Os dedos longos e pálidos se movem sobre a mesa como uma aranha enorme. Eles agarram uma peça de xadrez, um bispo, e a levantam. O homem encara a peça, na altura de seus olhos multicoloridos. Então seu rosto fica escarlate, os olhos faiscantes, e ele joga o bispo num acesso de raiva.

Elijah passa a mão magra pelos cabelos cor de piche, os lábios crispados. Na sua frente há uma mesa enorme. Sobre a mesa, devia ter pelo menos cinco conjuntos de xadrez juntos. Um dos lados, os brancos, parecia em menor quantidade. Entre todos os brancos havia uma única peça preta, um cavalo, e a frente de todo o grupo estava uma rainha. Do lado preto tinha uma peça branca, um peão, ao lado do rei. Aquela visão me deu náuseas.

—Pensei que não ficasse estressado tão facilmente — resmungou uma voz do outro lado da sala ampla. Licáon tinha os braços cruzados, os olhos parcialmente fechados. Ao seu lado, sentado em um sofá vermelho, estava Vincent com um braço sobre os ombros de Gwendolyn, a empousai ex de Isaac — ah, como eu adorava lembrar desse detalhe. Ela usava um longo vestido preto de tafetá. Vincent também estaria elegante, se não fosse o olho permanentemente danificado; usava um terno escuro, a gravata frouxa no pescoço. O único no recinto sem parecer pronto para uma festa de gala era Licáon, com o manto de peles costuradas desigualmente jogado sobre os ombros.

Elijah não olhou para ele. Estava apoiado na mesa, o cenho franzido. Parecia trajar uma rota para suas peças, um jeito de dar o xeque mate e ganhar o jogo.

—Meu melhor oficial — ele murmurou para si mesmo, de um jeito que só eu, que estava próxima, ouvi — Meu braço direito...

—Deveria reconsiderar — disse Gwen, a voz tão suave quanto o tecido do vestido — Aliás — ela deitou a cabeça no ombro de Vincent — Vince ainda não morreu.

Elijah suspirou, passando as mãos pelo rosto.

—Está cada vez mais difícil — ele se voltou para sua esquerda. O lobo magro e pequeno, jovem demais, que estava ao seu lado encolheu — Chame Nihal. Rápido.

O lobo se virou e correu por uma porta dupla aberta. Aproveitei para olhar o lugar; era uma sala de estar muito grande, digna de uma mansão. Um lustre dourado, não tão luxuoso quanto o da biblioteca do Reformatório, se pendurava no teto abobadado, lançando sua luz amarela pelo recinto. Dos dois lados, escadas de mármore levavam mais acima, para um patamar com grades de vidro. Uma lareira de mármore crepitava do lado oposto à mesa. Mesmo com toda aquela beleza notei detalhes assombrosos; havia uma mancha escura na ponta do tapete felpudo bege. Os rodapés de madeira clara estavam arranhados com linhas escuras marcando a parede. Meu estômago embrulhou quando vi, na sacada do segundo andar, uma mão pendurada para baixo.

Passos estofados vieram das portas duplas e o lobo apareceu, seguido por outro. Nihal tinha a cabeça baixa, parecendo mais cheio de cicatrizes do que antes. Os olhos vermelhos encaravam o chefe com apreensão.

—Descobriu alguma coisa?

—Não, senhor — Nihal se sentou. Suas costas e lábios sangravam; não. Não era sangue dele.

—Pois eu descobri — Elijah se aproximou do animal que encolheu, os ombros rígidos — A garota vai sair do Reformatório sozinha em pouco tempo — ele fez um gesto de desdém com a mão — Vocês estão cada vez mais inúteis...

—Eles não vêem o futuro como você, Elijah — Gwendolyn ergueu uma sobrancelha loira — E parece que até mesmo você está falhando. Não previu que a garota e Isaac — ela pronunciou o nome dele com um tom de carinho — estariam atrás de Yvan.

—Não, não previ — Elijah esfregava as mãos uma na outra — Eu vi outra coisa... Muito diferente...

—A menina não tem só o fogo — Licáon revirou os olhos, como se aquela fosse a coisa mais óbvia do mundo — Outro poder... Além da nossa compreensão.

