para Isaac, senti uma pontada de culpa. Eu realmente estava tentando tira-lo da concorrência quando lhe dei o número de Teo? Eu era capaz de fazer algo nesse nível? Mas eu fiz isso pelos dois, e não por mim. E Isaac não sabia de nada. Tão inteligente e, ao mesmo tempo, tão bobinho.

Também me recordei da cena na picape, hoje mais cedo. O olhar de Isaac fora tão doloroso. Ao passo que ali havia raiva também havia desespero, solidão e amargura. E tudo porque fiz uma única pergunta tola. Mas eu precisava saber. Tinha que tentar de novo.

—Isaac — murmurei enrolando uma mecha de cabelo no dedo — Eu só... Eu só queria saber...

Ele suspirou, apoiando o rosto nas mãos.

—Daya, eu não quero falar sobre Percy Jackson.

Fiquei momentaneamente chocada.

—Mas... Ele é seu irmão.

—Se eu não tivesse morrido, ninguém jamais saberia que eu existo. Eu poderia ficar aqui, calmamente, sendo tão odiado que ninguém ousaria pronunciar meu nome, e isso era ótimo. O acampamento grego não se intrometeria...

Ele mordeu o lábio, me olhando como se tivesse me dado um tapa. Olhei para o chão, desconcertada, tentando não encara-lo.

—Desculpe — murmurou depois de um momento constrangedor — Não quis dizer você, eu só...

—Entendi — me permiti um sorriso — Tudo bem. — Respirei fundo, o sonho que tive vindo a minha mente. Eu deveria contar para ele? Se tinha alguém ali em quem eu confiava de verdade — e que não estava desmaiado — esse alguém era ele — Eu tive um sonho — murmurei, concentrada em Pixel. Contei para ele sobre a caverna, a fileira gigante de lobos, Licáon, Nihal e o manticore. Ao ouvir isso os olhos de Isaac pareceram crepitar.

—Sabe onde fica a caverna?

—Não — ergui a cabeça. Só então percebi o quanto estava próxima se Isaac — Só vi o lado de dentro. E também tinha uma mulher... Na verdade ela não estava lá, mas ela falou comigo. Disse que... — fechei os olhos tentando me lembrar — Disse que tenho mais dons do que imagino, ou algo assim — hesitei por um segundo — E também que meus sonhos não são em vão.

—Sonhos proféticos?

—Ela não disse essa palavra, mas deu para entender que era.

Sonhos proféticos. Isaac sorriu de lado, sem ter idéia do que se passava pela minha cabeça; o sonho em que não beijávamos em seu quarto. Não aconteceu de verdade, então não devia ser isso. Entretanto não comentei.

—Eu vou para o meu quarto — ele se levantou, antes fazendo um afago na cabeça de Gael — Se acontecer qualquer coisa, não tem problema em me acordar.

Assenti, observando ele sair de meu quarto e fechar a porta. Antes de sair pude ver em sua expressão que ele ele tramava alguma coisa.