Filha de Apolo - Electricity
10 Exaustão
Notas iniciais
Não tive sonhos. Consegui dormir tranquilamente até ser despertada por berros vindo do andar de baixo e, entre as vozes, estava a de Isaac.
Levantei-me da cama, jogando os cobertores para o lado, e me vesti com pressa. Passei por um momento sufocante quando a gola da camiseta ficou presa em minha cabeça. Fui para o.corredor deixando Gael sozinho em meu quarto, enroscado no pé da cama. Desci as escadas de dois em dois degraus e pulei para a sala.
Isaac estava largado em uma poltrona, o rosto corado e o cabelo dourado cacheado nas pontas, rente as têmporas e pescoço.Ele usava jeans, botas e jaqueta escura, como se tivesse estado lá fora. Os olhos azuis estavam escuros e frios e meu coração saltou assim que ele os voltou para mim. Vi eu mesma refletida ali, o rosto pálido e apavorado.
—Daya! — Sarah se virou no sofá, uma trilha de lágrimas marcando suas faces — Daya, por favor, converse com ele!
Isaac me encarava, me desafiando a chegar mais perto como uma pantera esperando que o caçador se aproximasse para então atacar. Os ombros estavam tensos sob a jaqueta, uma perna dobrada sobre o braço da poltrona e a outra apoiada no chão. Ele estava tão desleixado quanto um gato.
—O que aconteceu? — Perguntei me sentando ao lado de Sarah.
—Sarah, você não tem mais que estar aqui — resmungou o garoto, estreitando os olhos azuis. Enquanto ele se ajeitava notei o rasgo em seu braço direito. Sob o queixo também havia muitos arranhões.
Sarah engoliu em seco e me encarou. Nunca vi a supervisora tão assustada. Assenti e ela se levantou lançando um último olhar a Isaac, que mistura repreensão e pena. A mulher subiu as escadas, me deixando sozinha com Isaac. Imediatamente me voltei para ele, examinando o braço com os olhos.
—O que você fez?
—Não é nada – ele resmungou e passou os dedos pelo cabelo claro.
—Por favor, não mente pra mim.
Ele me olhou de lado. Parecia estar calculando algo complicado.
—Fui procurar o manticore.
—Isaac!
—Ele estava rondando seu apartamento – Isaac suspirou, voltando à posição displicente – Daí ele me viu e me atacou. Mas está tudo bem.
—Está tudo bem? Isaac, você saiu, foi atacado e está sangrando! Isso é estar bem?
—Para mim é isso mesmo, eu estou ótimo caso queira saber.
—É claro que eu quero! Isaac, você está sangrando – repeti enfatizando essa parte apontando para o corte eu seu bíceps – Caramba, nunca mais faça isso!
—Mas eu...
—Não! Eu proíbo você de sair de novo – me levantei, meu rosto ardendo. Não sei porque disse aquilo, mas assim que as palavras deixaram minha boca eu me arrependi; Isaac se aprumou na poltrona, estreitando os olhos azuis faiscantes – Isaac, eu me preocupo com você...
—E você acha que eu não me preocupo com você?! – Isaac se pôs de pé, se aproximando de mim com um único passo. Engoli em seco, me encolhendo sob a sombra dele. O tom de Isaac era suave, cobrindo a raiva exposta em sua postura; corpo tenso, olhos escuros e lábios crispados – Fiz isso por sua causa, Dayannya...
—Quando te falei do sonho, não pedi que fosse atrás dele, então não é exatamente minha culpa...
—Daya, tudo isso é sua culpa! – Ele gritou, o rosto vermelho. Um borrão preto surgiu entre nós, logo se revelando Gael, os pelos pretos das costas arrepiados e os lábios negros repuxados em um rosnado grave. Ele estava me defendendo.
Isaac ergueu a cabeça, os olhos arregalados carregados de remorso. Ficamos nos encarando, Gael ainda na minha frente. O rapaz hesitou por um segundo e então se virou, correndo para a garagem.
Larguei-me no sofá e cobri o rosto com as mãos, deixando as lágrimas fluírem livremente.
—Ouvi gritos – murmurou a voz rouca e gutural de Sierra.
—Não foi nada – respondi baixinho enquanto me sentada, passando os punhos pelos olhos. Sierra tinha acordado durante a briga e pediu que Dakota fosse me chamar. Ele me encontrou na sala, chorando. Sem dúvida havia notado a gritaria, mas não disse nada.
—Daya – Sierra pegou minha mão, apertando-a sobre o colchão – Conheço você. Tem alguma coisa errada.
