Filha de Apolo - Electricity
11 Sem Lágrimas
Virei-me na cama, os cobertores se prendendo a minha cintura. O abajur sobre o criado-mudo lançava sua luz amarela no quarto, os móveis criando sombras longas no teto. Gael, deitado ao lado da cama, ergueu a cabeça, os olhos dourados brilhando muito sob a luz. Estiquei a mão e afaguei sua cabeça. Ele piscou lentamente, os olhos pesados. Pixel ronronou da escrivaninha, deitada como um bicho atropelado.
Ao lado do abajur estava meu celular, carregando. Eu havia esgotado a bateria após passar a noite toda falando com minha mãe e com Callum, que repetiu a mesma pergunta várias vezes: “Você está bem, mesmo?”
Esfreguei meu rosto, me erguendo e colocando os pés descalços no chão frio. Eu não conseguia dormir havia mais de uma hora. Já passava um pouco da meia-noite, o céu, visível pela janela, negro como o pelo de Gael. Poucas estrelas brilhavam, a lua uma grande bola amarelada.
Pensei em tomar algo para me fazer dormir quando ouvi algo acima de mim. Gael também ouviu, pois ele ergueu as orelhas atento a qualquer som. O lobo se levantou e correu até a escrivaninha, apoiando as patas dianteiras na frente de Pixel, que silvou enraivecida e correu para baixo da cama.
Me pus de pé, pegando minha adaga na gaveta do criado-mudo. Fui até a janela, abri a tranca, e empurrei as portas de vidro. O ar frio entrou, tirando meu cabelo da frente do rosto. Gael ergueu o focinho, farejando o ar com avidez. Tudo parecia normal na rua; os postes estavam acesos, tudo silencioso e parado com exceção às árvores, que tremulavam com o vento. As outras casas estavam escuras, nenhum sinal de movimentação.
Coloquei meu tronco para fora, inspirando o ar gélido. Olhei para cima, mas só pude ver a beira do telhado. Franzi a testa quando, novamente, escutei aquele barulho, no entanto, seguido de um palavrão. E eu conhecia aquela voz. Pedrinhas vermelhas rolaram das telhas, caindo em frente ao meu rosto. Estremeci com o frio e corri para a cama, pegando um cobertor e me enrolando nele. Voltei para a janela.
—Isaac? — chamei, sem gritar nem falar baixo demais. Lá de cima fez-se o som de ar sendo sugado e preso. Apertei o cabo da adaga, um arrepio percorrendo minha espinha.
—Por Júpiter, garota, não me assuste desse jeito.
Suspirei, aliviada. A voz dele, ainda que espantada, me encheu de calor.
—O que você está fazendo aí em cima?
—Vim falar com o meu amigo rato morto.
—Ah, Isaac, que nojo!
—Tudo bem, o rato está vivo — ele fez uma pausa — Mas não por muito tempo.
—Isso — resmunguei impaciente — não responde minha pergunta.
—E o que a senhorita está fazendo acordada?
—Eu não estou no telhado! Acho que ganho crédito por isso.
Ele bufou. Pelo barulho, estava andando de um lado para o outro.
—Você vai atrás do manticore — murmurei — Não vai?
—Eu preciso fazer isso.
Me afastei da janela, esfregando as mãos na calça do pijama. Gael olhou para mim, esperançoso, o rabo espesso balançando rapidamente.
—Eu quero ir junto — falei voltando para fora, o vento açoitando meus cabelos — Tenho todo o direito de decidir se quero vingança ou não. E se você não deixar, vou te seguir.
—Você não aguentaria — ele riu — O manticore está no Bronx, e você nunca vai conseguir acompanhar minha moto.
Praguejei baixinho. Depois de saber que ele ia de moto, pensei em reconsiderar minha promessa.
—Então vou acordar a Sarah — tomei fôlego — SAR...!
—Não! — ele quase gritou, parecendo desesperado — Não, por favor. Saia da janela.
Fiz o que ele pediu. Segundos depois, Isaac pulou para a janela, se empoleirado no peitoril. Ele se sentou, uma expressão interrogativa no rosto iluminado pelo abajur. O cabelo estava desalinhado por causa do vento forte, as faces coradas. Usava uma blusa de moletom preta e jeans azul escuros. O cadarço de uma das botas estava desamarrado.