Meu peito gelou. De repente pareceu que todos os olhares estavam sobre mim, mas apenas passavam por onde eu estava. Estremeci, mesmo com o calor da lareira, e abracei a mim mesma.

—Outro poder... — Elijah pareceu considerar — Não é possível. Eu teria... — os olhos rodopiantes dele se iluminaram — Você acha — ele caminhou até o pequeno grupo, passando por mim — que ela seria... Não, não é possível.

—Capaz de mudar o futuro? — Licáon riu — Muito provável. Sendo assim, nem você saberia disso.

—Não — Elijah se largou no sofá vermelho, assustado Vincent que ainda não falara — Não, ela... Mudar o futuro?

—Mudar não — Gwen sorriu — Fazer escolhas. Um caminho ou outro. Como Jano.

—Isso atrapalha nossos planos — ele apoiou o queixo no punho — Então ela seria capaz de mudar o que prevejo.

—Você devia tomar mais cuidado — Gwen olhou diretamente para mim, pálida como cera — Ou ela vai acabar descobrindo tudo, e vai mudar isso.

Elijah ergueu a cabeça, seu olhar focalizando em mim. Senti uma dor de cabeça intensa, e a compreensão passou pelo rosto do lobisomem.

Puxei o exemplar de Noite de Reis para mais perto, afastando-o dos pés de Isaac cruzados sobre a mesa. Ele nem parecia se importar, com Guerra e Paz aberto no colo, a cadeira inclinada precariamente para trás e meia maçã na mão. Seus olhos estavam fixos nas páginas do livro, a fruta parada à meio caminho da boca fechada em uma linha rígida. Se um ataque aéreo começasse, talvez ele se desconcentrasse apenas para dizer que parassem com a barulheira.

Aproveitei que ele estava distraído para observa-lo furtivamente por cima do meu livro. Havia olheiras sob seus olhos claros, o brilho habitual parecia extinguido. Já fazia três dias desde a noite em que o dispensei — por uma boa causa, por mais que isso estivesse me matando por dentro — e ele pareceu totalmente normal quanto a isso; continuava me tratando como em um dia normal, me cumprimentava sempre que nossos caminhos se cruzavam e se ofereceu para me treinar. No entanto, quando Isaac pensava que eu não estava olhando, ele parecia frio e distante como um iceberg sozinho no oceano.

—Você poderia, por favor, parar de contemplar minha beleza divina?

Um som engasgado de susto subiu pela minha garganta e quase derrubei o livro. Isaac não olhou para mim, simplesmente resmungou enquanto virava sua maçã na mão.

—Eu vi uma coisa estranha, mas era só sua cara.

Ele ergueu o olhar com um sorriso torto, a maçã encostada nos lábios.

—Você me acha sexy. Eu sei, é inevitável.

—Você não é tão irresistível — murmurou Sirena, virando lentamente uma página de Romeu e Julieta. Estávamos só nós três na biblioteca, fazia mais de duas horas. Eu queria estar sozinha com Isaac, não somente para esclarecer as coisas, mas também para falar do sonho que tive. Eu conversaria com Sierra, mas ela não desgrudava de Dakota. No momento, os dois estavam passeando pelo Queens — Conheço melhores.

—Tem coisa melhor que isso aqui? — Isaac abriu os braços, deixando o tronco visível. Usava uma camiseta azul escura que estava presa entre ele e a cadeira, apertando o abdômen e deixando as linhas dos músculos ressaltadas sob o tecido. Meu rosto esquentou, muito.

—Chocolate — desviei o olhar, fingindo estar muito interessada em Noite de Reis.

—Chocolate acaba depois de um tempo.

—Você não vai ser gostosão para sempre — Sirena ergueu uma sobrancelha e sorriu — Um dia seu cabelo vai virar pelo do peito.

Tentei imagina-lo velho e careca, mas era impossível. Entretanto, Isaac pareceu enxergar bem isso, pois franziu a testa intrigado e disse algo em francês. Sirena respondeu com a mesma facilidade que ele, sem nem mesmo enrolar a língua.

