Filha de Apolo - Electricity
15 Quebrada
Notas iniciais
O celular escorregou de minha mão suada e prendi-o entre minha cabeça e meu ombro antes que caísse no chão. Com a mão agora livre, peguei a borracha e apaguei uma linha da música que estava escrevendo, ligeiramente distraída com minha mãe tagarelando em meu ouvido.
—Você vai vir, não é? — ela perguntou, a voz abafada — Os rapazes estão muito ansiosos, e eu estou morrendo de saudades. Além do mais, Jordan não vai te perdoar.
—Eu sei, mãe — peguei o lápis, reescrevendo o refrão — Mas não sei se vão me deixar ir. Um cara está aqui no Reformatório por minha causa, acho que não...
—Qualquer coisa, eu falo com a Sarah. Você já está fora há dias!
—Hum — reli a música, ainda insatisfeita. Aquela era a terceira folha que eu estava amassando, e minha mãe não deixava eu me concentrar, só falando no jantar que Jordan organizara, que seria bem no dia em que a banda tocaria naquele mesmo restaurante. É claro que foi tudo detalhadamente combinado para que ele pudesse pedir a mão de minha mãe. Eu havia ajudado em tudo — Vou ver o que posso fazer. Isaac com certeza vai ficar bravo.
—Ele pode vir, se estiver preocupado com você. Gosto dele.
E com isso, desligou. Coloquei o celular do meu lado no chão, suspirando enquanto preparava outra folha de meu caderno. A sala de treinamento, agora silenciosa, foi o único lugar que consegui encontrar paz para compor. Com a mente livre, as palavras pareciam fluir do lápis para o papel, formando frases e mais e mais linhas. Era um dueto sobre a paixão entre dois amantes e, no momento, era a única coisa em minha cabeça. Teo iria gostar, nossas músicas juntas eram sempre daquele tipo, mas esta parecia ainda um pouco... Íntima. Era como se eu confessasse tudo no papel, colocando minhas esperanças e o que passei até ali...
O lápis voou de minha mão quando ouvi batidas as portas, o frio subindo pela minha espinha. Estiquei-me para pegar o lápis que caira debaixo de uma estante com pesos.
—Pode entrar. — Eu não sabia porque alguém bateria na porta dali, se a sala de treinamento era aberta para qualquer um, mas achei que aquela resposta fosse a mais apropriada à situação.
As portas duplas se abriram e Isaac entrou, segurando uma caixa de papelão nos braços descobertos. Em uma fração de segundo tive consciência do meu cabelo bagunçado, a barriga aparecendo e o caderno de músicas em minha mão — sem falar da posição estranha em que eu estava. Minha cabeça se ergueu de um ímpeto, batendo na estante. O caderno escorregou até o centro da sala, espalhando os papéis soltos. Gemi de dor, segurando a área onde bati, enquanto Isaac largava a caixa em um banco e ia até mim.
—Você estava limpando o chão? — ele afastou meu cabelo, passando os dedos pelo galo que se formava. O frio tomou conta de meus ossos ao mesmo tempo que meu rosto esquentava.
—Estava, com o meu cabelo.
—Hum — ele se afastou, juntando as folhas espalhadas — Espero que você não se importe em ter um chifre.
—Claro que não me importo. Sempre quis conhecer meu unicórnio interior.
Isaac sorriu, distraído enquanto organizava as músicas, lendo rapidamente as letras. Fiquei observando-o de lado, virando o caderno nas mãos.
—Você que escreve?
—É, são... Para os meus amigos — peguei o a pequena pilha que ele me estendia, as músicas ordenadas por ordem alfabética. Como ele fizera aquilo tão rápido, eu não tinha a menor idéia — Eles tocam.
—Já pensou em seguir carreira com isso? — Ele perguntou, sem olhar para mim. Havia se sentado ao lado da caixa e estava remexendo no conteúdo que fazia muito barulho — Você escreve bem.
—Obrigada — lembrei do que ele me perguntou uma vez, se eu iria fazer faculdade. Eu nunca pensei muito no que faria depois do ensino médio, para que universidade eu iria — Na verdade, eu nunca tinha pensado nisso — minha atenção se voltou para a caixa — O que tem aí?