—Não posso te impedir, não é mesmo? — ele sorriu, provocador. Meu corpo todo se arrepiou.
—Não, não pode.
Isaac me examinou de cima a baixo, curioso como uma criança que arranca uma das asas de uma borboleta e depois tenta fazê-la voar novamente.
—Vai assim? De pijama?
Estufei as bochechas, indignada, e apertei o cobertor ao meu redor. Fui até o banheiro batendo os pés enquanto Isaac ria atrás de mim.
Abri os braços, colocando um pé após o outro sobre a tábua estreita.
—Tome cuidado — murmurou Isaac atrás de mim, as mãos perto da minha cintura caso eu me desequilibrasse — Ninguém quer panqueca de Daya.
Revirei os olhos, oscilando ao olhar para baixo. Caminhávamos sobre uma tábua posta entre dois prédios medianos. Na rua, lá embaixo, pessoas caminhavam juntas e dançavam. Os prédios, cinco ao todo, lançavam luzes coloridas na rua e pareciam sacudir com a música alta. Eu e Isaac estávamos encobertos pela névoa, então ninguém podia nos ver. Gael rondava a rua, em busca de algum monstro.
—Acho que tenho medo de altura.
—Por favor, Dayannya, não diga isso.
—Você está com medo?
—Estou com medo de que você caia — a tábua rangia ameaçadora sob nossos pés — e se espatife.
—E se isso quebrar? — perguntei me referindo a tábua.
—Então já sabe — ele resmungou. Engoli em seco, meu corpo todo tremendo — Só mais um pouco, estamos quase chegando... Estou vendo ele!
Olhei para minha esquerda, para onde Isaac apontava. E lá estava o manticore, em sua forma humana. Ao seu lado havia um homem enorme, maior que todos os transeuntes. Quando ele se virou, foquei no único e imenso olho no meio de sua testa.
—Um ciclope — minha voz saiu trêmula — Ele tem um guarda ciclope.
—Aposto que você já enfrentou coisa pior.
—Você viu o tamanho dele? É um monstro!
—Bela observação.
—Pô, cala essa boca!
Isaac riu e me deu um empurrão de leve, me fazendo pular para o prédio no fim da tábua. Respirei fundo e cai sentada no concreto. Isaac foi até a pequeno galpão que levava a escada. Ele tirou uma faca fina do cinto e começou a tentar abrir o cadeado.
—Quer repassar o plano mais uma vez?
—Vamos entrar no prédio — falei, me recordando do que havíamos combinado — Procurar o manticore e acabar com a raça dele, sem que ninguém veja — franzi a testa — O que fazemos com o ciclope?
—Matamos ele também — o cadeado caiu no chão com estrondo. A porta se abriu rangendo, dando lugar a uma escada escura. Isaac me olhou por cima do ombro — Vai ficar aí sentada?
Me levantei com esforço, minhas juntas estalando. Os meus músculos ainda doíam do dia anterior quando corri até Isaac, já descendo a escada. Olhei rapidamente para trás, a luz se afastando e diminuindo. A escada tinha cheiro de poeira, as paredes eram ásperas. Minha nuca começou a soar com o calor, totalmente diferente de lá fora.
Encarei as costas de Isaac enquanto descia. Me lembrei de uma coisa que ele havia me dito há semanas, que Vincent, o ajudante de Elijah, tinha comentado sobre a mãe dele. Ele continuava tentando saber mais sobre o assunto? Ou ele havia simplesmente aceitado ser mentira e parado de procurar?
—Isaac? — falei, minha voz ecoando pelo corredor. Ele não se virou — Você tentou saber mais sobre Kathleen Van Garden?
—Ela mora nos Yonkers. — Ele disse, displicente. Ergui as sobrancelhas, espantada, pois eu esperava que ele fosse gritar comigo ou então ficar emburrado — Em um centro de reabilitação para doentes mentais que não podem se recuperar, mas que também não oferecem perigo. Elijah deve ter visto o nome dela e pensado em usar isso para me abalar.
—Então você não acredita que ela seja sua mãe?
—Não. Não havia fotos dela no site do centro, mas ela deve ser alguma senhora doente. E além do mais, não tem porque o meu pai ter mentido para mim.