—O que vocês disseram? — perguntei, confusa.

—Piada interna — disse a garota, mas eu sabia que não era isso. Era algo que eles não queriam que eu ouvisse.

—Hum — baixei o olhar para Gael, deitado ao meu lado. Ele dormia tranquilamente, o peito negro subindo com leveza. Lembrei de quando ele salvou minha vida, e que retribui salvando a dele. Nunca mais usamos néctar em Gael, mas eu tinha certeza que aquilo não era normal. Gael não era um lobo, e essa idéia martelava insistente em minha cabeça.

De repente, as orelhas dele se ergueram. Gael levantou a cabeça, farejando o ar, os olhos cor de âmbar semicerrados. Um segundo depois a campanhia tocou e o lobo pôs-se de pé em um salto, derrapando enquanto corria para fora da biblioteca. Ouvi os latidos longos dele ecoando pela casa.

Isaac tirou os pés da mesa, sua cadeira caindo certa no chão com um baque surdo. Ele franziu o cenho, olhando para as portas duplas e pousando a maçã e o livro na mesa.

—Chamou algum namorado, Ryna?

—Não vou responder. — Ela afastou-se da mesa, saindo da biblioteca. Já na porta, pude ouvi-la dizendo: — Não sabia que a Sarah tinha chamado alguém...

Isaac se preparava para ir atrás dela, já quase de pé, quando agarrei seu braço. Soltei-o imediatamente quando ele virou os olhos intensos para mim, me olhando de cima. Parecia receoso e assustado, a respiração paralisada.

—E-eu... — Engasguei com as palavras, meu estômago embrulhando e o frio subindo pela minha espinha. Eu não ficava com ele a sós desde o Bronx, e não sabia sobre o que falar com ele primeiro. A luz que atravessava os vitrais deixava seus olhos coloridos, o que me fez lembrar de Elijah — Preciso falar com você. É urgente.

Isaac sentou-se novamente, se curvando sobre a mesa.

—O que aconteceu?

—Eu tive um sonho com Elijah. Foi... Assustador.

Os olhos dele se iluminaram, do mesmo jeito antes dele me beijar há três dias.

—Descobriu alguma coisa importante?

—Eles sabem sobre os sonhos. Ou melhor, suspeitam. Gwen, principalmente.

—Onde estavam?

—Acho que era uma mansão — algo revirou dentro de mim — Tomaram ela a força. Tinha uma pessoa morta lá.

Isaac empalideceu, desviando o olhar. Eu quase podia ver as engrenagens girando em sua cabeça.

—Eles também disseram — continuei — que eu posso... Mudar o futuro. Escolher o que vai se passar.

—Um caminho, um destino...

—Isso.

A garganta de Isaac se moveu quando ele engoliu em seco.

—Você disse — ele murmurou — que Gwen tinha mais certeza sobre isso que os outros...

Assenti, olhando atentamente para todos os detalhes de seu rosto. Os olhos azuis, gélidos, a linha rígida dos lábios, as sobrancelhas franzidas. Tive tanta vontade de estender a mão e toca-lo, dizer que o amava, mas que não podia levar isso a frente pois significaria sua morte. Apertei os punhos sob a mesa, meu coração encolhendo no peito.

—Ela tem alguma coisa envolvida com...

Sirena surgiu correndo para dentro da biblioteca, interrompendo Isaac no meio da frase. Ela caminhou afobada até nós, o rosto escarlate e os olhos escuros arregalados.

—Isaac — ela parou a um metro da mesa, erguendo as mãos como se quisesse parar água -, haja o que houver, não se irrite...

Vozes vieram do corredor e seis pessoas surgiram a porta, entre elas, Sarah. A supervisora olhou fixamente para Isaac, pregando os pés na entrada. Era como se um furacão estivesse se aproximando e ninguém pudesse fazer nada a respeito. Atrás dela um homem se aproximou, erguendo as sobrancelhas grossas para nós três. Tinha o cabelo castanho bem claro, grisalho em alguns pontos. Os olhos eram cor de café, e tão calorosos quanto. Ao seu lado estava um rapaz com as mesmas feições, apesar de ter o cabelo loiro escuro ao invés de castanho. Os olhos eram os mesmos do homem, marrons e gentis. No entanto, a gentileza parecia apenas uma máscara para a realidade, que pude ver de relance quando ele pousou o olhar em mim; sorriu de modo afetuoso, me examinando lentamente de cima a baixo.