—Armas — os olhos azuis dele se iluminaram. Ele ergueu um revólver envolto em couro preto, o cano prateado refletindo a luz fluorescente da sala — Tem balas de prata. Idéia do Geoff.
—Vai ser útil — ergui-me e me sentei do seu lado no banco, espiando o conteúdo da caixa; estava lotada até a boca com armas de fogo, de vários tamanhos e calibres. Entre elas, caixas de munição se destacavam por suas balas pontiagudas e excessivamente brilhantes — Você acha que vamos mesmo precisar?
Notei que Isaac hesitou, os lábios tensos.
—Precaução nunca é demais.
—Não precisa mentir pra mim. Eu sei dos ataques.
Naquela mesma manhã, enquanto passava em frente à biblioteca, ouvi Sarah e Geoff conversando sobre ataques em Nova Iorque e outras partes do país, os corpos mutilados de semideuses e outras criaturas. Não muito longe do Reformatório encontraram o corpo de um fauno, mutilado e com partes do rosto cortadas.
—Estão procurando por ela. Por qualquer um que saiba dela — dissera Sarah, a voz carregada de receio — Tenho medo de que a encontrem. Não sei o que fariam com tanto poder em mãos.
Estremeci ao lembrar daquilo.
—Isso vai passar — disse Isaac, tranquilizador, munindo o pente do revólver em sua mão — Não tem como te encontrarem aqui.
Encarei a janela, o céu noturno lá fora sem nenhuma estrela. Fiquei pensando no jantar combinado da noite seguinte; Isaac jamais me deixaria ir.
—Então — limpei a garganta -, sobre isso...
Ele ergueu a cabeça, tirando o cabelo dourado da frente do rosto.
—O quê?
Olhei receosa para a arma em sua mão.
—Deixa pra lá — antes que ele dissesse algo, continuei — Se Elijah está procurando por qualquer um que saiba de mim... Tipo, e de ele for atrás de minha mãe de novo...?
—A casa do seu padrasto está protegida com os mesmos feitiços do Reformatório — ele explicou. Quando franzi a testa, confusa, ele fez um gesto de desdém com a mão — É coisa demais para ser explicada em detalhes. Nem mesmo eu entendo toda a magia envolvida. O que você precisa saber é que nenhuma criatura provida do Tártaro pode nos encontrar.
—Então... Os monstros não sabem nossa localização?
—Não. Porque você acha que não ligamos se vamos usar celular ou não?
Para nós, semideuses, usar celular era uma coisa complicada. Sem explicação, os monstros sabiam onde estávamos apenas pelo fato de discar o número de alguém. Era como lançar um sinalizador que explodisse em fogos de artifício dizendo: “ME COMAM!”
—Eu achava que você simplesmente não se importasse em ser devorado .
—É, e isso também.
Sorri, descontraída, apoiando as costas na parede atrás de mim. Isaac colocou a caixa debaixo do braço e foi até uma estante com portas de vidro.
Enquanto ele arrumava as armas nos suportes da estante, observei-o atentamente; usava jeans e camiseta cinza, amassada e desbotada. O cabelo estava úmido, assim como as roupas, e as botas eram marcadas pela poeira da rua. No pescoço uma corrente de elos dourados reluzia, sumindo dentro da camiseta. Depois de uns segundos percebi que nunca tinha visto aquela corrente. Inclinei-me para a frente, tentando olhar mais de perto, porém ele se virou. Voltei a posição normal, fingindo não notar que ele guardava um dos revólveres no cós do jeans.
Isaac ergueu uma sobrancelha, os ombros tensos.
—O que você estava fazendo?
Meu rosto ardia.
—Nada — desviei o olhar quando ele passou na minha frente, indo pra o outro lado da sala. Isaac cheirava estranhamente a fumaça, metal e álcool — Onde você esteve o dia todo?
—Procurando munição para as armas — quando falou, seu olhar tremulou levemente. Franzi a testa, cética.
Pensei em perguntar sobre o odor de fumaça e a corrente, mas fui interrompida quando as portas da sala se abriram. Lucca ergueu o queixo, enojado ao ver Isaac. Olhando agora, mais atentamente, ele se parecia muito com a irmã; o mesmo cabelo loiro escuro e liso, os olhos castanhos, a postura arrogante e superior. Estava com um casaco bege, dobrado até os cotovelos, revelando os punhos da camisa branca.
