Filha de Apolo - Electricity
14 Vincos
*Isaac*
Puxei o maço de cigarros Marlboro de dentro do bolso do jeans, pegando um deles e colocando entre os dentes. Com as mãos ligeiramente desajeitadas apalpei os bolsos da calça à procura de um isqueiro. Descobri que deixei-o em casa.
—Porcaria — resmunguei entredentes, tirando o cigarro de minha boca — Darius, tem isqueiro aí?
Darius ergueu os olhos perolados para mim, o rosto todo franzido e enrugado. Levou a mão esquelética para baixo do balcão e me jogou uma caixa de fósforos.
—Pedi um isqueiro.
—Vou enfiar esses fósforos no seu...
—Darius, tenha mais respeito! — exclamei, acendendo o cigarro — Há damas no recinto.
A garota do outro lado do balcão me lançou um olhar de esguelha, esticando as costas e empinando o peito. Devolvi o Marlboro à minha boca, tragando lentamente enquanto varria a menina com os olhos.
—Me dê um — ordenou o filho de Hécate, estendendo a mão para mim. Ergui as sobrancelhas.
—Agora há pouco você queria tirar minha dignidade com um fósforo.
—Se não me der um, vou te colocar para fora.
Rolei os olhos para o teto, empurrando para ele o maço. Darius deu uma leve sacudida num cigarro e este se acendeu magicamente, com a fumaça subindo roxa.
—Também quero fumaça colorida.
—O que deu em você hoje? — Darius puxou as mangas da camisa até os cotovelos, me observando atentamente com seus olhos brancos e ásperos. Não precisei responder, pois ele ergueu uma sobrancelha cinzenta, entretido. Eu quase podia sentir o velho remexendo em meus pensamentos — Sarah não vai gostar se você chegar no Reformatório de ressaca.
—Ainda nem comecei a beber...
—Você anda tão bêbado ultimamente, que nem precisa beber. Vem aqui, toda semana, enche a cara e o meu saco, reclamando da vida e se lastimando pelo quando é dura a vivência de um amor platônico e incompreendido. Diga que não é verdade.
—Não é verdade.
—Você é um amor de menino — Darius inclinou singelamente a cabeça na direção da garota que, a esse ponto, tinha a blusa tão aberta que a renda do sutiã rosa shocking era visível. Baixou a voz: — Ela também achou isso. E é virgem, se eu fosse você não perderia tempo.
—Cuidado com esse cara — me dirigi à menina, apontando com o cigarro para Darius — Ele é um pedófilo descarado.
Imediatamente ela fechou a blusa, o olhar assustado.
—O que aconteceu hoje? — perguntou Darius, se virando apenas para encher um copo com vodka e entregá-lo ao homem do meu lado — Conte-me suas decepções.
Inspirei profundamente, sentindo meus olhos pesados, o fumo já fazendo efeito. Apoiei a cabeça em uma mão, encarando o balcão à minha frente. Ainda sentia uma apunhalada sempre que lembrava do que Dayannya disse: “Afinal, somos só amigos. Eu sabia que tinha alguma coisa errada”.
—Hmm, essa doeu — murmurou Darius, o cenho franzido. Eu já me acostumara com ele dividindo todas as minhas memórias e pensamentos, mas jamais gostei disso.
—Nunca me senti tão... Arruinado.
—Você devia ter se declarado.
—Pra ela rir da minha cara?
—Eu duvido que ela fosse rir — Darius cruzou os braços sobre o balcão, me encarando na altura dos meus olhos — Você teria tido uma grande chance de ela dizer que sentia o mesmo.
—Depois de tanto tempo me rejeitando? Mais de um mês, Darius, e tudo o que ela fez foi dizer: “Não”. Você acha que eu já não tentei dizer o que sinto? É difícil, ok? É difícil dizer para uma pessoa que você a ama, sendo que você nem tem certeza sobre os sentimentos dela. Já me iludi demais, me cansei disso.
—E você vai simplesmente desistir?
Engasguei, as palavras dele me atingindo como uma série de bofetadas. A última vez que me disseram isso, foi quando não consegui fazer o que Netuno me mandou, eu tinha oito anos. “E você vai desistir?” sussurrou ele em meu ouvido, manso, agarrando meu queixo firmemente “Apenas os fracos desistem, Isaac. E você não é fraco” o aperto dele ficou mais forte, marcando minha pele “Não te criei para isso”.
Pisquei aturdido, meu coração tamborilando no peito.