Meus lábios tremeram e os mordi, apertando os olhos com força. Uma lágrima brotou entre os cílios, e depois outra e mais outra. Sierra se levantou sobre os cotovelos, me puxando para um abraço. Chorei com o rosto em seu ombro, meu peito doendo.
—Ele m-me od-deia! – Funguei, minha voz quase encoberta pela chuva lá fora. Fazia muito barulho, inclusive com as trovoadas, e pensar em Isaac enfrentando isso doía tanto quanto ouvi-lo gritando comigo.
—Não, Daya, tenho certeza de que não é isso...
—É sim! – Me afastei, secando as lagrimas furiosamente – Ele deixou bem claro que é tudo minha culpa!
—Vai ver ele se arrepende...
Sierra foi interrompida quando a porta da enfermaria foi aberta. Sarah caminhou até nós, as mãos atrás do corpo. Ela parecia hesitar em olhar para mim.
—Me desculpe por ter te pedido aquilo, Dayannya — Sarah sentou-se em uma cadeira, me olhando com total receio — Não sabia que isso iria acontecer.
—Tudo bem, Sarah — tentei sorrir, porém vacilei. Ela percebeu isso é estendeu a mão, pegando a minha em um gesto reconfortante.
—Isaac vai ficar bem. Já saiu de casa mais vezes do que posso contar.
Ao ouvir isso, Dakota se aprumou com o semblante animado.
—Lembra quando ele voltou flambado...?
—Dakota...
—Ou quando ele ficou tão bêbado que achou que fosse uma sereia...
—Dakota! — Sarah estava quase se levantando — Já chega!
Dakota ergueu as mãos em rendição e sentou-se na beirada do colchão de Sierra.
—Isaac achou que fosse uma sereia? — cochichei para Dakota, incrédula. Ele sorriu.
—Depois eu te conto.
Sarah suspirou, passando a mão pelo cabelo liso. Ela tinha olheiras sob os olhos e rugas de expressão pelo rosto jovem. Fiquei imaginando quantos anos ela devia ter, o quanto teve que fazer para cuidar de quatro semideuses por, no mínimo, oito anos. Ela sempre olhava para todos com amor maternal, até mesmo para Isaac que, às vezes, a tratava com indiferença.
—Vou chamar os outros. Temos que decidir logo o que fazer com Elias.
—Mas Isaac...
—Ele não vai ligar, Daya — havia dor nos olhos da supervisora — Ele nem mesmo queria participar.
E, com isso, ela saiu da enfermaria. Segundos depois Sirena, Chris e Elias surgiram, correndo em direção à cama.
—Precisamos conversar — Sirena sentou no braço da minha cadeira e quando jogou os longos cabelos por cima do ombro eles acertaram meu rosto como um chicote negro — Dakota, como estão as coisas?
—Ele está vivo ainda.
—Ele quem? — perguntei confusa, me desviando de outra chicotada.
—Meu elo de empatia com Isaac permite sabermos se estamos vivos ou não.
Arregalei os olhos.
—Mas ele morreu uma vez...
A dor perpassou o rosto de todos.
—Por isso estamos tomando mais cuidado dessa vez — respondeu Chris — E é aí que você entra.
—Porque?
—Conhecendo Isaac — Sirena tirou uma lixa do bolso e começou a cuidar das unhas -, tenho certeza de que ele vai atrás daquele manticore.
—O manticore que nos atacou? — perguntou Sierra espantada.
Assenti.
—Foi por isso que... Que brigamos.
—Não foi nada grave — Sirena fez um gesto de desdém com a mão — A pior briga envolvendo Isaac acabou em uma decapitação.
Instintivamente levei a mão ao meu pescoço, tocando o colar de contas e a corrente que Isaac me dera.
—E você, Daya — retomou Chris, ajeitando os óculos — Vai ter que ficar de olho nele.
—Como se ele me escutasse.
—Ele vai tentar sair de novo. Você vai ter que dar um jeito de ir com ele.
Me senti encolhendo na cadeira quando todos olharam esperançosos para mim.
—Mas eu não posso ir sozinha.
—Não vai estar sozinha — Dakota sorriu — Vai estar com ele.
Engoli em seco e disse que iria. Sirena murmurou um “Eu sabia” e os meninos suspiram aliviados. Sierra me observou com curiosidade e disse, sem preferir palavras: “Você vai dar um jeito”.
Em resposta, resmunguei um “Espero”.
***
Acabou que não houve reunião. Sirena voltou a enfermaria, enérgica, dizendo que deixaria tudo para o dia seguinte. Todos foram para os seus respectivos quartos, exceto Dakota que ficou com Sierra e eu, que fui para a sala de treinamento.