—Pensei que fosse voltar mais tarde — resmungou, desgostoso. Isaac não olhou para ele, mesmo que parecesse irritado.
—Acontece que eu moro aqui — respondeu com suavidade surpreendente. Eu não gostava quando ele parecia assim tão calmo — Não tenho hora certa pra ir e voltar.
Lucca voltou os olhos escuros para mim, me inspecionando. Isso chamou a atenção de Isaac e meu olhar encontrou o dele.
—Você não estava procurando sua gata? — Lucca perguntou casualmente — Acho que vi ela na sala de música.
—Ah... Obrigada — arqueei surpresa as sobrancelhas. O clima de tensão pareceu apenas aumentar.
—O que você quer, Antonelli? — O tom de Isaac deixava claro que ele queria que o outro fosse embora logo.
—Queria conversar com a senhorita Garcia — Lucca não tirava os olhos de mim, deixando-me desconfortável.
—Você não vai ficar sozinho com ela — Isaac se afastou dos alvos na parede, os quais estivera examinando — nem por um ssegundo.
—Tenho certeza de que ela não pertence a você.
—Ela não pertence a ninguém — Isaac empurrou Lucca contra a parede, segurando com força o colarinho de sua camisa. Pus-me de pé, alarmada — Ela não é uma arma, como você diz....
—Isaac — segurei seu braço, puxando-o para longe de Lucca -, não tem problema...
—Não quero que ele trate você como se fosse um objeto.
—Eu... — senti algo esquentando em meu peito — Deixa isso pra lá. Não ligo pro que ele diz.
Lucca piscou, parecendo indignado. Isaac ainda estava receoso.
—Porque a gente não vai jantar fora? — sussurrei, tomando cuidado para que Lucca não ouvisse. Mesmo que eu não gostasse dele, não queria que ele soubesse que eu o estava excluindo. Isso seria uma atitude digna do selo Annie Genkies — Vamos chamar os outros. Deixa ele pra lá, eu não quero te ver irritado a semana inteira.
Isaac suspirou, passando a mão pelo rosto.
—Tá, pode ser.
Alcancei meu suco no centro da mesa, envolvendo as mãos no copo gelado de plástico.
—Pensei que o Darius só trabalhasse com bebida alcoólica.
—Se fosse assim — Isaac virou uma batata frita na mão — ele não ganharia dinheiro com menininhas como você.
—É que isso é um bar...
—Vira um restaurante quando estou de bom humor — quase pulei para fora do banco quando Darius pareceu brotar ao meu lado, sussurrando em meu ouvido. O velho usava um avental florido, muito contrário à sua aparência — Também sirvo coquetéis de frutas, almoço e jantar. O happy hour aqui é uma loucura.
Ele colocou uma bandeja na mesa com a nossa comida. Sirena puxou seu prato para si enquanto mexia no celular. Isaac pegou o dele e empurrou-me o meu e Chris distraído, arrastou sua salada para perto dele. Estávamos apenas nós quatro ali porque os outros estavam ocupados demais com outras coisas; Elias passara o dia todo na biblioteca com Sarah e Geoff, para que pudessem detalhar o plano para o dia seguinte e Dakota saiu com a Sierra. Gael apenas não viera porque ele não poderia entrar no estabelecimento. Na verdade eu estava bem feliz por ter pelo menos Sirena por perto.
—E nem pense — retrucou Darius apontando um dedo esquelético para mim, os olhos sem cor semicerrados — em dizer que minha comida é ruim. Só quem nasceu duas vezes pode me dizer isso.
Isaac baixou o copo de Coca-Cola.
—Eu nasci duas vezes.
—Cale a boca, menino — Darius deu meia-volta e foi para o corredor atrás do balcão, provavelmente indo à cozinha.
Revirei os olhos e me voltei para a janela ampla atrás de Isaac, observando os enfeites nas casas ao longe. A lua já estava alta, cheia e prateada. As abóboras com rostos pareciam piscar sempre que uma criança passava correndo na sua frente, fazendo a chama da vela tremular. Grupos de meninos e meninas, carregando vários tipos de baldes e sacos, se reuniam e discutiam o que conseguiram ganhar. Aqui e ali adolescentes cuidavam de seus irmãos, com cara de quem preferia estar morto. Uma menininha vestida de bruxa passou correndo em frente à janela, levando um cachorro pequeno e gordo que usava um chapéu pontudo. Fiquei impressionada por até mesmo aquela rua sinistra e inabitada estar cheia de abóboras e luzes, e com muitas pessoas passeando pela calçada.