A voz dele tremeu nas últimas palavras. Eu percebi que ele não acreditava realmente no que dizia. Havia dúvida em seu tom. Resolvi deixar quieto, não queria que ele acabasse com raiva de mim.
Chegamos a uma porta destrancada e Isaac a abriu; dava para um corredor iluminado em tons de magenta, cheio de uma espécie de névoa rente ao chão. Só quando inspirei fundo percebi que era fumaça de cigarro, tingida de roxo pela luz. Montes de pessoas se encontravam ao longo do corredor, alguns rindo e fumando e outros se engolindo enquanto espremiam uns aos outros nas paredes.
—Isso é algum tipo de motel?
—Não. Isso é o Bronx — Isaac me segurou pelo pulso e me puxou ao longo do corredor. Recebi olhares de reprovação enquanto passávamos. Com a mão livre fechei o resto do zíper da minha blusa, chegando até a garganta.
—Isaac? — sussurrei em seu ouvido — Você não tinha posto névoa na gente?
—Tem magia aqui — ele respondeu me puxando para mais perto — Alguém entre essas pessoas deve ser filho de Hécate.
Dito isso, uma menina da minha idade com o cabelo raspado de um lado e tingido de rosa sorriu para mim. Tinha olhos violeta e um sorriso assombroso. Me senti totalmente nua enquanto todos olhavam para minha direção com a expressão divertida.
—Eles sabem quem você é — cochichou Isaac.
—Estou tão aliviada agora.
Um latido ecoou no corredor e me sobressaltei. Gael correu até nós, quase fazendo várias pessoas caírem. O lobo deu uma volta em mim e em Isaac e voltou por onde tinha vindo. Corremos atrás dele, dobrando esquinas, descendo escadas e finalmente paramos em frente à uma porta dupla de madeira. Isaac encostou o ouvido nela e arregalou os olhos, gesticulando para que eu fizesse o mesmo.
—... Vai estar lá todos os dias — resmungou uma voz masculina grave com sotaque russo — Elijah é um imbecil por acreditar no garroto; trabalhando tanto para ele quanto parra o Acampamento romano.
—Mas ele matou o filho de Netuno — respondeu uma voz feminina e suave e muito familiar.
—Que está de volta! Que diferrença faz?
—Elijah sabe que vai ser traído. Ele tem um plano.
—Me punindo porque não consegui a garrota... Inaceitável.
Silêncio. Então uma risada.
—Segundo seu amigo, você pode tentar de novo.
Isaac agarrou meu braço, mas não rápido o bastante. A porta se abriu, me empurrando para trás. O ciclope que vi antes rugiu, se erguendo mais alto que o pé direito. Lá dentro, o manticore terminava a transformação, sua cauda de escorpião apontada para nós, um sorriso medonho no rosto. E, numa mesa mais ao canto, a empousa Gwendolyn — e ex de Isaac — sorria exibindo as presas, seu rosto branco como sal.
—Daya, corre! — Isaac puxou duas lâminas longas de seu cinto, mas não fiquei ali para ver o que ele fez em seguida. Me virei e corri de volta, deixando Gael com Isaac. Ouvi um grito e algo pulou perto de mim, fazendo o chão tremer.
Conti um grito, correndo mais rápido. Olhei para trás e vi o manticore, se aproximando cada vez mais de mim. Um espinho gigante voou de sua cauda, passando rente ao meu rosto. Empurrei uma porta e me encontrei na rua, perdida entre mortais que berraram de pavor ao ver o monstro. Tentei abrir caminho, mas fui empurrada e caí de barriga no chão. Me virei a tempo de rolar para o lado e evitar ser atingida pela cauda de escorpião. Alguém pisou em minha mão e mordi a língua, sentindo o gosto metálico de sangue em minha boca.
Me ergui tirando minha adaga do cós da calça. Bloqueei outro espinho com a lâmina, que ricocheteou e voou em direção a um prédio. A força do golpe me jogou para trás, no entanto consegui me equilibrar sem cair novamente. Pontos coloridos surgiram em minha visão quando, cambaleando, desviei de uma abocanhada do manticore. Lembrei-me do que Isaac me mostrou ontem; de como lançar uma adaga inapropriada para isso. Apertei o cabo da arma e a joguei, torcendo o pulso com força. A lâmina cravou no peito do monstro, que rugiu com fúria tentando alcançar o cabo.