A sala era um lugar espaçoso com paredes de tábuas claras. Estantes, suportes de armas e armários cobriam as paredes. Havia um único espaço da parede oposta à porta, que era reservado para lançamento de facas onde estavam penduradas miras grandes de madeira dura.
Eu usava uma delas, atirando uma faca repetidas vezes. Porém havia tanta coisa embaralhada em minha cabeça que ficava difícil acertar o alvo; a toda hora a lâmina caia no chão ou ficava pendura no canto. Na vigésima tentativa a faca fincou na moldura da janela, fazendo os vidros tremerem. Quando fui busca-la, repassei tudo o que acontecera.
Pensei na discussão com Isaac e no que ele faria quando voltasse. Me pediria desculpas? Ou simplesmente passaria reto como se nada tivesse acontecido? A segunda opção era mais provável, já que ele não tinha o porque de se desculpar. Isaac estava certo; aquilo era tudo minha culpa é por mais que doesse, era a verdade.
Apertei o cabo da faca em minha mão e lancei-a. A lâmina atingiu o terceiro círculo depois do centro. Bati o pé em frustração e cerrei os punhos, querendo socar alguma coisa.
—Você estava segurando a faca errado.
Me virei em um pulo e meu coração repetiu o gesto. Isaac estava parado a porta, as mãos no bolso, me observando com a cabeça baixa. Havia arrependimento em seus olhos, mas o comentário serviu apenas para me enfurecer mais. Sem olhar para ele fui até a arma e tirei-a da madeira. Voltei a posição inicial, ignorando o garoto atrás de mim.
—Quero ficar sozinha.
—Eu preciso falar com você... — Ele parecia desesperado.
Apertei o punho, as juntas dos meus dedos ficando brancas. Ele não entendia que eu queria ficar em paz? Ele não podia fazer o que eu pedia pelo menos uma vez?
—-Isaac, por favor...
—Não, me escuta...
—Você nunca me escuta! — gritei, perdendo a paciência, e me virei. Minhas mãos tremiam e meu rosto parecia estar em chamas — Nunca, Belcourt.
—Se ao menos uma vez, Dayannya, você deixasse de ser tão...
Arremessei a faca. Cobri a boca com as mãos, os olhos arregalados, meu coração palpitando a toda velocidade. A lamina voou certeira, em direção ao pescoço de Isaac, porém ele ergueu a mão e segurou a faca, o punho apertando o fio duplo. O sangue escorreu pelo seu pulso e pingou para o chão, entremeando as rachaduras do soalho.
—Viu só? Estava segurando a faca errado. Se tivesse feito do jeito certo, você poderia ter me acertado!
Soltei uma exclamação de pavor e corri para um dos armários, vasculhando em busca do pequeno kit de emergências. Quando o achei voltei para Isaac e o agarrei pelo braço ensanguentado, puxando-o para em direção a um banco de madeira. Empurrei-o sentado e me posicionei a sua frente, sobre os joelhos, respirando fundo para me acalmar.
—Você devia ter desviado — resmunguei com raiva enquanto passava uma bola de algodão embebida em álcool pelo braço de Isaac, a fim de limpa-lo. Os cortes que vi mais cedo não estavam mais lá; ele usava jeans e uma camiseta clara, sem o cinto de armas. O cabelo dourado estava desalinhado e os olhos azuis pesarosos.
—Não teria sido tão emocionante — ele estremeceu assim que o álcool entrou pelo corte. Havia um no meio da palma e outro nas juntas dos dedos, onde ele segurou a lâmina.
—Você é um babaca.
Isaac ergueu os olhos e sorriu descontraído, até perceber que eu não queria olhar para ele. O sorriso desbotou dos seus lábios, sendo substituído por uma careta de desapontamento.
—Eu sei.
—Que bom — terminei de limpar o sangue e peguei a gaze.
—Mas pelo menos consegui sua atenção.
Ergui os olhos e franzi as sobrancelhas, mas ele permaneceu impassível.
—O que você quer?
—Quero pedir desculpas. Só isso. Nem espero que você me perdoe.
—Então você não teria perdido seu tempo? — puxei um pedaço de fita e coloquei sobre o tecido.
—Não acho que seja o caso.
Suspirei, fechando os olhos. Ele não ia desistir tão cedo.
—Tenta.
—Eu sei que não devia ter dito aquilo. E eu me arrependo, Dayannya...
—Você só disse a verdade...
—Não, eu não disse — ele levou a mão boa para o meu queixo e o segurou, erguendo minha canela. Abri os olhos, encarando os dele — Não foi verdade. Eu estava com raiva. Não penso direto quando estou com raiva, por isso falei aquilo. Não é tudo culpa sua. Foi tudo da boca pra fora.
Soltei a mão dele e juntei minhas próprias sobre o colo.