—Teoricamente, você não nasceu duas vezes — disse Sirena, o garfo pairando em frente à boca pintada de vermelho — Você nasceu na primeira, quando saiu do ventre de sua mãe, e renasceu na segunda, quando sua alma simplesmente voltou pro corpo.
—Bem, morrer e renascer já me dá certo crédito — Isaac inclinou-se sobre a mesa, erguendo uma sobrancelha e um sorriso torto brincando nos lábios — Então, teoricamente, eu sou o cara mais badass do país.
—Também podia ser um pouco mais modesto — Chris não olhava para ninguém quando falou.
—O que é a modéstia se comparada à minha arrogância?
—É um pozinho — falei, enrolando a espaguete no garfo — de inexistência.
—Deuses, estou chocado! — Isaac pôs a mão sobre o peito — Você me conhece tão bem!
Um celular tocou. Sirena que já havia baixado o dela para dar mais atenção ao seu panini, olhou em volta tão confusa quanto eu. Chris arregalou os olhos por detrás dos óculos e se levantou apressado, pedindo licença. Isaac virou a cabeça em quase 360 graus apenas para ver o outro garoto saindo do bar e atendendo o telefone.
—Ele está estranho ultimamente. Vocês nãos acham?
Troquei um olhar rápido com Sirena; “Garotos”.
—Não — dissemos em uníssono.
Isaac estreitou os olhos, claramente percebendo, aos poucos, que estávamos escondendo algo. Sirena sabia sobre o namoro de Chris, mas será que ela sabia quem era seu parceiro? Eu teria que perguntar mais tarde.
—Não sei porque perguntei isso a vocês, também são estranhas — Isaac escolheu os ombros — Sirena, por exemplo, é a única pessoa que eu conheço que come pão com garfo e faca.
—E você é a única pessoa que eu conheço que nunca comeu peixe.
—Se tivesse sido criada como eu, saberia porque eu não coloco peixe na minha boca.
—E por qual motivo, senhor, eu sou estranha? — perguntei, rodando o garfo vazio em círculos lentos, pairando sobre o prato.
—Você é simplesmente você, Daya, pensei que já soubesse disso.
Tanto eu quanto Sirena demos um soco nele. Captei pelo canto do olho a porta do bar se abrindo e Chris entrou, seu rosto corado — não sei se pelo vento frio ou por outra coisa -, a boca tremendo ligeiramente nos cantos. Havia animação em seus olhos, então ele estava evitando um sorriso.
—Quem era? — Perguntou Isaac, as sobrancelhas louras franzidas.
—Ligaram para o número errado — Chris se sentou, logo botando toda sua concentração na salada à sua frente — Não foi nada.
Fiquei imaginando como seria para ele esconder seu namoro com Teo. Ainda mais na frente de Isaac, sua última paixão. Ele ainda gostava dele? Eu achava que não. Se sim, como poderia estar com outro? Mas, afinal, eu não tivera um namoro curto com meu melhor amigo, mesmo estando apaixonada por Isaac? Pensar em Callum também era angustiante. Eu nunca mais soube se ele ainda sentia o mesmo por mim ou se tudo foi apenas uma paixonite passageira. Não consegui evitar encarar Isaac, só por um segundo. Mesmo que ele estivesse sorrindo e discutindo com Sirena sobre alguma coisa boba, havia frieza em seus olhos muito azuis. Os lábios e um músculo da bochecha estavam retesados, e sua mente parecia estar em um lugar distante.
As tantas perguntas que eu precisava fazer a ele voavam em minha cabeça; como ele podia ser frio comigo em um momento e, em outro, ser tão carinhoso e gentil? Todos aqueles beijos ao longo das semanas, todas as carícias e palavras delicadas. As indiretas que, pelo visto, não significavam nada. Os momentos de confusão em que eu não sabia o que pensar. Será que se naquela noite no jardim, sob a chuva, Callum não tivesse nos visto, seria tudo diferente? Se sim, eu poderia saber o que ele realmente queria comigo, se eu era apenas mais um brinquedo que ele usava e depois jogava fora.
