Notas iniciais
Oi, gente! Faz um tempo que eu não posto porque, sinceramente, esse capítulo foi difícil de escrever - e mesmo assim, não ficou como eu queria - e também é por isso que está tão curto. Essa nota foi só mesmo para explicar o porquê da demora, mesmo que vocês não queiram saber. Aviso mesmo. Um beijo e boa leitura! ♥ —Mafê

Cruzei os braços sobre o peitoril da janela, olhando para a cidade. O sol já estava baixo, o céu começando a avermelhar. As ruas estavam exclusivamente lotadas naquele dia, anterior ao Dia das Bruxas. Eu mal podia acreditar que já estávamos em Outubro, levando em conta que conheci Isaac no meio de Setembro. Inclinei a cabeça sobre o ombro, pensando profundamente em Isaac. Um nó se formou em minha garganta, o frio correndo feito água pelos meus ossos. Minha relação com ele ficava cada vez mais difícil, especialmente depois que falei não para ele, que reprimi meus sentimentos, tudo ficou mais angustiante. Cada olhar, cada palavra trocada, me lembrava de quando ele “segurou meu rosto, me mantendo firme, fazendo carícias em minha pele e murmurando contra meus lábios, perguntando se eu estava bem...”

Cravei as unhas nas palmas, distraindo a dor emocional com dor física. Enterrei o rosto nos meus braços, omitindo um soluço. Algo gélido e molhado se esfregou em meu ombro e me esquivei. Gael ganiu, sentido, e se afastou de mim magoado. Ergui a cabeça, minha garganta ainda mais apertada enquanto ele oscilava os olhos dourados entre mim e as próprias patas negras. Estiquei a mão, acariciando seu flanco macio. Como eu sempre conseguia magoar os outros, por mais que eu tentasse o contrário, me era um mistério.

O lobo me encarava, os olhos revelando uma inteligência acima dos limites para um animal. O pelo longo e fino ondulava com a brisa suave que entrava pela janela. Mesmo deitado, ele era muito grande, enorme para os padrões de um lobo, com a elegância sutil, mortal e digna da espécie. Não, ele não é um lobo, lembrei a mim mesma. Ele era mais que isso. Em algum lugar dentro dele havia algo humano e eu sabia disso. Tinha absoluta certeza.
Toquei com as pontas dos dedos o colar de ouro que Isaac me dera. A lembrança daquela noite era um fantasma da esperança de que, talvez, o garoto pudesse sentir algo por mim. Tive tanta certeza na hora de que ele não me via apenas como amiga que me deixei levar pela minha afeição por ele, o momento envolvendo o beijo, as palavras de carinho...

—Eu sou tão burra.

Gael estreitou ligeiramente os olhos, que brilhavam com algum tipo de encorajamento. Não, pensei, não pode ser isso. Ele não pode saber pelo que eu estou passando agora. Vi-me encarando a porta do meu quarto. Isaac estava a poucos passos de distância. Eu podia ir falar com ele, podia explicar meus motivos e, se ele não ficasse zangado, esclarecer seus sentimentos por mim de uma vez por todas. Não era apenas a curiosidade gritando em minha cabeça, mas sim a dor de uma possível paixão platônica.

Olhei novamente para Gael, que esfregava lentamente o chão com o seu rabo espesso. Me levantei, indo até a porta com ele atrás de mim. Eu estava decidida a falar com Isaac, a saber a verdade, porém parei com a mão na maçaneta quando ouvi vozes do lado de fora. Encostei o ouvido à porta, prestando atenção.

—... E então vai fazer como com todas as outras — disse a voz orgulhosa e mesquinha do garoto louro, Lucca.

—E o que você sabe sobre ela? — A voz de Isaac estava ligeiramente arrastada, carregada de ódio e asco.

—Sei que é como qualquer outra vadia, que você leva para a cama e...