—Não — tudo estava embaralhado em minha mente — Espere. Sim. Ah, eu não sei!
—É normal estar confuso.
—É que... — de repente senti que precisava desabar, colocar tudo para fora de uma vez. As palavras saíram de minha boca em uma enxurrada — Se ela não está a fim, porque deixa que eu a beije? É sempre assim: nos beijamos, ela se entrega por alguns segundos e então me afasta...
—Pelo que estou vendo — resmungou Darius enquanto servia conhaque para mim. Virei tudo em um único gole -, você já fez a mesma coisa. Tarde da noite, numa ponte, o cheiro de corpos suados e perfume...
—Ela me disse a mesma coisa horas antes! — Eu quase berrava, o sangue fervendo pelo meu corpo — Ela disse, explicitamente: “Nós somos só amigos!” — sentia a raiva borbulhando em minha cabeça, a ira me acometendo. Minha mão tremia quando apertei o copo de conhaque — E daí ela me agarra! O que você esperava que eu fizesse?!
—Eu dormiria com ela...
—Eu estou... — era tanta coisa em minha cabeça, que não consegui encontrar a palavra certa — Ela está me deixando louco!
Darius riu suavemente, balançando o cigarro entre os dedos.
—Tão jovem, e tão perdidamente apaixonado.
Traguei a fumaça do cigarro com força demais, fazendo minha garganta e narinas arderem.
—Não sei mais o que fazer — esfreguei os olhos com as costas das mãos — Realmente vale a pena passar tudo isso por uma garota?
—Tudo vale a pena por quem você ama.
Olhei por cima do ombro, analisando o bar; estava lotado naquela noite, sobrando apenas uma única mesa vazia, no canto mais escuro e frio.
Pouquíssimas pessoas me olhavam de esguelha, cochichando para os colegas ao lado. Minha tatuagem de tridente estava exposta, escura como nanquim estampada em meu antebraço; havia deixado a jaqueta em casa, sem ter com o que cobrir a única coisa que evidenciava minha linhagem. Voltei a atenção para Darius, que assobiava descontraído, mas com certeza mexendo em minha memória.
—Eu morreria por ela — murmurei, largando o cigarro sobre o balcão -, mas eu só queria que as coisas fossem mais fáceis.
—Converse com ela — Darius não olhava para mim — Declare seu amor para ela.
—Não, eu... Vou deixar as coisas se resolverem sozinhas. Se nada acontecer, talvez eu a esqueça com o tempo.
—Nunca se esquece o primeiro amor. O meu foi há quarenta anos, e nunca a esqueci.
—Aposto que você fica tentando saber o que ela pensa...
—Não posso utilizar meus poderes nos mortos — Darius me lançou um olhar distante, melancólico. Senti um nó se formar em minha garganta — Cuide bem de sua menina.
Ele me soprou um beijo e foi atender uma mesa. Ignorando a garota que havia se levantado apenas para se sentar mais perto de mim, cruzei os braços sobre o balcão e enfiei minha cabeça entre eles. A madeira cheirava a fumo, perfume masculino e álcool. Fiquei imaginando quantos outros caras Darius teve que aguentar, sendo que ele mesmo sofria por tanto tempo, por uma única mulher.
Repentinamente, o ar sumiu meus pulmões.
Minha visão ficou turva por um segundo de desespero, até que a luz surgiu, quase me cegando. Apertei os olhos marejados, esfregando-os com os punhos. Pisquei várias vezes, até perceber que a luz já havia sumido. À minha frente se encontrava um templo branco e reluzente, e não o balcão do bar, as prateleiras cheias de bebida. Olhei em volta, transtornado; o céu estava escuro, como antes, no entanto não chovia mais e fazia calor. Entre as colunas do templo fechado, encontravam-se estátuas de mármore branco, todas de mulheres, e muito familiares. A única entrada para o interior do templo era uma cortina vermelha, bordada em fios de ouro.
Sem entender,olhei em volta novamente. A paisagem não era visível, pois uma névoa perolada encobria tudo, contornando meus tornozelos. Da construção alta vinha um odor estranhamente adocicado, enjoativo. Por algum motivo aquele cheiro estava me excitando; lembrava vagamente o perfume de Dayannya, recordando-me da sensação de tocar a pele dela, acariciar o cabelo com os dedos, sentir os lábios suaves contra os meus..