—Não vou deixar o Elias sozinho — completou Isaac — E vocês não vão me impedir de ir junto.
Pelo visto, eles não estava discutindo por uma coisa boba.
—O seu histórico já é bem ruim fora do Reformatório — exclamou Sirena, enérgica — Imagina como vai ficar se descobeirem que invadiu a missão! E se decidirem que você não tem recuperação? E se tirarem o seu tutorado da Sarah?
—Eles podem fazer isso? — indaguei espantada.
—Podem, se acharem que eu estou muito fora da linha e a melhora “não é possível” — resmungou Isaac, fazendo sinal de aspas com os dedos.
—Espera — franzi a testa — Quem é “eles”?
—Alguns semideuses mais velhos do acampamento — explicou Chris, empurrando os óculos para cima do nariz — Aqueles que não tem mais o que fazer e são elegidos para comandar o Reformatório em Washington D.C.. Só os melhores vão para lá, e eles formam tipo um pequeno governo que comanda toda a rede de Reformatórios no país. O de Washington é o maior.
—Eles é quem decidem se um semideus expulso já está recuperado ou não — continuou Sirena, passando os dedos pelo cabelo cor de piche — O cara em questão não volta pro acampamento, mas já está livre dos treinos e dos estudos — ela apertou os olhos para Isaac — E acho que alguém vai ter que ficar no Reformatório pra sempre.
—Não se me tirarem de lá, como você está supondo.
—Não quero que te tirem da gente! Só estou dizendo para tomar mais juízo! Eu vi seus registros quando fomos para Washington. Os diretores de lá não gostam muito de você.
—Na real, Ryna, ninguém gosta muito de mim.
—É por isso que você tem que ter mais cuidado — ela encerrou o assunto voltando a comer o panini.
—Ela tem razão — falei me virando para Isaac — Se podem fazer isso mesmo, seria melhor que você ficasse em casa.
—Não vão me ver. E além do mais, se alguma coisa acontecer, vão agradecer por me ter por perto. Vincent faz o recrutamento no cais do lago.
—Mesmo assim, se algo der errado...
—Então vocês podem me encontrar no zoológico — ele disse, como se dissesse para a alguém que estaria na sala de estar — Estarei com os leões marinhos.
—Como você consegue fazer piada com tudo? — Chris questionou, irritado, se afastando da mesa assim que uma ninfa veio buscar seu prato vazio.
—Não tenho culpa se a própria vida é uma piada.
—Isso não fez muito sentido — Sirena não olhava para ele.
—Não preciso fazer sentido para estar certo.
Não consegui evitar um sorriso. Por mais que Isaac fosse irritante, eu gostava de vê-lo entretido com alguma coisa, especialmente em.se provar; ele sempre tinha a resposta para tudo na ponta da língua.
Alguém esbarrou em meu ombro nu e me virei, pronta para lançar o meu melhor olhar de “olha por onde anda”. No entanto, senti-me congelar, a boca entreaberta. Ao meu lado estava um garoto com mais ou menos 20 anos, cabelos castanhos escuros presos em um rabo de cavalo e barba rala. Usava uma jaqueta vermelha surrada e jeans rasgados nos joelhos. As botas pretas eram arranhadas. Tudo nele me incomodava, inclusive os olhos; castanhos amarelados, penetrantes e perturbadores. Quase sem perceber, levantei o decote de minha regata preta para que cobrisse até o mínimo pedaço de peito e clavícula expostos.
—Quem são as belezas? — a voz do rapaz era rouca, grossa. Ele se apoiou na mesa entre mim e Sirena, espalhando um forte odor de colônia masculina.
—Isaac Belcourt — Isaac franziu a testa, um sorriso contido brincando no canto direito dos lábios — Disponível, mas não para você.
O rapaz sorriu, exibindo dentes muito brancos e pontiagudos.
—O famoso filho de Netuno — murmurou. Isaac não esboçou nem o menor sinal de surpresa ou constrangimento — É um prazer conhecer o pirralho que morreu e misteriosamente voltou à vida, mas prefiro... — ele lambeu os beiços, olhando fixamente para Sirena. A garota, que nunca parecia acanhada perto de um desconhecido, estremeceu — Personalidade.