Lucca não completou a frase, sendo interrompido por um engasgo e uma batida forte na parede ao meu lado. Pulei de susto e, por instinto, abri a porta. Como imaginei pelo barulho, Isaac estava bem ao meu lado, o punho erguido, enquanto com a outra mão agarrava o pescoço de Lucca e o prendia na parede.
Estiquei a mão e segurei a sua, esperando o impacto, pois ele era muito mais forte do que eu. O punho dele se moveu, parando de repente. Senti Lucca suspirando de alívio contra as costas da minha mão. A raiva nos olhos de Isaac se dissolveu aos poucos quando ele focou em mim, o rosto corado. Recuperei-me do choque e empurrei-o pelo peito para longe de Lucca,com os olhos arregalados e fixos em mim, as mãos trêmulas de nervosismo.

Pensei em gritar com Isaac, perguntar qual era o seu problema, dizer que qualquer coisa lhe era motivo para arrumar briga. Mas eu ouvi o que Lucca disse, e Isaac tinha toda a razão de querer socá-lo.

Virei-me para o outro garoto.

—O que está fazendo aqui?

Ele entreabriu os lábios e em seguida os fechou. Ao menos ele sabia que nenhum motivo que inventasse seria bom o bastante.

—Você o protege agora — ele rosnou, dando meia-volta para voltar à biblioteca -, mas acredite em mim: esse imbecil só retribui por obrigação. Não devia confiar tanto nele.

Prendi o fôlego, mantendo o queixo erguido enquanto Lucca entrava na biblioteca, fechando a grande porta escura e dourada atrás de si.

—Você ouviu tudo? — Isaac parecia cansado e derrotado, a voz baixa e rouca.

—Só... A última parte.

Depois do que ouvi, estranhamente muitas coisas pareceram fazer sentido; o romantismo da parte de Isaac, o afeto, o modo como ele facilmente conseguia me seduzir...

—Ele é um idiota — disse Isaac, abatido — Tem raiva de mim por... Uma coisinha à-toa.

—O que você fez? — murmurei me virando, olhando diretamente para ele pela primeira vez — Quem é ele?

—Lucca Antonelli — pelo tom de Isaac, sua garganta estava rasgando para as palavras saírem — O irmão da Peggy.

Algo amargo subiu para minha garganta, me enjoando, porém não mais do que ouvir aquilo.

—O irmão... — cobri a boca com as mãos — Ah, Zeus!

—Eu que o diga.

—Mas então... — minha cabeça girava — Peggy se juntou com Vince, então Lucca...

—Lucca ainda tem bom senso. Pelo menos um pouco.

—Mas...

—Daya, pare de gaguejar — apesar do tom de impaciência, Isaac sorria — Por favor.

—É que é tudo tão confuso — apoiei-me à parede, torcendo a barra da minha camiseta entre os dedos — Por falar nisso, onde está Peggy? O que aconteceu com ela?

—Não tivemos mais notícias, ela simplesmente sumiu do acampamento — Isaac dá de ombros, displicente — Era disso que eu e Lucca estávamos falando.

—Ah — senti meu rosto esquentando — Ah...

—Você pensou o que? — imediatamente as faces de Isaac ficaram vermelho vivo, os olhos incrivelmente claros. Percebi que eu devia estar com a mesma expressão.

—Nada. — Estrilei, minha voz uma oitava mais aguda. Parecia que um bonequinho de neve corria a toda velocidade pela minha barriga — Nada, eu apenas... — inspirei com força, decidindo que era hora de mudar de assunto. Eu realmente não queria saber nem mais um pouco sobre a relação que Isaac teve com Peggy — Como foi a reunião? Ouviu alguma importante?

—Ouvi, ouvi sim — o rosto de Isaac voltava à cor normal lentamente — Vão levar o Elias para o Central Park depois de amanhã. Vince vai estar lá, recrutando aliados.

Puxei uma mecha de cabelo, enrolando e desenrolando-a no dedo. Gael, sentado ao lado de Isaac, me observava com a cabeça inclinada para o lado, as orelhas caídas. Quase sem perceber comecei a andar de um lado para o outro.

—Se sabem onde Vince vai estar...