Franzi a testa, a respiração entrecortada quando me aproximei da cortina, empurrando-a com a ponta dos dedos. Lá dentro o cheiro se inintensificou, me lembrando da primeira vez que a beijei, a primeira vez que fiquei realmente feliz por ter conquistado uma garota. O sangue subiu para o meu rosto quando vi que, do outro lado do recinto havia um divã da mesma cor que a cortina; e, sobre o divã, estava provavelmente a mulher mais atraente que eu já tinha visto.
O cabelo dela parecia mudar de cor, de louro para moreno e disso para ruivo, alternando-se entre cacheado e liso. Suas feições também mudavam, porém não grotescamente; a cada segundo ela parecia ficar cada vez mais linda, se é que era possível. Usava um vestido longo de seda roxa, o decote em V mostrando mais do que devia ser apropriado. Sorria de um jeito doce, encantador.
Senti algo saltar em meu peito; o nome Dayannya não fazia mais sentido. Eu não me lembrava mãos do rosto dela, de seu cheiro, de seu gosto. A moça do divã riu suavemente, e Daya voltou a minha cabeça. No entanto, um arrepio percorreu todos os meus ossos, gelando meu sangue.
—Você é mais interessante pessoalmente do que achei que seria.
Engoli em seco, tateando atrás de mim. A cortina havia sumido.
—O que foi? — a voz da mulher parecia música — Está com medo? De mim?
Compreendi quem era ela. Por tantos anos fiquei tentando imaginar a aparência da deusa, já que ela era a mais prestigiada. No entanto, quando tentei dizer seu nome, a única coisa que saiu de minha boca foi um balbucio.
—Você é tão fofo — Vênus riu, entretida, os olhos mudando de verde para azul — Uma pena que eu não possa te fazer de brinquedo. Acho que devo esse privilégio à filha de Apolo.
—Perdão, como? — minha voz voltou repentinamente, espantada.
—Ah, bobinho — Vênus se inclinou para a frente, o cabelo, agora muito longo, envolvendo o corpo curvilíneo — É tão divertido observar como você reage à tudo isso. Devo dizer que Netuno conseguiu estragar algo aí dentro, mas nada que eu não resolva.
—Ah... — minha cabeça parecia estar girando em meio à confusão. As tochas ali dentro deixavam tudo precariamente iluminado — Eu não entendo... Porque a senhora me trouxe aqui?
—Para conversarmos. Não era isso que queria?
—Sim, mas...
—Então perfeito — ela juntou as mãos sobre o colo, os olhos brilhando ainda mais — Imagino que esteja tendo dificuldades em sua relação com Dayannya Garcia. Oh, espere — ela fez um gesto de desdém -, é claro que está. Estou de olho em sua vida amorosa há muito tempo.
Não falei nada.
—Acho que, pelo o que Charlotte lhe contou — a deusa continuou, gesticulando com a mão -, gosto de deixar os relacionamentos mais... Interessantes. Especialmente o seu e de Dayannya.
—Porque?
—Porque quero provar a Netuno que ele estava errado — Vênus franziu o cenho, fazendo biquinho — Pelo pai, 9 anos dizendo a um garoto que é errado se apaixonar? isso é um ultraje! A melhor coisa do amor é a dor da paixão. Prazerosa, entende? Ser amado de volta é melhor ainda — ela suspirou — Como já disse, você é muito fofo. Sempre tentando imprecionar ela, uma menina tão difícil. Achei tão lindo você ter morrido por amor, para salvar a vida dela.
—Ah, sim, achei realmente incrível a experiência de virar um espetinho — comecei a ficar com raiva. Como Vênus podia se entreter com aquilo?
—Não vai parar aí, Isaac — Vênus sorriu, mas havia algo parecido com impaciência em seus olhos — Quanto mais complicada uma relação, mais romântica é. Todo o esforço, a vontade de ser amado. É por isso que vou colocar obstáculos entre os dois, para que as coisas fiquem mais excitantes.
—M-mas...
—A guerra e o amor andam lado a lado. Que outro modo melhor de demonstrar seu amor do que em uma batalha por causa dela?
—Então a senhora vai... Ajudar Elijah só por isso?
—Só por isso? Estou te ajudando!
—Ajudaria mais se não se intrometesse. — Soltei sem pensar. Mordi o lábio, esperando ser transformado em uma doninha, ou em um golfinho. Ao invés disso, Vênus pareceu mais caridosa, como se falasse com uma criança e esta não entendesse nada.