Eu estava ficando assustada. Aquele cara sem dúvida não era semideus. E, pelo jeito como as coisas andavam, devia ser um lobisomem. Sempre era um lobisomem.
—O quê você quer? — Chris tinha a mão no bolso da blusa, o braço tenso.
—Uma das duas princesas.
Isaac esticou o braço, agarrando meu pulso e me puxando pelo banco almofadado até que eu estivesse colada à ele. Sirena se levantou rapidamente e sentou-se do lado de Chris.
—Ah, não creio — o rapaz abriu os braços — Não vão dividir?
—Malcoln, o que você achou aí? — perguntou uma voz feminina embriagada. Uma menina de minha idade se aproximou de nossa mesa, se apoiando no rapaz. Tinha os mesmos olhos que ele, mas o cabelo curto era acaju, as pontas tingidas de magenta. Usava roupas tão curtas e berrantes e um decote tão fundo que chegava a ser ofensivo — Ah, olhe só — ela soluçou, sorrindo encantadora — Que interessante. Oi, Isaac!
—Lana — Isaac enclinou a cabeça, o maxilar teso.
—Ah, Deuses, não me diga...
—Nunca namoramos — Isaac me garantiu — Só nos conhecemos em uma festa.
—A gente seria um casal tão lindo — sussurrou Lana fazendo biquinho.
—Eu fiquei sabendo — interrompeu Malcoln, erguendo a mão — que uma dessas aí é especial. A pequena, talvez...
—O quê quer que seja que Elijah tenha mandado você fazer — disse Isaac puxando o revólver do cós da calça. As pessoas ali perto gritaram e soltaram exclamações de surpresa, levantando de suas respectivas mesas. Darius, que estava no balcão servindo whisky à um fauno, ergueu os olhos brancos para nós. Isaac apertava meu pulso com a mão livre -, não vou deixar.
—Não trabalhamos para Elijah — Lana estalou os dedos. Um grupo de rapazes numa mesa se levantou lentamente — Nossa alcatéia se vira sozinha.
—Já ouvimos isso antes — Chris puxou a mão do bolso; ele atirou algo no chão, que no último momento, antes de estourar, percebi que era uma espera plástica. Assim que a esfera se abriu, liberou um pó prateado que se ergueu como uma nuvem, no meio do pequeno bando de lobisomens, que imediatamente começaram a agonizar, suas peles ficando vermelhas e cheias de bolhas.
Um estrondo ecoou em meu ouvido quando Isaac atirou, atingindo a testa de um dos garotos; este caiu imóvel, se desfazendo muito lentamente. Malcoln e Lana rosnaram, nos atacando. Isaac pôs-se de pé, me empurrando para baixo da mesa.
Foi o caos. As pessoas gritavam e corriam para fora do bar, enquanto algumas puxavam armas e ajudavam na luta contra os nove lobisomens restantes. Por baixo da mesa pude ver Isaac atirando e Chris e Sirena lutando sem armas. Darius tinha uma espada de ouro imperial na mão, ajudando o quanto podia. Senti um apertão em volta de meu tornozelo e fui arrastada para o meio do bar. Malcoln estava em cima de mim, me prendendo no chão, os dentes afiados mirando em meu ombro. Desferi uma joelhada, acertando-o no estômago. O rapaz grunhiu e se afastou, agarrando o abdômen.
Me ergui, sentindo completa raiva. Raiva por tentarem me proteger, raiva por Isaac ter me escondido como se eu não pudesse fazer nada. Raiva por nunca me deixarem em paz.
Um rosnado soou em meu ouvido e me virei, tentando acertar o cotovelo em quem quer que estivesse atrás de mim. Um garoto alto e musculoso segurou meu braço, virando-o de modo que um puxão poderia quebrá-lo. Com a mão livre dei-lhe um tapa no pescoço, empurrando-o por cima de uma mesa. Quando ele caiu, quebrando vários copos, meu pulso torceu. A sensação, o som dos ossos se deslocando, foi terrível. A dor percorreu meus nervos, fazendo os pelos da minha nuca se arrepiaram. Mordi a língua, as lágrimas queimando em meus olhos. Tirei adaga do cós da calça e finquei-a no peito do lobisomem.