—Poderiam torturá-lo até ele dizer onde está Elijah — completou Isaac como se lesse meus pensamentos — É, eu pensei isso também. É por isso que vou com eles.

—Não entendi...

—Tem alguma coisa errada — ele franziu a testa, afastando o cabelo dourado da frente do rosto — Elijah está planejando alguma coisa; porque ele vê o futuro...

—E eu posso mudá-lo. Não sei como, mas posso.

—Acho que depende de uma questão de ponto de vista — Isaac diminuiu o volume da voz — Tipo, se você soubesse que um pássaro está voando diretamente para a sua janela; você a abre, ou deixa a ave se machucar?

Ele tinha razão. De algum modo eu mudava o futuro, mesmo que isso fosse apenas fazer escolhas entre diversas opções, e cada uma traria uma consequência. Eram milhões de possibilidades, e ao pensar nisso um sonho que tive há semanas me veio a cabeça, quando eu estava com Callum; o sonho em que fui para o quarto de Isaac. Ofeguei quando percebi que, se ao invés de ir para Call eu houvesse ido para Isaac, aquilo teria acontecido. Eu fiz a escolha, e tive um futuro diferente

—Daya? Está tudo bem?

—O que? — ergui os olhos, aturdida, estremecendo ao notar que Isaac segurava meus pulsos firmemente.

—Você começou a... Murmurar, e estava pálida. O que aconteceu?

—Eu acho — esfreguei as têmporas, fechando os olhos com força — que estava delirando, só isso. Eu preciso descansar.

—Agora? — Isaac fez uma ligeira careta de decepção — Eu queria falar com você.

Meu coração saltou, retumbando tão forte quanto uma bateria.

—Sobre o que?

—Eu... — Ele erubesceu — Não sei direito.

Não pude deixar de sorrir, mesmo sentindo uma pontada de desilusão.

—Acho que preciso pedir desculpas — a timidez transpareceu na voz de Isaac. Ele encolheu os ombros, olhando incerto para mim. O sorriso foi apagado imediatamente do meu rosto.

—Pelo o que?

—Pelo outro dia — ele corou intensamente — Fui um imbecil por ter feito aquilo. Não estava pensando direito.

Teria sido menos doloroso se ele tivesse enfiado uma faca em meu peito. Foi como se uma abertura surgisse em meu coração; senti o sangue subindo e vazando de meu rosto, minha pele formigando.

—Gwen me fez beber alguma coisa — Isaac continuou quando não falei nada, olhando estática para ele — Não consegui impedir, foi por isso que... Fiz o que fiz. Também queria me desculpar por ter arriscado sua vida.

—Eu sei me virar — falei quase que automaticamente, lutando para minha voz não sair tremida — Não tem problema, Isaac. Não sou de vidro.

—Sei disso — um sorriso brincou em seus lábios — Sei que você é mais forte do que parece, mas é que... Eu estou me sentindo um inútil.

—Você não é inútil, muito pelo contrário. E sobre aquela outra... Coisa... Está tudo bem.

—Sério?

—Sério — tentei sorrir, no entanto minha boca parecia rígida — Afinal, somos só amigos. Eu sabia que tinha alguma coisa errada.

Por um momento vi o relance de alguma coisa nos olhos de Isaac. Ele assentiu, rapidamente, desviando o olhar para as portas da biblioteca e passando os dedos pelo cabelo, desarrumado-o. Me senti tentada a esticar a mão e arrumá-lo, simplesmente tocar nele por puro desejo.

—Você devia ir descansar. Podemos falar dos sonhos amanhã.

Murmurei um sim e me virei, caminhando rapidamente de volta para o meu quarto, fechando a porta assim que Gael entrou.

Joguei-me na cama, olhando fixamente para o teto, repetindo as palavras dele em minha cabeça. Eu estava errada; sempre estive errada. Achei que o beijo pudesse significar algo, o brilho nos olhos dele, sua voz rouca de desejo...

Foi só um sonho. Tudo no que botei esperança foi apenas um sonho.