O manticore sucumbiu, se contorcendo, enquanto virava pó. Soltei o ar e corri para minha faca, largada no chão. O pânico na rua havia se dispensado e me vi olhando em volta. Não me lembrava de que prédio havia vindo. Escolhi o primeiro à minha frente e corri para ele. Eu sentia uma êxtase enorme por ter conseguido fazer um lançamento certeiro e precisava contar para Isaac. Mas e se eu não conseguisse? E se eu não o encontrasse de novo?
Entrei em um saguão pequeno e escuro. Estava vazio e eu tinha certeza de não ter passado por ele, apesar da tontura.
—Dayannya! — me virei, meu coração aos pulos. Eu não conseguia ver nada além de uma sombra, mas era a voz dele. Era Isaac, eu tinha certeza — Por Zeus, eu fiquei tão preocupado...
Estaquei no caminho. Isaac nunca disse “Zeus”. E aquele não era o tom de voz que ele usava comigo, nem com ninguém, como se a pessoa fosse a última do mundo. Agora, e apesar de sentir que ia desmaiar, eu só tinha uma certeza. Avancei, a adaga em punho, e a estendi.
Algo monstruoso rugiu, a sombra se erguendo para a luz que vinha da rua. O ciclope se curvou, em agonia, enquanto se dissolvia em pó dourado. Larguei a adaga, ofegante, e ergui os olhos. O verdadeiro Isaac estava parado a porta, estupefato, o peito subindo rapidamente. Havia um corte em seu ombro, mas isso não importava. Eu precisava tanto dele...
—Isaac...
O garoto se aproximou de mim com passos largos, me empurrando contra a parede. O calor se espalhou pelo meu corpo assim que ele me beijou, um choque tremendo. Envolvi seu pescoço com os braços, minhas pernas bambas. Isaac segurou meu rosto, me mantendo firme, fazendo carícias em minha pele e murmurando contra meus lábios, perguntando se eu estava bem. Eu não queria responder, não queria me afastar. As mãos dele seguravam meus quadris com firmeza, me apertando contra a parede atrás de mim. Ele abriu meus lábios, intensificando o beijo, o encontro de línguas e dentes fazendo meu coração pulsar tão rápido quanto o de um coelho. Cravei as unhas em sua nuca, puxando-o para mim, querendo mais...
Foi então que senti; meus braços esquentaram, o calor descendo por todo o meu corpo como fogo queimando em minhas veias. E, em pouco tempo, ele seria libertado. Eu sabia disso.
—Isaac, não — afastei-me dele com dificuldade, meus olhos ardendo. Ártemis tinha razão. Eu não podia fazer aquilo, não podia me apaixonar. O fogo era desencadeado por emoções intensas. Meu amor por ele o queimaria.
—Por favor — a voz dele estava rouca, grossa. Senti um aperto no peito quando vi seus olhos suplicantes, o rosto corado.
—Não, eu não... — empurrei-o com delicadeza. Eu não sabia em quem aquilo doía mais. Eu via a paixão em seus olhos, incandescente como uma chama.
—Por favor, me dá uma chance.
Ofeguei. Ele queria isso. Ele me queria, eu devia ter sabido disso antes, antes de decidir o que precisava ser feito.
—Eu não posso.
Nos encaramos por um momento. Isaac deixou as mãos caírem ao lado do corpo, a chama em seus olhos se extinguindo lentamente. Vi a expresso dele se alterando aos poucos, de súplica para compreensão e disso para dor. Ele mordeu o lábio, se recuperando.
—Temos que ir logo — murmurou. Não parecia envergonhado,nem decepcionado. Falou como se aquele momento não tivesse acontecido, como se ele fosse pulado de nossas vidas — Gwen conseguiu escapar e Elijah vai mandar reforço.
Ele se virou saindo do prédio. Gael estava sentado à entrada, pesaroso. Eu não havia notado ele antes. Fui até o lobo, me ajoelhando a sua frente. Isaac havia sumido entre as pessoas, mas eu não ia procura-lo. Eu tinha trazido dinheiro comigo,podia pagar um táxi.
Mas a dor que senti era tanta, que não consegui, por um tempo, fazer nada mais do que encarar o chão. Sem lágrimas.
De algum modo, eu sabia que estava fazendo a coisa certa. Eu o amava o bastante para isso.
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