—Dayannya! — gritou Isaac do outro lado do bar. Ele não usava mais o revólver, e sim a face de caça dentada, cortando qualquer um que se aproximasse.
Corri para lá, a adaga apertada em minha mão. Agachei-me, dando uma rasteira em uma mulher licantrope. Ela caiu, a expressão de choque quando minha lâmina cortou sua garganta. Minhas costas bateram no peito de Isaac.
—Você está bem?
—Minha mão — falei entredentes — Está quebrada.
—Já damos um jeito nisso.
—O quê é isso, Belcourt? — gritou Lana, mancando até nós, os dentes expostos e o cabelo vermelho desgrenhado — Se escondendo? Sabe, você luta igual uma menininha!
Meu rosto esquentou. Todo o treinamento de combate corpo a corpo que tive no acampamento passou como um relâmpago pela minha cabeça quando ataquei Lana; soquei seu queixo com a mão quebrada mesmo, sem ligar para a dor. Ela cambaleou, segurando o maxilar. Aproveitei a distância para usar um chute giratório em seu pescoço, que fez com que els caísse de costas no chão, arquejando. Atirei a faca, atingindo-a na clavícula. A licantrope se desfez instantaneamente.
—Ah, obrigado então — disse Isaac, impressionado. Agora meu rosto ardia de vergonha.
Malcoln e os dois lobisomens restantes uivaram, espantados. Os três abriram caminho por entre os combatentes e saíram do White Rabbit, se transformando em lobos no meio da rua, sem que nenhum mortal notasse. Os semideuses foram atrás deles, as armas em punho. Era quase engraçado ver cinco adolescentes com armas correndo pela rua atrás de lobos, mas agora eu sentia a real dor dos meus ossos quebrados. A agonia parecia percorrer todo meu corpo enquanto eu escorregava pela parede até estar sentada no chão, mordendo a língua com tanta força que o sangue se espalhava pela minha boca.
—Isaac! — chamou Chris parado à porta do bar. Isaac se apressou, mas olhou para mim no último momento, a preocupação estampada em seu rosto.
—Vai indo — ele disse se voltando para mim. Chris mordeu o lábio, me observando com pena, e foi atrás dos outros. Isaac se ajoelhou à minha frente, levantando meu pulso.
—Eu estou bem...
—Sirena, vai buscar alguma coisa — ele pediu, me ignorando. Sirena assentiu e foi para o corredor atrás do balcão, entrando no quarto de Darius — Respira fundo — Isaac murmurou, segurando a área quebrada com as duas mãos. Meu corpo retesou como a corda de um violão quando ele colocou os ossos no lugar.
—Isso dói!
—Eu sei, já me quebrei um monte de vezes.
Lágrimas de dor mancharam minha visão. Sirena voltou, dois frascos de néctar na mão. Entornei um deles assim que ela me entregou. A dor passou quase instantaneamente, sendo substituída pels sensação de calor e prazer, o gosto de chocolate em minha boca.
—Melhor?
Assenti, limpando a garganta.
—Preciso te pedir uma coisa.
—Claro, sem problema — Isaac ergueu a mão para o meu queixo. Quando a puxou de volta, os dedos estavam sujos de sangue.
—Meu padrasto... — engoli em seco, a garganta áspera — Vai pedir minha mãe em casamento. Eu preciso estar junto, já combinamos isso faz tempo e...
Isaac sorriu, me surpreendendo.
—Isso é importante para você, né?
Fiz que sim com a cabeça.
—Você pode ir. Desde que alguém vá junto.
Exalei o ar, aliviada.
—Tudo bem, vou dar um jeito — sorri — Obrigada.
Ele assentiu, se levantando e pedindo a Sirena que me levasse para o Reformatório. Depois ele se virou e saiu do bar, sumindo entre a multidão que passeava pelas ruas.
Minha mão não doía mais, porém precisaria de uma tala; o néctar demorava para curar ossos partidos. Com a ajuda de Sirena, coloquei-me de pé. Aliviada, e quase que instintivamente, coloquei a mão no pescoço. Meu coração saltou no peito.
Apenas o colar de contas estava ali.
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