Isaac se ergueu com tanta rapidez que pensei que ele fosse virar a mesa. Sacou sua faca de caça dentada sabe-se lá de onde e a segurou ao lado do corpo, as juntas dos dedos brancas e salientes. Sua postura era a mesma de quando treinávamos; ele estava pronto para atacar.

Coloquei-me de pé por instinto, me posicionando a frente dele. Sirena parecia que ia lhe dar um pescotapa caso fosse preciso. O rapaz na porta do recinto sorriu presunçoso.

—Sempre pronto, não é?

Ouvi Isaac exalar atrás de mim. Ele estava se segurando muito, se retesando, eu podia sentir isso através da tensão que ele passava para o meu corpo.

—Lucca, por favor, a última vez não foi o bastante? — disse uma mulher ruiva perto do rapaz. Reconheci-a da praça no Acampamento Júpiter, no dia que cremariam o corpo de Isaac. Ela estava com uma menina e as duas choravam abertamente, a dor visível em seus olhos.

—Tudo bem, Nicole — Sarah apertou os olhos, já pequenos, para Isaac, desafiando-o a não obedecê-la — Não vamos ter problemas hoje.

—Ah — o homem parecido com o rapaz, Lucca, se adiantou com um sorriso largo estampado no rosto. Ele claramente estava tentando aliviar o nervosismo — Você com certeza é Dayannya Garcia — ele estendeu a mão, que apertei relutante. O homem tinha sotaque, algo estrangeiro — É um prazer conhecê-la.

—Nova demais para você, Geoff — murmurou Isaac, ainda inquieto.

—Muito engraçado, rapaz — o homem, Geoff, bateu no ombro de Isaac que sorriu de lado, quase imperceptível. Olhei apreensiva para ele, que devolveu o olhar. Meu coração saltou no peito quando vi pânico sob o azul brilhante.

—Isaac, você pode chamar Dakota e Elias? — pediu Sarah, gentilmente — Precisamos deles na reunião.

—Não vai ficar muito tumultuado? Tipo, todo mundo na reunião... — começou Sirena, que foi interrompida pelo outro garoto.

—Vocês não. Só o sátiro e Dakota.

Sirena corou ainda mais, totalmente envergonhada. Notei o quanto de humilhação havia em seu semblante.

—Porque só os dois? — Isaac se dirigiu a Sarah, ignorando Lucca.

—Dakota é o mais velho e Elias é o foco da reunião...

—Dayannya também — Isaac estreitou os olhos — Ela podia ficar aqui...

—Isaac, por favor — Sarah suspirou — Não discuta comigo.

As faces de Isaac se mancharam de púrpura aos poucos. Sirena, com a cabeça baixa, saiu da biblioteca. Isaac agarrou o meu braço e me puxou para fora sem dizer nada. Quando passamos, Lucca olhou-o de lado, vitorioso. As portas duplas se fecharam atrás de nós e Isaac me prendeu na parede, me impedindo de me mover.

—Preciso que me conte todos os sonhos que tiver, a partir de agora.

Senti-me enrubescendo.

—To-todos?

—É, todos. E não fale nada para ninguém além de mim. Precisamos saber o que está acontecendo antes de Elijah.

Assenti freneticamente.

—Vá chamar os dois, Dake já deve ter chegado.

—E você?

—Vou tentar ouvir o que está acontecendo lá dentro. Eu te conto tudo, prometo.

Fiz que sim com a cabeça, novamente. Isaac me soltou e encostou-se à porta. Segui em direção à escada e, antes de descer, olhei por cima do ombro. Isaac murmurava consigo mesmo, a expressão fria e endurecida, do mesmo jeito que sempre ficava quando eu o observava de esguelha.

Ele parecia rígido como mármore, porém vulnerável. Como uma peça de xadrez.