—Esteve treinando isso?
—Darius me ajudou.
Me permiti um sorriso, guardando as coisas de volta na caixinha do kit.
—Ele não é muito bom nisso.
—Não, não é. Eu devia ter feito meu discurso sozinho — ele me olhou esperançoso — Como eu disse, não espero que você me perdoe.
Alguma coisa em meu peito murchou, deixando um espaço vazio e gélido.
—Está tudo bem. Você só queria me proteger.
—E acabei sendo um completo idiota — Isaac estreitou os olhos — Você ainda está brava.
—Não é por isso — me levantei indo de volta para o armário.
—O que é então?
Hesitei. Eu realmente não estava brava por causa de Isaac, no entanto alguma coisa estava me deixando estressada e eu não sabia o que, ao certo.
—Não é nada — me agachei para pegar a faca que joguei em Isaac, levando-a até um suporte na parede.
—Pelo amor dos deuses, você ainda está segurando isso errado.
Revirei os olhos, parando no meio do caminho. Isaac foi até mim e tirou a faca de minha mão, jogando-a em um banco. Em seguida foi até um mostrador e pegou uma adaga fina e curva que não era própria para lançamento e sim para “fatiar” os outros.
—Ahn... Isaac...?
—Se quer fazer isso direito, tem que fazer com alguma coisa diferente — ele me entregou a arma e apontou para um dos alvos — Acerta no centro.
Respirei fundo. Eu sabia segurar uma faca de arremesso, saia fazê-la atingir o centro de qualquer coisa com perfeição. Mas aquela adaga ficava desequilibrada em minha mão, era totalmente diferente do que eu estava acostumada. Segurei a lâmina e joguei; a arma escorregou de minha mão e fincou-se no chão rente à parede.
—Você foi sutil demais — Isaac pegou a faca e me entregou-a novamente, porém desta vez ele se posicionou atrás de mim, passando os braços pelo meu corpo e arrumando minha mão em volta da adaga. Meu pulso falhou uma batida — Para uma arma mais pesada tem que torcer mais o pulos. Se você fosse um pouco maior, conseguiria jogar uma espada.
Assenti, sem saber ao certo o porque do gesto. Inspirei com força e lancei a lâmina. Dessa vez ela acertou um circula antes do centro do alvo. Sorri, animada, enquanto o garoto atrás de mim se esticava e me entregava uma faca diferente, mais longa.
—Agora tenta me acertar — sussurrou em meu ouvido, me causando arrepios.
—De novo?
Ele riu e se afastou. Me virei ao mesmo tempo, desferindo um golpe com a arma que ele defendeu com sua faca de caça. Mesmo com a mão machucada, ele era muito rápido. Tentei outra vez e ele simplesmente me repeliu. Já treinei com as caçadoras de Ártemis e sempre fui melhor em luta corporal do que em arco e flecha, mas Isaac estava se mostrando difícil.
Experimentei um golpe giratório e meu cabelo se soltou do coque improvisado, caindo ao meu redor em um redemoinho de cachos. O filho de Netuno se agachou e brandiu a faca, cortando minha calça na altura da cocha. Continuamos por mais uns minutos, que passaram voando para mim. O cansaço se abateu sobre meu corpo e tropecei em meus próprios pés. Isaac me segurou e me colocou de pé novamente, só tendo tempo de desviar de uma facada no rosto. Meus membros ardiam. Não sei por quanto tempo continuamos lutando, ele rindo e gritando incentivos toda vez que eu fraquejava.
Quando senti que ia desmaiar de exaustão, Isaac agarrou meu pulso com força, fazendo minha adaga cair, e me girou agarrando meus dois braços enquanto me puxava para si. Minhas costas bateram com força em seu tronco e, em uma fração de segundo, pude sentir seucorpo contra o meu; a rigidez da barriga, o coração socando as costelas. O inchaço dos músculos, relaxando e endurecendo novamente. O suor na camiseta, a respiração ofegante em meu ouvido...
Levei o cotovelo para trás em um último esforço e atingi suas costelas em cheio. Ele prendeu a respiração e me soltou. Agachei-me, tomando cuidado para não cair sentada, e dei uma rasteira nos pés de Isaac. Ele caiu de costas e gemeu quando seus ossos estalaram.
Não pude segurar o riso.
—Não esperava por essa...
Em um gesto de resistência ele me derrubou. Não percebi como, mas me encontrei de costas no chão, a visão embaçada. Olhei para o lado e vi Isaac se sentando, o cabelo grudado na testa. Ele sorriu.
—Não esperava por essa.
Consegui sorrir mais uma vez, antes que quase desmaiasse de cansaço. Tudo depois disso passou como um borrão.
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