—Você ainda vai me agradecer — ela ergueu o queixo — Para começar, posso facilitar em algo que está te perturbando. Mas antes... — ela se levantou, o vestido arrastando no chão. Por um momento achei que estivesse ficando maluco; Vênus encolheu de tamanho, a cintura ficou mais fina e o busto mais estreito. Seu rosto também mudou, para um formato que eu conhecia muito bem. O cabelo ficou longo, cacheado e cor de chocolate. Os olhos, direito azul e esquerdo verde, fizeram meu coração saltar. A pele pálida se transformou em morena clara. Tudo nela mudou em algo muito mais belo que antes. Seus lábios carnudos e rubros se ergueram nos cantos, de um jeito que Dayannya nunca sorriu para mim. Não, lembrei, ela não é Dayannya — Eu quero você.
Me senti paralisado. Vênus estava idêntica à ela; o mesmo cabelo, os olhos, o corpo, até a voz. A deusa estava próxima, próxima demais. O perfume dela também era o mesmo de Dayannya. Ela colocou a mão pequena sob meu queixo e o apertou sutilmente. Os lábios entreabertos em um sorriso singelo.
—Você a vê quando me olha — sussurrou, provocante, a voz como um ronronar — Não é mesmo?
Me senti ávido por beijá-la, despi-la, senti-la totalmente minha e de mais ninguém. Mas eu não podia. Aquela não era Dayannya.
—Não — afastei-a, as mãos trêmulas, o sangue borbulhando em minhas faces.
Vênus sorriu, se distanciando de mim. Ela deixou de ser Dayannya e suspirei aliviado. O suor grudava meu cabelo à nuca.
—Olhe no cabo de sua faca — ela disse, cruzando os braços sobre o peito — Espero que ajude.
Ergui a cabeça, inspirando com força. A luz incidia nas garrafas organizadas nas prateleiras à minha frente; azuis, verdes, amarelas e transparentes. Arregalei os olhos, me virando no banco. O bar continuava do mesmo jeito; ninguém parecia ter mudado de posição desde a conversa que tive com Vênus. Todos estavam em seu lugares, ninguém havia saído, a chuva continuava caindo lá fora. Darius conversava com o mesmo homem com que estava falando antes. A menina perto de mim passava batom. Eu me sentia atordoado.
—Você está bem, garoto? — perguntou Darius apertando meu ombro, a expressão preocupada naquele rosto velho e tão familiar — Parece que viu...
Antes que terminasse, me inclinei para baixo e puxei minha faca de caça de dentro da bota. Tateei o cabo, em busca de algo, mas ele estava como sempre; madeira preta com rebites prateados. Darius não calava a boca atrás de mim, perguntando o que estava acontecendo. Passei a unha pelo cabo da faca, a respiração ofegante quando achei um pequeno vinco. Eu já conhecia aquilo, uma lasca que sempre esteve lá, mas depois daquela conversa...
Tentei puxar o cabo. A lasca estava bem na divisão da madeira, onde as duas metades se juntavam. Tudo o que consegui foi quebrar as unhas e fazer a ponta dos meus dedos sangrarem.
—Darius, uma faca.
—Mas...
—Darius! — tentei não gritar, mas foi quase impossível. Darius, assustado, foi para trás do balcão. Depois de remexer em uma caixa ele me deu uma pequena faca normal, um talher. Enfiei a ponta da lâmina no vinco da minha e empurrei com força. Quando o cabo não se moveu, bati com o punho na faca, para que ela entrasse mais na madeira. Meus dedos escorregavam pela faquinha enquanto eu empurrava para cima, feito uma alavanca. Ouvi um barulho e os rebites afrouxaram. Puxei de novo com minhas próprias mãos e o cabo se soltou.
Aprendi à montar facas desde pequeno. Duas metades de um cabo, para poderem segurar a lâmina firmemente, presa por pregos ou parafusos. Essa não era diferente, se não fosse por um detalhe; no meio das metades havia um buraco quase retangular e, encaixado nele, um relicário de ouro. Darius arregalou os olhos, olhando de mim para o relicário.
Ergui a peça com as mãos trêmulas. Era cravejado por pedrinhas verdes, a corrente de ouro pesada feita de elos pequenos. No centro da portinhola havia um pequeno buraco, no formato oval. Tentei abrir a jóia, mas sem sucesso. No fundo do buraquinho havia um desenho singelo, em relevo, no formato de uma rosa minúscula.
Nunca prestei muita atenção antes, mas eu tinha certeza de que conhecia aquele desenho e sabia o que era o buraco.
—Eu preciso ver Dayannya.
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